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quinta-feira, 24 de março de 2011

un cuadro

A la querida amiga Claudia Pimienta,
cuya muerte prematura me rellenó de tristeza y saudade









Y un día estás ahí, terminando de pintar un cuadro, en duda si eliges el lila o el morado – que la gente apresurada siempre dice que da igual, que es como usar sinónimos en poesía, que uno no si da cuenta, que es un preciosismo de artista, que a la vida real poco le importa eso de diferencias sutiles o tonos hermanos –, y entonces estás ahí, terminando de pintar un cuadro, un cuadro que fue costoso de empezar, todas esas mezclas de tintas que olían a recuerdos ni siempre amables, los pinceles novedosos y por veces rebeldes, estás ahí intentando avanzar en las texturas y el lienzo que te pide más y más entrega, y consume más y más tinta, no sabes si te metes entera, si usas acrílico o óleo o pasteles, si todo, si nada, estás ahí delante de esa pintura tan densa y no avanzas, lloras, tienes hambre, quieres dejar todo y salir volando del balcón, te olvidas de las horas, ensucias los dedos de tinta amarilla cuando tu tono interno es azul, ya pareces crear algo nuevo cuando quieres simplemente borrar equívocos, pides perdón al sol por te estar donando tanto a las estrellas en los últimos días, te entregas al mar cuando la temperatura se vuelve más calida, y sigues con los no-dibujos, te sientes compartiendo puros sueños con el lienzo, te deshaces de las medias cuando te pones de rodillas para regalarle a la pintura un efecto de luz, tu propio efecto te afecta, necesitas de música y silencio alternándose vorazmente, ahí estás con tu cuadro, es tuyo y no es, te ves desnuda en él, completamente, totalmente, te ves en los ojos de él, buscas aquel azul que es suyo, sientes el olor de hombre que sales del cuadro, paras la pintura para estar con él durante un rato, mirándole, mirándole, indagándole en silencio por que se va, por que se va justamente cuando, el cuadro también te pregunta: por que te vas si no me has terminado, tu vuelves y lo terminas, terminas una botella de vino, terminas la sed antigua porque ya has encontrado una fuente nueva, y mientras estás ahí, terminando de pintar aquel bendito cuadro, en la duda a veces banal entre el lila y el morado, en la duda a veces crucial entre el dulce o el amargo, estás ahí con las rodillas jodidas, las medias rotas, el cuerpo ardiente del amor hecho recientemente, los dedos sensibles de tanto color, de tanto ardor, los labios llenos de ternuras, oídos en franco aprendizaje de las sonoridades embarazadas y también de las brumosas, entonces estás ahí, terminando el cuadro, es día, hace calor, tienes un poco de frío y no sabes por qué, estás ahí, sintiendo la vida que te brota como flor en tus senos, en tus manos, entre tus piernas, entre tus brazos, pura recreación enamorada del existir, estás ahí


terminando

aquel cuadro

hace calorcito afuera

mantienes las cortinas aún cerradas sin que sepas el por qué

cuando te llega el mensaje.


El cuadro todavía hace sentido, hace mucho sentido, el cuadro eres tú, pero el cuadro que casi está terminado, el cuadro aún inconcluso, la pintura que es tan tuya tiene de incorporar el hecho de que ella, la joven amiga, ya no existe más en ese mundo de las cosas concretas y palpables. Que ella, la joven amiga, tiene que virar luz, tono, color, sombra, brillo, retomar vida otra sob tus pinceles.

¿La muerte es lila, es morada, es negra, es blanca, es acrílica, o se pinta con óleo?
Tus rodillas te joden, tu no te olvidas de la presencia de él en tu cuerpo, no sientes sed ni cansancio, ya no te importa si no hay más blanco, pero es inevitable que ahora las lagrimas se caigan sobre las tintas volviéndolas acuarelas, rellenándolas de esperanza triste.

¿Por que moriste?, preguntas al viento indeciso de irse o de estar y abrazarte. Nadie sabe. Derrumbas un vaso, un suspiro, migajas de pan nuevo, gotas de tinta en el piso. Puro rojo sucio, puro sentimiento neblinoso. Agradeces a ti misma por creer en Díos. Y en el misterio. Y en el amor. Por pintar.

Y entonces pintas el cuadro con mucho más pasión, como si el lienzo fuera tu corazón aturdido, desconcertado, descompuesto, humano, sublime. Tú pintas el cuadro más sincero de tu vida porque lo cargas de verdad, de la verdad de que la vida es noche de amor y mañana de duelo, tarde de calidez y sonoridad, silencio y reflejo, dobles y únicos, contradicciones, la vida es lila y morado todo junto, todo a su vez, un work-in-progress casi siempre terminado.

Casi siempre terminado.
Pero que se termina. Pero que sigue continuando, redundante, petulante, desafiante: la vida y tu cuadro. El cuadro de tu vida. Tú misma delante de la vida y de tu cuadro. Ahí estás.

*

Y un día estás ahí terminando de pintar un cuadro, otro. Y...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

~~ oceânica ~~

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.
Eu não: quero uma verdade inventada"
(Clarice Lispector)



Pois hoje, embora o sol não tenha se dado ao luxo de acordar cedo, consigo ver a linha do mar. Consigo ver o mar. Consigo me imaginar, oceânica e ondular, alcançando costas e continentes nunca antes tocados ou desbravados.

