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sábado, 8 de dezembro de 2012

eu e ele, um capítulo nosso

(ya sabes que es para ti)


Antes, *ela* era apenas um personagem em duas fotos bem colocadas na estante dos CDs. “E isso importa?”, ele rebateu, quando interrompi nosso primeiro beijo para apontar o tal porta-retrato, eu, toda acuada no sofá. Encostei meus lábios nos dele e contive sua pressa com minha língua. Aos poucos, encontramos um ritmo nosso, intenso como nós dois, insolente como nós dois, mas respeitoso à austeridade das histórias que nossos corpos carregavam, das histórias do mundo que nos transpassavam. Não, *ela*  pouco importava. Pouco importou até um mês e meio atrás.

Havia devorado meio saco de batatas fritas com a plena consciência de que isso não suavizaria a angústia de sempre e que a única serventia de meu ato rico em gordura saturada seria sublinhar o cansaço. Porque também me sentia uma espécie de gordura saturada: densa, saborosa, ciente de minhas propriedades, mas definitivamente perigosa para corações alheios. Corações alheios! Ele estava agora preparando sua viagem a Genebra a fim de encontrar *ela*, a nobre e digna *ela*, que terminava um curso de observadora internacional de processos eleitorais problemáticos. Em breve, disse ele com orgulho, *ela*  receberá uma missão para seguir a algum canto do mundo. Sem ele, obviamente. A tão bem-preparada *ela*  que aparentemente pouco se importava com a anatomia física e intelectual de seu ele, com sua arrogância de literário, sua habilidade em preparar arrozes variados e bifes à milanesa. O porto seguro desse homem que escrevia e transava com a urgência de quem dispõe de apenas uma hora: uma hora de divã, uma hora de visita conjugal, uma hora de descanso, uma hora de exercícios nas barras, uma hora de viagem até o recanto preferido na praia.

As minúsculas guerras cotidianas que cada ser humano trava diariamente dentro de si, estando o não consciente disso, são tão sangrentas e estúpidas quanto esses atos coletivos de catarse e barbárie. Eu sabia que alguma comoção lhe causava, ao mesmo tempo em que tentava eliminar qualquer possível expectativa que teimasse em brotar dentro de mim. Não estou apaixonado, você me entende? Não estou. Ele me repetiu isso três vezes num dia em que saímos. Outras três vezes três semanas mais tarde. Acho que já sei qual é seu número mágico, ironizei. Numa tarde de inevitável comoção, não quis me olhar e comentou que sonhara com três filhos. Sabia que, aos 50 e poucos anos de idade, era uma visão quase piegas e melancólica da tal família perfeita, mas, se sonhava com isso, fazer o quê? 

Ele voltou a tocar minha mão: "se não eu e *ela*..." Não disse mais nada. Eu não queria ouvir qualquer murmúrio, porque a única coisa em que pensava era em meu desejo imenso de ter um filho com ele. Que juntos pudéssemos escrever nossas obras, cuidar de orquídeas e de oliveiras-anãs, cozinhar especialidades várias e cuidar de um bebê. E que *ela* se apaixonasse por algum alto executivo das Nações Unidas, mudasse de nome, pintasse os cabelos e fosse para bem longe, deixando-me em paz e a sós com meu homem.

Mas hoje era uma quinta-feira como qualquer outra, passava das 14 horas, eu havia devorado a metade que restava das batatas fritas e aquela tarde de sábado de quase um mês atrás tinha virado uma fotografia em algum porta-retrato da memória dele. “E isso importa?”, ele teria perguntado.
 
Lonjuras.

Talvez naquela imagem escondida e largada entre as lembranças reprimidas de nossos corações estejamos ambos de olhos fechados, sonhando com tardes lilases nossas, à beira-mar.

terça-feira, 6 de março de 2012

Huellas



Terminarás odiándome, me dijo.
Yo miraba la ventana de la cocina, intentado mensurar los aportes de la lluvia al jardín. La tostada en mis manos ya estaba por crear tela cuando la decidí comer. Y comenté en voz alta, así casualmente, como se hablara a las migajas sordas sobre la mesa, a mi café ya frío, a hormigas invisibles: tu mermelada de fresa está riquísima.
Él tenía esa costumbre – coger frutillas silvestres para preparar mermeladas. Estaban ahí en la mesa, acompañando huevos revueltos o queso fresco. A veces las hacía de naranja con jengibre, en otros momentos de plátano, a menudo de fresas. Mi sueño, me comentó cierta vez, mi sueño es construir una casita en el pueblo de mis abuelos, meter ahí mis discos, mis libros, una mesita donde pueda escribir. Quizás tener un perrito juguetón, unas ventanas inmensas de donde se vea la montaña. Y por lo menos tres veces a la semana coger frutas para mermeladas. Yo, despistada, pronto imaginé una bodega rústica llena de potes coloridos de sabores diversos. Creo haber añadido la posibilidad de un huerto o de un jardincito con flores. Él no me miró; mantuvo sus ojos clavados en el horizonte. Había algo de dolor en aquel silencio.

Terminarás odiándome, me dijo.
Yo organizaba los libros en el estante, intentado cambiar la distribución de espacios y así darle a la pequeña biblioteca una cara nueva. El postal ya medio amarillo se quedaba ahí, sobre la alfombra verde, ignorando por completo mis movimientos mientras yo buscaba fuerzas para tirarlo a la basura. El atardecer en Tossa ya se vía descolorido, las letras ya habían perdido energía y el sentido: gracias por compartir tus nubes y tus brisas.
Él me comentaba de sus caminadas en la playa, temprano en la mañana, la parada para algunos ejercicios en las barras, los gatos que surgían de todas las partes cuando aquel señor viejito pasaba por allá con sus trozos de pan duro y seco. Tenía su escondrijo ahí, un banquito estratégicamente puesto atrás de unas piedras, ya sobre la arena, muy cerca del mar. Un día se inventó un barco imaginario que lo llevaría del Mediterráneo al Caribe, ultrapasando distancias y fronteras, reglas y prohibiciones. Yo, animada, pronto me apunté para hacerle compañía. Creo haber sugerido la posibilidad de bajarnos al Atlántico, viajar con los delfines y encontrar una isla desconocida disponible para nosotros. Él tampoco me miró, quizás ni haya escuchado; sus ojos, como siempre, los mantuvo clavados en el horizonte. Había algo de ruptura en aquel silencio.

