domingo, 28 de março de 2010

* foule sentimentale *

Louca sentimental
Meticulosamente fenomenal
Perdida
Jogada
Entupida nessa grande maluquice de amar total
Sem qualquer mesura
Pura, depurada
Desesperadamente
Encantada
– esgotada e suja de pudor
Pede-me, a mim, não me impede
De apaixonar-me apaixonar-te
Fazer nossa essa tal arte
De tear
Ter ar, ter mar, ter nós, ter-nos a nós
Endoida-te de cansaço meu
De meu vício de Senhorita Prometeu

Fogo, fogo, fígado, fisgada
Não, não fujas, não sumas, não
Não me digas não

Eternamente presa, acorrentada
A esse humano e feminino desejar
– desejo-te, desejo-lhe, desejo-me –
(Uma mulher que preenche um homem)


À espera de Hércules
De uma águia
Ou de ti.

#Florescência 2

Vem me dar um cheiro, vem, minha pequena – ele, o pernambucano, recém-acordado e já totalmente atiçado, suspirou no ouvido dela, apertando sua coxa com uma delicadeza matadora. Hmmm, hmmm, hmmm. Sua nudez obscena e tão atrativa a deixou quase desmaiada. Eram raios tímidos de sol ou estrelas no teto alto, alto, tão alto... daquela casa baiana... naqueles lençóis de antigamente... sei lá, de linho ou de percal?... Estrelas, ora direis? Hmmm, hmmm... O corpo se desfazia na mesma proporção em que se aquecia: havia se transformado em água em ebulição evaporando-se? I-s-s-o-s-ó-p-o-d-e-s-e-r-u-m-s-o-n-h-o-b-o-m. Abriu os olhos abruptamente, pensou inutilmente: cadê minha camisola surrada, e se lembrou do mineiro, ali do ladinho, em seu pijama de listras grossas, roncando em dó maior, com a calcinha dela no pescoço. Oh, hmmm, oh. Aquela aliança no dedo, as galinhas no quintal, cocorococó, quáquáquá, ela nua naquele casarão, aquele pernambucano maravilhoso nela, as estrelas no teto, os lírios de plástico (da cozinha) voando docemente pelo amplo quarto... ela... ah?... eu... ai... uuuuhhh...

!!!

Condensou-se, virou chuva e desabou corpo suado, boca aberta, olho estatelado, na cama. Meu Deus. O pernambucano, aquele homenzarrão de cachinhos no cabelo, levantou-se, sempre agressivo em sua nudez asfixiante, espreguiçou-se gostosamente, recolheu umas roupas no chão e disse, com um sorrisinho maroto: Eu volto à noite, pequena.
Ela nem conseguia organizar as ideias. O que significava tudo aquilo, quem era ela, quem era ele, o que faziam naquela cama. Suspiros, longos suspiros. As estrelas, aos poucos, voltavam a ser raios de sol no teto. Não existem lírios voadores. A respiração encontrara o ritmo normal. Mas ela ainda estava atordoada. Ops. Sentiu um toque em seu seio esquerdo. Era o mineiro, acordando...


(continua em algum momento)

sábado, 27 de março de 2010

Dos trópicos e do amor


(ao som de ‘Amor de Índio’, de Milton Nascimento)
Ao C., sempre querido


Ele era um índio.
Ela era uma branca.
Mas, ao contrário dos anais da história da América Latina ou dos fundos de armário de Hollywood, ela não era européia importada. E nem ele era índio incivilizado.
Ambos eram filhos do mesmo continente, do mesmo hemisfério, mas não das mesmas fronteiras ou do mesmo mar.
Ele era pacífico.
Ela era atlântica.
Falava-se espanhol dali, português daqui. Sorrisos, mãos, humor.


Foi ele, o índio, quem pediu um filho a ela, a branca. Ela apenas riu.
Os dois reconheciam o sagrado que exala da concepção – e não tinham pressa.
O tempo das coisas, as estações, as monções, o dia e a noite.
Foi ela, a branca, quem disse sim a ele, o índio, pelo filho que ele lhe queria dar. Ele apenas olhou com candura.


