terça-feira, 20 de dezembro de 2011

joguinhos

Não, meu bem.
Não uso salto alto. Não tenho um gato com focinho cor de rosa. Não tenho paciência para colar masculinidades durante longas e frias madrugadas.
(Afasto uma mecha teimosa de cabelo, mordisco os lábios.)

Você me encara da janela de seu quinto andar enquanto passeio por sua calçada – ciente de que estou sendo observada, mas orgulhosa o suficiente para não tirar meus olhos das unhas que me escapam das sandálias (preciso cortá-las, preciso cortá-lo). Você mija no muro da esquina às 3 da manhã, depois de embebedar-se o bastante para perder a consciência de sua fragilidade. Porém, não deixa de estar sóbrio: daqui, querida, você não passa. Uns tipos o encaram, você dá de ombros (não quero saber de sua autossuficiência).

Meus pesadelos estão povoados daquelas fotos horrendas de gatos com focinhos cor de rosa que você colou na parede de sua sala. “Adote-me”, brincava. “Adote-me”, soluçava. “Adote-me”, implorava, joelhos no chão, meias e shorts, barba desfeita, cabelos sem sentido, olhos estupidamente vermelhos. “Ame-me”, eu lhe disse apenas uma vez: e sem voz. Meus sonhos estão povoados daquelas rosas com cujas pétalas você um dia perfumou minha pele nua sobre seu lençol branco. “Toque-me”, eu lhe tocava. “Toque-me”, e você me dedilhava. “Não”, nos dissemos, quase em uníssono. E você dissolvido, alquebrado, estendido no sofá com a janela aberta e um vento gelado.

Não, meu bem.
Não uso salto alto. Não tenho um gato com focinho cor de rosa. Não tenho paciência para colar masculinidades durante longas e frias madrugadas.
(Afasto uma lágrima teimosa, mordo os lábios furiosamente.)

O vento levou todas as folhas, todas as pétalas, todas as peças.
A noite guarda a ressaca daquele dia.
De outro, de outra.

Gaze




He laughed.
— Sorry. You’re saying…
Hands, arms, lips, eyes: her sources of continuous messages. Everything so intense, for sure. Everything so confused. She was that kind of superlative girl.
— Never mind.
She’d already drunk three or four glasses of wine. He kept strongly his receipt: one bottle of water for every dose of alcohol. This was his way to keep his sobriety. Oh, his sobriety… Who cares about being sober? His inner universe was already a constant post-tsunami world, full of hurricanes of sensations and very fast brainstormings. But he never got lost in himself: it was amazing how he was able to manage the clues from himself even without thinking so much about, just listening to that whispered music that came from his soul. By the way, he carried a certain old-fashioned purity conjugated with an accurate feeling for capturing others’ pieces of soul. Emotional intelligence, right?
— For God’s sake!
— What?
— You don’t pay attention to me, do you?
— Sorry. You’re saying…
Her lips were very red at that moment. They seemed to shine – and this, besides distracting him, started to disturb him. He couldn't understand properly what she was saying, the real subjects of that bizarre conversation. He was surrounded by noise while she was just gleaming: from her lips to her eyes. Even the (fifth?) glass on your hands shined.
— Never mind.
— Please, repeat…
She looked at him with tenderness, not sure if she should keep talking and talking, inventing keys to try to get into his world. More than catching his attention, she seemed to be interested in touching his heart somehow. A mere caprice? No, she didn’t feel like that, but recognized that could be almost impossible. An ocean. A decade. Bottles of water and wine. Words. Idioms. Phrasal verbs and jokes. A table. Friends, friends, many people. All of that had become into a huge wall between them. Actually she started to feel tired. Emotional tiredness?
— Sorry.
— ?
— It’s time for me to go.
— Because of something I said?
(He meant: “something I didn’t say”).
— Perhaps because of something I did.
(She meant: “something I didn’t do”).

It’ll take time for both to understand what was going on over there more than that simple wordplay. Maybe it’ll be late when they realize that, maybe it won’t. Anyway, both remember how they gazed at each other that night. And how it was magic.

domingo, 13 de novembro de 2011

continuous

Maybe I should have answered: “Yes”.
Maybe.


Maybe I should have tried once more.
Maybe.


Maybe tonight would be not so cold, no so tough.
Maybe.


Maybe I could have found a bottle with a message:
“Maybe.”


Then everything would have been simpler and clearer.
Then I would have felt sure and safe.
Then tonight would have been an evening of glasses of wine, smiles and bodies.


But all of that wouldn’t have been my life.
It would have been yours. Others’. Someone else’s.


Me, I am on the verge. About to.
No “more maybes” at all, sorry for that.
I keep going and going on: present continuous. Continuous.

sou

Sim, sou aquela com quem você passeou de mãos dadas na madrugada fresca e risonha de agosto. Aquela com quem você não. Aquela que você não. Aquela que não. Enquanto eu sim. Algo, de algum modo (e eu ainda suspiro), sim.

Sou aquela que lhe convidou para um café ou um vinho se você não estivesse tão entretido com cafés e vinhos. Aquela cujo apelido você nem lembra; apenas olha os nomes na agenda e escolhe o primeiro. Meu primeiro nome. O nome com o qual não me apresentei a você. Oh, não: sou aquela, mas não sou esta a quem você busca. Não esse primeiro nome. Um nome oco.

Fui quem lhe. Quem se. Fui quando e onde e continuo a ir porque. Se você me deixasse terminar as frases, sem me aprisionar em pontos suspensivos que jamais se retêm, até poderia tornar-me alguém que. Mas sem, como?

Sou aquela que você desejou enquanto via um filme do Lars Von Trier. Aquela que você desnudou enquanto escutava Leonard Cohen. A que penetrou enquanto lia Roberto Bolaño. Aquela que, enjoado e confuso, cuspiu fora numa tarde qualquer de uma data irrelevante sem nem prestar atenção se a janela estava aberta ou se a umidade relativa do ar era maior ou menor que sua covardia.

Sim, sou aquela que agora lhe observa em silêncio e com algo de pena. Aquela que lhe diria: há um resto de molho no canto de seu lábio, um resto de muco no canto de seu nariz, um resto de lágrima nos seus olhos já nada sublimes. Prefiro, no entanto, mordiscar umas bolachinhas enquanto quase rapto a paisagem que velozmente se dissolve.

Salto:


aquela, não, sou eu.

— feliz ano-novo.

domingo, 30 de outubro de 2011

~~ infinidade ~~~~

Hoje vou cantar as rimas mais pobres que conheço, vou limpar a sola dos sapatos mais puídos, vou colher meus fios de cabelo mais rebeldes que caem indóceis no meio do caminho. Hoje vou me dar conta das coisas minúsculas da rotina mais cotidiana, dos minutos mais sem nexo, dos raios de luz mais invisíveis – e que quase não me alcançam. Hoje celebro uma descoberta acima de quaisquer palavras, a essência daquela que sou, daquilo que sei e, especialmente, de todo esse mistério infinito que pouco explico, mas que acolhe minha existência mais túrgida. Hoje, e não amanhã. As rimas, os raios. A essência, o infinito. Onde quer que, como quer que, hoje.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

desiderio


Estou áspera e rude como as paredes que me encerram nesta cela de pudores. Contenho explosões poliglotas de desejos semiadormecidos, semidespertos, seminus de credenciais. Mas sou inteira, não metades afoitas tentando um aperitivo ou um vermute. Quero banquete, ainda que único, ainda que impreciso, quero o acordo tácito para devorar. Fome e sede, ganas e garras, estrógeno correndo por todos os vasos e vistos: enlouquecimento sano, suave e sintomático – se me salvo, é claro, da desesperação desde dentro desta cela infame. A salivação já começou há tempos, como sempre costuma acontecer: dentes pontiagudos, seios pontiagudos, poros permeáveis e faro aguçado. Passa, passa, e me enlaça, me abraça, me faça e refaça. E me deixe refazer-te, inverter-te, ah, deslizo e realizo, te invento e te comento. Desenovelamos, um suspiro, talvez dois, ah,

Mas sigo áspera e rude, como e onde, quando e que, nesta cela de pudores, a conveniência e seus horrores, a convergência e todos os possíveis e exaltados amores.

Insisto? Espero?
Por agora, um sanduíche.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sapatinhos



One day, by chance, blue shoes came across the rose ones. Astonishment. Hiccups. Delirium. Hola, perdón, ¿puedo estar aquí un rato? Rose shoes couldn’t understand those words, but caught the meaning: Tu es le bienvenu! Timid smiles, fleeting glimpses, almost invisible movements. Que mona eres. Tu es quelqu’un de vraimant charmant, toi. Drops of melancholy from each side: time is extremely cruel as we are within this boderland – nowhere, elsewhere – where reality fits expectations perfectly and that weird feeling of belonging does make sense. Quisiera poder quedar. Je voudrais que tu n'allasses pas. But conjugating verbs like « to leave », « to go », « to move » and so on was a kind of expertise from both Rose and Blue shoes. No es un consuelo. Il n’y a pas d’espoir? Espera: ¿qué más nos resta? Rester. Atentos. Attente. Attraction, sharing. Shapes, smells, sighs. And so, and then, and thus, seconds started to flow again. Hasta la vista, au revoir. And that’s it: thatness.
Thatness, for sure.



domingo, 16 de outubro de 2011

luz del estío

Siento un gusto de frontera disuelta en esa tarde melancólica. Demasiado espacio. Vacíos casi insoportables. Ausencia. Y todo me sobra: la luz, la calidez del verano, la casa inmensa, el corazón abierto de par en par.

Los rincones gritan: saudade.
Más que nostalgia, decías, más que añoranza, silenciabas.

Éramos un reino – y todo alrededor era resto de geografías ajenas.
Te fuiste con las alas, me quedé con la inmensidad de belleza triste y ojos húmedos. Ahora casi quiero rechazar ese mapa que me pone como un gran continente, solitario y olvidado.

*~* primavero, primaveras.

Hay todavía el olor de sus manos

De sus manos que deslizan que se disuelven

Por mi piel por mis pies por mis piernas

Por el rosa de mis mejillas

Por las mejillas de las rosas


Esas rosas que me envuelven como recuerdo del efímero

Ese efímero tan eterno de nosotros

Que somos, ya fuímos y pronto dejamos de ser

Siendo siempre y aún, y aún, y aún.


Sus manos tienen todavía el olor

De las rosas que pueblan

Esa piel eses pies esas piernas

Esas mejillas que tocaste, menino.

Y que – já sei, já sei – volverás a desbravar.


(Soy una constante primavera)

domingo, 14 de agosto de 2011

Plástico vermelho



Era um dia daqueles. Pesado, modorrento, cheio de poeiras do passado teimando em grudar no suor do presente. Daqueles dias em que não há poesia possível no enfado de uma vida inteira. Daqueles dias em que o tempo se recusa a cumprir a programação habitual de 60 segundos formarem um minuto e assim por diante. Um minuto estava durando quase meia hora. Dia daqueles.

