quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Chá requentado, Mar Morto

1.
Putz, como dói. Saudade dói. Desapego dói. Pausa dói.
Estou me sentindo sozinha, mas não quero encontrar ninguém.
Daí escrevo, escrevo, escrevo – e o pulso esquerdo lateja tanto que parece querer independência da minha existência coesa a fim de ser livre para acariciar cabeças masculinas. Ou digitar desejos escusos. Ou desenhar no espelho embaçado depois do choro.
Sou destra, mas meu olho direito se esforça para enxergar além da miopia da saudade, já que todos os óculos de grau estão com a haste direita quebrada e sem lente desse lado. De novo: esquisito isso.
Ligo o rádio para não ter o controle sobre as músicas. Todas me transportam para acolá. Estou presa à vida, mas não a esse espaço. Busco meus companheiros.
Vôo.


2.
Nada nele me chamou a atenção no primeiro momento, embora hoje eu o ache lindo, uma obra de arte da natureza humana. Tão coerente na aparência em relação à paisagem de onde vive. As casas de pedra cor creme, as oliveiras e suas folhas cor verde-queimado, uma paisagem árida por definição mas deliciosamente viciante – morros e pedras e vegetação rasteira em tons que variam entre o marrom e o cinza, o amarelo e o verde, o azul do céu e o branco. Ele e sua pele morena. Não muito alto, mas não mais baixo que eu. Distribuição perfeita de quilos. Um moço atraente, inteligente e maduro.

Começamos a conversar assim, distraidamente, quando perguntei o significado de uma palavra. Estávamos no centro da cidade, íamos a pé ao campo dos refugiados, vimos o muro da separação, o horrível muro da separação, e começamos a falar de segregação. Ele me contou sobre o preconceito que sofreu no Aeroporto Charles de Gaulle, quando um vôo da Air France foi cancelado e os passageiros foram encaixados num outro, marcado para o dia seguinte. Eu nem sei do que falei, mas falava algo, era um diálogo. E aí, durante o resto da tarde, estivemos sempre mais ou menos próximos, trocando idéias e impressões. À noite, depois do jantar, sentamos juntos novamente, porém com outros amigos, para continuar com minhas “aulas de idioma”. Por algum motivo, brindamos com chá e eu treinei a saudação na língua dele. Disse: precisamos olhar nos olhos ao fazer tim-tim. Lindos olhos os dele, negros, grandes, míopes como os meus. Da última vez não olhei nos olhos quando brindei, eu brinquei, e tive um azar... foi por isso, agora sei, foi porque não olhei nos olhos... Risos. Poderia passar dias olhando nos olhos dele.

A conexão entre nós era evidente e começou a ser notada. Ele tratava a todos com elegância e amizade, porém me dedicava olhares e sorrisos mais largos. Comecei a investir nessa conexão também – mas, talvez sem compreender a paisagem e, conseqüentemente, o diferente modus operandi de sua cultura marcada por diferenças importantes, passei do tom em algum momento. Usei magenta demais, me excedi nos vermelhos quando podia ter sido mais suave ou esverdeada. Mas sou rosada, o que posso fazer?

Mar Morto, tarde de domingo ensolarado. Eu flutuava, contente, e o via flutuar também, lá na frente, com outros colegas. Nossos olhares se buscavam – e, mesmo distantes, sempre nos mantínhamos um na mira do outro. Até que, obviamente, nos cruzamos. Quer ajuda para passar a lama? Sim, e você? Também. Então, um ajuda o outro. Feito. Toque, toque, quase massagem, meu indicador travesso marcando todo o caminho da coluna, um arrepio do lado de lá seguido de sorriso, mãos sobre os ombros, mãos delicadamente acariciando a lama nos braços, mãos nas mãos, e as costas, e o rosto, toda a minha ternura no contorno daquele rosto lindo de olhos fechados. Também houve dedo travesso marcando o contorno da minha coluna, arrepio igualmente seguido de sorriso, o tônus dos dedos, um carinho, um cuidado. Ambos lambuzados. Uma mulher pergunta se somos marido e mulher. Trocamos olhares: não ainda! E, depois, a brincadeira de marido e mulher rendendo ainda piadinhas entre nós daqui e dali.

Mas ele tinha uma namorada.
Tem outra religião.
Ele tem uma causa pela qual lutar – e o respeito às tradições lhe dá força para seguir em busca dessa causa.
Uma causa que apóio, mas não é a minha. Porque minha nacionalidade me protege de muitos males, mas ele é totalmente exposto. Porque, às vezes, isso faz diferença. Ele não é europeu, latino-americano, anglo-saxão. Porque nasceu por lá e tem orgulho disso. Mas não pertence – ainda – a uma nação. Porque precisa provar o tempo todo que é do bem, que não porta armas, que não vai explodir nenhum ônibus. Porque a causa precisa dele, aquele povo sofrido precisa dele.

Sou uma brasileira e carrego outras tradições, umas porque quero, outras porque fazem parte de minha essência, nossa essência. Faria concessões, mas há impossibilidades que envolvem governos, fronteiras, livros de história, acordos. Doeu quando ele compreendeu isso antes de mim. Doeu quando compreendi depois dele. Doeu porque estava fascinada.
Ele viu a mulher que sou – e me dei conta disso tempos mais tarde, já longe. Aparentemente gostou dela, porém entendeu que essa mulher estrangeira jamais seria uma opção à história dele e de seu povo, a história que ele carrega na pele e nos lindos olhos negros, que carrega no sotaque de “rrr” em seu inglês impecável e voz quase rouca, a história que flutua com ele no Mar Morto. Não havia duas opções para ele. Eu simplesmente não fazia sentido no contexto em que ele se encontra; se o mundo fosse outro, a política internacional, as lideranças, os interesses econômicos fossem outros, quem sabe. Eu não podia com ele, pelas mesmas razões e também por conta de meu coração ainda disperso.

Enxerguei o homem que ele é e me encantei. De tanto respeito, pus minha fêmea magenta para hibernar. Eu me deixei revelar no todo, e não apenas na minha parte sedutora-sensorial, deixei-me revelar em todas as minhas contradições femininas e sul-americanas, em minha alma nômade e carente, afetuosa e indignada.

Foi uma linda história de amor, foi sim. Embora nada usual, com essa capa de incompletude. Um amor de outro jeito, um outro jeito de amar. História viva em pleno Mar Morto, onde deixamos todas as escamas de nossos corações sob a lama a fim de que fôssemos puros e sinceros. E flutuássemos, sem o peso das cobranças e dos preconceitos.

Um comentário:

Ana Mine disse...

Continue suas histórias.
To sempre aqui pra "te ler"!