Vine a comprender su enigmático aviso algunas semanas después, cuando partió sin avisar o despedirse. Cargó toda su ropa, todos los libros, algunos muebles y aderezos de la casa. Su mejor amigo me comentó que el plan era jamás volver. Capítulo cerrado es capítulo cerrado para él, dijo. Fue a vivir una historia de esas que decía odiar, con el clásico final: “y vivieron felices para siempre”. Pasé unos días confundida, sin comprender a veces por que llovía, ventaba o por que motivo las berenjenas se quedaban demasiado cocidas. Tampoco entendía por que la gente alrededor hacía tanto ruido, por que el reloj tardaba tanto a cambiar de horas o por que mi corazón súbitamente se callaba. Pero no terminé odiándole.

Aún hoy dibujo el personaje “él” que en mí se quedó en hojas ya amarillas del tiempo o en tostadas saladas, en ciudades sin mar. No terminé odiándole, al revés.
Había algo de ruptura en mi propio silencio.

Necesito decirte: adiós.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Gaze




He laughed.
— Sorry. You’re saying…
Hands, arms, lips, eyes: her sources of continuous messages. Everything so intense, for sure. Everything so confused. She was that kind of superlative girl.
— Never mind.
She’d already drunk three or four glasses of wine. He kept strongly his receipt: one bottle of water for every dose of alcohol. This was his way to keep his sobriety. Oh, his sobriety… Who cares about being sober? His inner universe was already a constant post-tsunami world, full of hurricanes of sensations and very fast brainstormings. But he never got lost in himself: it was amazing how he was able to manage the clues from himself even without thinking so much about, just listening to that whispered music that came from his soul. By the way, he carried a certain old-fashioned purity conjugated with an accurate feeling for capturing others’ pieces of soul. Emotional intelligence, right?
— For God’s sake!
— What?
— You don’t pay attention to me, do you?
— Sorry. You’re saying…
Her lips were very red at that moment. They seemed to shine – and this, besides distracting him, started to disturb him. He couldn't understand properly what she was saying, the real subjects of that bizarre conversation. He was surrounded by noise while she was just gleaming: from her lips to her eyes. Even the (fifth?) glass on your hands shined.
— Never mind.
— Please, repeat…
She looked at him with tenderness, not sure if she should keep talking and talking, inventing keys to try to get into his world. More than catching his attention, she seemed to be interested in touching his heart somehow. A mere caprice? No, she didn’t feel like that, but recognized that could be almost impossible. An ocean. A decade. Bottles of water and wine. Words. Idioms. Phrasal verbs and jokes. A table. Friends, friends, many people. All of that had become into a huge wall between them. Actually she started to feel tired. Emotional tiredness?
— Sorry.
— ?
— It’s time for me to go.
— Because of something I said?
(He meant: “something I didn’t say”).
— Perhaps because of something I did.
(She meant: “something I didn’t do”).

It’ll take time for both to understand what was going on over there more than that simple wordplay. Maybe it’ll be late when they realize that, maybe it won’t. Anyway, both remember how they gazed at each other that night. And how it was magic.

domingo, 30 de outubro de 2011

~~ infinidade ~~~~

Hoje vou cantar as rimas mais pobres que conheço, vou limpar a sola dos sapatos mais puídos, vou colher meus fios de cabelo mais rebeldes que caem indóceis no meio do caminho. Hoje vou me dar conta das coisas minúsculas da rotina mais cotidiana, dos minutos mais sem nexo, dos raios de luz mais invisíveis – e que quase não me alcançam. Hoje celebro uma descoberta acima de quaisquer palavras, a essência daquela que sou, daquilo que sei e, especialmente, de todo esse mistério infinito que pouco explico, mas que acolhe minha existência mais túrgida. Hoje, e não amanhã. As rimas, os raios. A essência, o infinito. Onde quer que, como quer que, hoje.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sapatinhos



One day, by chance, blue shoes came across the rose ones. Astonishment. Hiccups. Delirium. Hola, perdón, ¿puedo estar aquí un rato? Rose shoes couldn’t understand those words, but caught the meaning: Tu es le bienvenu! Timid smiles, fleeting glimpses, almost invisible movements. Que mona eres. Tu es quelqu’un de vraimant charmant, toi. Drops of melancholy from each side: time is extremely cruel as we are within this boderland – nowhere, elsewhere – where reality fits expectations perfectly and that weird feeling of belonging does make sense. Quisiera poder quedar. Je voudrais que tu n'allasses pas. But conjugating verbs like « to leave », « to go », « to move » and so on was a kind of expertise from both Rose and Blue shoes. No es un consuelo. Il n’y a pas d’espoir? Espera: ¿qué más nos resta? Rester. Atentos. Attente. Attraction, sharing. Shapes, smells, sighs. And so, and then, and thus, seconds started to flow again. Hasta la vista, au revoir. And that’s it: thatness.
Thatness, for sure.



domingo, 16 de outubro de 2011

luz del estío

Siento un gusto de frontera disuelta en esa tarde melancólica. Demasiado espacio. Vacíos casi insoportables. Ausencia. Y todo me sobra: la luz, la calidez del verano, la casa inmensa, el corazón abierto de par en par.

Los rincones gritan: saudade.
Más que nostalgia, decías, más que añoranza, silenciabas.

Éramos un reino – y todo alrededor era resto de geografías ajenas.
Te fuiste con las alas, me quedé con la inmensidad de belleza triste y ojos húmedos. Ahora casi quiero rechazar ese mapa que me pone como un gran continente, solitario y olvidado.

*~* primavero, primaveras.

Hay todavía el olor de sus manos

De sus manos que deslizan que se disuelven

Por mi piel por mis pies por mis piernas

Por el rosa de mis mejillas

Por las mejillas de las rosas


Esas rosas que me envuelven como recuerdo del efímero

Ese efímero tan eterno de nosotros

Que somos, ya fuímos y pronto dejamos de ser

Siendo siempre y aún, y aún, y aún.


Sus manos tienen todavía el olor

De las rosas que pueblan

Esa piel eses pies esas piernas

Esas mejillas que tocaste, menino.

Y que – já sei, já sei – volverás a desbravar.


(Soy una constante primavera)

domingo, 14 de agosto de 2011

Plástico vermelho



Era um dia daqueles. Pesado, modorrento, cheio de poeiras do passado teimando em grudar no suor do presente. Daqueles dias em que não há poesia possível no enfado de uma vida inteira. Daqueles dias em que o tempo se recusa a cumprir a programação habitual de 60 segundos formarem um minuto e assim por diante. Um minuto estava durando quase meia hora. Dia daqueles.