Acomodada no banco do fundo do vagão, fiquei ao lado da janela, mas longe da porta. Tudo bem, tudo bem, ia descer no fim do mundo, havia muito trilho ainda e o enfado do tamanho do mundo. Esse caminho longuíssimo para quê? Para chegar em casa e tudo continuar igual? Os outros passageiros pareciam padecer do mesmo aborrecimento. Caras fechadas, caras distraídas, olhares mortos ou cinzentos, todos querendo ir logo, porém ir para lugar nenhum. Estar no metrô, estar no trabalho, estar em casa, tudo dava na mesma. Estar já era um fardo; ser, então, nem se fale. E a porcaria da porta não fechava, quem o motorista estava esperando para dar a partida naquele trem?

Uma moça sorria no meio das manchas amorfas chamadas de gente por pura educação naquele fim de tarde, naquele fim de linha, naquele último vagão. A moça estava bem de frente, naqueles bancos que vão de costas. Que enjoo ir de costas, mas muitos não se importam. Para eles, o tempo passa ainda mais devagar porque se despedem com mais docilidade dos instantes. Talvez seja isso que cause enjoo em alguns, nos mais ansiosos. Ou nos mais defendidos. Mas a moça sorria, caramba. Como conseguia? Tinha um livro nas mãos. Claro, a moça sorria porque tinha um livro. Essa bolsa que carrego não me faz sorrir. O rapaz de gravata verde segurava uma pasta de couro e não sorria. A senhora ao lado mantinha apertada uma sacola de plástico e tampouco sorria. Só a moça com o livro. E já sorria antes mesmo de a porta fechar. Ufa, finalmente.

O livro estava coberto com uma capa de plástico vermelho. Ninguém mais encapa livro com esse tipo de plástico, meu Deus. Essa moça veio do túnel do tempo? Não parecia. Blusinha bacana a dela, não dava para ver os sapatos, mas ela tinha frescor. Esquisita essa capa. E, droga, não dava para ver o título do livro. Sobre o que seria? Uma história de amor? Não. Todas as histórias de amor são iguais. Começamos virgens e terminamos mais virgens ainda, só que no fim somos acidamente virgens e rancorosos. Como poderia haver espaço para um sorriso? Talvez ela esteja no começo do livro, então pode ser uma história de amor, ora. História de amor açucarada? Não, não. A moça tinha jeito de exigente. O modo de ler com avidez, os olhos dela não desgrudavam das páginas, os dedos firmes na capa de plástico. Talvez fosse um romance policial. Avidez com sorriso... Sorriso ao ler sobre um assassinato? A ficção nos permite extravasar agressividades-tabu: talvez seja o que nos mantenha ainda relativamente afáveis uns com os outros.

Agora ela apertou os lábios, que cara safada é essa? Em pleno século da solidão e do enfado, no dia em que a humanidade dentro daquele trem empurrava o tempo com desesperança e agonia, aquela mulher ousava existir. E resistir à modorrência cotidiana. Rosto nem bonito nem feio, ar simpático. Deve ser daquelas que, depois de umas taças de vinho, seguramente – e de modo sábio – aperta os lábios (como agora), fecha os olhos, dança leve, livre e solta no meio da pista, braços-pássaros, pés ágeis, quadris mais ágeis ainda. Uma alegria, uma energia, uma sensualidade. Os olhos pasmacentos dos machos presentes, antes ocupados com os alvos óbvios, a seguem vidrados.

Uma noite de sexo. Pela avidez com que a moça lê esse bendito livro com capa de plástico vermelho, deve ser uma descrição daquelas, que chegam até a palpitação dos músculos vaginais – das personagens, é lógico. Bem, há leitoras que, por tabela, também os sentem. Confessemos, por que hipocrisia numa hora dessas? A população imóvel do trem móvel, naquele tempo ausente, não parece a ponto de deixar sua apatia. Tampouco há sinais de outro espectador para a moça – e para mim. Então, confesso: já tinha sentido, sim, excitação ao ler certas passagens de livros, inclusive desses livros-cabeça que apenas eu, uma amiga e mais dois ou três críticos literários lemos. Meu Deus, a moça está gemendo baixinho, feliz. O homem mordiscando seus mamilos, passando a mão pelo interior de suas coxas, agora beijando o pescoço, tocando seu clitóris e... O que foi aquela encoxada, perto da escada? Quanto tempo fazia? Três semanas? Quase um mês. Ele a pegou de jeito. Foi tão rápido e tão bom. Talvez ela tenha suspirado agora. Chegou ao orgasmo? A personagem, quero dizer. Como o metrô é quente.

Essa franzida de testa. Pode ser que seja um livro de crônicas, e agora ela esteja lendo sobre a morte de uma galinha. Não era sobre isso aquele conto da Clarice? Divertido esse conto. Ela riu no começo, ficou meio triste em seguida, mas não mordeu safadamente os lábios depois. Nem franziu a testa. Era a hora da briga do casal? Rusga rimava com ruga e fazia sentido. A gente franze a testa quando não entende certas atitudes. Por exemplo: prometer ligar durante a semana. E sumir. E não dar notícias. E, depois de uns tantos recados no celular, torpedos e e-mails, uma resposta de uma linha só. Estou confuso, precisando de um tempo sozinho, foi bom estar com você, mas agora não rola. A moça ficou triste de repente. O que foi? Desculpa esfarrapada? Sim. O rapaz, no mesmo bar, com outra moça. Confuso, mas divertindo-se. O mesmo braço ao redor da cintura. A mesma piada da chamada para Tóquio. Os mesmos petiscos, o mesmo chope. Os olhos continuavam ávidos, mas ela realmente estava triste. Porque dói. Entre o despeito e o desrespeito, esse ponto é o que dói. Depois, um recado, um torpedo e um e-mail com a mesma mensagem irônica e afiada. Tirando satisfações, que decadência. A noite da encoxada foi tão boa que valia essa humilhação? Porque não foi só uma encoxada nem só encoxadas. Mas que história idiota é essa? Banal, tão óbvia, não, não e não. Quem leria tamanha bobagem? O livro de capa de plástico vermelho certamente é uma alegoria da sociedade contemporânea, de trens lentos e opressivos, de corpos e mais corpos se tocando sem qualquer pudor, mas sem qualquer amor, de braços estendidos para ninguém. Um livro sobre pessoas que não querem mais estar. Nem ali nem lá.

Por que a moça não havia escolhido ler algo original? Que merda de dia. As horas não passam. O telefone não toca. O trem não sai do lugar. É essa moça quem passa, quem toca, quem se movimenta. É essa moça com o livro de capa de plástico vermelho que, naquele segundo, faz a vida – qualquer que seja a definição para “vida” – acontecer. Por que nada muda? Queria fechar o livro, mas o livro não me pertence. Viro a página, então. O reflexo na janela me olhava triste. Não quero pena nem comiseração. Quero apenas... – ainda? – um romance em lugar de contos curtos e sempre finitos, muitas vezes ruins, ou então repetitivos. Um romance. Cenários diferentes, uma história que avança, personagens que não somem no meio da trama, estilo apurado, narrativa original. Capa de plástico vermelho: transparência e paixão. Sou de uma obsolescência medonha.

No amontoado de gente, não distingui mais a moça do livro. Onde se escondeu? Ela escapou da sonolência existencial da população do trem? A história acaba assim, então? Sem necessariamente ter um fecho? Saudade das narrativas da infância em que sempre existia um fim, ao menos uma linha, dando assim uma satisfação ao leitor. Acabou, sabe como é. Minha viagem também chegava ao fim. Bufei, desapontada.

Já na rua, noite anti-social, ser anti-social – dependo sem qualquer vontade da humanidade inteira –, ansiosa em pular para o dia seguinte, me senti cansada. Como se tivesse lido todos os ranços de uma história muito minha num livro. Naquela merda de livro de capa de plástico vermelho, mantido altivo e desafiante pela moça que sorria. No meio da massa aturdida pela realidade implacável, aquela mulher roubava os últimos golfos de energia emocional dos infames do mundo. Bem, talvez estivesse devolvendo-os.

Convenci o dono da papelaria a buscar, em sua sala de sobras, um pedaço de plástico vermelho desses de encapar. Sorte a minha que queria vermelho, me disse, pois era o único. Manchado de pó, resto de vendas antigas. Ninguém mais compra isso, afirmou o homem. Já em casa, encapei o molesquine novo e aspirei, com alguma excitação, o frescor de suas páginas em branco. Na primeira, com letras garrafais, escrevi: “Pois essa história termina aqui. Finalmente abro espaço para um recomeço”. Sorri, apertando os lábios, quase ofegante de tanto tesão.



sábado, 6 de agosto de 2011

corpaço, compasso

Certo dia, não sei quando, meu corpo proclamou independência: quero vida própria. Desvinculou-se da senhora excelentíssima razão e pediu permissão à alma para percorrer aprendizagens particulares e solitárias.

Agora, existe à revelia do que penso, do que quero, até do que sinto. Autônomo, reage inclemente às vibrações alheias. Intumesce, reverbera. Reconhece umidades, cheiros e vontades segundas – equivocando-se às vezes, gozando outras tantas. Meu corpo não partilha todos os seus amigos comigo; há momentos em que me assusto quando me dou conta de que há alguém a meu lado, me olhando simplesmente, numa tentativa quase sempre infrutífera de apreender minha alma por meio de meus poros. Porque nem sempre estamos de acordo, eu e meu corpo, sobre quem realmente temos de deixar entrar.

Meu corpo começa a aprender quando diminuir o compasso e aumentar a escuta. Nessas horas, a alma se aninha, a razão se aproxima, e me sinto inteira e presente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Paredes verdes

E, logo cedo, num instante máximo de rebeldia, lancei-me com fúria contra as paredes verdes do meu quarto com umas quantas pinceladas de uma pachorrenta e meditativa tinta branca que encontrei ao acaso, num dia de prantos.

Manchava conscientemente aquelas paredes verdes com o ardor de uma fanática buscando o instante máximo, o orgasmo anímico, a resposta para as inquietudes filosóficas que vieram à tona com a rosa dos ventos, dos tempos, dos inventos.

Quantas, quantas, quanto, quanto, só de exclamar eu já me cansava afetivamente.

Pausa: ele me liga, histérico, descrevendo a atormentada noite de ontem, os vizinhos bêbados, a ex-mulher rançosa, o torpor familiar, a desalinhada entrevista de emprego. Histérico justifica-se pela negativa que não chega a me dar. Porque eu não digo nada, apenas comento: as paredes já não estão verdes. E ele: falo com você depois.