As mãos tostadas agarraram-se às brancas.
As bochechas rosadas engordaram-se em mais um sorriso junto à tez morena.
Houve um beijo, houve chuva, houve caravelas, velas, arco-íris e vulcões. Um fluxo de cores, de etnias, de relatos humanos entrelaçados naquele ato.
Houve toda uma história continental, a história de conquistas, conquistados e conquistadores, reescrita e recontada, de outro jeito, sem sangue ou espadas, sem navios abarrotados de esperança e pobreza, apenas repleta de amor e de curiosidade.


Com a bênção dos trópicos, com a bênção.
Um índio.
Uma branca.
E um mestiço, filho legítimo da porção sul continental do lado ocidental do planeta, filho da terra, artista da Amazônia e da Patagônia, com mãe e pai e os genes todos do mundo: um latino-americano.

terça-feira, 2 de março de 2010

encontro, despedida

Capiberibe
-- Capibaribe


Hoje deixei ele e a cidade dele, com seus mangues e arrecifes, com seus cachos e doidices. Acho que ele não sabe de nada e nada naquilo que eu não acho – mas isso soa muito bom. Assim, não me preocupo, não me culpo nem esculpo expectativas e narrativas que não rodam mais de uma volta no chão.

Hoje deixei ele e a cidade dele, deixei a mim e um pedaço de mim, minha nova cidade e meu fragmento de universalidade, com rotas recém-descobertas e minha coradice de ouvinte esperta. Voltarei num dia de segunda, de chinelos e mamulengos, para retomar conversa fecunda (assim espero) numa vontade de me enrolar em todos os bolos de rolos, de miolos engoiabados de seu, dele, meu bem-querer.


Ao I.,
desculpe-me por ter fugido mais cedo de seu abraço
(mas acho que você nem percebeu)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

fitinhas

Tinha um restinho de paixão entre os dentes
O corpo, o cotovelo, o calcanhar ainda indolentes

Tinha um pouco de chita ainda na saia de seda
Um pouco de sede, de medo, o escuro da queda

Tinha esse jeito solar tão lunar tão cheio de intensos
Viciada em suores, em toques, em cheiros de incensos

Amava sotaques, sonhadores, sem disfarces
Esparramava-se marota entre os Zeus e os Martes

Tinha, tinha, tinha um desejo grande de enrolar-se
Enrolar-se na rede, nos braços, nos amassos, nos cachos

-- regozijar-se

Havia um tanto de felicidade no canto dos olhos
Um encanto no encontro, um espiar entre os ferrolhos

Havia um mar, um mapa, um céu e uma descoberta.
Entre ela, ele, o coração e aquilo tudo: pré-amor, na certa.

Tinha, tato, fitinha, fato: olha, olha, aqui, vem,
tem, sente, sabe, achado, achegue-se. Laço, gata, gato.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

#Florescência

Acordou um dia e levou um susto. Estava num desses casarões antigos, de janelas imensas e assoalho de madeira, teto descascado, armários imponentes e penteadeiras de espelhos avultados. Havia até banheira, daquelas quase-piscinas, no banheiro comprido, de azulejos brancos e piso de lajotinhas vermelhas. Mas o verdadeiro susto veio antes do reconhecimento da casa: acordou e se viu numa cama de casal. E com dois homens. Dois! Ela continuava ela mesma – a camisolinha surrada, o cabelo fino arrepiado, as pintas na face corada, o calinho no quarto dedo do pé esquerdo. Mas havia dois homens na cama, um de cada lado. Dois roncos diferentes. Um de pijama e um nu. Um de cachinhos e outro de cavanhaque. Um pernambucano e outro mineiro. Estava estupefata. Não era o som das buzinas e das construções paulistanas que ecoava lá fora. O canto da Bahia entrava pelas frestas das portas coloridas e altas, pelo quintal com as galinhas, pela cozinha onde o cheiro de café perfumava a mesa azul, coberta pela toalha de renda e um vaso de lírios de plástico. Dois homens! Tinha perfume de loção pós-barba no travesseiro. Sondou o próprio corpo e encontrou os ares típicos de uma noite de sexo. Com quem?, agoniou-se na sensualidade típica de mulher satisfeita, ai. Viu na mão esquerda uma aliança. Oh, meu Deus! Virei dona Flor!, gritou para si mesma, em silêncio. E logo sentiu um calafrio daqueles dos bons, que atiçam o corpo e endoidam a cabeça. Eram os dedos marotos do pernambucano deslizando por sua coxa. Ui!