Acomodada no banco do fundo do vagão, fiquei ao lado da janela, mas longe da porta. Tudo bem, tudo bem, ia descer no fim do mundo, havia muito trilho ainda e o enfado do tamanho do mundo. Esse caminho longuíssimo para quê? Para chegar em casa e tudo continuar igual? Os outros passageiros pareciam padecer do mesmo aborrecimento. Caras fechadas, caras distraídas, olhares mortos ou cinzentos, todos querendo ir logo, porém ir para lugar nenhum. Estar no metrô, estar no trabalho, estar em casa, tudo dava na mesma. Estar já era um fardo; ser, então, nem se fale. E a porcaria da porta não fechava, quem o motorista estava esperando para dar a partida naquele trem?

Uma moça sorria no meio das manchas amorfas chamadas de gente por pura educação naquele fim de tarde, naquele fim de linha, naquele último vagão. A moça estava bem de frente, naqueles bancos que vão de costas. Que enjoo ir de costas, mas muitos não se importam. Para eles, o tempo passa ainda mais devagar porque se despedem com mais docilidade dos instantes. Talvez seja isso que cause enjoo em alguns, nos mais ansiosos. Ou nos mais defendidos. Mas a moça sorria, caramba. Como conseguia? Tinha um livro nas mãos. Claro, a moça sorria porque tinha um livro. Essa bolsa que carrego não me faz sorrir. O rapaz de gravata verde segurava uma pasta de couro e não sorria. A senhora ao lado mantinha apertada uma sacola de plástico e tampouco sorria. Só a moça com o livro. E já sorria antes mesmo de a porta fechar. Ufa, finalmente.

O livro estava coberto com uma capa de plástico vermelho. Ninguém mais encapa livro com esse tipo de plástico, meu Deus. Essa moça veio do túnel do tempo? Não parecia. Blusinha bacana a dela, não dava para ver os sapatos, mas ela tinha frescor. Esquisita essa capa. E, droga, não dava para ver o título do livro. Sobre o que seria? Uma história de amor? Não. Todas as histórias de amor são iguais. Começamos virgens e terminamos mais virgens ainda, só que no fim somos acidamente virgens e rancorosos. Como poderia haver espaço para um sorriso? Talvez ela esteja no começo do livro, então pode ser uma história de amor, ora. História de amor açucarada? Não, não. A moça tinha jeito de exigente. O modo de ler com avidez, os olhos dela não desgrudavam das páginas, os dedos firmes na capa de plástico. Talvez fosse um romance policial. Avidez com sorriso... Sorriso ao ler sobre um assassinato? A ficção nos permite extravasar agressividades-tabu: talvez seja o que nos mantenha ainda relativamente afáveis uns com os outros.

Agora ela apertou os lábios, que cara safada é essa? Em pleno século da solidão e do enfado, no dia em que a humanidade dentro daquele trem empurrava o tempo com desesperança e agonia, aquela mulher ousava existir. E resistir à modorrência cotidiana. Rosto nem bonito nem feio, ar simpático. Deve ser daquelas que, depois de umas taças de vinho, seguramente – e de modo sábio – aperta os lábios (como agora), fecha os olhos, dança leve, livre e solta no meio da pista, braços-pássaros, pés ágeis, quadris mais ágeis ainda. Uma alegria, uma energia, uma sensualidade. Os olhos pasmacentos dos machos presentes, antes ocupados com os alvos óbvios, a seguem vidrados.

Uma noite de sexo. Pela avidez com que a moça lê esse bendito livro com capa de plástico vermelho, deve ser uma descrição daquelas, que chegam até a palpitação dos músculos vaginais – das personagens, é lógico. Bem, há leitoras que, por tabela, também os sentem. Confessemos, por que hipocrisia numa hora dessas? A população imóvel do trem móvel, naquele tempo ausente, não parece a ponto de deixar sua apatia. Tampouco há sinais de outro espectador para a moça – e para mim. Então, confesso: já tinha sentido, sim, excitação ao ler certas passagens de livros, inclusive desses livros-cabeça que apenas eu, uma amiga e mais dois ou três críticos literários lemos. Meu Deus, a moça está gemendo baixinho, feliz. O homem mordiscando seus mamilos, passando a mão pelo interior de suas coxas, agora beijando o pescoço, tocando seu clitóris e... O que foi aquela encoxada, perto da escada? Quanto tempo fazia? Três semanas? Quase um mês. Ele a pegou de jeito. Foi tão rápido e tão bom. Talvez ela tenha suspirado agora. Chegou ao orgasmo? A personagem, quero dizer. Como o metrô é quente.

Essa franzida de testa. Pode ser que seja um livro de crônicas, e agora ela esteja lendo sobre a morte de uma galinha. Não era sobre isso aquele conto da Clarice? Divertido esse conto. Ela riu no começo, ficou meio triste em seguida, mas não mordeu safadamente os lábios depois. Nem franziu a testa. Era a hora da briga do casal? Rusga rimava com ruga e fazia sentido. A gente franze a testa quando não entende certas atitudes. Por exemplo: prometer ligar durante a semana. E sumir. E não dar notícias. E, depois de uns tantos recados no celular, torpedos e e-mails, uma resposta de uma linha só. Estou confuso, precisando de um tempo sozinho, foi bom estar com você, mas agora não rola. A moça ficou triste de repente. O que foi? Desculpa esfarrapada? Sim. O rapaz, no mesmo bar, com outra moça. Confuso, mas divertindo-se. O mesmo braço ao redor da cintura. A mesma piada da chamada para Tóquio. Os mesmos petiscos, o mesmo chope. Os olhos continuavam ávidos, mas ela realmente estava triste. Porque dói. Entre o despeito e o desrespeito, esse ponto é o que dói. Depois, um recado, um torpedo e um e-mail com a mesma mensagem irônica e afiada. Tirando satisfações, que decadência. A noite da encoxada foi tão boa que valia essa humilhação? Porque não foi só uma encoxada nem só encoxadas. Mas que história idiota é essa? Banal, tão óbvia, não, não e não. Quem leria tamanha bobagem? O livro de capa de plástico vermelho certamente é uma alegoria da sociedade contemporânea, de trens lentos e opressivos, de corpos e mais corpos se tocando sem qualquer pudor, mas sem qualquer amor, de braços estendidos para ninguém. Um livro sobre pessoas que não querem mais estar. Nem ali nem lá.