Havia fome, havia desejo, havia raiva, havia ainda os ecos daquela ausência inclementemente vivida em todos os recôncavos desse corpo que não para de me pertencer mais, mais, mais e mais. Havia haver, havia minha existência explodindo ansiosa e febril por meio das pinceladas sujas e puras daquele grito silencioso e inconcluso nas paredes verdes.

Para que, para que, para quando, para quando, só de exclamar eu já me respondia.

Pausa: um tomate rola abrupto de uma prateleira da geladeira e, fascinado com a gravidade, lança-se ao chão. Por um momento, esqueço as paredes, as sedes, as redes de salvação, e admiro aquele vermelho insólito e intacto me olhando, espantado, desde os baixos do móvel da cozinha. Se esse vermelho me amasse, minhas feridas não necessitariam desinfetante.

Ainda sinto a presença de todos os fantasmas nas esquinas e nos bancos dessa cidade, prestes a saírem por alguma porta e pedirem uma cerveja justamente naquele bar a que vou. Ainda sinto a presença de minha morte doída e oculta, pública e íntima na mesma medida, uma espécie de expiação e crucificação. Ainda dilacero o esquecimento ligeiro deles, seu desdém, sua leveza superficial e banal, e os lanço com saliva e tinta nas paredes verdes, pincelando, pincelando, pincelando até que os poros de concreto sangrem. Sangrem lembranças, sangrem perdões, sangrem ranhuras.

Pausa: o cheiro me enlouquece, eu cheiro tudo, a tinta, meu ranço, minha saudade, minhas esperanças, as parcas explicações que passaram por baixo da porta, o cheiro do almoço do vizinho, o cheiro da roupa lavada da vizinha, o cheiro da histeria telefônica dele, o cheiro do egoísmo torpe do outro ele, o cheiro da merda alheia, o cheiro do perfume alheio. Eu cheiro minha fé, minha tão pequena e grande fé, cheiro minha humanidade, cheiro o sangue que escorre de minhas gengivas e também o que limpa meu útero, cheiro o clamor que brota de minhas entranhas e de minhas intimidades, cheiro meu medo e minha coragem.

Cheiro o verde dessas paredes, cheiro o branco que as invade, sinto enjoo, sinto vontade de chorar todas as chuvas dessa parte do mundo, sinto amor, muito amor.

Que aqui se registre que meus sentidos estão em pleno funcionamento.
E que esse verde agora sujo das paredes, esse verde imperfeito, arranhado de branco e de dúvidas, esse verde feito humano, mulher e brasileiro, esse verde agora deixa essas paredes e vem habitar o vácuo, preenchendo a solidão que habita meu ser e faz brotar cravos onde deviam nascer sorrisos.
Que aqui se registre esse dia de verão em que o verde corrompido daquelas paredes verdes se transformou em mim mesma. No dia em que.

Era já noite e liguei o ventilador para me perdoar de meus pecados e secar meus molhados, encharcados, entupidos à luz das estrelas e da paz.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

é assim que a gente existe

Ela achava muita coisa. Estava sempre achando – e isso a cansava. Queria concentração para meditar e parar um pouco de achar, mas onde fora parar a bendita concentração?

Uma lembrança empoeirada: aquele senhor que vendia camisetas na frente da Plaza de Toros, em Madri. Segundo ele, antigamente os homens, marinheiros, tinham uma mulher em cada porto. Hoje a situação se inverteu; são as mulheres, voadoras, que têm um homem em cada aeroporto. Que oráculo esse senhor da Plaza de Toros! E ela nem lhe comprou uma camiseta. Ela não havia entendido o prenúncio. Ou se tratava de um anúncio?

Aumentou o volume do aparelho de som, que tocava o CD mais romântico que ela tinha por ali. A ansiedade havia diminuído. Solução mágica essa – escrever. Escrever para ninguém ler, nem ela mesma naquele momento. O personagem Forrest Gump havia conquistado um Oscar por correr, correr e correr. Atravessar os Estados Unidos correndo. Ela escrevia, escrevia e escrevia para se percorrer. Ganharia, talvez, o capuccino gelado pelo qual salivava. Isso, menina bonita, bom trabalho. Sobreviveu a mais uma prova da existência. Ultrapassou os limites da realidade nua e crua para o sonho nu e cru. Que é quase uma realidade agora. O volume quase chegava ao máximo. O vento sumira. O tempo passava, incoerente. Como o tempo passa se eu não me movo? Quando se deu conta disso, há anos, de que o tempo passava independentemente de qualquer imobilidade, de que o tempo era o único a ter o privilégio de jamais ser imobilizado, desiludiu-se. Quer dizer que a sociedade capitalista disse, ao menos, uma verdade para a gente? Que tempo vale ouro, que tempo é dinheiro, que a gente precisa produzir senão perde tempo, que perda de tempo é suspirar ou não trabalhar, que inútil é quem não aproveita o tempo, que o tempo voa. Bem, as mulheres também voam, falou o senhorzinho da Plaza de Toros.

E ela embarcou no vento, sem achar nada.

terça-feira, 12 de julho de 2011

micro trend: maybe this is 'something'




llama, contesto, invita, voy, habla, escucho, comparto, acoge, me toca, le toco, me abraza, me aprieta, le abrazo, le beso, me besa, juntos llegamos a las sábanas, al amor huidizo que dura mientras dure, aunque dure. Enseguida, coge su ropa, cojo la mía, dice cualquier cosa, escucho, yo en silencio, él también, un vaso de agua, el tiempo urge, hay que–, la despedida a la carrera, vete, vate, un abrazo por formalidad, a veces no hay beso en la mejilla, la calle, mi sudor, su olor, nuestras sensaciones. Me callo, se calla, me enredo, desaparece, vida/ vida/ vida/ vida/, escribe, escribo,

llama

quarta-feira, 1 de junho de 2011

intermitente

No sé cuanto tiempo tardó para que se decidiera, concretamente, lanzar la “Little Boy” sobre Hiroshima. Cuanto tiempo entre una decisión, una orden, la acción y el hecho. Entre apretar un botón y la destrucción. El primero tiro en Bagdad. La primera muerte en Srebrenica, en Ruanda. La primera explosión en Afganistán, en Sudán, no sé dónde.

La pequeña grande destrucción de que he participado quizás no haya durado más que una hora. Ataques vehementes de un lado hacia otro, disparos agudos y precisos. Una bomba cargada de distopia. El anuncio de la guerra ya había sido dado días antes; los dos lados sabían que todo iba terminar en sangre, pero era difícil creer cuando el cielo estaba todavía azul, sin nubes, y el aire dispersaba cariño. Habían sido semanas de una delicada tesitura de compañerismo y confianza. Pero el mensaje vino de nuevo, corto y mordaz. Me parecía todo en tono de broma, intenté un desastroso acuerdo de paz, no puse mucha confianza de que el fin estaba al costado y expuse mi corazón. Empezaba a aprender, por fin, a deletrear: a-m... Me equivoqué; soy una pésima estratega de guerra. Pésima.

Todavía me encuentro aturdida. Miro alrededor y solo veo huecos, pensamientos quemados, fragmentos sucios de abrazos partidos, huellas inconclusas. Ole feo, siento sed, escucho la tierra ardiendo por dentro, con un dolor por ahora insoportable. Tal vez no sea posible plantar en los próximos tiempos, tampoco se pondrá una carpa, una hamaca, un huerto.

Tiempos antes, uno de eses viejos combatientes de otras épocas había pasado por aquí hablando de la necesidad de una ‘voluntad de hierro’: en contra la desolación, mi reina, que no te pierdas a tú misma. ¡Ánimos!

Soy una víctima-villana de guerra: una herida inmensa, manos sin uñas, pies despellejados, sentimientos destrozados, cara desfigurada. Busco ahora justamente esa chispa que me hará ver que la vida es seguramente más testaruda que nuestros miedos y vanidades.
Voluntad de hierro, mi reina. De hierro!

atônita

Tentei fazer brigadeiro, que não deu ponto por causa do calor e do leite condensado, excessivamente líquido. Mas as bolotas esparramadas ficaram tão gostosas que acabei por aceitar a impermanência das formas e desfrutar da experiência. Choveu repentinamente, mas logo o sol voltou como se nada tivesse acontecido. O céu também fazia seus brigadeiros esquisitos. Por isso, dei pouca importância às roupas molhadas no varal. Confesso: dei pouca atenção ao cotidiano em geral nesta segunda-feira.

Ainda estou atônita observando esse “¿” que apareceu assim, de modo displicente, em minha vida. Uma provocação, uma pergunta, um início de indagação, uma questão caída por terra, uma iluminação que escorregou do céu. Não sei. Um certo tipo de amor inexplicado e inexplicável. Um espanto às avessas é uma certeza travessa? Quem saberá... Eu pouco, quase nada. Tergiverso, eu sei. Tergiverso versos túrgidos e inversos.

¿

Não sei o que dizer. ¿ – e me ponho toda sentimental, quase edulcorada. Enrubescida e doce. Olho pelo espelho, mas não descubro todas as respostas. Imagino que seja fruto de uma saudade antecipada gerada por uma vontade de grudar nele e não sair mais dali. Não quero participar de sua rotina e de suas noites curtas, permeadas de sonhos com anjos caídos ou armadilhas no chão escuro, armadilhas cobertas por palha ou grama. Erros irrecuperáveis, certa vez me disse. Tampouco quero sexo – por algum motivo, ele alcança minha alma, mas não chega a meu corpo. Quero as manhãs de sábado, passando as mãos por seus poucos cabelos, escutando suas histórias. Quero as noites de sexta, compartilhando cervejas e filosofias e depois sua geografia. Quero as tardes de domingo, entre o sol e a janela, percorrendo de trem caminhos de belezas diferentes e tocando de leve sua mão. Assim.

¿

¿, não sei o que lhe perguntar. Nem o que lhe responder. Não tenho o que lhe dizer. Meus comentários estão supérfluos diante de minhas sensações. São muitas e ainda parcialmente catalogadas. Há várias endêmicas, que só acontecem aqui. Bem aqui.

Pois talvez eu deva voltar à cozinha e preparar algo mais complexo, que exija fermento e muita farinha. Talvez eu deva lavar novamente a roupa, estender minhas dúvidas e molhar quaisquer inquietações a fim de ver se brotam. Às vezes ocorre de aparecer um toco de esperança ou de violetas, e assim a vida se torna mais palpável, compreensível.

domingo, 15 de maio de 2011

Señal de los tiempos




Eran calles extrañas, demasiado púdicas, ornamentadas por bares de unas cuantas cañas y rebeldías efímeras, por edificios hermosos pero opacos, por plazas de todos y de nadie a la vez, una atmósfera de burbuja disuelta en el aire. Había llovido y ahí estábamos. Caminando.