Pois já fui uma pessoa não-pessoa para um certo alguém-ninguém.
Pois já fui alma penalizada despenada, dispensada pelo simples fato de encantar alguém-ninguém desencantado.

Sonho baías, sonho encostar minha cabeça numa falésia aconchegante, sonho abraçar uma ilha-mundo. Oceânica, pois sim.

Pois me tornei um vento úmido e frio que ele espanta com álcool, flanela e fósforos.
Pois o que nunca soube me falar agora solta feito mariposinha de verão: e que mulher você é, que mulher.

Pois nunca fui uma “que mulher”. Fui uma pessoa despessoalizada, despersonalizada por um sentimento peçonhento de alguém-ninguém medroso e vaporoso.
Pois nunca estive ali, naquele recanto quente com os olhos cinzentos voltados para mim. Pois sempre estive cinza, ainda que colorida e quente, diante daqueles olhos que não enxergavam futuro em mim.

Hoje, entre identidades, identificações, passaportes e tarjeta de extranjera, tento recuperar o prejuízo que aquele alguém-ninguém provocou em minha alma tão humana e tão feminina. Por isso, quero entregar-me à pessoalidade – de mim, de si, do mar.
Por isso, não mais alguéns e sim homens.

Para um homem, uma mulher.
Para um alguém-ninguém, nada. E não no meu mar.

sábado, 18 de setembro de 2010

expurgo

"E eu vim-me embora, meu Deus, eu vim-me embora."
Lixo e Purpurina, Caio Fernando Abreu




Hoje não tem beijo. Nunca mais vai ter. Não olho para trás, mas minha nuca o observa sorrateiramente. Ele ainda está lá, em pé, olhos baixos, ombros caídos. Sua prepotência contrasta com aqueles malditos ombros caídos. Agora constato: ele parece um armário mal-acabado. Um armário de cores pálidas, bloco compacto sobre duas palafitas. Ele fica lá, em pé. Ele espera a outra. Ele nem se importa mais em disfarçar. Não, me disse, devorando um bolo de chocolate – porque ele adora doce, porque ele se empanturra de doce para não se empanturrar de sentimentos, porque ele é feito de pedra e de pavor – não, não quero pertencer a ninguém. Então, antes de você, depois de você, antes das 20h, durante as 20h, depois das 20h, sempre haverá alguém. Uma outra, qualquer outra. Assim como você é uma-qualquer-você. Uma pessoa, diz ele ao telefone à outra, estou com uma pessoa. Naquele momento, diante daquele homem com uma horripilante e minúscula baba de desprezo escorrendo do lábio fino e encardido, naquele exato momento, não sou nada além de uma pessoa. Uma pessoa desprovida de pessoalidade, sem cheiro, sem sexo, sem suco, sem sangue. Uma pessoa-rubrica, um nada-pessoa.


Hoje não teve beijo nem nunca mais haverá. Não olho para trás, mas sei que ele permanece em pé, derrubando ainda mais os ombros, como se não suportasse a própria prepotência. Em dois, três segundos, tudo estará acabado, quando eu cruzar aquela porta, quando a outra chegar, talvez antes até, quando ele se sentar, tudo estará acabado. Definitivamente. Não, eu não olho para trás, mas minha nuca revela que ele procura migalhas sobre a mesa, que ele sente um certo desconforto, que o relógio marca um atraso que não deveria acontecer: o ponteiro já deveria ter avançado à hora seguinte, mas teima em girar em torno do traço anterior. Um traço-pessoa, um apêndice de qualquer coisa que deveria ter ficado dentro do armário.


Não guardo mais beijos, todos ressecaram, todos estragaram, cheios de carunchos, cheios de vazios, cheios de cansaço. Lavo desesperadamente meus lábios que quase tocaram aquela baba repugnante que pingava daqueles lábios finos e cínicos. Lavo desesperadamente as mãos que quiseram investigar as ranhuras daquele armário blindado. Lavo meu corpo, esfrego até sangrar todas as partes que roçaram o não-corpo daquele não-homem. Sangro, sangro doidamente, doídamente, sangro infelicidades dormentes, mas sangro humanamente até me expurgar.


Se eu pudesse, quebrava aqueles malditos ombros caídos para eles nunca mais derrubarem alguém. Se eu pudesse, arranhava aquelas infames palafitas que sustentam inverdades e sarcasmo. Se eu pudesse, ah, se eu pudesse, eu empurrava de volta toda a crueldade vomitada por aqueles odiosos e repugnantes lábios finos.



Tenho muito nojo.