Por que a moça não havia escolhido ler algo original? Que merda de dia. As horas não passam. O telefone não toca. O trem não sai do lugar. É essa moça quem passa, quem toca, quem se movimenta. É essa moça com o livro de capa de plástico vermelho que, naquele segundo, faz a vida – qualquer que seja a definição para “vida” – acontecer. Por que nada muda? Queria fechar o livro, mas o livro não me pertence. Viro a página, então. O reflexo na janela me olhava triste. Não quero pena nem comiseração. Quero apenas... – ainda? – um romance em lugar de contos curtos e sempre finitos, muitas vezes ruins, ou então repetitivos. Um romance. Cenários diferentes, uma história que avança, personagens que não somem no meio da trama, estilo apurado, narrativa original. Capa de plástico vermelho: transparência e paixão. Sou de uma obsolescência medonha.

No amontoado de gente, não distingui mais a moça do livro. Onde se escondeu? Ela escapou da sonolência existencial da população do trem? A história acaba assim, então? Sem necessariamente ter um fecho? Saudade das narrativas da infância em que sempre existia um fim, ao menos uma linha, dando assim uma satisfação ao leitor. Acabou, sabe como é. Minha viagem também chegava ao fim. Bufei, desapontada.

Já na rua, noite anti-social, ser anti-social – dependo sem qualquer vontade da humanidade inteira –, ansiosa em pular para o dia seguinte, me senti cansada. Como se tivesse lido todos os ranços de uma história muito minha num livro. Naquela merda de livro de capa de plástico vermelho, mantido altivo e desafiante pela moça que sorria. No meio da massa aturdida pela realidade implacável, aquela mulher roubava os últimos golfos de energia emocional dos infames do mundo. Bem, talvez estivesse devolvendo-os.

Convenci o dono da papelaria a buscar, em sua sala de sobras, um pedaço de plástico vermelho desses de encapar. Sorte a minha que queria vermelho, me disse, pois era o único. Manchado de pó, resto de vendas antigas. Ninguém mais compra isso, afirmou o homem. Já em casa, encapei o molesquine novo e aspirei, com alguma excitação, o frescor de suas páginas em branco. Na primeira, com letras garrafais, escrevi: “Pois essa história termina aqui. Finalmente abro espaço para um recomeço”. Sorri, apertando os lábios, quase ofegante de tanto tesão.



quarta-feira, 1 de junho de 2011

atônita

Tentei fazer brigadeiro, que não deu ponto por causa do calor e do leite condensado, excessivamente líquido. Mas as bolotas esparramadas ficaram tão gostosas que acabei por aceitar a impermanência das formas e desfrutar da experiência. Choveu repentinamente, mas logo o sol voltou como se nada tivesse acontecido. O céu também fazia seus brigadeiros esquisitos. Por isso, dei pouca importância às roupas molhadas no varal. Confesso: dei pouca atenção ao cotidiano em geral nesta segunda-feira.

Ainda estou atônita observando esse “¿” que apareceu assim, de modo displicente, em minha vida. Uma provocação, uma pergunta, um início de indagação, uma questão caída por terra, uma iluminação que escorregou do céu. Não sei. Um certo tipo de amor inexplicado e inexplicável. Um espanto às avessas é uma certeza travessa? Quem saberá... Eu pouco, quase nada. Tergiverso, eu sei. Tergiverso versos túrgidos e inversos.

¿

Não sei o que dizer. ¿ – e me ponho toda sentimental, quase edulcorada. Enrubescida e doce. Olho pelo espelho, mas não descubro todas as respostas. Imagino que seja fruto de uma saudade antecipada gerada por uma vontade de grudar nele e não sair mais dali. Não quero participar de sua rotina e de suas noites curtas, permeadas de sonhos com anjos caídos ou armadilhas no chão escuro, armadilhas cobertas por palha ou grama. Erros irrecuperáveis, certa vez me disse. Tampouco quero sexo – por algum motivo, ele alcança minha alma, mas não chega a meu corpo. Quero as manhãs de sábado, passando as mãos por seus poucos cabelos, escutando suas histórias. Quero as noites de sexta, compartilhando cervejas e filosofias e depois sua geografia. Quero as tardes de domingo, entre o sol e a janela, percorrendo de trem caminhos de belezas diferentes e tocando de leve sua mão. Assim.

¿

¿, não sei o que lhe perguntar. Nem o que lhe responder. Não tenho o que lhe dizer. Meus comentários estão supérfluos diante de minhas sensações. São muitas e ainda parcialmente catalogadas. Há várias endêmicas, que só acontecem aqui. Bem aqui.

Pois talvez eu deva voltar à cozinha e preparar algo mais complexo, que exija fermento e muita farinha. Talvez eu deva lavar novamente a roupa, estender minhas dúvidas e molhar quaisquer inquietações a fim de ver se brotam. Às vezes ocorre de aparecer um toco de esperança ou de violetas, e assim a vida se torna mais palpável, compreensível.

sábado, 7 de maio de 2011

Nuvens carregadas





Podia estar bêbada ou enamorada que, neste exato momento resultava igual. O dia tinha estado denso, pesado, mas mesmo assim me desloquei por vias e avenidas com louvável leveza. O céu havia estado cinza, mas mesmo assim enxerguei cores, muitas, ouvi sons, muitos, senti demasiado sabores. Já não consigo mais separar a vida dele da minha. Ele está grudado em minha pele como um suor que não sai facilmente com água. Ele está grudado em minha pele como se me acolhesse num sentimento inominável para ambos, porém prazeroso. Não consigo mais conceber meu cotidiano sem ele – ainda que talvez ele nem se dê conta. Não nos vemos com frequência, quase não nos falamos por telefone. Mas existimos – e existimos ocupando grandes espaços de humanidade. E foi por essa expansão contínua minha e dele que nos tocamos. Nos tocamos assim, repentinamente, de jeito descarado e faceiro, supondo que havia um poço circundando o castelo. Mas não havia tal poço: e daí a potência do roce. Sucumbi, de livre e espontânea vontade, querendo não proteger-me. E agora me encontro no pântano das sentimentalidades intensas e imensas, quase sem me mover. Tenho dificuldades para ajeitar os ossos, os músculos, os suspiros. Ele está em todas as partes: no meu computador, nos meus livros, no iogurte do fundo da geladeira, nos meus sabonetes, no vapor que esconde o espelho depois do banho.

Eu não tenho onde me esconder.