(continua)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

#imperfeições


e quanto mais fundo vai o mergulho, mais imperfeita me apareço. me apeteço, mas me assusto, não me reconheço atrás do verniz antigo, me assusto, me espanto, me encanto, são bonitas essas minhas qualidades, e me desencanto, são tantos esses meus defeitos, deserdo-me, recompenso-me, e sempre mais imperfeita, por que tantas manchas, por que tantos pontos obscuros, quase perco a respiração mais fundo mais fundo mais fundo uma quase embolia, agonia, quero subir, tão imperfeita eu, mais que imperfeita, suspeita de mim mesma, estremeço, oh, de fato não me reconheço, suspiro, piro, não tem tinta mais nem verniz, só eu eu eu


tosh tosh tosh
o barulho dos anjos fazendo amor nas nuvens


tosh tosh tosh
eu digo a ele: carregue esse beijo que não dei em tantos, beijo-o em você


tosh tosh tosh
uma mulher bonita me olha atônita no reflexo! desvaneço, recomeço


tosh tosh tosh
tóxica imperfeitamente tóxica e bela muito bela


tosh tosh tosh
eu eu eu subo dos profundos rincões de mim mesma tão suja e escrota quanto ele sujo e escroto escatológico mas somos ambos seres humanos confusos de tanta dor de sermos humanos seres confusos


quanto mais me limpo me sujo, quanto mais me aperfeiçoo me atormento de imperfeições. nua, totalmente nua, e cheia de pintas, e estrias, e vincos, e poros, e pelos, e pontos de interrogação. belamente nua, e cheia de pintas, e estrias, e vincos, e poros, e pelos, e pontos de exclamação na alma.

viver é perigoso porque dói! dói! e nos extasia loucamente de sabedorias.

quero mergulhar de novo. sempre.
nem que isso signifique nova queda de meu próprio céu.

a mim e ao V.,
duas faces diversas da mesma dor de ser gente

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

desertora

Meu carnaval não teve tantas serpentinas, embora algumas frágeis cordas de papel tivessem roçado meu braço, meu rosto, minha cintura enquanto maracatus e batucadas ecoavam esquinas abaixo, ladeiras acima. Confetes sim, aos montes, nos chãos, nos sorrisos, nas vontades e nos olhares plenos de pura picardia. Meu carnaval não foi sóbrio nem bêbado. Não saiu da linha, embora eu dançasse, dançasse muito, eu pulasse, pulasse muito. Tinha um não-sei-quê que me tirava de lá, ainda que lá eu sempre estivesse, ouvindo Zé Ramalho, rindo da baderna alheia, suando meu vestido de chita, abrindo os braços de felicidade de tamanha liberdade. Mas algo me tirava dali, das serpentinas, das buzinas estridentes daquela displicência comportamental típica do carnaval, em que todos são de todos e tudo é mais que tudo. Na minha habitual solidão de indivíduo, fui tirada da arruaça e fiquei no balanço do jardinzinho de meu coração, tuc-tuc, toc-tão, cansado dos truques carnavalescos do bem-viver, do bem-querer. Não me movi de mim – estive onde sempre estou – e foi isso que me levou embora de lá, ainda que meu riso fosse bem ouvido e meus passos marcassem o asfalto de todas as gentes. Sem serpentinas, sem cordões, sem cordas, sem grilhões e sem querer ser apenas um ser entre tantos, tantos, tantos outros com lábios e corpos, sem pudores ou humores. Sem querer, então, laialaiá, fiquei no bloco dos desertores.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Dia de clown