sábado, 12 de junho de 2010

manjar branco

Diana apertou a mão de Clara, que retribuiu com um sorriso. Ambas imaginavam céus e sonhos no teto branco do quarto ainda mais branco em que Clara estava internada.
Te amo.
Nem os tubos, nem as cicatrizes, nem as manchas de relações passadas e ignóbeis causavam algum tipo de repulsa em Diana.
Te amo.
Os olhos oblíquos e aguados, agora opacos, outrora vívidos, de Clara retribuíram docemente os choros e a entrega de Diana. Não precisa dizer nada. Sinta, sinta, sinta que eu sinto, sinto, sinto também.
Impossível precisar quandos, comos e porquês. Uma tinha marido; a outra, uma agitada lista de parceiros casuais. Uma vivia entre violetas e begônias, distâncias e ausências; a outra lutava contra a escuridão torpe que, de vez em muito sempre, invadia armários, gavetas, malquereres e não-fazeres. No tempo elástico dos inícios, quando o amor ocupa pequenas brechas e deixa os minúsculos indícios, já instalado em ambos os lados, Clara se aconchegou no ombro dolorido de Diana e chorou suas feridas. As visíveis e as invisíveis. Ocorreu à Diana acariciar as mãos da amiga, tocar seu rosto, sorrir triste e cúmplice. Clara suspirou profundo, aproximou seus lábios daqueles outros lábios, e em segundos ambas se olharam extremas. Corajosas, mas reticentes, carentes e decididas, lançaram-se. Lançaram-se sem pensar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. E não tinha mais como deixar de ali estar, naquele aconchego maduro e pleno de afeto, um mundo de janelas, jardins e ar fresco, de dois seres que se compreendiam muito bem. Extremamente bem.
Diana apertou ainda mais a mão de Clara, com uma delicadeza imensa, com uma presença intensa, mas apenas fiapos de uma existência agora fugidia conseguiram captar aquele gesto desesperado e dolorido de uma mulher em plena explosão de amor. Clara já se despedia daquele quarto branco, daquele teto branco, do sabor do manjar branco que Diana preparava quando queria fazê-la sorrir.
Com calda de ameixas...
Diana encostou seu rosto no de Clara para não perder um murmúrio que fosse. Já não havia mais quase cor no rosto de traços firmes, sobrancelhas grossas, longos cílios. Com calda de ameixas – desenhou Clara no ar, com dificuldade, com sonoridade, com a discrição das formigas miúdas. Diana chorava com ternura e dor, captando qualquer movimento daqueles lábios queridos, e concordando: é claro, um manjar com calda de ameixas. Para nós duas. Inevitavelmente, uma parte dela, Diana, ficou ali, naquela tarde, naquele quarto, naquele branco todo insosso, impávido talvez, muito distante dos dias felizes. Com calda de ameixa, Clara, com muita calda de ameixa.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

entre ela e o além-ela

(Pintura de artista de St.Brieuc, França)


Entre ela e o portão, muitas, muitas ratoeiras, armadilhas, arapucas, várias arapucas, plantas carnívoras, objetos pontiagudos, facas, pregos, areias movediças, fossos profundos, tubarões famintos, pedras incandescentes. Entre ela e o portão. Ou poderia ser entre ela e o portal, a janela, a linha, a fronteira, a muretinha, não importa. Entre ela e o limite dela, uma série de obstáculos perigosos e daninhos, pegajosos e desestimulantes, totalmente irritantes. Entre ela e o além-ela, um muro maior que o de Israel na Cisjordânia. Maior que a pedra no meio do caminho de Drummond. Maior até que o dilúvio na época de Noé.

A tralha, o monte de lixo, restos de restos, sobras de sobras, tudo isso foi se juntando ao longo do tempo, entre os ensaios de sair ou não sair, deixar entrar ou não deixar entrar. E o limite dela foi alargando, alargando, embora ela se enroscasse num casulo cada vez menor. Apertadinho. E, então, para atravessar todos esses desafios farsescos, saltar a Muralha da China, o arame farpado e a cerca elétrica da prisão de segurança máxima (de sua prisão privada de segurança máxima), precisava mais que uma corda, um bote, um jato, uma vara, asas de Ícaro, fios de Ariadne: precisava de um homem que lhe desse um voto de confiança. E a quem ela também lhe pudesse dar o seu. Con-fi-an-ça. Entre ela e o homem, o portão. E toda, toda, toda aquela montanha de nãos.

domingo, 23 de agosto de 2009

incompletude (ou: um girassol no gelo)


Uma lágrima, um impulso.
Um quase-susto.
O espelho já não se detinha
À face, muito menos ao disfarce:
Estava ali, alma desnuda,
Em processo de muda,
De desprendimento.
Fluxo contínuo, a grande jornada,
Uma presença intensa,
Manifestada.
Um entendimento verdadeiro.
Era quem era – e isso se lhe revelava ofuscante.
Um universo inteiro,
com mais existência adiante.
Palavra como força que move:
Faça-se!
Do significado ao significante,
Um átimo, um instante.
E lá se materializava o ritual.

Revolutionary Road


Assistiu a “Foi apenas um Sonho” e acabou dormindo com sede, sem sonhar. Abriu o jornal, leu sobre Sarney, Taleban, aumento da criminalidade, compra de terras férteis na África por grandes investidores, mandos, desmandos, um tal de cinema crítico, nota sobre socialite inventando moda, uma bermuda que acaba com gordura localizada, uma crônica banal de algum escritor pseudo. Vomitou. Venceu a preguiça e o frio de 12 graus, passou o batom que quase não usava, pôs óculos escuros e partiu. Alguém até lembrou de registrar no obituário, mas ela já estava, enfim, livre, leve, longe e em outra dimensão.



"And if you walk along and if you lose your way,/
Don't forget the one who gave you this today/
Follow True Love"
Cat Stevens

sábado, 22 de agosto de 2009

"Estúpido, ridículo e frágil é meu coração"


Não seria jamais chamada para um comercial de xampu, não receberia bônus de cinco dígitos no final do ano nem estrelaria uma campanha pela especulação imobiliária. Anônima e invisível, circula pelas esquinas e avenidas tentando escapar do aspirador de diferenças, que mantém a pobreza mas apaga a heterogeneidade.

