domingo, 10 de fevereiro de 2008

A Massai Branca

(esse é um post com reflexões... se você quer história, busque ERA UM GAROTO, logo aí abaixo.)

Assisti, ontem, finalmente!, ao longa-metragem “A Massai Branca”. A história é previsível: uma suíça, em férias no Quênia, apaixona-se por um guerreiro de uma tribo local. Vai viver com ele e, depois de alguns anos, já não suportando mais a diferença, volta para seu país de origem. Pronto, contei o filme! Isso, porém, não tira o mérito da película, que não só me encantou como me trouxe alguns sentimentos contraditórios, talvez por eu ter me identificado com a protagonista em vários aspectos. Pois é.

O caçador de pipas -- Achei que “A Massai Branca” tem mais personalidade, como filme, que “O Caçador de Pipas”, por exemplo. Aliás, fiquei decepcionada com esse último. A narrativa é bonitinha, os atores são cativantes, mas algo não funciona nele. Não me emocionou como eu esperava (embora não tenha lido o best seller que o originou – preguiça... –, já conhecia a história). Ainda não sei exatamente o que, na minha opinião, faltou. Ou deixou a desejar. Achei a direção do Marc Foster qualquer nota (pena!) e a montagem me incomodou. Mas não foi só isso. Parecia uma história em terceira pessoa, em que todos – autor, roteirista, diretor, atores – sabiam que estavam falando de outrem, com distanciamento, apuro técnico e muito cuidado para não fazer apologias ou tomar partido. Eles representavam, não interpretavam. Talvez tenha sido esta a razão do meu estranhamento. Faltou alma. Ou atitude. Ideologia? Tudo me pareceu ensaiado demais. A única exceção parece ter sido o garoto que faz o Sohrab, filho de Hassan, este sim presente. Seu olhar profundamente melancólico e desiludido, adulto demais para um menino de sua idade, me pareceu a síntese do povo afegão hoje. Outro ponto débil, a meu ver: o filme (talvez o livro) pára antes da invasão norte-americana ao Afeganistão, o que também me deixou irritada, com a sensação de incompletude. “Ah, América dos meus sonhos.” Enfim.

A massai é massa -- Voltando à massai: sua história era uma história que qualquer mulher poderia viver. Eu, por exemplo. Eu que já fui à Tunísia atrás de um homem. Um homem ocidental, morando lá temporariamente, mas tão avesso a compromissos que também parecia um guerreiro local de cultura completamente distinta. Carola, a massai branca que existiu de fato, foi uma mulher que respeitou a inexorabilidade de seu desejo. Não havia outra opção, entende? No fim, fica evidente que ela realmente precisava passar por todas as experiências que vivenciou para ser ela mesma. Foi lá, naquela tribo perdida no meio do Quênia, que ela pôde ser Carola, entender Carola e assumi-la. Há uma frase emblemática, que a protagonista diz quando está com o ex-namorado Stefan: “E eu vendo roupas.” E dá de ombros. Sua vida na Suíça já não faz mais sentido, mas faltava coragem e impulso para mudar. Carola precisava de um chacoalhão para pôr todas suas questões internas no lugar. O filme assume o ponto de vista dela – o que deixa claro logo nas primeiras cenas. Por isso, há ternura quando precisa haver, deslumbramento e decepção, e a triste – e rápida – conclusão quando a busca daquela etapa da vida chegou ao fim. Eu, espectadora, experimentei tristeza e alívio. Se ela não reconhecesse o término do ciclo, cometeria o mesmo equívoco de antes: suportar uma situação que não tem mais sentido apenas por medo ou comodismo. No entanto, a gente pensa: tanto sacrifício para terminar assim? Nada mais enganoso: ganharam os dois, o guerreiro e ela. Porém, ela vem de uma cultura, nem melhor ou pior, apenas mais flexível às mudanças que a dele. Se, por um lado, é uma cultura que esvazia corações e suga energias rapidamente, comporta mudanças bem mais velozes que a dele. Como o filme assume a visão de Carola, ficamos sem saber qual foi o impacto da passagem dela pela vida de Lemalian. Além disso, senti falta de um incômodo maior na narrativa, um embate entre a razão que tenta compreender a situação ao redor (isso há) e o imperativo irracional, que às vezes nos leva para caminhos espinhosos. Mas alma tem, aqui e ali.

Nada de mais? -- Fiquei pensando se eu bancaria uma história assim; um guerreiro africano seria demais, porém... e um palestino muçulmano? Um turco judeu? Lembrei-me de uma amiga brasileira, que vivia na Suíça, e se relacionou com um rapaz muçulmano de Kosovo. No início foram flores, depois as diferenças cultural e religiosa vieram com uma força tremenda. Ela se sentiu humilhada pelas atitudes dele. Nós, brasileiras, especialmente as de cidades grandes ou metrópoles, por conta de nossa liberdade de ser, vestir e nos relacionarmos (afetiva e sexualmente), corremos o risco de sermos mal-interpretadas – digo por experiência própria e com base na vivência de minha amiga (que não fez “nada de mais”, segundo nossos padrões). Não acho que isso seja um ponto a favor dos homens brasileiros, muitos ainda no beabá do tato e da sensibilidade, pelo contrário. Mas como lidar com diferenças culturais às vezes impregnadas em nossa própria personalidade? Em alguns casos, abrir mão delas representa ressignificar quem nós somos.

Curiosidade -- Na base dessa questão, está o atrativo do diferente, que – aparentemente ou de fato – complementa e desloca nossos lugares-comuns. Um diferente que carrega – aí sim, aparentes – semelhanças: os desejos, as buscas, a necessidade de um maremoto interno. Eu vivo isso em todas as minhas viagens. Não sei aonde isso vai me levar. Mas todos, sem exceção e independentemente do grau de envolvimento, me acrescentam algo. Constatei que o desafio de me relacionar com o diferente, seja um diferente similar ou um diferente-diferente, me atrai de modo inexorável. Não sei explicar, só sei que é assim. E que eu o busco assumidamente. No fundo, há inegavelmente uma curiosidade sexual incrível (às vezes, quase incontrolável). Mas isso não depende só de mim, hehehe. E existe também um impulso grande a terremotos e maremotos internos, uma esfoliação de alma e de conceitos, um renovar constante.
Sou assim.

Ah...
Musos, onde estão vocês?

Um comentário:

Alysson disse...

Acho que o filme "Caçador de Pipas" consegue ser ainda mais ingênuo do que o livro. Pelamor, né? Falta um pouco de vontade de entrar a fundo no assunto. Será que evitam porque é complexo? Ideologias e posições políticas são mais pasteurizadas do vilão de novela mexicana no filme. O livro ainda tinha algo sobre a cultura e tradiçoes locais, mas o filme foge até disso.

De bom mesmo, só ver o ator de o Gosto da Cereja no papel do pai.

Beijos!!