Caminábamos consecuentes y cuidadosos, limpios y decentes. Casi no mojábamos nuestros zapatos en la resaca de las esquinas. No ofendíamos el léxico ni el manual de buenas costumbres. No provocábamos la gente que salía del metro o que aguardaba, con algún enfado, a su autobús. Sin embargo, no esperábamos que el semáforo se volviera verde a nosotros; pero tampoco avanzábamos límites. Estaba muy claro: yo termino aquí, tú empiezas ahí, no nos confundamos.

Era noche y caminábamos.
Yo buscaba alguna obscenidad, alguna pequeña tragedia oculta en la noche amena, alguna herida aún abierta. Pero era todo de una ligereza tan grande, tan fresca, tan deshumana que me aturdía. Las calles extrañas olían a una superficialidad premeditada y artificial, las vitrinas de las tiendas, las ventanas de los restaurantes, la gente en ropa de sábado, los coches en alta velocidad: todo parecía reflejar el esqueleto de una alegría que ya no estaba.
Parecíamos contentos.

Caminábamos por rutas ya agotadas de tantos recorridos. Rutas sin novedades. Rutas dibujadas de antemano. Y él me hablaba aburrido: ¿que es viajar sino recorrer rutas que ya están hechas?

Caminábamos porque todavía no era hora. No era hora de coger el tren, no era hora de despedirnos, no era hora de alimentar la joven y testaruda amistad que insistía en mantenernos ahí, andando lado a lado.

Pues lo que me hacen los viajes, yo decía en silencio, entrelíneas y con los ojos desprotegidos, es la descubierta misma de un pasaje que nadie ve y que te conduce a un camino salvaje y desvergonzado. Es la descubierta misma de un paisaje que te desorienta, te disturba, te saca de las líneas tan precisas de tus cuadernos de notas. [Él no me escuchaba, era noche, caminábamos, todavía no era hora de coger el tren]. Los viajes verdaderos, yo masticaba como si fuera una zanahoria infinita, nhac, nhac, nhac, te transforman en otro tú. Tienes, a cada viaje verdadero, que botar fuera los espejos y los calcetines que usabas inmediatamente antes. Viajar de verdad no es evitar las rutas que otros ya hicieron, sino evitar nuestras propias rutas, aquellas que ya conocemos hasta de ojos cerrados y bostezos al acaso.


Pero él no me escuchaba.


Era noche, se hizo tarde, llegó la hora del tren y, para captar algo de alma en aquella noche tan cálida y tan ausente de su naturaleza de noche, para captar algo de su alma, le cogí la mano y le di un beso.


Las calles seguían raras y mojadas. Las sombras ocultas por las luces de los edificios me miraron con fastidio y desconfianza. ¿Qué haces? Él me dio las espaldas. Yo había perdido algunos gramas de cariño: ‘todo lo que es sólido se deshace en el aire’.


La plaza era bonita por la noche y sonaba a película.
Busqué una ruta conocida. No había. Busqué una ruta dibujada. No sabía.
Fue entonces, en aquel momento, que ha empezado mi verdadera aventura. Era noche, ahí estaba. Caminando. Con la alegría espontánea de aquellos que saben que un día, en un minuto o en mil años, llegarán al mar.

sábado, 7 de maio de 2011

Nuvens carregadas





Podia estar bêbada ou enamorada que, neste exato momento resultava igual. O dia tinha estado denso, pesado, mas mesmo assim me desloquei por vias e avenidas com louvável leveza. O céu havia estado cinza, mas mesmo assim enxerguei cores, muitas, ouvi sons, muitos, senti demasiado sabores. Já não consigo mais separar a vida dele da minha. Ele está grudado em minha pele como um suor que não sai facilmente com água. Ele está grudado em minha pele como se me acolhesse num sentimento inominável para ambos, porém prazeroso. Não consigo mais conceber meu cotidiano sem ele – ainda que talvez ele nem se dê conta. Não nos vemos com frequência, quase não nos falamos por telefone. Mas existimos – e existimos ocupando grandes espaços de humanidade. E foi por essa expansão contínua minha e dele que nos tocamos. Nos tocamos assim, repentinamente, de jeito descarado e faceiro, supondo que havia um poço circundando o castelo. Mas não havia tal poço: e daí a potência do roce. Sucumbi, de livre e espontânea vontade, querendo não proteger-me. E agora me encontro no pântano das sentimentalidades intensas e imensas, quase sem me mover. Tenho dificuldades para ajeitar os ossos, os músculos, os suspiros. Ele está em todas as partes: no meu computador, nos meus livros, no iogurte do fundo da geladeira, nos meus sabonetes, no vapor que esconde o espelho depois do banho.

Eu não tenho onde me esconder.

Porque o quero amar. Quero amá-lo, assim, descomprometidamente, com algum desespero mas muita liberdade. Quero percorrer seus caminhos, tocar suas veias, beijar seus poros – dos mais ínfimos aos mais perceptíveis. Ele é o homem que ilumina as manhãs cinzentas e frustrantes e que preenche as noites solitárias. É ele quem preenche essa cidade que estranhamente me seduz e com quem deito todas as madrugadas.

Não sei muito dele e de seus descaminhos mais recentes (ou mais antigos), mas aparentemente tentou construir às pressas um poço. E se despedaçou. Recomposto, agora retoma o caminho de pedrinhas que o leva à torre mais confortável de seu castelo. Lá tem jantar, janela, uma companheira que aparece de vez em quando, companhias ocasionais de amigos paisanos, alguma paz de espírito. No entanto, ele parece não estar resistindo tanto. Baixinho, bem baixinho, quase segredando, me faz ver que há algo nessa alma minha, nesse corpo meu, nessa voz que tenho, nessa mulher que sou que o ajuda a encontrar sentido no caos da existência.

Por isso, tanto faz se estou bêbada ou enamorada, se hoje chove e amanhã desafina, porque de tão grandes já começamos a nos misturar. É por isso que não sei quando sou eu ou quando sou ele. Ele tampouco sabe se me chama ou se chama, porém aos pouquinhos nos acostumaremos ao susto. O susto!

Descobri que o espanto espanta a mesmice.
E eu o amo.



quarta-feira, 27 de abril de 2011

Distraidamente


Foi muito sem querer.
Como se alguém me tocasse o ombro, apontasse para ele ali na frente e me dissesse: é ele. Não pensei, não questionei, não titubeei. Sim, me disse a mim mesma, um pouco nervosa e cambaleante nos meus modos, nos meus gestos, olhos úmidos e pés frouxos, sim. E ali ele estava, inteiro, presente e, de modo inevitável, evidente.

Foi muito sem querer.
Certo dia me olhou diferente. Eu, com olhos cândidos desde sempre, nem notei. E então mergulhamos naquele espaço indefinido que não é qualquer coisa e tampouco ainda não é alguma coisa. Éramos, os dois, em nossos momentos mais límpidos: energia congelada, provocação domada, entrega verdadeira.

Foi muito sem querer.
Os dias seguintes tinham cor, tinham também cinza, trouxeram ventos estranhos e alheios, trouxeram sóis e diferentes planetas. Havia outras vidas além da nossa, daquela que nós dois havíamos criado por um fragmento de eternidade, uma vida que me pertencia só a mim e outra, diferente, que lhe pertencia apenas a ele. Nelas nos sentíamos seguros, um tanto de conforto e outro tanto de falta. Ausência da presença.
E, muito sem querer, aos pouquinhos, a vida que me pertencia não fazia mais sentido sem a presença dele. E sua ausência me doía aos bocados, um dia me apertava o coração, em outro me revirava o estômago, no seguinte me embaraçava os cabelos ou trincava os dentes. Meu sentir era físico e transcendente, era o próprio mistério, a conjugação de infinito e momentâneo, transgressor e tão romântico, ruptura e união.

Sonho com sua geografia, com sua geopolítica, com sua humanidade. Sua imensa humanidade.

Hoje brilho. Brilho contente com a presença desse mistério dentro de mim, reluzente e macio. Tenho medo de lhe dizer. De dizer-lhe: muito. De que, sem querer, ele responda apressadamente – sem sentir, sem mastigar – que não é nada disso. Que o mundo é muito mau e não permite transgressões dessa ordem. Que não lhe permitem transgredir até esse ponto. Eles, os outros.

Confio nele, mas sei que as feridas dos antes são sempre muito profundas para que se deixem corajosamente para trás de modo imediato. Confio nele, que me escuta, ainda um pouco espantado pela existência comprovada do mistério. Confio em mim, que sinto, sempre sem querer.

Porque, quando quero, não o encontro na lista das obviedades cotidianas. Estaria entre a aborrecida companheira de apartamento e o amigo colorido? Entre a cerveja e os queijos?

Foi sem querer. Como se eu tivesse deixado cair um vaso no chão e libertado os caracóis.
As nuvens, as mágicas arquetípicas, as plumas.
O amor.




sexta-feira, 1 de abril de 2011

¿Y qué?

Caminaba mirando hacia arriba, hacia a un lado y a otro, caminaba observando los formatos que mis pies adquirían mientras elegían pasos en calles angostas, en rutas inventadas por el casco antiguo, por la playa, por la montaña. Caminaba intentando ojos ajenos, sonriendo al viento, intercambiando aire con el mundo afuera. Caminaba. Caminaba casi volando, volaba como si caminara, suponía alas mientras imaginaba cielos, nubes, estrellas. Mi realidad tenía sabor de fresas grandes y vinos negros, muy oscuros. Mi realidad era roja y yo no me había dado cuenta; mi realidad no era completamente dulce, pero aún así me parecía sabrosa. Y de súbito ya no caminaba más; me encontraba parada, plantada, fincada en un sentimiento grande, grande, grande aunque pequeñito. Gritado aunque discreto. Mío sin ser mío. De súbito todo había cambiado: mi reflejo en el espejo tenía colores y texturas distintas. Mis oídos buscaban un cierto acento, mi saliva un cierto silencio. “¿Tú me escuchas y qué?” Sí, sí, sí, yo le escuchaba. Lo sentía dentro de mis sueños y de mis pesadillas, yo lo sentía tan entero que a veces pensaba que me transformaba en él apenas por unos segundos a fin de descargarlo de tamaña intensidad. Soy demasiado humano. Yo también. Demasiada humana. Pero él es tan inmenso en su hombría, en su dignidad que me siento invisible. Y, invisible, no soy vista. Él no me ve, casi no me siente. Yo que caminaba ahora me quedo inmóvil; busco inútilmente pinturas y rellenos que me puedan hacer visible. Él mira hacia lejos, lejos, lejos y alto, y yo estoy cerca, casi a una docena de pasos. Mi realidad era roja y yo no había dado cuenta. Ahora llena a quemado, carne quemada, un amor oculto e interdicto. Un gran laberinto. “¿Tú me ves y qué?”