Está à deriva; é uma náufraga em sua própria sociedade.



"Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas."
Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 12 de março de 2009

obituário

(2009)


Diziam que tinha sido jornalista, idealista, quase comunista, artista de brilho fosco, anjo da cara suja, boa amante, namorada desajeitada e fujona, ser espiritual e romântico, simpática e afável, pacífica e pavio curto, confusa e difusa, tudo ao mesmo tempo, tudo durante todo o tempo, tudo. Toda. Inteira.

Tinha sido uma mulher faceira.

Era o que diziam. Mas quem sabe? A essência, no fundo, talvez jamais seja sabida – e ninguém nunca essa certeza terá.

Foi encontrada invisivelmente estatelada no chão de todas as desesperações humanas, no duro chão de todas as agonias e de todas as dificuldades existenciais, estatelada, estatelada sem estar estraçalhada, porque se manteve inteira até esse fim.

Essa mulher teve um fim. Um fim! Uma mulher assim!

Diziam que morrera de tristeza. Que fora suicídio induzido, ou que gentes mesquinhas vinham-na matando aos pouquinhos, diziam também que poderia ter sido homicídio cometido pelo Bandido Capitalismo, esse morto-vivo gosmento, ou então um acidente terrível: ela havia desabado no abismo entre sua vida alada e o cotidiano maçante. Quem saberá? Meras especulações.

Deixara um testamento, dividindo seus sonhos, seus momentos e seus experimentos entre as pessoas que realmente partilharam partes de sua caminhada nos últimos tempos, no tempo todo, durante os temporais, nos dias de têmpora franzida ou esgarçada.

Diziam muito, mas pouco falavam de fato: essa mulher não foi um mero acidente histórico. Veio, viu, vomitou, viajou, vacilou, venceu, viveu e voou.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Muro em Belém, Cisjordânia (Palestina), construído pelo governo israelense. (foto, arte e tristeza: MFV)

P.S.: Ah, eu não sabia que os termos "holocausto", "genocídio" e "gueto" tinham copyright...

(do cartunista palestino Naj al-Ali, morto em 1987)

P.S. 2: ISAAC! IBRAHIM! Eu vou contar para Abraão!


terça-feira, 6 de janeiro de 2009

POR VOCÊ, PALESTINA.

(MFV, 09)


Epifania primeira: limpeza intestinal


Não havia premissas expectativas lingüiças sentimentais
No instante primeiro da viagem primeira do início do começo
Logo na minha chegada já uma pré-partida


Um chamado, apenas um chamado
E um sim.


Então, sim.
Cheguei. Estou. Sou. Aqui.
Olhos encantados vibrados um quase deserto
Profetas de diferentes regiões e épocas buscaram seus desertos
Monges e sábios
Príncipes e heróis
Viajantes


Os verdadeiros viajantes também vão em busca de seus desertos.


Paisagens de tons claros no contraste com o céu azul
Nenhuma semelhança com a megalópole brasileira que se vê cosmopolita
– mas não sabe nem usar fita no cabelo, pena, não saber usar fita. Nem chita.


Meus olhos cativados paravam nas oliveiras
Na imensidão das oliveiras
Nas paragens secas porém úmidas de formigações espirituais e sentimentais


Vomitei no muro, muro feio, muro mau
Muro da discórdia arrogante inoperante do poder babado e equivocado
Ah, como podem se cegar de modo inexorável e intencional?
Impuseram às minhas oliveiras o limite desse muro.
Eles, do lado de lá, apontando armas, rindo sarcásticos.


Com minha língua provei o húmus da terra que já me pertence
Que pertence aos de cá, pertencia, pertencerá
Periferia, preferiria paz a aquecer meu chá
Respirei menta, hortelã no céu azul sem chuva, sem chuva
Folhas de uva torcendo grãos de arroz
E a doçura de um queijo coberto de grãos de milho tostados e açucarados
Ainda com voz


Nos olhos das gentes dos jovens das crianças
Brotam esperança e cílios longos longuíssimos longos cílios
Suavidades que respondem como petardos e pedras
Às agressões cotidianas
Essas agressões...
Umas barulhentas, soldadescas, tanques e mandatos
Outras silenciosas.
Secretas.
Cruéis e pontiagudas, checando em check-points tempo todo
Desviando rodovias porque decidiram assumir-se inimigos e instalar-se bem ali.
Onde famílias se reuniam nos momentos de lazer.

—Fazíamos piquenique no pé daquela montanha, mas hoje já não mais – diz moça menina mulher, 23 anos, filhinha, marido preso por sete meses, jornada de 6 horas de trabalho, quase pariu no meio da estrada porque não havia soldado no check-point infeliz que os infelizes precisaram criar para se sentirem felizes e poderosos. Porcos. Infames.

Desculpa, desculpa, essa raiva é minha, porque a deles é diferente. Me sinto ocupada, violentada, abusada por aquele governo mau, o do muro, lobo mau disfarçado de vovozinha recebendo dinheiro de lobbies poderosos internacionais. Lobo lobby lobotomizando loucuras.

Ora direis... agora você vê?