Tudo parecia uma brincadeira,
Ou, talvez, um exercício sem maiores conseqüências.
Liberdade demais, disponibilidade demais.
Corpo vivo, braços vivos, alma viva,
Mas pés plantados no chão.
Andando pelo espaço!
Agora você tem uma cor, uma forma,
Um preenchimento – vapor, água gelada,
Vento, fogo, areia, pedra, barro.
Sonho, muito sonho.
Desejo? Dúvida? Dádiva?
Sentia lagarta virando borboleta
Dentro de um casulo que não era meu,
Que não era eu.
Era ele? Quem era ele?
Olho-azul-cabelinhos-de-anjo-negros.
Ponha o nariz e sinta o cheiro do mundo
O cheiro da vida
Deixe vir à tona sua sombra e sua luz
E vire do avesso diante da plateia.
A plateia...
A plateia éramos nós
–E eu, sem saber, estava do avesso,
Já completamente entregue.
Ele ainda anjinho de cabelos negros:
Vou até o paraíso,
Aqui eu desço, vinho, você.
Não importava nem a forma nem a cor,
Só o preenchimento:
Tudo, tudo o que estava dentro.
Medo a princípio:
Quem era ele? Quem seria eu?
E na sobriedade daquela madrugada,
Quando o táxi chegou,
Nada tinha sido exatamente consumado,
Mas tudo havia se apresentado.


E eu já voava pelo espaço
Sem que ele me pedisse nada.

(2006)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Era uma vez

ao Bico


Criancei-me novamente antes de me jogar no Bocó. As águas esverdeadas não se embarreavam nem com a chuvarada que caía sem parar – porque os rios da infância nunca mudam de cor. Via jacaré no tronco lascado, via cobra na folha enrolada, via eu mesmo de sorriso no rosto, marca de pernilongo na perna e muco no nariz que bem sabia respirar. Cada salto era uma grande novidade, a aventura de abraçar as águas que queriam me ninar. Tinha perigo de sanguessuga, a garotada falava em cobra, tia Senhorinha dizia: menino, acabou de comer mingau de banana com farinha... Mas eu estava lá, bocoiando no Bocó, bocoiando-me eu também, pois na aparente bobagem de criança a gente sempre é mais que sábio. Daí todo mundo ia se secar lá na praça, o pé grosso de barro, a camisa pingando de alegria, vontade de comer jaca e jogar futebol no time do Paulão. Sabia que no outro dia de sol o ribeirão estaria lá.

Mas podia ser que não.
Porque era uma vez um projeto de barragem, dessas de gerar energia para os monstros-indústrias, que queria inundar tudo, mandar a gente embora e acabar com o Bocó. Pra sempre.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ORGIA

Sensação de crepúsculo quando ainda é dia mas a madrugada vem velozmente despertar-me do torpor que a solidão me provoca especialmente quando sorvo a mistura de expectativas com limão e não me detenho ao espaço entre um soluço e outro Às vezes não sei se confundo propício com indício tempo com vento ou se acerto na combinação entre disponibilidade e encontro Tenho medo de haver criado a narrativa em que me encontro truque divagação ou ilusão premeditada Não sei quem saberá A janela me revela nublados que não consigo compreender ainda e deixo escapar átimos de senões ou entões Porque quando ele se faz presente tudo se torna diferente e tão mais gentil O universo se transforma numa eternidade pequenina feita sob medida e a alma geme dentro de mim a alma geme quando o escuto Naquele fragmento de encontro naquele desmomento cheio de instantes novos e virgens Na pequena fagulha na minúscula partilha No entrecruzar de pernas de vozes de sorridências Na minha entrega mais virulenta Como desdizer ao mundo que o cadeado impede a entrada Como enfurecer o mundo com meu grito doido de mulher doída pela saudade futura de um acontecimento ainda em gestação Como me explicar se perco de propósito a razão e me refaço como duna hoje aqui amanhã acolá Ah Suspirações Metamorfoses Loucuras E estrelas amalucadas a rebrilhar sobre meus ares tão indolentes Uma autopaixão um enamoramento provocado por mim mesma a mim mesma Um pacote que entrego a ele em mãos sem selos sem laços de fita sem cadeados Abre-te porta abre-te coração abre-te mulher Ame-me homem vibra-me homem expedicione-me homem

Entreguem-se os dois!!!





