quarta-feira, 12 de março de 2008

suspiros verdes

(2003, MF)



A menina esticou as pernas de modo que seus pés pudessem tocar a água clara da piscina. Águas paradas. Ela mesma parada. Sentada no degrau do lado mais fundo. Mesmo assim, ela via o contorno preciso dos azulejos lá embaixo. Ahhhhh. Deve ter suspirado pela décima vez, desde que se acomodou ali, há horas. Lembrava-se do abraço de ontem, um meio abraço, sem olhos nos olhos, sem sentimento, concluído rapidamente com um beijo insosso e desprovido de significados na bochecha esquerda. Ahhhhh. E ela já havia abraçado aquele homem outras vezes e já tinha sido tão bem abraçada por ele que a ausência de abraço naquele meio-abraço lhe doía mais que o pequenino corte no indicador, datado de alguns dias. Estilete. Passara horas montando um caderninho com versos, frases pinçadas de autores queridos e outras epifanias escritas. Seria para ele se não fosse o meio-abraço. Será para ele se. Ahhhhh. Chega de vida invisível, dessa existência paralela, supra-real. Por que se deixava ficar tanto tempo nela? Por que inventara de fazer o tal caderninho? E por que o destinatário seria ele?

Tirou os pés da piscina, quase murchos. Suspiros verdes. Ela, menina esverdeada, saia verde de que mais gostava, olhos castanhos esverdeados. Ele, homem de vários tons, camisa como qualquer outra camisa, olhos castanhos esverdeados. O dobro da idade dela – ou mais. As mesmas palavras, aprendidas com a experiência e a vida, é claro, mas lapidadas gentilmente com a leitura contínua e o estudo de Clarice, Guimarães, Pessoa, Drummond, Bandeira, Graciliano, Caio, brasileiros e mais brasileiros. Ele, é lógico, com um arsenal de palavras – e de fonemas, de tonemas – bem maior que o dela. Mas ela compensava com a doçura e com o ardor com que escolhia as palavras. E com o jeito de balançar os pés quando se sentava na mureta. E de inclinar a cabeça, assim, para o lado e sorrir sem mostrar os dentes. Às vezes, ficava vermelha. Nos outros momentos, era a menina esverdeada de sempre, leve, límpida e inteira.

Que rara a comunicação entre olhos que não são nem totalmente castanhos nem totalmente esverdeados! Um diálogo entrecortado, mas suave e ondulante. Do caramelo ao verde, do verde ao caramelo, algo se perde quando as retinas se alinham, mas é uma fala que lembra o mar. O mar de águas agitadas. Ela preferia o mar, sempre. O mar lhe fazia sentir viva, humana – a mais humanas de todas as pessoas. O mar estava tanto na vida invisível quanto na real. Tinha cor variável, como a gente, era esmeralda, turquesa, quase negro, apenas docemente verde... Mas hoje precisava da piscina. Da calma. Da imobilidade. Do choro, talvez.

Um dia, ela se aproximou dele, como já fizera outras vezes, prometendo a si mesma não gaguejar novamente. Encheu-se confiança – tinha uma flor de crochê caramelo nos cabelos, pequenina e notável – e comentou como havia gostado do que ele falara sobre A Hora da Estrela. Ele, olhando nos olhos dela (mas tendo reparado antes na florzinha de crochê), disse: “Sim.” E sorriu. Silêncio. Ela sentiu que, se falasse algo mais, gaguejaria. Não queria; na vida invisível, ela teria comentado com desenvoltura trechos inteiros do livro e ele ficaria surpreso com sua perspicácia, com sua argúcia. Mas não foi isso o que ocorreu. Sim?

Ela sorriu, acenou-lhe – ele continuava a sorrir e a olhar-lhe os olhos – e foi se afastando, de mansinho, levando um tempão para dar as costas. Caminhou em direção à saída mais próxima, precisava pegar o ônibus logo, encostar a cabeça na janelinha, ver o mundo agitado e abafado e esquecer aquele constrangimento todo. Transpirava, suspirava. Estavam bem verdes os suspiros. Sim? De súbito, veio à mente a primeira frase do livro da Clarice, assim mesmo, sem aspas, sem saber se a sintaxe estava correta: tudo no mundo começou com um sim. Ops. Ele disse...? Ele disse...? Ahhhhh. Olhou para trás. Ele conversava com outras pessoas. Mas notou-a lá, afastada, boca semi-aberta, florzinha de crochê no cabelo. Sim? Tudo começou com um sim? Então... começou?

Pois é, ela voltou a colocar os pés na piscina, agitando a água. Começou! Foi naquele dia em que tudo começou. E começou com um sim! Foi uma pequena epifania, daquelas descritas por Caio Fernando Abreu. Pequena epifania só acontece quando o outro também acha que se deparou com uma pequena epifania? Franziu a testa, quase fechou os olhos castanhos esverdeados. Bem, ambos disseram sim. Então, então. Pequena epifania, com rosto, corpo e forma. E nome. E abraços. Ah, os abraços. Um abraço e meio, às vezes um abraço duplo de tão grande, de tão intenso, de tão humano, de tão mágico.