Porque o quero amar. Quero amá-lo, assim, descomprometidamente, com algum desespero mas muita liberdade. Quero percorrer seus caminhos, tocar suas veias, beijar seus poros – dos mais ínfimos aos mais perceptíveis. Ele é o homem que ilumina as manhãs cinzentas e frustrantes e que preenche as noites solitárias. É ele quem preenche essa cidade que estranhamente me seduz e com quem deito todas as madrugadas.

Não sei muito dele e de seus descaminhos mais recentes (ou mais antigos), mas aparentemente tentou construir às pressas um poço. E se despedaçou. Recomposto, agora retoma o caminho de pedrinhas que o leva à torre mais confortável de seu castelo. Lá tem jantar, janela, uma companheira que aparece de vez em quando, companhias ocasionais de amigos paisanos, alguma paz de espírito. No entanto, ele parece não estar resistindo tanto. Baixinho, bem baixinho, quase segredando, me faz ver que há algo nessa alma minha, nesse corpo meu, nessa voz que tenho, nessa mulher que sou que o ajuda a encontrar sentido no caos da existência.

Por isso, tanto faz se estou bêbada ou enamorada, se hoje chove e amanhã desafina, porque de tão grandes já começamos a nos misturar. É por isso que não sei quando sou eu ou quando sou ele. Ele tampouco sabe se me chama ou se chama, porém aos pouquinhos nos acostumaremos ao susto. O susto!

Descobri que o espanto espanta a mesmice.
E eu o amo.



quarta-feira, 27 de abril de 2011

Distraidamente


Foi muito sem querer.
Como se alguém me tocasse o ombro, apontasse para ele ali na frente e me dissesse: é ele. Não pensei, não questionei, não titubeei. Sim, me disse a mim mesma, um pouco nervosa e cambaleante nos meus modos, nos meus gestos, olhos úmidos e pés frouxos, sim. E ali ele estava, inteiro, presente e, de modo inevitável, evidente.

Foi muito sem querer.
Certo dia me olhou diferente. Eu, com olhos cândidos desde sempre, nem notei. E então mergulhamos naquele espaço indefinido que não é qualquer coisa e tampouco ainda não é alguma coisa. Éramos, os dois, em nossos momentos mais límpidos: energia congelada, provocação domada, entrega verdadeira.

Foi muito sem querer.
Os dias seguintes tinham cor, tinham também cinza, trouxeram ventos estranhos e alheios, trouxeram sóis e diferentes planetas. Havia outras vidas além da nossa, daquela que nós dois havíamos criado por um fragmento de eternidade, uma vida que me pertencia só a mim e outra, diferente, que lhe pertencia apenas a ele. Nelas nos sentíamos seguros, um tanto de conforto e outro tanto de falta. Ausência da presença.
E, muito sem querer, aos pouquinhos, a vida que me pertencia não fazia mais sentido sem a presença dele. E sua ausência me doía aos bocados, um dia me apertava o coração, em outro me revirava o estômago, no seguinte me embaraçava os cabelos ou trincava os dentes. Meu sentir era físico e transcendente, era o próprio mistério, a conjugação de infinito e momentâneo, transgressor e tão romântico, ruptura e união.

Sonho com sua geografia, com sua geopolítica, com sua humanidade. Sua imensa humanidade.

Hoje brilho. Brilho contente com a presença desse mistério dentro de mim, reluzente e macio. Tenho medo de lhe dizer. De dizer-lhe: muito. De que, sem querer, ele responda apressadamente – sem sentir, sem mastigar – que não é nada disso. Que o mundo é muito mau e não permite transgressões dessa ordem. Que não lhe permitem transgredir até esse ponto. Eles, os outros.

Confio nele, mas sei que as feridas dos antes são sempre muito profundas para que se deixem corajosamente para trás de modo imediato. Confio nele, que me escuta, ainda um pouco espantado pela existência comprovada do mistério. Confio em mim, que sinto, sempre sem querer.

Porque, quando quero, não o encontro na lista das obviedades cotidianas. Estaria entre a aborrecida companheira de apartamento e o amigo colorido? Entre a cerveja e os queijos?

Foi sem querer. Como se eu tivesse deixado cair um vaso no chão e libertado os caracóis.
As nuvens, as mágicas arquetípicas, as plumas.
O amor.




sexta-feira, 1 de abril de 2011

¿Y qué?

Caminaba mirando hacia arriba, hacia a un lado y a otro, caminaba observando los formatos que mis pies adquirían mientras elegían pasos en calles angostas, en rutas inventadas por el casco antiguo, por la playa, por la montaña. Caminaba intentando ojos ajenos, sonriendo al viento, intercambiando aire con el mundo afuera. Caminaba. Caminaba casi volando, volaba como si caminara, suponía alas mientras imaginaba cielos, nubes, estrellas. Mi realidad tenía sabor de fresas grandes y vinos negros, muy oscuros. Mi realidad era roja y yo no me había dado cuenta; mi realidad no era completamente dulce, pero aún así me parecía sabrosa. Y de súbito ya no caminaba más; me encontraba parada, plantada, fincada en un sentimiento grande, grande, grande aunque pequeñito. Gritado aunque discreto. Mío sin ser mío. De súbito todo había cambiado: mi reflejo en el espejo tenía colores y texturas distintas. Mis oídos buscaban un cierto acento, mi saliva un cierto silencio. “¿Tú me escuchas y qué?” Sí, sí, sí, yo le escuchaba. Lo sentía dentro de mis sueños y de mis pesadillas, yo lo sentía tan entero que a veces pensaba que me transformaba en él apenas por unos segundos a fin de descargarlo de tamaña intensidad. Soy demasiado humano. Yo también. Demasiada humana. Pero él es tan inmenso en su hombría, en su dignidad que me siento invisible. Y, invisible, no soy vista. Él no me ve, casi no me siente. Yo que caminaba ahora me quedo inmóvil; busco inútilmente pinturas y rellenos que me puedan hacer visible. Él mira hacia lejos, lejos, lejos y alto, y yo estoy cerca, casi a una docena de pasos. Mi realidad era roja y yo no había dado cuenta. Ahora llena a quemado, carne quemada, un amor oculto e interdicto. Un gran laberinto. “¿Tú me ves y qué?”

sábado, 12 de março de 2011

each other

"E de repente me sentia protegido, você sabe como:
a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito fazendo sentido."
(Pequenas Epifanias, Caio Fernando Abreu).

(First scene: Exit of Metro Verdaguer towards Passeig Sant Joan. Sunday afternoon. He reads a book sitting on a garden seat.)