Governo mau como muitos governos maus
Quem somos nós para aceitar tudo isso?
Mas aceitamos!
Aceitamos, aceitamos, aceitamos e continuamos com os saltos altos
Nós! Sapos feios e grudentos exalando ideiazinhas banais de nossa vitória-menos-régia
Nós! Trapos altos destratando destrapados atrapados a gosmas e gozos falsos
Nós! A desfilar nossas dietas e nossos umbigos pelas ruas cosmopolitas das cosmopolicies mundiais.

É bom ser cego, dizem muitos. Os piores: os cegos intencionais.

E eu?
Não quis cegar-me.
Desertifiquei-me para fluir a aqualidade toda de meu ser sobre essa terra
Essa paisagem de oliveiras e sonhos e culpas e sangue e sal
Essa paisagem tão de todos nós

Sabores e pistaches e amêndoas e sons
E mesquitas e véus nas femininas cabeças e shukran
E chaves ainda nas mãos refugiadas dos senhores e das senhoras com suas memórias sensíveis sobre um tempo que se foi e não sabemos se voltará


Epifania segunda: arroto
(aos inocentes de Gaza)


― Não suportamos mais essa ocupação!

Os choros escoam junto com o sangue pelas ruas de estilhaços
Ruas de pedaços
Troços e traços de dignidade, de identidade, de corpos humanos
De roupas e de construções
Bueiros entupidos de tantas tripas
Tripas de gente e de acordos de paz e de cessar-fogo e de promessas
E de tantas, tantas promessas
O verme de dentro esfomeado e o lobo mau dono do muro mau
Em briga constante, em ódio constante, em baba constante.

Se essa rua, se essa rua fosse minha,
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de afeto e liberdade
Só para ver você brilhar –
mas o choro e o sangue inundam os caminhos.
Não há mais caminhos.
Não há mais piedade.
Foi-se o tempo, foi-se, foram-se.

Entreguem-se à morte,
Pois essa terra prometeu-se aos vermes e aos lobos maus.
Entreguem-se à morte, pessoas de boa fé!

(aos jovens soldados de Israel, boa parte deles de boa fé)
A mão que acaricia é a mesma que mata
Quem mata também morre.
E morre sem carícias.


Epifania terceira: crucificação
(Epifania?)

Bum, catapum, ratatatá.
Explode, atira, o velho estira-se no chão.
Choros, choros, dor.

Por que, meu Deus, por que nos abandonaste?

(Silêncio sepulcral. Três horas da tarde ou qualquer hora do dia e da noite. O céu se abriu. Estrondos.)

E
Em fins de 2008
E início de 2009
O mundo assistiu – não mais estupefato, não mais chocado –
Ao holocausto do século 21.

No gira-gira de uma humanidade que ainda está presa na lei de tabelião,
Holocausto com holocausto se paga, mas desta vez em outro povo,
Como um jogo de batata quente.

Centenas de mortos.
Bum, catapum, ratatatá.
Não há mais choros de criança, não se escutam mais.

― Porque já não há mais crianças.




Num dia quente de afeto e ausente do tempo das coisas e dos homens falíveis e fálicos, num lugar livre das fronteiras e dos mapas, dos domínios e da apreensão humana falha, num dia iluminado de amor e pureza, as crianças da eternidade brincavam com as borboletas e com as estrelas. E eram felizes.

sábado, 29 de março de 2008

direitos humanos já!

Queria expressar meu apoio às populações do Tibete e da Palestina (territórios ocupados e Gaza) que vêm sofrendo com boicotes e repressões há longo tempo. Repudio o processo de ocupação silenciosa (e muitas vezes disfarçada) de Israel, que continua tomando terras pertencentes aos palestinos dentro e fora de Jerusalém e vem minando gradativamente a economia palestina, tornando-a dependente e frágil. Israel tem o direito de existir, sim (os países árabes que o cercam que calem a boca), e de promover a dignidade entre seus cidadãos -- mas não de perpetrar um novo holocausto, com direito a guetos e tudo o mais.

Repudio com mais vigor a China, aplaudida por baba-ovos e paga-paus de várias espécies (incluindo boa parte da mídia nacional) por seu crescimento econômico...oh!, sua arte inventiva e cheia de frescor...oh! E os pobres coitados, em regime de semiescravidão, no interior rural dessa grande China? O verniz é desenvolvimento econômico, porém o conteúdo está podre. Recomendo "Still Life" ("Em busca da vida"), do Zhang-ke, para os ingênuos. Em relação aos tibetanos, o posicionamento da China é desumano e execrável. Hoje, na BBC, discutiam por que o comitê olímpico deu ao governo chinês a chance e os louros de organizar uma Olimpíada lá. Uma das premissas para a concessão é a garantia incondicional aos direitos humanos. Já se sabia que o conceito "direitos humanos" parece não fazer parte do governo chinês. O membro do comitê, um inglês grisalho, saiu pela tangente e não respondeu nada.

Em 10 de dezembro completam-se 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Diariamente milhões de indivíduos são desrespeitados, em diferentes níveis, em seus direitos mais básicos. Dá para se acreditar num mundo como o nosso?

Não fazemos nada. Ah, fazemos sim: as unhas, chapinhas no cabelo, lipoaspiração, a compra de um novo carro e de um novo celular, gastos extraordinários no cartão de crédito, sexo sem camisinha, pequenas atitudes mesquinhas com nós mesmos... fazemos também, todos os dias ou quase, cocô. Mas, infelizmente, é de outras bostas que falo aqui.