Cheirinho de roupa recém-tirada da gaveta. A pele e todos os seus sensores mágicos, condutores de sensações e reações. O toque do cabelo. O sorriso e os olhos. Quanta troca, meu Deus, nesses vários abraços. Um universo de divagações, de sonhos, de descobertas. Ela se sentia tomada pela mão e levada, de olhos fechados e sentidos apurados, para horizontes de paisagens selvagens e sedutoras. Para um sem-fim de desejos. Inomináveis desejos.
E foi então que houve um não, ela não sabe ao certo onde e quando, mas houve. Os olhos passaram a ficar furtivos, o abraço começou a perder tônus, até chegarem aqueles beijinhos insossos e bobocas na bochecha. Daí, nem era bem um abraço, era mais uma obrigação de promover uma imitação de toque apenas para ela não desistir. E ela não desistia.

Mas, assim como o narrador de Pequenas Epifanias, ela também se lembrava do conto Tentação, de Clarice, e do encontro da menina ruiva com o cão basset. Quando estava sozinha no ônibus e o dia amanhecia nublado, ela chorava, pedindo a Deus que viessem sins e mais sins junto com a chuva. Às vezes, pensava tão forte, tão forte, que naqueles dias o abraço quase voltava a ser o que era antes. Os olhos se buscavam, os dele denotando algum cansaço e tristeza, ou seria melancolia?, mas jamais desdém. Ela sempre com os olhos atentos e disponíveis, em alguns momentos muito exigentes também. Mas daí o não reaparecia. Por quê?

Ela não sabia se ele havia mudado, ou se ambos estavam diferentes. Os encontros começavam a escassear. Mas ela tinha saudade. Lia Clarice, Guimarães, Pessoa, Drummond, Bandeira, Graciliano, Caio, brasileiros e mais brasileiros, buscando neles as palavras dele. Buscando neles a presença dele. Comprou uma saia verde para combinar com os olhos de ambos. Pôs de novo a florzinha de crochê no cabelo. Passou a andar com um verso de Drummond na bolsa: “Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação”. Queria aprender a mergulhar na realidade, abandonando aquela existência invisível de vez. E então, por acaso, num fim de semana à tarde, encontrou com ele, ao sair do cinema. Tomou um susto. Ele também. Estava acompanhado, ela idem. Ele sorriu, esverdeado e distante. Ela sorriu, irritada e esverdeada. Os olhos mal conversaram.

Comprou também um sapato de cetim verde. Quem sabe, enchendo a vida de verde concreto, a vida real se tornaria finalmente esverdeada. E aí tudo aconteceria. E não seriam apenas seus olhos, ou os dele. Sim! O tempo foi passando, outros interesses, outras pessoas, novas leituras, algumas viagens à praia, um ou dois dias na piscina, a existência se encarregara de carregá-la, sem que ela se esforçasse muito. Saudade das epifanias. Saudade dele. Saudade esverdeada.

E, então, veio aquele filme. O ator idoso e maduro encantado com sua Vênus pós-adolescente, o desejo carnal brotando indecente nele. Mexendo com ela. Os carinhos impossíveis. Os pecados íntimos. Mais estranho que a ficção. Ahhhhh. Em que labirinto se metia! Passou o dia com desejo de brigadeiro e de imprevisibilidades. Nos momentos de aflição, buscava Álvaro de Campos. Sentir tudo de todas as maneiras, ter todas as opiniões, ser sincero contradizendo-se a cada minuto, desagradar a si próprio pela liberalidade de espírito, e amar as coisas como Deus. A Passagem das Horas. Eu o amo. Eu o amo!

Explodiu em lágrimas. Piscina, piscina, por favor. Águas paradas. Socorro, vou me afogar. Foi quando teve a idéia do caderninho. Ele precisa saber o que sinto. Precisa, precisa, precisa. Comprou papel especial, separou cuidadosamente versos e frases. Cortou o dedo com o estilete, mas nem doeu. E preparou-se para o encontro.

Ela estava de saia verde. Florzinha de crochê. Sapato de cetim verde. A cor da blusa não importa, mas combinava maravilhosamente bem com tudo – especialmente com os olhos, castanhos esverdeados. Voz de menina? Que nada. Estou agora com voz de mulher. Se enrubescia? Que nada, mudei tanto, cresci, já nem fico tão vermelha. Me falam as coisas e eu paro de pensar no monte de significados possíveis e nem me incomodo. Ok. Ela o esperou pacientemente. Ele a notou, desta vez notou-a antes de notar a florzinha de crochê. Não sabemos se ela percebeu, mas ele suspirou logo que se aproximou. Eles se abraçaram. Foi aquele abraço bobo, um abracico de nada, um meio abraço, um não-abraço. Ela ainda fez um teste: ficou olhando para ele depois. Ele não estava olhando para ela. Estava olhando para o lado. Foi muito triste. Um rompimento. Momentos felizes que pertencem ao passado, não adianta insistir e trazê-los de volta iguaizinhos. Ela já era outra, ele também, então.

Ahhhhh. O último suspiro, antes de ela sair da piscina, enrolar-se na toalha e buscar uma ducha, não foi verde. Entardecia, talvez ela nem tenha percebido. O último suspiro foi cor de caramelo. Ou castanho, não deu muito para identificar. O adesivo curativo, que boiava na água e ela nem se deu conta, estava da mesma cor. No doce aprendizado da passagem das horas, a gente constata que tudo, no fundo, é meio camaleão. Na vida real e na invisível também, inevitável. E que, se observarmos a natureza, depois das folhas ficarem verdes, elas se tornam castanhas. Ou cor de caramelo. E aí é hora de dizer adeus.

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