— Excuse me, is it you?
— Sorry?
— Is it you?
— No, definitely I am not. I’m not waiting for someone.

(…)

(Second scene: still at Passeig Sant Joan. Sunday afternoon. She’s sitting next to him on another garden seat. He keeps reading, she writes on a small moleskine).


— Sorry, are you waiting for someone?
— Yes, I am.
— Is he or she coming?
— It’s 'he'.
— Is he coming?
— I don’t know… Actually I thought he was already here.

(…)

(Third scene: Sunday evening. They are still sitting one next to the other one.)


— Listen…
— Yes?
— Let me introduce myself: Pablo.
(She smiles.)
— Hi, Pablo. Nice to meet you. I am Fernanda.
— Portuguese?
— Brazilian. You...?
― I’m from here, I’m Catalan.

They start to chat. They talk about so many things… They find coincidences in their way of thinking, they got excited about their differences, they decide to walk around and share a bottle of wine.


(Fourth scene: another Sunday afternoon. They are sitting together at the same seat at Passeig Sant Joan.)


— You haven't told me yet: who were you waiting for last Sunday?
— For you.

(Silence. Birds are heard nearby).

— So… it was me.
— Yes, but we figure it out just now.
(He smiles.)
— Yes, now we know it.

Then they kiss each other.
They kiss again.
They continue kissing each other.
They remain there, they don’t run away, they don't.


Whatever it is the “great end” of this short story, it doesn't matter. In fact they were especially happy at that moment – and it’s all about that.

It's all about that. Definetely.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Mujer Poeta

(Sitges, España)




Perdón, Neruda.
No te he conocido en vida – no organicé tus cartas, no revisé tus poemas, no escuché tu susurrar mientras buscaba la palabra perfecta o la imperfección justa para una rima precisa.
No soy una poeta. Tampoco lancé botellas al mar con la ilusión de que alguien un día las recogiera; solamente he dejado notas en bolsillos ajenos sin esperanzas ocultas, apenas por el placer de semejar posibilidades narrativas a vidas grises.
Neruda, jamás he publicado un libro. Pero me dejaba estar horas delante del mar inventando nubes, alegrías o platillos para el alma. Horas, Neruda, horas.

No he cambiado el rumbo de la humanidad, pero he estado siempre muy atenta a los designios misteriosos que ordenan las piezas invertidas o contrarias en la vida de uno. Te podría describir olores escondidos entre las piedras del camino. O los sabores de atardeceres olvidados, cálidos y húmedos, preciosas sinfonías silenciosas del cotidiano. Te podría dibujar sonidos demasiado agudos en el comportamiento de algunos amigos o recitar momentos del más bello y puro dolor. Todo eso lo hice, Neruda, mientras cuidaba de algunas violetas, de una orquídea blanca y de un olivo enano. Mientras cocinaba para gentes alrededor, fijaba si las sábanas seguían limpias, si entraba luz por la cortina de la sala. Si todavía mi rostro aparecía en el espejo.

A veces, había demasiado polvo en la cama. Los inviernos casi congelaban el vidrio de la terraza y ya no tenía fresas en la nevera. Aún así, Neruda, aún así no he dejado de coser pequeños sueños y detalles para los vecinos.

Pues sucede que un día me sentí cansada de ser mujer. De cargar senos, útero, vagina, uñas largas, nalgas aparentes. Cansada de ser mujer, de esa sensibilidad que me hace llorar con un reencuentro, enamorarme de la luna. Cansada de escuchar otras mujeres en sus búsquedas tan arquetípicas y casi histéricas. Cansada, yo misma, de ser histérica – o agresiva, o romántica, o delicada, o celosa. Sucede que el sentimiento ya no pasa. Que me siento cansada de los fragmentos de Eva, Lilith, Medeia, Penélope, Helena, Madalena… que componen mi cuerpo y mi corazón. Estoy cansada de ese cuerpo, de ese corazón. No, Neruda, no quiero enfrentar las mañanas calientes con una falda corta y deseos infinitos. No suporto más la satisfacción en devorar una sandía o la necesidad de tanto, tanto, tanto silencio.

Hay demasiado ruido en el mundo – y yo me siento cada vez más excluida, encarcelada, insultada, violada. Sucede que el cansancio puede ser vigoroso y insomne y llegar a convencerme de que soy exageradamente ligera para el peso de la feminidad. Parece que no hay lugar para un simple baño de sol sin pensamientos ni hablas.

Pues poco a poco empecé a guardar mis trozos de silencio reprimidos en frases y párrafos inadvertidos. Con el tiempo ellos se volvieron cuentos y poemas traviesos, trabajados con la paciencia de un monje, con la soledad de un eremita, con la solicitud de una hembra salvaje.

¿Quien los leerá, Neruda? ¿Cuando se los leerán?
No sé, y la respuesta poco me importa. Sucede que estoy cansada de ser mujer, pero tampoco sé existir de otro modo. Y escribo a fin de evitar que mis silencios mueran, escribo sin que el mundo sepa – solo así ellos sobreviven, solo así puedo yo vivir.


quinta-feira, 3 de março de 2011

goteo, goteo

Viento frío. Lluvia que no para. Por favor, lluvia, déjame en paz un rato. Gotea. ¿Quién habrá dejado la llave abierta? Gotea. Gotea. Gotea desde mi vaso tumbado sobre la mesa. Pero el vaso está seco desde hace tiempos. Agua. Hoy el mundo es pura agua – adentro, afuera, entre mis piernas, por mi boca, explotando desde mis ojos. Agua que escoge por mis mejillas calientes y rojas. Agua dulce, agua salada. Gotea. Goteo yo. Lágrimas. Viento frío. Noto que la orquídea ya perdió una de sus flores. Qué triste, pero así es. Noche. Oscuridad. Y las gotas.

*
*
*

Una, dos, diez, miles, millones.

* * *

No respiro. Me ahogo a los poquitos.
El mundo ya se volvió un gran océano de llantos nuevos, antiguos, futuros, inventados e imprecisos. Un océano que me traga – me traga por la mitad, siempre la mitad, chupa mi alma y me devuelve mero cuerpo, cuerpo desnudo y marcado, cuerpo desnudo y helado, me devuelve mero cuerpo a una de las tantas arenas débiles de continentes duros y infértiles de una humanidad miedosa.

“ ”

Ele já não me vê.
Il n’est plus là. Il y était. Il y sera de nouveau?
Ele sabe que estou aqui. Quase comete uma indisciplina. Deixa escapar um cumprimento breve. Desenha uma brisa e se vai. E se vai.


