quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

DESMEDIDA


A água morna caía delicada e deliciosamente sobre suas costas, e ela tinha, naquele momento, qualquer homem que quisesse. Tinha todos os homens – todos aqueles que passavam por seus sonhos ou por seus poros, por suas lembranças ou por suas fantasias, por seus caprichos ou por suas terminações nervosas. Inventados ou reais. Distantes ou vizinhos. Possíveis e impossíveis. Delírio, puro delírio, mulher em estado bruto, sem medidas, sem mesuras, desmontada, desvairada, despudorada – ela e seus homens inúmeros, úmidos todos, mulher de timidez tremenda em seus afetos mais profundos. Mulher de meia-entrega que queria dar-se inteira, mas cuja hora ainda não chegava. Não enxergava? Enquanto isso, a água. Deslizando sobre as costas. Desenhando desejos.

Toque, tocada, tomada.
Desenhando desejos.

E eles todos vinham. Dia após dia, eram muitos. Mulher grande, mulher inúmera, mulher sem-fronteira, veemente, vigorosa, carne-de-sol, carne-ensopada, maravilhosamente ensopada, desmesurada sempre. Porque hoje era aquele e amanhã este, o rapaz do ônibus, o rapaz da praia, o amigo distante, o moço dali, o homem grisalho, o de óculos, o de sotaque sexy, o inventado de misturas essas, o fantasiado com misturas aquelas, e, e, e, e. Mas, todos os dias, o café da manhã era solitário e as noites quentes de verão chegavam sem vento e sem companhia. Seu abraço era grande, o chuveiro era generoso, seus pensamentos infinitos e acolhedores, confortáveis e espaçosos, mas não havia alguém a ocupá-los verdadeiramente carne-e-osso, coração-e-coração, olhos nos olhos, boca na boca. Suas costas continuavam indóceis ao toque de fato e ela se tornava cada vez mais selvagem. Selvagem, ferina. Os lábios nem sabiam mais o gosto de outros lábios – só imaginavam. Desacostumava-se do mundo das intensidades afinadas antes da festa e dos tons nem muito baixos nem muito altos. Formava um mundo muito próprio e peculiar, de suor e sabor, descolado completamente das disponibilidades da vida cotidiana.

Cotidiana,
Diana caçadora, Afrodite sonhadora, Minerva sábia,
Gregos, troianos e latinos,
Mas era só em fantasia, a cama seguia vazia. E ela com todos os homens inimagináveis sendo-se sofregamente em todas as sensações que conhecia.

Divinamente sôfrega – sem lençóis, sem documentos.

Enquanto isso, um trabalhava, outro viajava, outro ainda estudava e aquele que apareceu de madrugada – ela não sabia – estava amando outra mulher em algum ponto verdadeiro do mundo que existe.

Ela sabia, sim.
Ela também existia, mas talvez eles não soubessem.

Sem noção.
Sem mesuras.
Desmedida.

Um comentário:

Débora Poulain disse...

Amei isso: Mulher de meia-entrega que queria dar-se inteira, mas cuja hora ainda não chegava. Não enxergava? Enquanto isso, a água. Deslizando sobre as costas.