domingo, 30 de dezembro de 2007

O aprendizado da despedida (da fase pós-experiência do Amor maiúsculo)

((Ou: "Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam", frase de Lóri.))

As horas já não doem mais, porque,
ora, ora, ele mesmo disse:
cada um vive os dias
os dias as semanas os meses os anos os meses as semanas os dias
as horas
como bem quer.
E então não há dor nem rancor nem favor:
simplesmente virou pretérito quase recente do meu tempo presente.
E agradeço, gentil,
as preliminares, a acolhida, a breve partilha
tão suaves, suaves e efêmeras,
embora
embora eu realmente vá embora -- e talvez,
ele ainda confundido com as conjugações dos espaços,
já há distância física, já há distância mesmo,
não compreenda o que signifique "eu realmente vou embora".

Aliás, já fui --
pois se agora ele está no presente,
eu estou duas horas à frente de seu tempo,
e meu presente já não comporta seu, o dele, prenúncio de futuro.
Tornei-o pretérito já quase estabelecido do meu tempo ficando para trás.
Comprido assim, cumprido.

Quase sinto uma pena que
afasto do mesmo modo com que jogo
para trás as mechas de cabelo no rosto
que trazemos os dois,
cada qual com suas opções e porquês.
Ele na solidão de seu poço cercado de muros,
muralhas, telas e teias, grades, lanças, espinhos sem flor.
Espinhos sem flor!
(Vou até ver os novos botões de minhas violetas)

Às vezes, ele assiste ao jogo perigoso,
perigosíssimo embate tinhoso entre carência e culpa
e está sempre mudando de torcida. Alimenta-se
disso, daquilo, vício.
Troca uma dependência por outra,
Agora esta é muito mais cruel posto que interna
e invisível e disfarçada sob a capa de "meu dever".

Divide-se em dois,
O que sobrevive na linguagem escrita
E o que vive na vida falada e cotidianamente movimentada.
A-go-ta-da.
Embora, embora também esse da linguagem escrita
-- esse de leveza e determinação e poesia e emoção --
Parece que também está indo embora.
Não suporta as muralhas.
Machucou-se com os próprios espinhos.

No fundo, as muralhas são seu vício.
E por isso eu não dôo, embora quisesse ter me doado um
pouquinho mais, mas ele não quis nada de mim,
tampouco vai me perdoar -- apesar de me perder --
se souber que agora, no meu tempo presente e em seu tempo futuro,
sinto até comiseração.
Mas não peço perdão nem perdôo
Porque não nos ferimos um ao outro
-- nos ferimos nós mesmos a nós com nossas
lanças impregnadas de nossas próprias expectativas notáveis.

A mim, asas
A navegação, as ilhas desconhecidas,
às ilhas desconhecidas,
A ele, que escolheu por si,
-- couraças e espadas, por favor --
um poço escuro e grudento cercado de muros por todos os lados.
Engana-se orgulhando-se de ter uma ilha só dele,
defendida, se preciso for, com desprezo e caninos.

No fim das contas,
Sempre no solitário e vital aprendizado do não-pedir,
Construo meu momento
E já não me perco mais no meio de fumaças alheias,
Pois o Amor maiúsculo me faz companhia
Enquanto vou ganhando a lonjura da vida

Um comentário:

Ana Mine disse...

...

me perdi, nos seus pensamentos