quinta-feira, 24 de março de 2011

un cuadro

A la querida amiga Claudia Pimienta,
cuya muerte prematura me rellenó de tristeza y saudade









Y un día estás ahí, terminando de pintar un cuadro, en duda si eliges el lila o el morado – que la gente apresurada siempre dice que da igual, que es como usar sinónimos en poesía, que uno no si da cuenta, que es un preciosismo de artista, que a la vida real poco le importa eso de diferencias sutiles o tonos hermanos –, y entonces estás ahí, terminando de pintar un cuadro, un cuadro que fue costoso de empezar, todas esas mezclas de tintas que olían a recuerdos ni siempre amables, los pinceles novedosos y por veces rebeldes, estás ahí intentando avanzar en las texturas y el lienzo que te pide más y más entrega, y consume más y más tinta, no sabes si te metes entera, si usas acrílico o óleo o pasteles, si todo, si nada, estás ahí delante de esa pintura tan densa y no avanzas, lloras, tienes hambre, quieres dejar todo y salir volando del balcón, te olvidas de las horas, ensucias los dedos de tinta amarilla cuando tu tono interno es azul, ya pareces crear algo nuevo cuando quieres simplemente borrar equívocos, pides perdón al sol por te estar donando tanto a las estrellas en los últimos días, te entregas al mar cuando la temperatura se vuelve más calida, y sigues con los no-dibujos, te sientes compartiendo puros sueños con el lienzo, te deshaces de las medias cuando te pones de rodillas para regalarle a la pintura un efecto de luz, tu propio efecto te afecta, necesitas de música y silencio alternándose vorazmente, ahí estás con tu cuadro, es tuyo y no es, te ves desnuda en él, completamente, totalmente, te ves en los ojos de él, buscas aquel azul que es suyo, sientes el olor de hombre que sales del cuadro, paras la pintura para estar con él durante un rato, mirándole, mirándole, indagándole en silencio por que se va, por que se va justamente cuando, el cuadro también te pregunta: por que te vas si no me has terminado, tu vuelves y lo terminas, terminas una botella de vino, terminas la sed antigua porque ya has encontrado una fuente nueva, y mientras estás ahí, terminando de pintar aquel bendito cuadro, en la duda a veces banal entre el lila y el morado, en la duda a veces crucial entre el dulce o el amargo, estás ahí con las rodillas jodidas, las medias rotas, el cuerpo ardiente del amor hecho recientemente, los dedos sensibles de tanto color, de tanto ardor, los labios llenos de ternuras, oídos en franco aprendizaje de las sonoridades embarazadas y también de las brumosas, entonces estás ahí, terminando el cuadro, es día, hace calor, tienes un poco de frío y no sabes por qué, estás ahí, sintiendo la vida que te brota como flor en tus senos, en tus manos, entre tus piernas, entre tus brazos, pura recreación enamorada del existir, estás ahí


terminando

aquel cuadro

hace calorcito afuera

mantienes las cortinas aún cerradas sin que sepas el por qué

cuando te llega el mensaje.


El cuadro todavía hace sentido, hace mucho sentido, el cuadro eres tú, pero el cuadro que casi está terminado, el cuadro aún inconcluso, la pintura que es tan tuya tiene de incorporar el hecho de que ella, la joven amiga, ya no existe más en ese mundo de las cosas concretas y palpables. Que ella, la joven amiga, tiene que virar luz, tono, color, sombra, brillo, retomar vida otra sob tus pinceles.

¿La muerte es lila, es morada, es negra, es blanca, es acrílica, o se pinta con óleo?
Tus rodillas te joden, tu no te olvidas de la presencia de él en tu cuerpo, no sientes sed ni cansancio, ya no te importa si no hay más blanco, pero es inevitable que ahora las lagrimas se caigan sobre las tintas volviéndolas acuarelas, rellenándolas de esperanza triste.

¿Por que moriste?, preguntas al viento indeciso de irse o de estar y abrazarte. Nadie sabe. Derrumbas un vaso, un suspiro, migajas de pan nuevo, gotas de tinta en el piso. Puro rojo sucio, puro sentimiento neblinoso. Agradeces a ti misma por creer en Díos. Y en el misterio. Y en el amor. Por pintar.

Y entonces pintas el cuadro con mucho más pasión, como si el lienzo fuera tu corazón aturdido, desconcertado, descompuesto, humano, sublime. Tú pintas el cuadro más sincero de tu vida porque lo cargas de verdad, de la verdad de que la vida es noche de amor y mañana de duelo, tarde de calidez y sonoridad, silencio y reflejo, dobles y únicos, contradicciones, la vida es lila y morado todo junto, todo a su vez, un work-in-progress casi siempre terminado.

Casi siempre terminado.
Pero que se termina. Pero que sigue continuando, redundante, petulante, desafiante: la vida y tu cuadro. El cuadro de tu vida. Tú misma delante de la vida y de tu cuadro. Ahí estás.

*

Y un día estás ahí terminando de pintar un cuadro, otro. Y...

sábado, 12 de março de 2011

each other

"E de repente me sentia protegido, você sabe como:
a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito fazendo sentido."
(Pequenas Epifanias, Caio Fernando Abreu).

video

(First scene: Exit of Metro Verdaguer towards Passeig Sant Joan. Sunday afternoon. He reads a book sitting on a garden seat.)


— Excuse me, is it you?
— Sorry?
— Is it you?
— No, definitely I am not. I’m not waiting for someone.

(…)

(Second scene: still at Passeig Sant Joan. Sunday afternoon. She’s sitting next to him on another garden seat. He keeps reading, she writes on a small moleskine).


— Sorry, are you waiting for someone?
— Yes, I am.
— Is he or she coming?
— It’s 'he'.
— Is he coming?
— I don’t know… Actually I thought he was already here.

(…)

(Third scene: Sunday evening. They are still sitting one next to the other one.)


— Listen…
— Yes?
— Let me introduce myself: Pablo.
(She smiles.)
— Hi, Pablo. Nice to meet you. I am Fernanda.
— Portuguese?
— Brazilian. You...?
― I’m from here, I’m Catalan.

They start to chat. They talk about so many things… They find coincidences in their way of thinking, they got excited about their differences, they decide to walk around and share a bottle of wine.


(Fourth scene: another Sunday afternoon. They are sitting together at the same seat at Passeig Sant Joan.)


— You haven't told me yet: who were you waiting for last Sunday?
— For you.

(Silence. Birds are heard nearby).

— So… it was me.
— Yes, but we figure it out just now.
(He smiles.)
— Yes, now we know it.

Then they kiss each other.
They kiss again.
They continue kissing each other.
They remain there, they don’t run away, they don't.


Whatever it is the “great end” of this short story, it doesn't matter. In fact they were especially happy at that moment – and it’s all about that.

It's all about that. Definetely.

sábado, 5 de março de 2011

TARÔ



Aquele dia você me viu de vermelho e logo intuiu que havia algo aí relacionado com amor. Dizem que o amor é lilás, na verdade, que o enamoramento seria róseo e que as paixões e loucuras do desejo oscilam entre o vermelho e o bordô. Importa? Não sei. Aquele dia você me viu, me viu de vermelho, e logo lhe ocorreu a imagem de um caldeirão medieval, comandado por uma bruxa muito sexy, dessas com decote e cinta-liga, misturando uma agressividade animal com uma delicadeza de anjo. Borbulhas, borbulhas, a mistura ferve, e em seguida se acrescentam atitudes masculinas a um ventre feminino. Sangue, muito sangue, sangue humano, sangue de mulher. E unhas, unhas compridas. A mistura borbulha, borbulha, fervente. Enquanto a bruxa sexy cuida de sua poção mágica – pitadas de lucidez, pitadas de Deus, fagulhas, muitas fagulhas –, chega o Homem. Entra discretamente. Homem – cabeça, barba, coração, pênis, pernas, pelos, sêmen, intestinos, inteligência, faro, testosterona, cabelos, pés, mãos, ossos, músculos, força, fé, fome, ternura, compreensão, homem. Ele. O homem arquetípico. O imperador? O sacerdote? O louco? O Homem olha a bruxa – bruxa não no sentido atual e mau, mas principalmente na síntese de Lilith, desafiadora e voraz – e ela se surpreende com a presença do Homem.

O decote é apenas um convite.
O homem não é apenas etéreo: ele tem uma ereção.
Os lábios. Os lábios dela estão vermelhos, tintos, veementes.
As mãos. Dele. As pernas. Dela.
Ventanias nos ventres.
Vozes, gritos, sussurros, músicas.

A mistura ferve, ferve, ferve. Borbulha, borbulha, borbulha.
Algo se passa ali: algo cai no caldeirão. Não se sabe se é suor, se é gozo, se é saliva. De um deles, de ambos.


Aquele dia você me viu de vermelho e intuiu de onde venho, de que sou feita. Aquele dia lhe ocorreu a imagem do encontro da bruxa com o Homem. Aquele dia você riu, um tanto bêbado, um tanto pícaro – indecente, eu diria. Ah, o amor? E gargalhou. Eu vestia vermelho e me alimentava de vinho. Vinho e açúcar, açúcar e espinhos.
Pois é, há aí algo relacionado com amor. Ou com as paixões, o desejo. Tudo ficou evidente naquele dia... Naquele!

sexta-feira, 4 de março de 2011

Mujer Poeta

(Sitges, España)




Perdón, Neruda.
No te he conocido en vida – no organicé tus cartas, no revisé tus poemas, no escuché tu susurrar mientras buscaba la palabra perfecta o la imperfección justa para una rima precisa.
No soy una poeta. Tampoco lancé botellas al mar con la ilusión de que alguien un día las recogiera; solamente he dejado notas en bolsillos ajenos sin esperanzas ocultas, apenas por el placer de semejar posibilidades narrativas a vidas grises.
Neruda, jamás he publicado un libro. Pero me dejaba estar horas delante del mar inventando nubes, alegrías o platillos para el alma. Horas, Neruda, horas.

No he cambiado el rumbo de la humanidad, pero he estado siempre muy atenta a los designios misteriosos que ordenan las piezas invertidas o contrarias en la vida de uno. Te podría describir olores escondidos entre las piedras del camino. O los sabores de atardeceres olvidados, cálidos y húmedos, preciosas sinfonías silenciosas del cotidiano. Te podría dibujar sonidos demasiado agudos en el comportamiento de algunos amigos o recitar momentos del más bello y puro dolor. Todo eso lo hice, Neruda, mientras cuidaba de algunas violetas, de una orquídea blanca y de un olivo enano. Mientras cocinaba para gentes alrededor, fijaba si las sábanas seguían limpias, si entraba luz por la cortina de la sala. Si todavía mi rostro aparecía en el espejo.

A veces, había demasiado polvo en la cama. Los inviernos casi congelaban el vidrio de la terraza y ya no tenía fresas en la nevera. Aún así, Neruda, aún así no he dejado de coser pequeños sueños y detalles para los vecinos.