Acho que a vida de cada um, especialmente a dos mais egoístas, deve ser muito, muito, muito interessante e feliz e cheia de sentido e satisfatória e prazerosa e linda. Uma vidona mesmo, para que eles fiquem tão ou totalmente entretidos com ela e dêem de ombros para o restante do universo. Que se danem os palestinos, eu quero acabar com minha celulite. Que se danem os tibetanos, eu quero comprar um Ecosport ou carro que o valha. Que se danem os brasileiros, os outros brasileiros, pois eu quero é plantar uma árvore da fortuna no meu umbigo.

Depois, não me venha pedir atenção.

***
Recomendo urgente leitura de:
http://www.reporterbrasil.org.br/
http://www.amnesty.org/
http://www.un.org/spanish/millenniumgoals/index.html

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Desabafo. Dor insuportável. "Suciedad moderna".

Porque hoje estou como Pablo Neruda: cansada de ser gente. Ele disse: "Sucede que me canso de mis pies y mis uñas/ y mi pelo y mi sombra./ Sucede que me canso de ser hombre." Cansado de ser homem-sexo-masculino, homem-gente ou as duas coisas? Para mim, não importa. Somos solidários em nosso cansaço.

Não estou cansada de ser mulher. Estou cansada de ser humana.
Hoje o cansaço veio com tristeza e com vontade de chorar. Esses dias em que a gente acorda tão sensível diante do universo ao nosso redor. No nosso infinito particular. Que é um finito coletivo, afinal pertencemos nós -- eu e você -- a uma época e a um certo espaço, falamos de um lugar datado, vivemos num planeta assim e assado com tais e tais dimensões. Porque nosso íntimo é infinito, mas nosso mundo é finito.
E estou tão, tão sensível ao que me rodeia. Tudo me atinge, tudo me aflige, eu não quero ler jornal, mas as notícias me chegam mesmo assim, a todo momento, elas brotam indefinidamente. E tudo me dói, me dilacera, me espreme, me fulmina. Tudo o que é sólido desmancha no ar. E cai sobre mim, meu coração antes do resto, e eu dôo doendo de dar dó em mim mesma. Nem preciso ler jornal para presenciar cenas de malandragem, desrespeito, aproveitamento da ignorância alheia etc. Posso fugir para a Capadócia, mas a Turquia também tem seus problemas, tem seus cains, suas bestas e suas mulas-sem-cabeça. Posso pensar em me isolar no Alasca, mas impossível, onde há gente há bestialidade.
Escrevo com lágrimas. Não sei mais onde existir em paz. Tampouco sei existir desconectada, eu sou assim, assim choro e sinto dor, dor grande, dor de existir assim, dor de impotência contra um mundaréu de situações que formam esse mundo.
Não seria melhor ter nascido na Idade Média. Não.
Não seria melhor se tivesse adiado meu nascimento para 2048.

O pior é que ninguém pode me salvar, porque todos são humanos e eu estou numa autoquarentena de humanos. Hoje não estou suportando a humanidade em mim e, descontando-a, só me sobra ser fagulha, posto que, humanidade à parte, só me resta a fagulha divina que enxergo em mim.

O que fazer com essa luz minúscula e quase patética (patética não pelo lado divino, mas pelo lado eu)? Como fazer essa luz brilhar livre de anonimatos e pseudônimos, ser mais forte que a bestialidade humana? Não queria esconder a luz embaixo da cama, nem fingir que sou lápis em vez de lâmpada, bem, não posso negar que sou lápis também, mais um problema, lápis e lâmpada, como assumir que sou lápis e lâmpada, ambos patéticos, ambos frágeis diante das mazelas todas -- do câncer à canalhice calhorda encalhada ao nosso redor --, ambos doloridíssimos, sensibilizados e sensíveis ao extremo, feridos a cada segundo pelas farpas das mulas-sem-cabeça? Como ter a certeza de que não me tornarei mula-sem-cabeça também no futuro, meu Deus?

Corredores, corredores, longos corredores, curvos corredores, não há janelas, não há janelas, sufocamento corredores longos curvos sem janelas só luzinha ínfima e infinita, luz que não apaga nunca, irrisória mas eterna, uma forte essa luzinha.

Meu choro não tem mais lágrimas, só soluços, queria ter soluções, não as tenho, não há como fugir, não há porta "exit" no mundo, no planeta, no século, no universo! Não há! Porta de emergência? Não! Não há! Não queria doer tanto, por que dói tanto ser humana? Por que raios tenho de me emocionar com esses acontecimentos diários todos, no mundo inteiro? Por que uma injustiça lá na Índia vem doer aqui, em mim, pessoa anônima, minúscula, mero número de CPF e RG? O ar está pesado de pó, partículas doentias, poluição de alma, isso sim. Almas poluídas expelindo seus dejetos porcos no ar que todos respiram. Todos adoecem.

E aí,
e aí,
e aí,
descobri que meu horizonte vai acabar em menos de onze meses, pois vão construir um edifício bem na direção onde nasce o sol, onde eu vejo o sol brotar.
Por que andam acabando com os horizontes da gente?
Proibido enxergar além, ao longe?


