quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

#Florescência

Acordou um dia e levou um susto. Estava num desses casarões antigos, de janelas imensas e assoalho de madeira, teto descascado, armários imponentes e penteadeiras de espelhos avultados. Havia até banheira, daquelas quase-piscinas, no banheiro comprido, de azulejos brancos e piso de lajotinhas vermelhas. Mas o verdadeiro susto veio antes do reconhecimento da casa: acordou e se viu numa cama de casal. E com dois homens. Dois! Ela continuava ela mesma – a camisolinha surrada, o cabelo fino arrepiado, as pintas na face corada, o calinho no quarto dedo do pé esquerdo. Mas havia dois homens na cama, um de cada lado. Dois roncos diferentes. Um de pijama e um nu. Um de cachinhos e outro de cavanhaque. Um pernambucano e outro mineiro. Estava estupefata. Não era o som das buzinas e das construções paulistanas que ecoava lá fora. O canto da Bahia entrava pelas frestas das portas coloridas e altas, pelo quintal com as galinhas, pela cozinha onde o cheiro de café perfumava a mesa azul, coberta pela toalha de renda e um vaso de lírios de plástico. Dois homens! Tinha perfume de loção pós-barba no travesseiro. Sondou o próprio corpo e encontrou os ares típicos de uma noite de sexo. Com quem?, agoniou-se na sensualidade típica de mulher satisfeita, ai. Viu na mão esquerda uma aliança. Oh, meu Deus! Virei dona Flor!, gritou para si mesma, em silêncio. E logo sentiu um calafrio daqueles dos bons, que atiçam o corpo e endoidam a cabeça. Eram os dedos marotos do pernambucano deslizando por sua coxa. Ui!


(continua)

2 comentários:

Débora Poulain disse...

Uia, que estadia boa essa pernambucana...

Usui de Itamaracá disse...

Texto divertido, bem escrito, e ao mesmo tempo, aflitivo.
Adorei a tirada da "Dona Flor" rsrsrs