The audience was quiet and attentive. It was extremely hard for them to understand the whole thing. They have got pieces of meanings from here and there, but this was not a big deal. Actually all of them became quite surprised about her performance and overall about the melody from her words. In fact she has been totally impressive, even not being aware of that (or perhaps just because she was not aware of that). Love was in the air, they were almost able to prove that, since they have already tasted it through her.


"Talvez"

(céu do ser-tão, 2009)


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

E ele tem olhos para que, para quem?

Eu me encontrava no nono andar de um bairro sem grandes encantos na megalópole chuvosa, febril, agitada, estressada. Reverberante, regurgitante. Cercada de luzes escuras. Eu sentia um pouco de azia, eu sentia muita solidão.

Atividades mil, o país daqui, o país de lá, são décadas de tantas vivências. Nele, cabem vida e meia minhas.

Nas minhas ingênuas fantasias, era eu a única indisponível. E, quando finalmente corrigisse essa trava gigante em minha entrega, viveria a mais verdadeira das experiências amorosas – sem romantismo, sem inocência. A narrativa mais honesta.

Porque assim eu não só seria achável como possível.
Porque, por fim, atracaria minha caravela.

Mas, subitamente, ao me ver disponível e – por isso – vulnerável, encontrei um mundo ainda mais complexo e difícil: eles eram também todos indisponíveis e quase improváveis.

Mas ele? E ele?
Ele me vê?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Eu, mulher


((nesse blog, eu não sou nada fiel.))

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

~ metonímia ~

(a foto é de Montevidéu em 2002, mas a lembrança...)

Então, ele segurou minha mão como se. Não sei mais de nada. Os sinais apagaram, só piscava amarelo de atenção, atenção, atenção. Os cruzamentos estavam cheios, entupidos, engarrafados: vou, não vou, saio, não saio, olho, não olho, enrubesço. Enrubesci. E a mão lá, em segundos eternos, sentindo o calor daquela outra mão que a tirou do limbo e a fez sentir-se... mão. Porque fazia tempo que ninguém segurava minha mão. Assim. Ou de outro jeito. Que nenhum homem segurava minha mão assim. Ou de qualquer outro jeito. Naquele momento, éramos apenas eu, meu coração palpitante, minhas bochechas enrubescidas e minha mão. Não sentia minhas pernas, nem meus ouvidos, nem minha razão. Algo havia acontecido ali, naquele momento: eu só tinha olhos para ele. Ele, que antes era um alguém opaco, alguém de alguns ois, alguns tchaus e outros talvez. E subitamente... Uma imensidão densa, como o Mar Morto, mas viva, esgarçadamente viva, como um tremor de terra devastante, naquele instante captado por duas mãos que se encontravam, surpresas e acanhadas, num mar de peles, corpos, pelos, cabelos, pessoas, sons, cadeiras, garçons, pratos e luzes. Meu Deus! Duas mãos. A dele e a minha. Metonímias, particularidades. Suaves, quentes, gentis – um encontro! Oh! Velozmente, vorazmente, agudamente, mais e mais, de um jeito estúpido porém cálido, eu me transformava numa imensa e esbelta mão direita abraçada com tanta ternura por outra mão direita, maior que eu, mais grisalha que eu, volúvel e dissoluta, infinitamente mais tímida que eu. E eu...


Quando me dei conta, já estava na porta do restaurante e meu amigo me olhava com marotice:
“Não foi nada.”
“Foi o quê?” – desfaleci.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Banco de praça


Ele veio passear em meus pensamentos de novo, enquanto eu comia um purê cremoso-grudento de mandioquinha e abobrinhas cozidas à moda crocante. Nada de mais a comida, mas ele estava lindo e bem-humorado e atiçava meu paladar com um despudor travesso. Vestia camisa branca e jeans, seus óculos de aros escuros, mas se eu quisesse logo apareceria mais esportivo, com camiseta de cor pouco importante e calça preta impermeável como na última vez que nos vimos.