Eu quero um horizonte!
Estou sofrendo!
Mafalda, Mafalda, me ajuda! O mundo está doente! Mafalda, de Quino, pensa. Está lendo: "No es neceseario un analisis muy profundo para ver que desde el arco y flecha... hasta los cohetes teledirigidos, es sorprendente lo mucho que ha evolucionado la técnica." E diz: "y deprimente lo poco que han cambiado las intenciones." Pois.
E mais de Mafalda vendo televisão:
"Hoy que vivimos en una sociedad moderna..."
Interrompe Mafalda:
"Suciedad moderna?"
Pai: "Sociedad moderna."
Mafalda:
"Zoociedad moderna?"

A dor segue aqui, quem pode fazer algo por ela, acho que, se você procurar aí no seu íntimo infinito particular, talvez encontre uma parecida, quem pode fazer algo?
Saramago, em "Ensaio sobre a Cegueira", "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam."

Não sei se enxergo, sou míope, só sei que tenho uma fagulha dentro de mim que não apaga mesmo com tantas lágrimas tortas e rebeldes.

Engraçado como tudo vira clichê e, por conta disso, acaba sendo desmerecido pelos que "pensam" (seja lá o que isso signifique, hoje estou insuportável insuportando o insuportável). A máquina de emburrecer e de bestializar descaracteriza as reflexões mais oportunas transformando-as em gomas de mascar entupidas de corantes. E aí ninguém mais as leva a sério, claro.

Não há analgésico que faça passar essa dor imensa que parece a dor de todo mundo e que veio parar... em mim!!! Repartam comigo, por favor, porque sou pequena e pouca para tanto.
...
...
...
Quero sonhar com o horizonte! Pára, menina, de chorar por esse mundo.

sábado, 30 de junho de 2007

O dia em que eu resolvi ler o jornal inteirinho

Há alguns dias venho acordando cansada de ser humana. Visitei a sombra e não foi fácil (mas falarei disso em post futuro).

Com esse sentimento de cansaço -- que não era tédio, que não era irritação, que não era angústia, que não era desdém, era cansaço, puro cansaço de toda essa humanidade que me constitui, que me impregna, que faz de mim um ser igual a você e aos outros 6 bilhões de humanos do planeta --, resolvi ler o jornal quase inteiro. Há um tempo desisti da imprensa, especialmente dessa imprensa tão cheia de opiniões, arrogância, cobertura meramente factual, que enxerga nos leitores seus clientes e faz das publicações meros produtos de consumo imediato e imediatamente descartáveis. Um comércio de tomaládacá, me dá seu dinheiro que eu te mantenho super bem-informado, considerando boa-informação tudo aquilo que gera algum lucro e não muda a ordem das coisas, sabe, sugando o idealismo de jovens jornalistas ou a resistência heróica dos mais velhos. A ordem agora é ser pop. Hã-hã. Pop? Papito! E por aí vai.

Li o jornal quase inteiro e chorei. Chorei em degradê, chorando por sentimentos diversos, da dor à raiva, da solidariedade à indignação. Quase vomitei depois, mas fiquei um bom tempo tentando descarregar toda a minha náusea. Não brotou flor da náusea depois da leitura. Não sei onde a flor foi parar, decerto os espinhos da sardinha do almoço a sufocaram. Dessa sardinha que nos fazem engolir todos os dias, com ou sem sal, frita ou assada, pescada em mares turvos de ondas grotescas e afogantes. Afe, ranhetice. Afe.

Dor. Dor pelos 11 deputados colombianos mortos por alguém que não assume a autoria -- as Farc alegando que é culpa do governo, que eles morreram no fogo cruzado, o governo alegando que as Farc estão manipulando as informações. As fotos dos 12 deputados seqüestrados há cinco anos -- cinco anos!!! -- estavam nos jornais. Apenas um sobreviveu. Olhei aqueles rostos. Aqueles rostos todos. E chorei. Não suportei. Chorei. Chorei e chorei. Para onde vai a Colômbia? A Colômbia vai para algum lugar? Chorei pelos colombianos todos, que fazem seu voto pela vida diariamente, que buscam a dignidade, que ainda crêem em seu país, que pagam seus impostos, que também estão sob fogo cruzado. "Guerrilha diz que houve tentativa de resgate."

Dor também pelos inocentes mortos ou mutilados pela violência nas cidades brasileiras, nos campos brasileiros, nas tribos brasileiras, no sertão brasileiro, mutilados pelas injustiças brasileiras, no Brasil inteiro. Para onde vai esse país? Que país é este? Haiti é aqui? Aqui deve ser pior que o Haiti imaginário de capacetes azuis ansiando pela seleção brasileira de futebol.

Dor pelos iraquianos inocentes que morrem diariamente. Pelos afegãos. Pelos africanos todos. Pelos chineses que não estão nas estatísticas de desenvolvimento econômico veloz e reluzente, ou melhor, que estão literalmente na base desse desenvolvimento às custas de miséria e quase-escravidão, mas que não aparecem quando o assunto é PIB ou ONU ou Davos ou qualquer sigla internacional. O mesmo para os indianos em igual situação. Dor por palestinos e por israelenses. Pelo haitianos. Pelos chechenos. Pelos curdos. Dor clichê, dor legítima, minha dor, a humanidade doendo toda, por dentro e por fora de mim e do mundo. Dor pelos que ardem de dor. Dor pelas crianças nascidas de estupros realizados nessas guerras contemporâneas, como na Bósnia, no Sudão, no Congo... Dor por todos os que estiveram na mesma situação das crianças de "As Tartarugas Podem Voar". Dor por todos os que estiveram na mesma situação dos personagens de "Hotel Ruanda". Dor por todos os que viveram o que a protagonista de "A Vida Secreta das Palavras" viveu. Independentemente do mérito artístico desses filmes e de outros tantos, ao menos eles nos tiram um pouco do nosso torpor -- torpor egoísta? torpor altruísta? torpor ignorante? torpor intolerante? torpor mesquinho? torpor idiota? torpor defensivo?