* * *
No te vayas, yo diría.

Frío. Viento. La calefacción está prendida. Un boceto de sonrisa. Hay música lejos, lejos – chispa, lámpara, fuego. Pero gotea. Gotea. Mareo. Cuento las gotas hasta que venga el sueño.

*

*

*

Y cuando cierro las cortinas, te veo pasar apresurado por las calles tuyas de siempre sin mirar al lado pero con las cejas cerradas, con los labios apretados, con un pensamiento rebelde y huidizo.
Pois é, você não me vê.
Mas me escuta.

Así que goteo.
Goteo intermitente. Compito con el mar, evaporándome al revés. Lluvia. Frío. Y, mientras, te evaporo suavemente hasta.
“ ”

*
*
*

Je t’en prie.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Voo dos flamingos


Era isso e pronto. Um homem! Resolução de manhã cinzenta: um homem. Basta de aventureiros e iniciantes. Um homem! Alguém que, com o peso de sua experiência, percorra meu corpo respeitando o tônus exato de cada reentrância, de cada curva, de cada pedaço meu. Alguém que, com o peso de suas escolhas, respeite cada suspiro, cada indignação, cada arranhão. Alguém com quem possa partilhar aspirações coletivas e desejos íntimos. Um homem que me ame com a dignidade de homem e que receba, digno, meu amor de mulher. Um homem que já tenha ultrapassado limites, que (justificado ou não) já tenha se deparado com a própria selvageria, o lado mais primitivo e impulsivo de si mesmo, e agora, plácido e saciado, apenas flutue no oceano das vivências. Que tenha memórias de fugas nebulosas em florestas tropicais e sonhos de aconchego em ventre brasileiro (o meu), que sinta fome de mim e que me alimente dele, de sua alma e de seus fluidos. Um homem que às vezes possa ser meu barco, em outras minha boia e em muitos momentos meu marinheiro. Um homem que me abrace como se eu fosse a única mulher do mundo, ainda que imperfeita e irreverente, inconstante e impertinente, e que aprecie esperar a madrugada a meu lado apenas sorvendo raios mornos de luar – e meus sucos, e meus sulcos. Um homem que se delicie ao passear por minhas frases e sintaxes e que se ofereça a mim na mais pura literatura. Ah, juntos poderíamos percorrer as montanhas, as praias, a Amazônia. Juntos poderíamos falar de justiça, subir na próxima flotilha da liberdade e fazer amor. Aí sim: amor. Amor com cheiro de terra úmida, de manga doce, de jasmim ao anoitecer e de felicidade.

Assim pedi em minha oração mais íntima.
Clarice o chamou de Ulisses e o apresentou a Loreley.
Eu o chamo de Y. Por enquanto, sou apenas X.

Voaremos juntos, flamingo.



* Ulisses e Loreley (Lóri) são personagens de
"Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

m*i**c*u*e*r*p*o



Tengo un cuerpo. Este. No es un cuerpo griego, lamento, tampoco bíblico. Pero es un cuerpo de Lilith, que me pertenece. A mí. Un cuerpo entero, pleno. Un cuerpo abrahámico, un cuerpo ancestral. Salvaje, primitivo, lleno de cicatrices de historias. Las mías. Cortes, heridas, transiciones, transcendencias. Mi cuerpo. Este. Un cuerpo político, un cuerpo contradictorio. Un cuerpo con olor a sexo y pureza. Un cuerpo agresivo, imperfecto, harmónico en sus desarmonías. Este cuello, este culo, estas nalgas, estos senos. Medidas que no siguen reglas. Panza. Codos. Rodillas. Pelos. Tengo brazos, largos y delgados, ligeros. Manos que empiezan y terminan en uñas. Animal. Hembra. Tengo un útero, una vagina dispuesta y disponible. Carne, comida. Fluidos. Flujos. Sangre, sangre. Un cuerpo, mi cuerpo. Marcas, manchas, entradas y salidas. Piernas, espalda. Un cuerpo con cara, ojos, boca. Una boca hambrienta, boca de hembra hambrienta. Mi cuerpo, un cuerpo que es mío y único, un universo encerrado en si mismo, un camino desconocido. Pies llenos de secretos. Los míos.


Tengo este cuerpo. Este. Aléjate. Déjalo. Vate.
Olvídate de mis manos.
No toques mi cuello.
Devuélveme mis ojos, mi boca de sonrisas, mis sudores, mis palpitaciones.
Revuélveme.
Destrózame.
Toma mi aire, mis gritos, mis rumores más íntimos, mis suspiros.
Pero me devuelva las estrañas, las sañas, los furores.


Saca eses besos que pegaste en mi piel.
Coja la savia que me metiste entre las piernas cuando me follaste, todas las veces en las cuales me follaste.
Borra las ranuras de de tu pasaje.
Vate.


Este es mi cuerpo. Mío. Un cuerpo que sigue su historia sin tu presencia.
Un cuerpo vivo, túrgido, urgente.
Mi cuerpo.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

¿y yo a dónde fui?



Estaba todo bien hasta que cogieras mis manos de aquel modo. En aquel momento, en aquel sitio, dónde cualquier acto más allá de la simple conexión rutinera sería considerado mera fantasía de mi parte. Ves demasiado, chica. Ves demasiado. Sientes demasiado. Quieres demasiado. Eres voraz. Pensaste, pero no me dijiste. Me lo dijo otro en vez de ti. Porque a ti te gusta que sea así. Aunque no puedas, aunque nos repitas, a mí, a ti y a nosotros:

No puedo.


Te arrepentirás.
Yo lo sé.


Tampoco yo puedo. No puedo dejar que mis manos sufran por hallazgos que las tuyas no podrán cumplir. No puedo aceptar el mensaje que viene por tus dedos, por tu piel, por tu sangre mientras tú me lo repites: no puedo. Entonces, no podemos. Sin embargo, no podemos. Pero no podemos. Así no podemos.

No debías haber cogido mis manos de aquel modo. Debería ser prohibido a un hombre avanzar sin avanzar, protegido por las reglas, las buenas costumbres, los roles y las prohibiciones todas (no sudes; no palpites; no te sobrepases; no cruces los límites de la cintura o del cuello). Pero ahí estabas, pidiéndome que te acogieras en mi abrazo, en mis cariños, sin que pudiéramos.

Y entonces me miraste en los ojos: oye, espera, no te vas, termines lo que empiezas, ¿qué quieres?