Ele permaneceu em minhas recordações por longos meses, sentado num banco de praça batendo papo com os transeuntes, falando ao celular ou rabiscando ideias fugidias e deliciosamente marotas. Às vezes, eu ria sem saber – e ria dessas invencionices dele, escondidas entre neurônios e células sanguíneas. Eu quase nem sabia que ele estava lá, entre uma fantasia e outra, a não ser quando na vida cotidiana chegava alguma mensagem sua que logo o trazia para a borda dos meus pensamentos. Audacioso, ele não se contentava com a praça, lançava-se logo ao mar de meus desejos, abrindo ondas e descobrindo rios navegáveis onde eu já não mais me lembrava. Era um malabarista, um blasfemador. De um instante para outro, já estava na minha pele, nos meus lábios, nos meus ouvidos, no meu suor.

Na última vez que nos vimos, ele baixou a guarda, assumiu-se frágil e curioso diante de mim, a mulher. Escancarou as portas. Convidou-me para um último encontro, que tal beber alguma coisa, conversar, nos conhecermos melhor. E usou aquele “vai” de fim de frase, clemente, pedinte, quase se arrastando discursivamente aos pés de meu veredicto. “Me liga, vai.” Ele lá, exposto, doce, inteiramente revelado. Um sorriso, o olhar provocador, a cabeça inclinada. Recuei, aflita. Um homem, afinal. E me recolhi à preguiça da não-descoberta.

Acho que ele me perdoou e logo veio se instalar no bendito banco de praça das minhas recordações. Mesmo quando eu o esqueço, aturdida com alguma outra aparição masculina no cotidiano de fato, ou quando ele desaparece, quem sabe imerso em suas inúmeras atividades de pai-secretário executivo de instituto-filho-meio estrangeiro-meio brasileiro, quem sabe passeando de mãos dadas com alguma outra garota ou levando uma mulher desejada para ver um por-do-sol, ainda assim, nos encontramos sorrateiramente na tal praça, eu com nariz de palhaço, sem disfarçar o meu ridículo, ele com o sotaque ainda mais afetado que é para ficar sem graça de imediato. Comemos tapioca, rindo, e nos lambuzamos com um maltado. E assim nos entendemos, rolamos em purês de mandioquinha e de pequenos riscos, falamos abobrinhas, recolhemos nossas sabedorias e nossas ingenuidades um no outro.

É bonito estarmos juntos sem que estejamos necessariamente – é bonito sabê-lo. Partilhamos poesias espontâneas porque viramos trovadores um diante do outro. E cacheados, os dois. Distraída com a quase-possibilidade de revê-lo, às vezes me perco no encanto que sinto. E rapidamente me desfaço de expectativas ou planos, obstruo as rotas de fuga, apago os sinais de saída. Quero a descoberta. Porque sempre haverá aquele banco de praça, porque sei que ele existe e sua existência já me deixa mais feliz. Ele, o homem.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

DESMEDIDA


A água morna caía delicada e deliciosamente sobre suas costas, e ela tinha, naquele momento, qualquer homem que quisesse. Tinha todos os homens – todos aqueles que passavam por seus sonhos ou por seus poros, por suas lembranças ou por suas fantasias, por seus caprichos ou por suas terminações nervosas. Inventados ou reais. Distantes ou vizinhos. Possíveis e impossíveis. Delírio, puro delírio, mulher em estado bruto, sem medidas, sem mesuras, desmontada, desvairada, despudorada – ela e seus homens inúmeros, úmidos todos, mulher de timidez tremenda em seus afetos mais profundos. Mulher de meia-entrega que queria dar-se inteira, mas cuja hora ainda não chegava. Não enxergava? Enquanto isso, a água. Deslizando sobre as costas. Desenhando desejos.

Toque, tocada, tomada.
Desenhando desejos.

