quarta-feira, 5 de março de 2008

Janela

Ambos olhavam para o lá fora.
O céu de um azul poluído, mas brilhante. E nuvens. Havia vários chumaços delas, numa ciranda delicada e efêmera.
Você já tinha reparado em como as nuvens são desapegadas? Ou despudoradas? Olhe aquilo: com que facilidade desgrudam-se e juntam-se novamente em diferentes combinações, assumindo outras formas, desfazendo-se das antigas e ganhando corpo... Parece obviedade, mas eu nunca havia visto algo assim. Talvez eu nunca tenha me dado conta disso. Aquela pequenininha sumiu! Como sumir assim? Sumir... sumir e...? Virar outra coisa? Virar nada, virar tudo? Acho que eu não sabia disso. Nunca soube disso. Tenho olhado apenas para o chão, para o concreto das coisas, para a sujeira das ruas, os buracos na calçada, as faixas de pedestres. Não enxergo o céu, o acima. As nuvens têm tanto a ensinar, não têm? Ou, quem sabe, sou eu quem tenha muito o que aprender com elas. Bailar desse jeito... Me sinto pesado às vezes. Me enxergo meio sofrido.
Estava estupefato. Um tanto revoltado, mas surpreso e grato. Grato pelo momento que finalmente veio.
O outro riu. Riu e suspirou.
Seu suspiro formou uma nuvem, amigo. Estou ainda tentando entender a fluidez disso tudo. Não há nuvens no chão. Certo, certo, outra obviedade. Mas eu não entendia. Não entendia porque não sabia, ou nunca soube porque nunca entendi?
Pausa.
Às vezes, essa diferença sutil entre pretérito perfeito e pretérito imperfeito me comove. Sim, sim, não me olhe desse jeito. A palavra é comover mesmo. Entre ia e o ou. Porque é isso: a terceira pessoa fica sempre pairando entre o ia e o ou. Tem o ava também, mas é uma falsa terceira via. Céu é céu, chão é chão. Ao céu o que é do céu, ao chão o que é do chão.
Suspirou ele também.
Não concordo. Ou não quero admitir essa sina. Ou...
Pretérito perfeito?
Quê?
Brincadeira.
Por quê? Não quero ficar fadado ao chão.
Eu gosto do silêncio.
Também não sei se quero ser nuvem, totalmente nuvem... Já pensou me desfazer de vez em quando? Ser e não ser? Ter de me recriar continuamente, espalhando-me e juntando-me, sempre em movimento? Bem, nós também estamos sempre em movimento. Estou meio cansado desse peso todo que carregamos, estou, na verdade, cansado desse trabalho compulsório. Mas... Mas eu adoro as férias, quando vamos ao mar. Antes: a areia. Adoro a sensação da areia, porque depois dela vem o mar. Eu adoro o mar. Se eu fosse nuvem, não teria a oportunidade do mar.
Hoje não vi nenhum pássaro, só dois aviões. Isso é “cidade”? Em vez de pássaros, aviões?
O quê?
Imagine você, no mar, sem ver peixes, apenas navios ou botes ou balsas.
Você usa muito ou, ou, ou... O ou é a perfeição das coisas, porque nada é definitivo a ponto de você dizer: ia. E ir mesmo.
Um olhou para o outro.
A chance de estarmos sempre juntos é muito grande.
Eu sei, é que me bateu uma saudade agora. Uma saudade antecipada de tudo o que partilhamos por tanto tempo. Menos do chão que pisamos, mais de nossas conquistas, de nossos aprendizados.
O que estava à direita sorriu. O da esquerda continuava falante e ansioso.
Partilhamos o mar também. E as areias todas. E agora estamos partilhando o céu.
Sim, sim. De vez em quando, calhava de você pegar uma meia mais apertada ou eu uma furada...
O pretérito perfeito de novo. A perfeição está nessa amplitude de possibilidades. Mas somos todos imperfeitos. Estamos indo sempre. As nuvens, os pássaros, os aviões, a ondas do mar, nós mesmos.
Houve um soluço? (Soluça-se ainda?)
Ficar não significa perfeição.
Não.
Então, nossa teoria está furada.
Então, agora entendo aquela frase do Shakespeare.
As frases e as teorias só são entendidas quando vividas. Os sentimentos também.
Talvez até os pensamentos.
Tudo. Entre o chão e o céu...
Você está meio arroxeado, o que foi?
O sapato, acho. Ou uma batida.
Perfeito....
Risos.
Precisamos de um trato, não é? Andamos tão preocupados nesses dias todos que mal demos atenção a nós mesmos.
Isso acontece com freqüência. Mas você é bonito com essa cascudice toda.
Risos.
Amo você.
Também amo você.
Por que a gente olha tão pouco as nuvens? Desculpe-me por voltar ao assunto, mas eu não me conformo. Não quero estar fadado ao chão. Quero ter a oportunidade de escolher. Ou. Não “ia ao céu. Ava ao chão” – e ponto. Isso não.
Tem azul demais no mundo, não é?
...
Você está chorando?
Eu me emociono com facilidade, você sabe. Naquele dia em que toquei aquela perna, perna peluda... Causamos comoção.
Nós tocamos. E foi bonito. Houve outras, haverá mais, se Deus quiser. E se ela quiser. E eles quiserem. Bem, não tenho certeza. É muita gente para querer antes de que tudo aconteça... Espero tocar outras pernas peludas. Gosto da sensação.
Ha-ha... Bateu a nostalgia, é, amigo? É engraçado ver tudo de outra perspectiva, não é? Esse espaço agora vazio, antes estava cheio. Víamos desde baixo, agora vemos desde cima. Nos sujávamos, nos deliciávamos.
Isso é imperfeito e belo. Sua teoria tem furos. Nossa teoria. Também somos imperfeitos.
Voltando a esse tema, a primeira pessoa do plural é a mais simpática. Porque mescla presente e passado. E, para virar futuro, recorre ao “re”.
Adorei isso.
Nós nos amamos ontem. Nós amamos hoje. E nos ama-re-mos amanhã.
“Re”, então, é uma das coisas mais lindas que existem.
“Re” é a possibilidade de uma vez mais, de outra, de sempre.
De amanhã.
De junto. De novo.
O lá fora tão intenso, tão presente, emoldurado de luz.
O da esquerda olhou à volta.
Partida.
Chegada.
Fim.
Começo.
Saída.
Entrada.
Despedida.
Saudação.
Separação.
Encontro.
Reencontro! Reencontro!
Riram os dois.
Eu.
Você.
O lá fora, as nuvens, o céu poluído mas bonito.


MF baixou as pernas delicadamente, procurando levantar-se desenrolando a coluna. Eles, o da esquerda e o da direita, encaixaram-se em suas respectivas havaianas de cor verde-água e seguiram para mais chão, tendo, porém, provado o céu.

Quando os pés provam o céu, já tendo experimentado o mar, é difícil segurá-los no chão. Por isso, há gente que voa – esta é minha teoria.

Um comentário:

Rô disse...

Passei umas horas por aqui... E de pernas pro ar que é para os meus também se alimentarem de céu. Bjs