quarta-feira, 12 de março de 2008

OS MUNDOS DE MERYEM

(2007, MF)



Meryem caminhava apressada na rua. Não tinha exatamente uma hora para chegar, um lugar que alcançar, um compromisso, uma iminente vontade de ir ao banheiro, não sentia medo, desejo de treinar para a próxima maratona ou disposição de sobra. Meryem simplesmente e tão-somente caminhava apressada. Apressada e curvada para frente a fim de esconder o calombo que se formara entre os seios. Calombo imenso, maior que a dupla mamária, protuberância imponente. Diagnóstico: excesso de sentimentalidades, entupimento dos canais de escoamento. Sintomas: dor, uma certa melancolia, quietude, solitude, saudade. Há como diminuir o inchaço, doutor? Com muita paciência e jeito, você precisará desfazer os nós, diminuir suavemente a intensidade dos sentimentos, respirar mais profundo, olhar mais para fora, alongar-se. E, claro, desfazer-se de muita coisa já inútil. E quanto tempo isso leva? O médico deu de ombros. Então, Meryem andava apressada, cabisbaixa e já um tanto esgotada, pois suas sentimentalidades lhe sugavam energia, ocupavam espaço em seu ser e quase ganhavam vida própria, tornando-se novos mundinhos.


O dia estava denso e grande, embora sem sabor, como fruta manipulada e amadurecida à força. Cinzento e gosmento, como catarro. As pessoas poluídas pelas coisas de sempre – modismos, superficialidades, banalidades, fascínio pelo dinheiro, grosserias e cagaços dos mais diversos – nem notavam Meryem. Tampouco lhe atraíam a atenção, ela estava completamente absorta na tentativa de, ao menos, compreender a razão daquele entupimento repentino. Aparentemente, vinha se permitindo calibrar todos os vasos internos para que o fluxo se mantivesse contínuo e fiel. Externar veementemente desejos e fantasias, se expor à exaustão, ir ao âmago do âmago de tudo, manter a razão e o ego de castigo, quase se estourar em sangue de tão intensa e potente, agarrar as pessoas queridas mesmo ultrapassando alguns limites. Pois não estava sendo suficiente. Ou não era isso que funcionava. Ou exagerara. Ou...


Câmera bem lenta.
O barulho foi imenso. Mas soou como música. Os cabelos ganharam o céu apagado, como se fossem raios minúsculos. As mãos voaram em direções opostas, acariciando rostos diversos e dispersos, acompanhando contornos de peitos masculinos e revolvendo cabelos. Um dos pés foi parar no Oriente Médio, outro em Cuba. A boca beijou lábios, bochechas e broas de fubá.
Seus cílios fizeram cócegas num rapaz turco. Uma das nádegas amorteceu a queda de um amigo a quilômetros de distância. O suspiro entalado estourou lá no México. A palavra quase dita reverberou na moça que tinha mania de explicação. E seus dentes morderam duas maçãs impossíveis na Aclimação, uma por tendência, a outra por disponibilidade.
O restante tornou-se farelo, poeira brilhante, quase imperceptível – um mendigo e um hippie vendedor pulseiras de corda foram os únicos que notaram algo, mas como ninguém os nota não puderam compartilhar a surpresa.
Meryem explodiu.



DAS ÚLTIMAS GOTAS
O mundo primeiro tinha homens impossíveis. Só homens impossíveis. Eles eram de todos os tipos, tamanhos, formatos e genitálias. Eles tinham todos os tipos de tônus, de tonalidade e de tons de voz. Estavam em seu ir-e-vir cotidiano, alguns mais pesados por conta de toneladas de medos, outros um tanto apagados em razão de mágoas diversas, uns extremamente arrogantes apoiando-se em suas qualidades e escondendo sua insegurança espinhosa, vários deles encarcerados em suas próprias mazelas. Pairava a névoa. Meryem passeava por eles com olhar aguçado, interessado e condescendente. Maldito olhar condescendente. Meryem olhava mais que devia, conseguia captar sinais inconscientes e transparentes, enxergava fagulhas de alma, encantava-se. Meryem havia desaprendido a paciência e o comedimento. Achava-se capaz de partilhar ininterruptamente, julgava-se dona de um estoque interminável de doçuras, dimensionava mal sua compreensão dos complexos alheios. Assim, apaixonou por muitos, senão todos, um por um. Meryem provocou o caos no mundo dos homens impossíveis. Queria ir até as últimas conseqüências: atingir a alma de cada um, perscrutar-lhes os pulsares, arrancar-lhes as máscaras e as cuecas. Foi expulsa, duramente expulsa, grosseiramente expulsa.
Causou um tsunami de repulsa. Rejeição.