E eles todos vinham. Dia após dia, eram muitos. Mulher grande, mulher inúmera, mulher sem-fronteira, veemente, vigorosa, carne-de-sol, carne-ensopada, maravilhosamente ensopada, desmesurada sempre. Porque hoje era aquele e amanhã este, o rapaz do ônibus, o rapaz da praia, o amigo distante, o moço dali, o homem grisalho, o de óculos, o de sotaque sexy, o inventado de misturas essas, o fantasiado com misturas aquelas, e, e, e, e. Mas, todos os dias, o café da manhã era solitário e as noites quentes de verão chegavam sem vento e sem companhia. Seu abraço era grande, o chuveiro era generoso, seus pensamentos infinitos e acolhedores, confortáveis e espaçosos, mas não havia alguém a ocupá-los verdadeiramente carne-e-osso, coração-e-coração, olhos nos olhos, boca na boca. Suas costas continuavam indóceis ao toque de fato e ela se tornava cada vez mais selvagem. Selvagem, ferina. Os lábios nem sabiam mais o gosto de outros lábios – só imaginavam. Desacostumava-se do mundo das intensidades afinadas antes da festa e dos tons nem muito baixos nem muito altos. Formava um mundo muito próprio e peculiar, de suor e sabor, descolado completamente das disponibilidades da vida cotidiana.

Cotidiana,
Diana caçadora, Afrodite sonhadora, Minerva sábia,
Gregos, troianos e latinos,
Mas era só em fantasia, a cama seguia vazia. E ela com todos os homens inimagináveis sendo-se sofregamente em todas as sensações que conhecia.

Divinamente sôfrega – sem lençóis, sem documentos.

Enquanto isso, um trabalhava, outro viajava, outro ainda estudava e aquele que apareceu de madrugada – ela não sabia – estava amando outra mulher em algum ponto verdadeiro do mundo que existe.

Ela sabia, sim.
Ela também existia, mas talvez eles não soubessem.

Sem noção.
Sem mesuras.
Desmedida.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Comecim

(iniciozim de 2010)


Sabor mineiro, sabor inteiro, sabor da infância, sabor de muitos-quandos:
Sempre, antes, hoje, mulher-menina dos tempos mais malandros,
Sou quem, quem sou, como quem, como o que sou o que como
Sem-cerimônias (peito de pé sujinho de barro da chuvinha de ontem)
Tem pamonha? Tem sim, senhor!
Tem cafezim? Mas que pergunta, seu moço!
Ué, e tem queijim também, oiaí sô!

E nessas veiazinhas verdadeiras, hereditárias e inteiras, que me fazem ainda mais pessoa-posseira-de-mim vou navegando distraidamente.
Com delícias.

( )



Eis que abri a porta
Daquele quartinho escuro
E, no meio da bagunça,
– quanta bagunça um ser humano pode juntar! –
Encontrei um pacote de cartas,
De cartas que não mandei.

Hoje em dia alguém manda cartas?
Não sei.
E olha que não sou tão velha assim. Estou
Naquele momento da vida
Que nos deixa com um pé lá e outro cá,
Ainda tão jovem mas já tão adulta
Curvada de responsabilidades
Ainda tão cheia de suor e desejos (quantos desejos).

As cartas me olharam desconfiadas,
Matutas de tudo, experientes,
Acostumadas:
Se é para nos abandonar mais uma vez
Que vá embora e nos deixe em paz.

Em paz?
Quem ficaria em paz?
Não tive coragem a princípio
De redescobri-las
Todo início
É difícil e o quarto estava escuro
Não achei as luzes, sempre entro lá e não
Encontro o interruptor
E eu estava apressada, mas curiosa e
Agitada
Medrosa –
É, eu tinha medo

Uma por uma eu li
As cartas que não mandei
Reconheci velhos sentimentos
Duvidei de certas afirmações
Transformei interrogações em vírgulas
E duvidei que eu seria o resultado
De todas aquelas cartas não-enviadas

Não poderia ser,
Mas era.
Pensava que era outra, como se
Tivesse mandado as cartas todas
Sim, vivi tanto tempo achando que eu era
Aquela que tinha mandado todas as cartas
As cartas todas, toscas ou não,
E não era.

Tinha abandonado as cartas
Um monte de certezas, um monte de dúvidas
Muita coisa a ser dita do fundo do coração
E também cobranças vazias, acusações hoje sem nexo
Tudo era tão eu
Me reconhecia tão inteiramente e
Por que fiquei tanto tempo longe
Das cartas que não mandei,
Ou por que elas não ficaram de uma vez por
todas longe de mim?

Quanto tempo
Não sei, mas
Eis que fechei a porta de um quarto
Pouco escuro,
Do mais iluminado de todos os cômodos
Naquele momento.