Pues sucede que un día me sentí cansada de ser mujer. De cargar senos, útero, vagina, uñas largas, nalgas aparentes. Cansada de ser mujer, de esa sensibilidad que me hace llorar con un reencuentro, enamorarme de la luna. Cansada de escuchar otras mujeres en sus búsquedas tan arquetípicas y casi histéricas. Cansada, yo misma, de ser histérica – o agresiva, o romántica, o delicada, o celosa. Sucede que el sentimiento ya no pasa. Que me siento cansada de los fragmentos de Eva, Lilith, Medeia, Penélope, Helena, Madalena… que componen mi cuerpo y mi corazón. Estoy cansada de ese cuerpo, de ese corazón. No, Neruda, no quiero enfrentar las mañanas calientes con una falda corta y deseos infinitos. No suporto más la satisfacción en devorar una sandía o la necesidad de tanto, tanto, tanto silencio.

Hay demasiado ruido en el mundo – y yo me siento cada vez más excluida, encarcelada, insultada, violada. Sucede que el cansancio puede ser vigoroso y insomne y llegar a convencerme de que soy exageradamente ligera para el peso de la feminidad. Parece que no hay lugar para un simple baño de sol sin pensamientos ni hablas.

Pues poco a poco empecé a guardar mis trozos de silencio reprimidos en frases y párrafos inadvertidos. Con el tiempo ellos se volvieron cuentos y poemas traviesos, trabajados con la paciencia de un monje, con la soledad de un eremita, con la solicitud de una hembra salvaje.

¿Quien los leerá, Neruda? ¿Cuando se los leerán?
No sé, y la respuesta poco me importa. Sucede que estoy cansada de ser mujer, pero tampoco sé existir de otro modo. Y escribo a fin de evitar que mis silencios mueran, escribo sin que el mundo sepa – solo así ellos sobreviven, solo así puedo yo vivir.


quinta-feira, 3 de março de 2011

goteo, goteo

Viento frío. Lluvia que no para. Por favor, lluvia, déjame en paz un rato. Gotea. ¿Quién habrá dejado la llave abierta? Gotea. Gotea. Gotea desde mi vaso tumbado sobre la mesa. Pero el vaso está seco desde hace tiempos. Agua. Hoy el mundo es pura agua – adentro, afuera, entre mis piernas, por mi boca, explotando desde mis ojos. Agua que escoge por mis mejillas calientes y rojas. Agua dulce, agua salada. Gotea. Goteo yo. Lágrimas. Viento frío. Noto que la orquídea ya perdió una de sus flores. Qué triste, pero así es. Noche. Oscuridad. Y las gotas.

*
*
*

Una, dos, diez, miles, millones.

* * *

No respiro. Me ahogo a los poquitos.
El mundo ya se volvió un gran océano de llantos nuevos, antiguos, futuros, inventados e imprecisos. Un océano que me traga – me traga por la mitad, siempre la mitad, chupa mi alma y me devuelve mero cuerpo, cuerpo desnudo y marcado, cuerpo desnudo y helado, me devuelve mero cuerpo a una de las tantas arenas débiles de continentes duros y infértiles de una humanidad miedosa.

“ ”

Ele já não me vê.
Il n’est plus là. Il y était. Il y sera de nouveau?
Ele sabe que estou aqui. Quase comete uma indisciplina. Deixa escapar um cumprimento breve. Desenha uma brisa e se vai. E se vai.


* * *
No te vayas, yo diría.

Frío. Viento. La calefacción está prendida. Un boceto de sonrisa. Hay música lejos, lejos – chispa, lámpara, fuego. Pero gotea. Gotea. Mareo. Cuento las gotas hasta que venga el sueño.

*

*

*

Y cuando cierro las cortinas, te veo pasar apresurado por las calles tuyas de siempre sin mirar al lado pero con las cejas cerradas, con los labios apretados, con un pensamiento rebelde y huidizo.
Pois é, você não me vê.
Mas me escuta.

Así que goteo.
Goteo intermitente. Compito con el mar, evaporándome al revés. Lluvia. Frío. Y, mientras, te evaporo suavemente hasta.
“ ”

*
*
*

Je t’en prie.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Voo dos flamingos


Era isso e pronto. Um homem! Resolução de manhã cinzenta: um homem. Basta de aventureiros e iniciantes. Um homem! Alguém que, com o peso de sua experiência, percorra meu corpo respeitando o tônus exato de cada reentrância, de cada curva, de cada pedaço meu. Alguém que, com o peso de suas escolhas, respeite cada suspiro, cada indignação, cada arranhão. Alguém com quem possa partilhar aspirações coletivas e desejos íntimos. Um homem que me ame com a dignidade de homem e que receba, digno, meu amor de mulher. Um homem que já tenha ultrapassado limites, que (justificado ou não) já tenha se deparado com a própria selvageria, o lado mais primitivo e impulsivo de si mesmo, e agora, plácido e saciado, apenas flutue no oceano das vivências. Que tenha memórias de fugas nebulosas em florestas tropicais e sonhos de aconchego em ventre brasileiro (o meu), que sinta fome de mim e que me alimente dele, de sua alma e de seus fluidos. Um homem que às vezes possa ser meu barco, em outras minha boia e em muitos momentos meu marinheiro. Um homem que me abrace como se eu fosse a única mulher do mundo, ainda que imperfeita e irreverente, inconstante e impertinente, e que aprecie esperar a madrugada a meu lado apenas sorvendo raios mornos de luar – e meus sucos, e meus sulcos. Um homem que se delicie ao passear por minhas frases e sintaxes e que se ofereça a mim na mais pura literatura. Ah, juntos poderíamos percorrer as montanhas, as praias, a Amazônia. Juntos poderíamos falar de justiça, subir na próxima flotilha da liberdade e fazer amor. Aí sim: amor. Amor com cheiro de terra úmida, de manga doce, de jasmim ao anoitecer e de felicidade.

Assim pedi em minha oração mais íntima.
Clarice o chamou de Ulisses e o apresentou a Loreley.
Eu o chamo de Y. Por enquanto, sou apenas X.

Voaremos juntos, flamingo.



* Ulisses e Loreley (Lóri) são personagens de
"Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

m*i**c*u*e*r*p*o



Tengo un cuerpo. Este. No es un cuerpo griego, lamento, tampoco bíblico. Pero es un cuerpo de Lilith, que me pertenece. A mí. Un cuerpo entero, pleno. Un cuerpo abrahámico, un cuerpo ancestral. Salvaje, primitivo, lleno de cicatrices de historias. Las mías. Cortes, heridas, transiciones, transcendencias. Mi cuerpo. Este. Un cuerpo político, un cuerpo contradictorio. Un cuerpo con olor a sexo y pureza. Un cuerpo agresivo, imperfecto, harmónico en sus desarmonías. Este cuello, este culo, estas nalgas, estos senos. Medidas que no siguen reglas. Panza. Codos. Rodillas. Pelos. Tengo brazos, largos y delgados, ligeros. Manos que empiezan y terminan en uñas. Animal. Hembra. Tengo un útero, una vagina dispuesta y disponible. Carne, comida. Fluidos. Flujos. Sangre, sangre. Un cuerpo, mi cuerpo. Marcas, manchas, entradas y salidas. Piernas, espalda. Un cuerpo con cara, ojos, boca. Una boca hambrienta, boca de hembra hambrienta. Mi cuerpo, un cuerpo que es mío y único, un universo encerrado en si mismo, un camino desconocido. Pies llenos de secretos. Los míos.


Tengo este cuerpo. Este. Aléjate. Déjalo. Vate.
Olvídate de mis manos.
No toques mi cuello.
Devuélveme mis ojos, mi boca de sonrisas, mis sudores, mis palpitaciones.
Revuélveme.
Destrózame.
Toma mi aire, mis gritos, mis rumores más íntimos, mis suspiros.
Pero me devuelva las estrañas, las sañas, los furores.


Saca eses besos que pegaste en mi piel.
Coja la savia que me metiste entre las piernas cuando me follaste, todas las veces en las cuales me follaste.
Borra las ranuras de de tu pasaje.
Vate.


Este es mi cuerpo. Mío. Un cuerpo que sigue su historia sin tu presencia.
Un cuerpo vivo, túrgido, urgente.
Mi cuerpo.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

¿y yo a dónde fui?



Estaba todo bien hasta que cogieras mis manos de aquel modo. En aquel momento, en aquel sitio, dónde cualquier acto más allá de la simple conexión rutinera sería considerado mera fantasía de mi parte. Ves demasiado, chica. Ves demasiado. Sientes demasiado. Quieres demasiado. Eres voraz. Pensaste, pero no me dijiste. Me lo dijo otro en vez de ti. Porque a ti te gusta que sea así. Aunque no puedas, aunque nos repitas, a mí, a ti y a nosotros:

No puedo.


Te arrepentirás.
Yo lo sé.


Tampoco yo puedo. No puedo dejar que mis manos sufran por hallazgos que las tuyas no podrán cumplir. No puedo aceptar el mensaje que viene por tus dedos, por tu piel, por tu sangre mientras tú me lo repites: no puedo. Entonces, no podemos. Sin embargo, no podemos. Pero no podemos. Así no podemos.

No debías haber cogido mis manos de aquel modo. Debería ser prohibido a un hombre avanzar sin avanzar, protegido por las reglas, las buenas costumbres, los roles y las prohibiciones todas (no sudes; no palpites; no te sobrepases; no cruces los límites de la cintura o del cuello). Pero ahí estabas, pidiéndome que te acogieras en mi abrazo, en mis cariños, sin que pudiéramos.

Y entonces me miraste en los ojos: oye, espera, no te vas, termines lo que empiezas, ¿qué quieres?


Un-segundo-que-parece-haber-tardado-toda-una-eternidade-y-eso-no-es-un-cliché.


— Ojos color de miel, este color es mío también, mi barquito está listo para partir, Isla Desconocida, ¿Saramago?, pues sí, te he descubierto unas canas, pues sí, son mis compromisos ya sin sentidos, pues sí, te he descubierto tan llena de secretos como tu piel es cubierta de manchitas, pues sí, son herencias de mis otras vidas, pues sí, te he descubierto mujer, te he descubierto hombre,


No puedo.
¿No puedes o no quieres?


El otro me lo dijo claramente: no quiero. No quería y no era. No cogió mis manos, no me miró en los ojos, no me hizo preguntas, solamente me dio la espalda y desapareció entre los grises y las dudas. No lloré, no me entristecí, no lo extrañé. No podía, de hecho, no podía. Fue un paréntesis, una disculpa, una copa de cava ya sin burbujas. Pero tú,

¿No puedes o no quieres?



