sábado, 7 de julho de 2007

Da despedida. Navegar é preciso, viver também.

Peregrinar (verbo sempre transcendente): Buscar a mim mesma em outras geografias, traçar a minha geografia com outras caligrafias, usando outros idiomas, tendo outras paisagens como pano de fundo. Percorrer o mundo para me encontrar, para chegar mais perto da minha essência. Ausentar-me do meu cotidiano já quase sabido de cor, deixar-me à mercê das surpresas, permitir a ruptura.

1.
O que anseio é o mergulho sensorial e espiritual no oceano infinito da civilização humana. Ver todos para chegar a mim mesma. Só me entenderei em plenitude quando tiver visto muita gente, uma amostra considerável de humanidade.

"O que faz andar a estrada? É o sonho. Para isso servem os caminhos: para nos fazerem parentes do futuro", já havia escrito Mia Couto. Construo o caminho enquanto peregrino, portanto. Às vezes, com urgência do novo; em outros momentos, deixo que a alma trace o roteiro e simplesmente o acompanho. Completamente disponível. Se tenho medo? Medinho, talvez, de voltar com as mesmas perguntas. Difícil, contudo, isso acontecer. A porosidade é tão grande que, ao longo das viagens, respondo as antigas e volto com outras, que brotaram no caminho, que surgiram com a ruptura, que se sentiram livres para vir à tona.

Depois de desbravar os contornos do novo cenário, embrenhar-me na essência dessa paisagem exuberante em si mesma posto que paisagem vívida, viva. Não só as pessoas têm alma, os países também. As nações. As monções. Captar as emoções todas desse lugar, as impressões, permitir que as sensações todas brotem, invadam, me raptem, me transformem.
Eu e o Outro.

2.
Na mochila, toda a minha brasilidade mais premente. Levo meus traços europeus, cidadã gerada, criada e crescida num país tropical, permeada por todos os sentimentos que pairam sobre e sob essa nação de comodismos e saudades, de alegrias e de religiosidades, de gingas e de falta de ação, um coração no qual cabem as florestas e o futebol, Fernandos de Noronha e Marajós, broas de fubá e pão-de-queijo, caipirinha e suco de maracujá, desigualdades e fidelidades.

Última leitura antes do embarque: "Esperando Godot em Sarajevo" (in Questão de Ênfase), de Susan Sontag, texto ratificador de meu desejo de contribuir para um mundo mais digno. O destino de agora não é Sarajevo, mas no destino -- qualquer que seja ele -- minhas esperanças e minha partilha, eu inteira, eu presente, eu na essência de minha humanidade que pode ser bonita e doce, apesar de minhas sombras, de minhas fraquezas, de minha humanice.

Estamos todos sempre à espera. De Godot? De Dom Sebastião? Da Serpente Emplumada? Da volta de Jesus Cristo? À espera de um milagre?

Fazer a hora, agora, embora na espera. Esperar não significa, para mim, trancar-me em casa e espiar pela fresta da janela.
Fluidez.
Eu, hemácia, levo meu oxigênio a um átrio do hemisfério norte, átrio este tão hemisfério sul, que parece que o coração fica sempre mudando de lugar. Acho que eu é que sempre estou mudando de lugar, apesar de eternamente enquanto dure hospedada em mim mesma, na pessoa que sou, na mulher em que me tornei.

3.
Levitarei por um mês, antes de retornar ao posto, aos posts.
Navegarei mares antes navegados, mas hoje e agora somos ambos diferentes, eu e o mar. E a terra à vista.
Às descobertas, então.

4 comentários:

Ana disse...

cheguei atrasada?
vc partiu?

:-(

Anônimo disse...

Querida, que bom ler suas palavras! Que possamos sempre seguir nossos impulsos mais verdadeiros, que possamos sempre perder e achar...
muitos beijos de Bremen, Alemanha!
Gi Brasil

Camiseta Personalizada disse...

Oi, achei teu blog pelo google tá bem interessante gostei desse post. Quando der dá uma passada pelo meu blog, é sobre camisetas personalizadas, mostra passo a passo como criar uma camiseta personalizada bem maneira. Se você quiser linkar meu blog no seu eu ficaria agradecido, até mais e sucesso.(If you speak English can see the version in English of the Camiseta Personalizada.If he will be possible add my blog in your blogroll I thankful, bye friend).

Débora Poulain disse...

"Pra onde vão os trens meu pai?
Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços
no mapa, e depois o pai ria: também
pra lugar algum meu filho, tu podes
ir e ainda que se mova o trem
tu não te moves de ti".
(do livro de Hilda Hilst)

Apesar de eternamente enquanto dure hospedada em ti mesma, te descobres, te encontras, te lapidas e te tornas cada vez mais formosa. Levas para quem te encontra o gosto dos lugares que conheces. Sou grata por isso.
Grande beijo e um belo retorno!