Un-segundo-que-parece-haber-tardado-toda-una-eternidade-y-eso-no-es-un-cliché.


— Ojos color de miel, este color es mío también, mi barquito está listo para partir, Isla Desconocida, ¿Saramago?, pues sí, te he descubierto unas canas, pues sí, son mis compromisos ya sin sentidos, pues sí, te he descubierto tan llena de secretos como tu piel es cubierta de manchitas, pues sí, son herencias de mis otras vidas, pues sí, te he descubierto mujer, te he descubierto hombre,


No puedo.
¿No puedes o no quieres?


El otro me lo dijo claramente: no quiero. No quería y no era. No cogió mis manos, no me miró en los ojos, no me hizo preguntas, solamente me dio la espalda y desapareció entre los grises y las dudas. No lloré, no me entristecí, no lo extrañé. No podía, de hecho, no podía. Fue un paréntesis, una disculpa, una copa de cava ya sin burbujas. Pero tú,

¿No puedes o no quieres?



Empiezo hoy a usar guantes.
Mañana, tal vez, lentes de sol.
No quisiera irme, pero tu permitirás que vaya. Porque no puedes, sigues diciendo, aunque creas que puedas y que eso te genere tanto miedo, tanto miedo.
(Con tu miedo yo no puedo.)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ressurreição



"... porque se seu mundo não fosse humano ela seria um bicho." (Clarice Lispector)

O dia em que você viu meus excrementos quase chorei. Corri para dentro do sótão de mim mesma e lá fiquei por horas, evitando comer, evitando abrir as janelas, evitando dissolver-me. Tentei purificar-me desesperadamente, sorvendo os tímidos e aquosos raios lunares que teimavam em invadir minha momentânea escuridão. Os dias seguintes foram densos de vergonhas e suores. Cavei caminhos subterrâneos apertados para me movimentar pela vida e evitar olhar nos meus próprios olhos e nos olhos alheios. Dormi mal, não suportei sentir os ruídos que vinham de minhas entranhas. Pois, diante de você, expus espontaneamente minhas mais íntimas fragilidades, restos daquilo que fui e não consegui digerir apropriadamente. Evacuei discursos, gritos, galhos, gomas, temores e sofrimentos perdidos, passados, confundidos, apodrecidos. Você viu meu avesso – e o avesso de meu avesso: meu recomeço. Se minha nudez havia deixado de ser pudica há muito tempo – as ranhuras do desejo que tiram os poros do lugar, você me dizia –, eu deixei de ser pura no momento em que excretei. Pequei e confessei, ainda que tenha me custado reconhecer minha sujeira, minha humanidade pastosa, os joelhos escuros, as unhas manchadas. Se houvesse vomitado, se houvesse regurgitado... teria sido mais higiênico e aceitável, mas não verdadeiro e inteiro. Chorei de verdade quando me senti no deserto, sedenta e faminta, em jejum completo, lambendo a areia das pedras, mendigando minha própria saliva e dor, sozinha e desamparada. Fugida das constatações de mim mesma, de minha imagem refletida em vidros, lagos e vidas. Mas o desamparo foi passageiro, porque você não foi uma miragem: a firmeza e doçura de suas palavras me abraçaram longa e ternamente por minutos plenos de planos. Vem, você falou, vem para a varanda. Vem, você repetiu, acolhe seu adubo, meu adubo, nossas fraquezas e as raízes de nossa perseverança. Fui broto abrindo os braços dentro da semente de casca fina naquele instante: toquei os grãos de terra, toquei a seiva do amor. Ressuscitei gente.

Hoje produzo leite, leite e fervor, fervor e calor. Nutro os frutos nossos – sem mais receios de excretar o que é excesso, quando é preciso.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

sanguessuga


Sedenta. Faminta. Insone. Ofegante. Cheguei à beira do rio, lambuzei a sola dos pés na areia quente, no barro ardente. Já passava da meia-noite e a terra conservava o fervor de dias inteiros escaldantes e intensos de ousadias. Suava. Eu suava enquanto sentia a água gentil acariciar meus tornozelos indignados. Não, eu me engolia, não, eu lhe dizia, não, eu contestava, não, eu escutava, não as ruas, as chuvas, os postes, os montes, não as lágrimas, os perdões, as voltas, os vultos, não então? Suava de haver corrido, suava de haver morrido e ressuscitado umas quantas vezes, suava de haver amado, amado desesperadamente, inconsequentemente, palavras grandes e longas, sentimentos solenes e urgentes, advérbios bem colocados e evocados com tanta compaixão. Havia, portanto, amado suntuosamente. E a grama que roçava meus dedos cheirava à cólera, cheirava à calma, cheirava a contradições várias, cheirava à alma. Meus pensamentos pesavam, sobravam, escorregavam de minha cabeça ofegante, insone, faminta, sedenta e espatifavam-se no asfalto da estrada nua e crua que acolheu o meu fugir. O meu desgrudar. O meu reinventar. Sobravam, portanto, gritos surdos e macios quase a ponto de escapar de meu coração:

Por quê?


Por quê?


E agora?


Cheirava-me à alma, cheirava minha própria alma em busca de consolo. Embebia-me na água do rio, mas morria aos pouquinhos de sede. Outra sede, não a sede de todo mundo, de todos os dias, de todos. Fêmea, explodia em sangue de vários tons. Todos meus.Todos repletos de sons. Tons, tons, tons. Sons. Tons, tons, tons. A decepção é marrom. A raiva é tão vermelha quanto o despeito e o desejo. O amor era lilás. Mas hoje, em meio à água-irmã, era toda sangue. Sangue, barro, areia, água. Meu útero jorrava sangue, jorrava indignação. Meu útero: o mais belo presente que poderia haver partilhado. Meu útero que lhe encantava visitar de tempos em tempos. Lugar sagrado de meu próprio corpo, templo de oferendas, onde ele entrava só quando era dia de lua e tempo de paz. E hoje havia luto, sangue e fluxos.

Paz. O mundo das águas é puro silêncio e reverberação.
Paz. Tudo passa. Paz. Meu corpo absorvia líquidos alheios, meus olhos aos poucos reaprendiam a repousar.


Os troncos úmidos e pegajosos da beirada ribeirinha foram gentis: era manhã quando me espreguicei, abraçada por mãos inventadas e firmes. Me protegiam da correnteza sem me tirar a leveza. Ainda tinha sede, ainda tinha fome, mas já não havia mais vermelho. O suspiro matinal tinha cor de abóbora: doce e suculento. E forma de broto: recomeço.