Indignação. "O presidente de Israel, Moshe Katsav, aceitou ontem renunciar ao cargo. A decisão faz parte de um acordo no qual Katsav se declararia culpado por vários crimes de assédio sexual em troca do arquivamente do acusações mais graves -- como o de estupro de funcionárias." Peraí. P-R-E-S-I-D-E-N-T-E? Ok, ele é homem como qualquer outro, mas... será que o cargo não lhe daria uma responsabilidade ética, moral, humana, cívica...? Acho que sou démodée, sou de um tempo em que nós todos, seres humanos, éramos humanos. Aliás, creio estar equivocada. No fundo, devemos ser bárbaros domesticados. Já não sei mais. De todo modo, que horror. Estupro não é nada, então?

Indignação. Polícia de Londres desmonta carros-bomba. Tristes desses seres que precisam de bombas para fazerem valer seus protestos. Que precisam destruir vidas de outros para fazerem valer as suas. Que precisam decapitar para mostrar (ou fingir) que têm cabeça.
Me lembrei de uma peça linda, um monólogo do grande ator e palhaço Ésio Magalhães, que ficou em cartaz no Folias durante um tempo em 2006. Chamava "wwwparafreedom". Soldados são enviados por alguém para livrar um povo do comando de um cruel ditador. Em nome da liberdade, tais soldados têm o direito de bombardear o tal território inimigo. Bomba com bomba se paga? Na peça, as bombas eram de chocolate. A doçura desmontava a brutalidade.

Raiva. Raiva, raiva, raiva.
Quem, um dia, bradou com coragem (referindo-se ao Congresso Nacional): "são quinhentos picaretas com anel de doutor?" Esse bordão virou música. E faz tempo.
Quem carregava na própria a história a história de milhares de brasileiros, que saíram de um sertão ou de um agreste sofrido e maltratado para tentar vida melhor, vida digna, na cidade grande, que foi líder sindical numa época em que os sindicatos eram de fato representativos e pulsantes, que engajou-se na política em prol de ideais como trabalho, justiça e igualdade?
Não sei mais quem.
Eu choro de raiva.
Em 27 de outubro de 2002, eu vestia blusinha vermelha, o dia inteiro com essa tal de blusa vermelha, eu fui ao cinema com duas amigas assistir ao "A Promessa", de Margarethe Von Trotta, depois fomos comemorar na Paulista com mais milhares de pessoas a eleição de um certo Lula.
Em 2006 eu me recusei a votar em alguém ou num número qualquer.
Quando resolvi ler o jornal inteirinho, encontrei a notícia que, infelizmente, eu já esperava: "Lula e ministros saem em defesa de Renan." Me senti ultrajada. Críticas à Polícia Federal, ao Ministério Público, à impresa, a mim e a você. Lula me criticou. Lula me criticou porque eu acredito na ética, no respeito humano, porque pago meus impostos, porque sou obrigada a votar mesmo não querendo, porque sou cidadã brasileira, porque não quero financiar Legislativo e Executivo corruptos. Saiu em defesa de Renan Calheiros? Esse mesmo Calheiros cara-de-pau da era Collor! Collor: fui cara-pintada não manipulada (ah, sim, havia tanta manipulação na época daquelas manifestações... isso me enojou. A perda da inocência: 'ei, garota, aproveite para se filiar ao partido PWWZ...contribuição mensal em cinco vezes sem juros, porque juros são coisa do FMI...' >> essa última parte é ironia minha, claro), ajudei -- acho, achava, hoje já não sei -- a tirar o Collor do poder, e o "povo" e/ou as empreiteiras, Gautamas e Valérios da vida, o puseram de novo...

Mais raiva.
Mais raiva.
Quase rasguei o jornal. Devia ter rasgado.
Estou obsoleta?

Menina ainda, voltava do colégio nos idos de 1984, e acompanhava, junto com meus pais, pela TV as manifestações no Anhagabaú em prol das Diretas-já. Não entendia direito o que se passava no país naquele momento, mas sentia que era importante. Naquela época, naquela idade, sonhei em um dia discursar para multidões no Vale do Anhangabaú. Parecia crucial, parecia necessário, parecia vivo. Em 85, lembro quando brincava no playground do prédio enquanto o presidente -- finalmente, um presidente -- Tancredo agonizava no hospital. Um avião passou rasteiro. Uma amiguinha: acho que o presidente morreu. E ele realmente tinha morrido. "Coração de Estudante" na voz de Fafá de Belém. Meus ouvidos ainda escutam.
Achei que eu começava a fazer parte da História. Na escola, estudava os gregos, os romanos, os navegantes europeus, os conquistadores portugueses e espanhóis, a Primeira e a Segunda Guerra Mundiais, a ditadura. Agora, eu estava na História.
Mas acho que me enganei.
Sou de um tempo que não está sendo captado pela imprensa. Nem pelos governos. Nem pela pedra que tomou o coração de tanta gente.


E a flor não brota dessa náusea toda. Merda de náusea. Merda.