DOS ABISMOS E DOS DESERTOS
O mundo segundo era imenso e embriagante. Impossível permanecer nele – impermanente, transformava o tempo em vento e mimetizava os seres todos. Quase impossível sair dele – se o limite fosse ultrapassado, o retorno estaria fadado ao fracasso. Meryem amava aquele estado. Perdia-se constantemente, quase esquecendo de si mesma. Era um mundo de desertos, muitos desertos, de todos os tipos e com todas as surpresas possíveis. Cores inesperadas, caminhos improváveis, tempestades de sentidos, furacões de sonhos e fomes. E havia abismos, nos quais Meryem lançava-se inconseqüente e feminina. Abismos sem fundo e sem frio. Nesse mundo, ela experimentava sede e dor. Vivenciava tais sensações por livre e espontânea vontade, enxergava Deus, falava com Deus, tocava a lua, namorava o sol, era tudo e era nada, não tinha idade nem altura. Era, tão-somente era. Desfazia-se por inteiro para refazer-se mais tarde, com novo frescor. Porém, Meryem deixou-se ficar além da conta e, em vez de vigor, começou a provar sofrimento. Saiu correndo. Esqueceu de deixar a porta semi-aberta. Não conseguia voltar. Angústia.



DAS CORRENTEZAS
No mundo terceiro não havia nada além de rios e mares, todos caudalosos e envolventes, velozes e audaciosos. A temperatura variava, limites no gelado e no fervente. A paleta era impressionante: do quase transparente esverdeado ao preto petróleo pretume. Meryem tinha seu bote e navegava e mergulhava e usava seu snorkel e sonhava escondido em ter toda aquela água aguaceira languidez correnteza dentro de si. Gostava de nadar e de boiar. Congelava, fervia, refrescava-se, enchia-se. Tudo era sempre muito, muito, muito forte. Imperativos. Com alguma dosa de ilusão, Meryem começou a nomear os rios e os mares a fim de aprender a lidar com eles. Como se pudesse domesticá-los. Como se pudesse compreendê-los. Como se pudesse prever qualquer coisa. Tesão. Empolgação. Despeito. Raiva. Carinho. Paixão. Vergonha. Irresponsável, largava-se no fluxo. Um dia, deixou-se embebedar. E embebedava, embebedava, e ia afundando, afundando, e Meryem começou a se afogar. Inconsciência. Quando acordou, estava numa praia suja e feia, lá do outro lado. Meryem enferrujara. A torneira gotejava, aflita e impaciente. Precisava livrar-se da verminose, reaprender a nadar, construir novo bote. Tristeza, fraqueza.



DA SELVAGERIA
Terra sem dono esse mundo quarto, que Meryem transformava em seu quarto e a ele encarregava os cuidados sobre uma parte sua, um quarto de si. Nele era fera, era fêmea, era filhote, era líder, era grupo, ganhava montanhas e árvores, dormia na grama, lambuzava-se, largava-se indomada e tempestuosa, armando tempestades e dançando sob a chuva, pés no chão, lama até os joelhos, sem qualquer pudor ou receio, que se danem todas as convenções, quero o infinito e a finitude, a fênix e a fada, a fábula e o feito. Meryem não sufocava sua agressividade, apesar de muitas vezes manter as rédeas soltas e provocar ferimentos – em si mesma e nos outros. Meryem tampouco mantinha seus instintos enjaulados; quando virava serpente, mordia; quando virava águia, voava; quando virava leoa, amava loucamente. Ela se entregava de tal forma que muitas vezes não se reconhecia. Amanhecia muito mais jovem, anoitecia muito mais velha, tinha um e cem anos ao mesmo tempo e no mesmo instante. Ocupava dois corpos no mesmo espaço. Tinha mais de quatro dimensões. Confundia a cronologia. Incendiária, quase pôs fogo na floresta involuntariamente. A patrulha dos bons modos, dos bons sensos e dos bons incensos logo farejou perigo: invadiram o terreno sagrado de Meryem e prenderam-na, levando-a para fora daquele mundo. Ameaçaram-na com um exílio eterno caso se rebelasse. Castração.



Então,
Por causa do calombo
Hecatombe novelo sentimentalidades
Excesso estrondo
Explosão



Os mundos de Meryem passaram por dilúvio, apocalipses, juízos finais, the end, prisão de segurança máxima, entrevistas maçantes com o RH, formatação da máquina, falência, síndrome do pânico, envelhecimento precoce, desgaste do motor, ditadura. Óbito.



Mas na hora do briluz, quase às quatro da tarde, de um dia tão importante quanto qualquer santo dia, Meryem renasceu outra. Trazia uma memória muito sutil de sua vida prévia, carregava sementes de mundos nos ovários, via-se cheia de comportamentos e compartimentos vazios. Resolveu sonhar. Sonhar e ser, ser e sorrir, sorrir e dormir. Um dia após o outro, nada como um dia após o outro.

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