sábado, 16 de junho de 2007

Nuovomondo, de Crialese, ou A Gênese de Lóri

Foi num domingo de dezembro de 2006. Quer dizer, houve uma sexta-feira à noite antes desse domingo. Estava assistindo à peça "A Falta que Nos Move", que permite a participação voluntária do público. Um jovem andrógino, muito sensível, muito simpático, grande, gordinho, decidiu ler um texto que havia escrito durante à tarde daquele dia. Falou do poema que está na faixa 3 de "Drama 3o. Ato", de Maria Bethânia. Falou de "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector. No dia seguinte, no sábado, o livro já estava nas minhas mãos. Mas foi no domingo, naquele domingo, que comecei a lê-lo. Havia chegado uma hora e meia antes de a sessão de "Nuovomondo", de Emanuele Crialese (Leão de Prata em Veneza), começar. Centro Cultural São Paulo, eu era uma das primeiras da fila. Talvez, ele disse, talvez eu apareça. Se der. Nenhuma promessa, apenas um esboço de desejo. A hora ia passando, a fila seguia parada, ele não aparecia. E eu devorava as páginas do livro, sentindo o calor daquele prenúncio de verão, e a Lóri que estava adormecida dentro de mim começava a se revelar. Na tela, a saga de Crialese. Numa época em que a Itália não era um propriamente um país, mas uma colcha de paeses e a América surgia como uma terra de promessas de todos os tipos, estávamos todos nos lançando ao mar: a inglesa Lucy, o italiano Salvatore, a brasileira-eu-mesma... E aí:
Aprendizado dos Prazeres

Pensei assim:
Eu, na fila do cinema,
Lendo “O Aprendizado ou o Livro dos Prazeres”,
Mergulhada na intensidade de Lóri
E nas intenções de Ulisses.
Eu, na fila do cinema,
Vendo-me desnudar cada vez mais,
Cada vez que a leitura avançava,
Eu toda revelada,
Dissecada, dilacerada.
E aí você,
Nesse calor de dezembro,
Sol, algum vento, luz, muita luz,
Você apareceria, assim, de repente,
Na minha frente.
Ufa, cheguei, pensei que não fosse dar.
Os minutos passavam enquanto eu suava,
Enquanto Lóri me dominava,
Enquanto eu me passava por Lóri.
Que bom que você chegou,
Quase na hora, olha a fila, logo mais o filme começa.
Era o Novo Mundo.
Esperançosos imigrantes que cruzam o oceano
Em busca de.
Eu, imigrante, em busca do oceano
Em você.
Espera-lhes uma terra imaginada,
Imaginam uma terra esperada.
Eu? Eu me lanço nesse solo desconhecido,
Nesse mundo novo que é você.
Eu, mundo antigo, 31 anos,
No oceano dos desejos, lampejos, antevejo
Um território inexplorado,
Desconhecido, recém-descoberto,
22 anos, alguns meses, poucas palavras.
E aí, depois do cinema,
Livro da Clarice por terminar,
Pensei num vinho, mas disse um café.
Você me corrigiu: vinho.
Onde? Moro perto. Dez minutos.
Você: no seu apartamento.
Eu, você, a bagunça dentro de mim,
A bagunça fora de mim.
No vaso, rosas cor-de-rosa. Que eu me dei.
Nas taças, o vinho. Carmenère.
É a uva de que mais gosto.
Um beijo – com gosto de quindim com suco de laranja.
Outros beijos.
Com gosto de mate com leite, pudim de leite, whatever.
Mais beijos.
E as pétalas de rosa. Sua pele, minha pele.
Ulisses invade Lóri.
As rosas não enrubescem: presenteiam-se.
Mais vinho, mais beijos,
Lóri mergulha em Ulisses.
O novo e o antigo mundo se fundem.
Mais de 53 anos de histórias misturadas.
Olhos negros: eu choro.
Pele rosada: eu gozo.
Por que você não veio antes?
Demorei a me desfazer das histórias miúdas.
Eu tive medo de embarcar.
E eu, de te receber.
Você tem gosto de uva, adoro.
Você, de quindim.
Novo mundo.
Você me trouxe suas mãos.
Você me ofereceu possibilidades.
Cheiro de rosas, pétalas por toda parte.
Até no seu cabelo, eu digo.
E dentro de você, você me responde.
Só que a fila do cinema anda,
Você não chegou. E não chega.
E sabemos, o Antigo Mundo, Clarice
Lóri e eu, que você não chegará.
Abro o livro em qualquer página,
Ulisses divaga, ausente, frio.
Não, você não é frio.
Só não está interessado no mundo antigo,
Quer o seu, tão novo e reluzente,
Cheio de promessas diferentes.
Vejo o filme, não abro o vinho,
Vez ou outra ainda me lembro
De trocar a água das rosas –
Murchas não, mas tristes.
Eternamente tristes.
Outros livros, outras filas, sangrias.
Mais dezembros.
O mais estranho,
Apesar de tudo:
você ficou impregnado em mim.
Essa sua novidade, esse seu frescor.
E meus lábios guardam,
Indefectíveis,
Um suave gosto de quindim.

Foi assim, então, Lóri surgindo ao sabor de um quindim como na cena final de "Nuovomondo", completamente embriagada e envolta num sonho branco, leitoso e iluminado.

Um comentário:

Tomita disse...

Escreve muito, tem poderosas frases. até...