quarta-feira, 9 de abril de 2008

Mulher-em-trânsito

"Que seja infinito enquanto dure."
Vinícius de Moraes


Vagas em garagens ou em estacionamentos até existem, mais ou menos disputadas, umas com goteiras, outras apertadas. Mas a condição é implacável: impossível estacionar por menos de duas horas. Dois meses. Dois anos. Duas décadas. Dois séculos.

Não há vagas para uma mulher-em-trânsito. Não há transe sem essa mulher. Não há transa com essa mulher – e não porque ela não queira. Não topam transitar ao seu lado, ou nela, ou em conjunto. Porque não há tempo, dizem. Não há tempo.

A maior contradição: a possibilidade do compromisso de duas horas, dois meses, duas décadas, dois séculos é argumento plausível e usado sem qualquer pudor para as corridas de velocidade. Mas a não-existência da possibilidade é fator ainda maior de pavor.


Muitos já imaginam o fim para justificar o não-começo. E não começam. E, então, aí não começam.


Enquanto a posse for mais importante que o sentimento, a mulher-em-trânsito sempre transitará sem vontade de pousar. Sozinha. Aturdida. Odiada.

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