Empiezo hoy a usar guantes.
Mañana, tal vez, lentes de sol.
No quisiera irme, pero tu permitirás que vaya. Porque no puedes, sigues diciendo, aunque creas que puedas y que eso te genere tanto miedo, tanto miedo.
(Con tu miedo yo no puedo.)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ressurreição



"... porque se seu mundo não fosse humano ela seria um bicho." (Clarice Lispector)

O dia em que você viu meus excrementos quase chorei. Corri para dentro do sótão de mim mesma e lá fiquei por horas, evitando comer, evitando abrir as janelas, evitando dissolver-me. Tentei purificar-me desesperadamente, sorvendo os tímidos e aquosos raios lunares que teimavam em invadir minha momentânea escuridão. Os dias seguintes foram densos de vergonhas e suores. Cavei caminhos subterrâneos apertados para me movimentar pela vida e evitar olhar nos meus próprios olhos e nos olhos alheios. Dormi mal, não suportei sentir os ruídos que vinham de minhas entranhas. Pois, diante de você, expus espontaneamente minhas mais íntimas fragilidades, restos daquilo que fui e não consegui digerir apropriadamente. Evacuei discursos, gritos, galhos, gomas, temores e sofrimentos perdidos, passados, confundidos, apodrecidos. Você viu meu avesso – e o avesso de meu avesso: meu recomeço. Se minha nudez havia deixado de ser pudica há muito tempo – as ranhuras do desejo que tiram os poros do lugar, você me dizia –, eu deixei de ser pura no momento em que excretei. Pequei e confessei, ainda que tenha me custado reconhecer minha sujeira, minha humanidade pastosa, os joelhos escuros, as unhas manchadas. Se houvesse vomitado, se houvesse regurgitado... teria sido mais higiênico e aceitável, mas não verdadeiro e inteiro. Chorei de verdade quando me senti no deserto, sedenta e faminta, em jejum completo, lambendo a areia das pedras, mendigando minha própria saliva e dor, sozinha e desamparada. Fugida das constatações de mim mesma, de minha imagem refletida em vidros, lagos e vidas. Mas o desamparo foi passageiro, porque você não foi uma miragem: a firmeza e doçura de suas palavras me abraçaram longa e ternamente por minutos plenos de planos. Vem, você falou, vem para a varanda. Vem, você repetiu, acolhe seu adubo, meu adubo, nossas fraquezas e as raízes de nossa perseverança. Fui broto abrindo os braços dentro da semente de casca fina naquele instante: toquei os grãos de terra, toquei a seiva do amor. Ressuscitei gente.

Hoje produzo leite, leite e fervor, fervor e calor. Nutro os frutos nossos – sem mais receios de excretar o que é excesso, quando é preciso.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

el universo de los jorges

El sonido que me entraba por la ventana no parecía del viento, el viento ese que se hacía de protector de mis tristezas o de mis desventuras. No: el sonido era otro. Salía de la garganta del mundo como un grito gutural, generado por las entrañas, entrañado en las genealogías de la humanidad. Era un nombre reverberado en las calles, en las montañas, en las esquinas, en los caminos de arena o en las carreteras salvajes, entre sábanas o sillas, en manos fuertes y miradas románticas, en barbas y cerros, pies grandes y a veces crueles. Un nombre que perdía el dulzor cuando pasaba del portugués al español. Que ganaba virilidad cuando pasaba del frío de los espacios ajenos para dentro de mis rutas sonoras rebuscadas.

Jorge. Jorge. Joooorge. Jorgeeeee. Más allá de la ventana, más allá de la montaña, más allá de la garganta, más allá de los pasillos seguros de mi casa. En aquel momento, un tanto atónita, muy agobiada, visiblemente nerviosa, yo me vía cercada por ‘js’ y ‘gs’ con todas las conjugaciones posibles. El mundo estaba lleno de hombres. Hombres de todos los tipos, tamaños o edades. Hombres en sus timbres graves. Hombres furiosos, hombres delicados. Hombres grandes-grandes-grandes. Y pequeños-minúsculos. Hombres grises, hombres volcanes. Hombres profundos, hombres monocordios. Todos ellos Jorges. El mundo (¿o mi mundo?) se había tornado un universo de Jorges, una gran población que me miraba curiosa cuando yo gritaba el mismo nombre.

Al inicio intenté volar. Huir, desaparecer, ocultarme, correr hasta la playa más cercana y embarcar en un navío hecho de hojas de diccionarios fonéticos. Subir el tono de las músicas, aumentar mi propia voz, mis cantos ocultos, los ruidos discretos de mis pasos agitados. Poquito a poco, me fui dejando estar en ese mundo raro y denso, un mundo de varones que en su nombre cargan parte de la historia del género humano: Jorge es aquello que trabaja la tierra. Jorge – con sus ‘js’ y ‘gs’ – es aquello que lanza las semillas y que cosecha. Ni siempre planta lo que cosecha. Ni siempre cosecha lo que planta. Jor: la fuerza que invade. Ge: la fuerza que saca. Yo tambaleaba. Trastabillaba sobre mis aparentemente frágiles defensas. Mi primer nombre – María – significaba ‘señora soberana’, ‘fuerza vital’. Quizás ‘tierra’. Mi segundo nombre, Fernanda, ‘batalladora incansable’, ‘osada y creativa’. Quizás ‘trabajadora’. ¿Entonces los Jorges eran trozos imaginarios de mis significados más escondidos?

Pánico, desmayos, boca seca. Por fin, la paz.

Fueron tiempos aquellos de inspiraciones infinitas. De sonrisos y de rudezas. Fueron tiempos, especialmente, de aprendizajes distintas: del más puro contacto entre estrógenos de doble nombre con testosteronas homónimos y tocayos, pero tan tan tan diferentes. De mis manos atrevidas y sus uñas largas con espaldas muchas veces indóciles. De sueños un poco ácidos con suspiros llenos de poesía. O dolor.

Un día el sonido ya no entró por la ventana. Creo haber despertado aún un poco tonta por los vinos y risas y hallazgos de la madrugada y solo me di cuenta mucho tiempo después que había un silencio raro, un silencio no silencioso. Un silencio relleno de nombres femeninos y masculinos, muchos, muchos, muchos. Un silencio recreado por vocales y consonantes dichas de todas las maneras. Había sol afuera, la playa que no vía pero sabía que existía, y hombres llamados Gabriel, Rodrigo, Josep, Miguel, Felipe. Había un hueco en los sonidos del mundo. Mi habitación estaba rellena de los sentidos de María y de las ganas de Fernanda. Pero ya no encontraba señales de aquel universo de masculinos tan potentes, los Jorges de tantas descubiertas.

Hasta que pasé por aquella puerta y me deparé con cuatro. Cuatro Jorges. Y ahora me pregunto si son recuerdos o si son promesas, si son reales o invenciones. ‘Hay más cosas en el cielo y la tierra, mujer, que las que sospecha tu filosofía’. Así se lo han dicho. Así me lo he escuchado.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

aridez





há dias em que a água se torna escassa e some o rio, e some o mar, e some a chuva, e some até o sentir da gente. há dias em que o sorriso resseca, o abraço atrofia, não existem mais beijos ou cometas. há dias em que o verde conspira contra e que uma infinidade de invenções escondem as verdadeiras vontades. são dias. mas dias que se desfazem tão logo se tornam ocos. ocos ocupados por formigas que aprenderam a não chorar, mas a poupar agruras. nesses dias secos, sonho. sonho e sumo, sonho e somo, sonho e húmus.

sanguessuga


Sedenta. Faminta. Insone. Ofegante. Cheguei à beira do rio, lambuzei a sola dos pés na areia quente, no barro ardente. Já passava da meia-noite e a terra conservava o fervor de dias inteiros escaldantes e intensos de ousadias. Suava. Eu suava enquanto sentia a água gentil acariciar meus tornozelos indignados. Não, eu me engolia, não, eu lhe dizia, não, eu contestava, não, eu escutava, não as ruas, as chuvas, os postes, os montes, não as lágrimas, os perdões, as voltas, os vultos, não então? Suava de haver corrido, suava de haver morrido e ressuscitado umas quantas vezes, suava de haver amado, amado desesperadamente, inconsequentemente, palavras grandes e longas, sentimentos solenes e urgentes, advérbios bem colocados e evocados com tanta compaixão. Havia, portanto, amado suntuosamente. E a grama que roçava meus dedos cheirava à cólera, cheirava à calma, cheirava a contradições várias, cheirava à alma. Meus pensamentos pesavam, sobravam, escorregavam de minha cabeça ofegante, insone, faminta, sedenta e espatifavam-se no asfalto da estrada nua e crua que acolheu o meu fugir. O meu desgrudar. O meu reinventar. Sobravam, portanto, gritos surdos e macios quase a ponto de escapar de meu coração:

Por quê?


Por quê?


E agora?


Cheirava-me à alma, cheirava minha própria alma em busca de consolo. Embebia-me na água do rio, mas morria aos pouquinhos de sede. Outra sede, não a sede de todo mundo, de todos os dias, de todos. Fêmea, explodia em sangue de vários tons. Todos meus.Todos repletos de sons. Tons, tons, tons. Sons. Tons, tons, tons. A decepção é marrom. A raiva é tão vermelha quanto o despeito e o desejo. O amor era lilás. Mas hoje, em meio à água-irmã, era toda sangue. Sangue, barro, areia, água. Meu útero jorrava sangue, jorrava indignação. Meu útero: o mais belo presente que poderia haver partilhado. Meu útero que lhe encantava visitar de tempos em tempos. Lugar sagrado de meu próprio corpo, templo de oferendas, onde ele entrava só quando era dia de lua e tempo de paz. E hoje havia luto, sangue e fluxos.

Paz. O mundo das águas é puro silêncio e reverberação.
Paz. Tudo passa. Paz. Meu corpo absorvia líquidos alheios, meus olhos aos poucos reaprendiam a repousar.


