segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

PÁRA-QUEDISTAS



Ela queria pedir demissão, ir à China e perder-se por outros caminhos desconhecidos da Ásia.
Ele queria sair de casa, comprar um carro, experimentar o que jamais havia provado antes.
Ela tinha 32. Ele, 23.


Um dia, a cerveja que ele tinha pedido foi para ela. E o vinho dela foi parar na mesa dele. Assim se apresentaram, os dois.


Pularam de pára-quedas, pela primeira vez, juntos. Perderam-se por caminhos desconhecidos bem longe da China, aqui mesmo em São Paulo, onde moravam. Experimentaram novidades intensas e perigosas para ambos. Ela havia perdido recentemente a mãe. Ele, o pai. As ausências doíam especialmente nos domingos à tarde, quando ambos se fechavam no quarto dela, de mulher-separada-independente, e buscavam desesperadamente um outro tipo de amor. As diferenças gritavam quando tentavam se fechar no quarto dele, menino-que-ainda-mora-com-a-mãe, e ensaiavam planos para um futuro em comum. Em poucos meses, estraçalharam o mundo em que viviam, subiram e desabaram juntos várias vezes. E reaprenderam a gargalhar e a chorar copiosamente por vias às vezes prazerosas, às vezes dolorosas.


Ela segue no emprego, a China já virou país-destino de outro e às quintas pela manhã ela trilha uma rota bem conhecida: de seu apartamento até o consultório de sua terapeuta.
Ele segue na casa da mãe e dos irmãos, não tem ainda um carro e experimenta o que antes não conhecia: duas vezes por semana, vai a um psicólogo.


Ela, em alguns momentos, fica em dúvida entre ir à igreja rezar ou acender uma vela ao lado de um retratinho de família, sempre acompanhado por um vaso de violetas. Ele aprendeu a gostar de John Wayne, ídolo do pai, a despeito do desconhecimento cinematográfico de seus melhores amigos.

A foto do salto de pára-quedas, contudo, ficou no meio de um dos livros. Não se sabe se no quarto dela. Ou dele.

Um comentário:

Ana Mine disse...

ele e ela...
existem?
acho que a resposta é sim, afinal se for uma estória ... de alguma forma eles passaram a existir...