Os troncos úmidos e pegajosos da beirada ribeirinha foram gentis: era manhã quando me espreguicei, abraçada por mãos inventadas e firmes. Me protegiam da correnteza sem me tirar a leveza. Ainda tinha sede, ainda tinha fome, mas já não havia mais vermelho. O suspiro matinal tinha cor de abóbora: doce e suculento. E forma de broto: recomeço.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

fragmento

como me habías dicho tantas veces). Y tampoco me has dado la oportunidad de explicarme. Yo no me explicaría, ya sabías, pero que me escucharas. Que me escucharas. Lo que buscaba era que me escucharas. Rompías el silencio, el pesado silencio, el silencio más denso y lleno que ya probáramos para decirme que te cansaras, que tus sentimientos jamás cambiarían, que sería mejor que yo me disolviera en el agua caliente que caía de mis ojos y en la saliva ardiente que yo quisiera ofrecerte. Que ahora me tenías asco. Un asco afectivo, dijiste con letras mayúsculas y robustas. Tú, el mismo tú que me hicieras dos, tres, cuatro veces la misma pregunta en aquella parada del bus, ya mucho después de la medía noche: ¿estás feliz porque estoy aquí? El mismo tú que escuchó un sí, un silencio y una risa. Yo no sé más que tenerte asco, repetiste, como si quisieras borrar tu pregunta de la noche fría y sensible. ¿Cuándo fuiste sincero? ¿Cuándo empezaste a huir que no me di cuenta? Me dejaste la nevera vacía, puro hielo-hielo-hielo, sacaste los hilos que unían nuestros guantes, nuestras filosofías vanas y sencillas. Botaste el cubo mágico de nuestros trocitos compartidos y me expulsaste de tus pensamientos. Vate. Tú tienes algo de femenino, yo te lo dije con tanto cariño que te dañé. Pusiste fuego en mis ropas, me quemaste delante del espejo y dejaste todas las notas que venía regalándote con chocolatitos a cada darme cuenta. Sin embargo, aquel día, aquel día de plena fragilidad, cuando sentí coraje de darte mis palabras más tiernas, cuando quise abrazarte con la fuerza de mi lucidez sentimental (y mis disculpas, es cierto, aunque

agora que enquanto



Agora que você me fez parar.
Agora que você me tirou da pista de alta velocidade.
Agora que você me ensinou, a contragosto dos dois, a frear.
Agora.
Agora você é responsável.


Eu dirigia meu querer acima dos limites permitidos. Rápido, rápido, rápido. Curva. Curva. Curva. Retas longas e largas. Retas, retas tortas. Ultrapassava quem quisesse, disputava partidas, parava nos posto de gasolina e me abastecia de motores alheios, de estofados de bancos de carros que eu mal conhecia, de cafés aguados e tortas sem sabor. E corria, e corria, e corria.


E subitamente um quase acidente.
A ultrapassagem imperfeita, o desvio, minha distração. Batida. A raiva, o susto, o encanto, a vontade, a fuga, o medo, e todos os impropérios de que nenhum seguro, de nenhum dos dois, iria pagar os danos desse encontro imperfeito e borrado. Você ocultou as evidências do dano, virou a cara, empurrou-se para túneis insones e insossos. Desapareceu da pista. Desestacionou-se.


Agora que.
Agora que nem sei mais correr.
Agora que nem sei.


Não gostei propriamente da experiência. Não gosto propriamente de você e sei que você não gosta apropriadamente de mim. Não nos apropriamos – nem nos apropriaremos. Falei demais – sempre falo. Despejei meus combustíveis queimados em cima de seus pneus murchos e já sem ganas. Nos despistamos. Nos despeitamos. Perdemos o respeito sem perder a compostura, a postura altiva de dois maus condutores.


Cansado, o sol desapareceu antes da hora.
Quando veio a lua, com um certo atraso, envergonhada, as pistas de asfalto já haviam se transformado em rotas de areia à beira-mar.

Eu escutava as ondas.
Agora que eu escutava as ondas, e chorava estupefações, agora que eu tinha meus pés livres de quaisquer saltos, agora que, agora eu preferia andar, andar devagarzinho, escorregar-me. Engatinhar.


Pela madrugava, afogava-me.
Você não era responsável. Você tinha seus pés de galinha ao redor dos olhos, sua idade multiplicada por dez e as calças arregaçadas acima dos tornozelos. Você não havia deixado pegadas. Enquanto eu me afogava – um jeito inconsciente de flutuar, um jeito pesado de flutuar, enquanto não sabíamos.


Agora que.
Bem devagar.

(trilha sonora: "Sol de Primavera", de Beto Guedes)

domingo, 23 de janeiro de 2011

eles eles eles e ela?



Eles tinham o mesmo nome, ela os havia conhecido no mesmo lugar, eles eram algo como bons colegas, eles tinham gostos diferentes, a cor de seus olhos – dos três – era quase a mesma, eles até se pareciam fisicamente, um era mais alto, o outro era mais sorridente, ambos tinham fios prateados nas barbas e nos cabelos castanhos, um preferia a celebração, o outro a melancolia, os dois despertavam nela afetos diversos, fantasias alucinantes, medos-verrugas, suores contidos. Eles, aos poucos, cada um a seu modo, um mais elegante, o outro bem mais desajeitado, ambos um pouco tensos, aprendiam a cumprimentá-la com um abraço, um olhar e reticências em frases curtas, que aparentemente eram definitivas e derradeiras. Ela suspirava por ambos, às vezes mais por um, às vezes mais pelo outro, eles a confundiam, ela os confundia, os três não assimilavam nada mais além de rápidos e sinceros “não sei” ditos sem pensar. Ela e um deles eram improváveis juntos, ela e um deles eram mais que viáveis juntos, mas os três se assustavam com qualquer uma das possibilidades. Eles percorriam esquinas diferentes, mas escolhiam curvas parecidas, faziam passeios na mesma cidade impressionante que pertencia aos três e não havia parido nenhum deles. Ela vinha de longe, mas eles tinham a mesma nacionalidade, ela não sabia se também a mesma natureza, um deles havia confessado sua atração e sua inviabilidade, o outro tinha reafirmado sua rejeição e sua inviabilidade, ela já não sabia se os rejeitava, se os atraía, se os impossibilitava para si mesma, se eles se inventavam obstáculos. Melhor continuar sem saber de nada, melhor apagar esses nomes sinônimos, esses sentimentos por tanto tempo também sinônimos, melhor evitar esses caminhos que se cruzam, melhor pintar os olhos de azul, os sorrisos de cinza, os sentimentos de gelo. Melhor encher o copo de vinho e virar uma vez, ou duas, ou três, ou mais. Talvez, muitos horizontes depois, quando ela estiver num navio largado em algum dos oceanos do imenso planeta e se virar para trás, apenas para ajeitar os cabelos revirados pelo vento, cruze seu olhar com o olhar de um deles, com aquele seguiu as estrelas e deixou os cadarços para trás. Ou talvez o dono daquele olhar não seja nenhum deles, seja um outro, homônimo, com a mesma cor dos olhos, com um pouco de alegria, com um pouco de melancolia, menos tenso, menos precavido, menos impossível. Coincidência, destino, pouco importará. Ela com eles, ela sem eles, no fim das contas ela intuirá que estarão só ela e ele, aquele ele e aquela ela – os verdadeiros eles. E aquele nome tão repetido, tão repetitivo nem fará mais sentido.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

millennium mambo



Puc-puc-puc-puc-puc. Melancolia melódica. Puc-puc-puc-puc-puc. O homem de neve se dissolve com o sol. Puc-puc-puc-puc-puc. A última vez em que a gente fez amor foi triste. Já se passaram dez anos. Eu prometia a mim mesma que o deixaria quando gastasse os 5 mil que tinha no banco.

Nunca tive 5 mil na conta. Mas um dia apareceu o sol, assim casualmente, estava sozinha numa cidade desconhecida – sabia, contudo, que nos meses de inverno havia um festival de cinema, que nos meses de verão as pessoas iam à praia, que os outonos carregavam suspiros distantes, quase diminutos, e as primaveras povoavam as ruas de um certo tipo de sorriso.

Demorou muito para que eu saísse do túnel. Puc-puc-puc-puc-puc. Demorou muito para que eu abandonasse todas aquelas luzes néon, fizesse um chá, diminuísse o vinho, parasse com o cigarro, deixasse de usar secador para os cabelos, não comesse mais açúcar. Demorou muito para que eu deixasse aquele apartamento, que eu não me sentisse sem parte de mim quando estivesse longe dele, que eu aprendesse a abrir a janela e enxergasse outras paisagens. Demorou muito para que eu me desse conta que jamais alcançaria 5 mil na conta – e, por isso, não chegaria nunca a gastá-los.

Demorou muito para que eu usufruísse das batidas melancólicas da minha própria melodia sem recorrer ao ritmo dele. Puc-puc-puc-puc-puc. Tudo isso não inteiramente sozinha, havia sempre os amigos, mas por mim mesma precisava descobrir o trilho soterrado sob os escombros de uma vida que não queria mais.

Há dez anos a existência era urgente, intensa, imensa.
Agora ficou mais curta. Mas mais suave e leve também.
Puc-puc-puc-puc-puc.
Às vezes, a melodia que escuto por aí é melancólica. Até me lembro dele. Os dias de névoa combinam com a melancolia melódica que encontro aqui dentro, quando abro os braços e sinto o vento e deixo os cabelos soltos e solto a voz e saboreio cada minuto.

Puc-puc-puc-puc-puc.
Esses são meus passos, meus passos.
Livremente inspirado nas sensações despertadas por "Millennium Mambo", de Hou Hsiao Hsien).
Um espaço vazio
em meio a tantos
tantos tantos
e tantos cheios


Ausência tarântula:
agressiva, peluda
e feia.
Aquele espaço cercado
dos meus hojes e agoras
das minhas horas
das minhas demoras


Atrasos,
vácuos,
vazios


Um espaço-abismo
nos meus vãos
sempre tão-tãos

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ela ela ela e ele?


Andava, andava e encontrava, encontrava e perdia, se perdia, escorregava e caía, caía, sorvia o dia ensolarado, a luz quente, o vento trêmulo, o corpo ardente, andava, andava e via, via o mar, via as gentes, via seu reflexo nas botas, nos asfaltos, nas folhas úmidas e amassadas das calçadas anfitriãs, tão estrangeiras quanto essas fantasias vorazes que a consumiam. Consumia, consumia e cuspia, cuspia e desejava, desejava e negava, negava a negação alheia, as correias, as deles meias, as suas cheias, regurgitava faceira, disfarçava de todas as maneiras. Ao mesmo tempo, revelava-se, revelava-se e escava, escavava e descobria que quase sempre se sabotava, se sabotava e fugia, fugia e voava, voava e se decepcionava, porque se iludia, iludia e sofria, para depois frequentemente recomeçar. “A vida é assim, isso está passando comigo também, gosto de outro alguém, não gosto de você.” Tampouco gostava dele, só ansiava, ansiava e masturbava-se, no fundo se queria, a si própria completa, intensa, imensa, lançada no oceano de um outro, não aquele. Quase se equivocava de novo, rançoso e velho, velho e carcomido, fingido e substituto. Andava, andava e buscava, sorvia o dia ensolarado, a luz quente, o vento trêmulo, o corpo ardente, as construções imponentes, pequena diante, grande em frente, potente, nas largas avenidas tão cheias de histórias e de curvas e de esquinas e de gente e de reflexos e de convexos e de mundos minúsculos e complexos. Achava, achava-se, amava-se, ausente, presente, consciente, paciente. Seguia. Seguia e continuava, não desistia. Diferente. Ela. Ela. Ela.
E ele?



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011