segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Cotidianidades (ou: amor para quê?)

― Desculpe-me, o que a senhora disse?
― Estou apaixonada.
― Não estou compreendendo, sou uma caixa de banco.
― Como assim, uma caixa de banco? Uma caixa que serve de banco?
― Minha senhora...
― Senhorita!
― Senhorita, eu sou funcionária deste banco e estou aqui para receber seus pagamentos.
― Certo. É isso que estou fazendo: lhe dando minhas contas e meu dinheiro. Mas também estou lhe contando que estou apaixonada.
― Bom para a senhora. Para a senhorita.
― Não sei se é bom. Ele não... Não sei se ele também está apaixonado por mim.
― Acontece.
― Já aconteceu com você?
― ...
― Mesmo assim, eu continuo apaixonada.
― ...
― Ontem sonhei com ele. Estávamos caminhando lado a lado. Até que eu virei à direita e ele, à esquerda. Parecia natural que nos separássemos. Será que isso é um sinal?
― Perdão?
― Um sinal de que não vamos ficar juntos?
― Não sei. A senhorita vai pagar essa fatura adiantado também?
― Depende: se você disser que sim, que ficaremos juntos, eu pago. Se falar que não, não pago.
― Minha senhora... senhorita... não posso influenciar num pagamento.
― Estou apaixonada e ninguém se interessa.
― Talvez seja melhor pagar a fatura na data certa.
― Então...
― Bem, a senhorita decide. Eu, particularmente, nunca tenho dinheiro a mais para adiantar pagamentos.
― Mensagem cifrada? A paixão é uma fatura que não se deve pagar adiantado.
― ...
― A paixão é uma fatura! Ou seja: há sempre um preço a se pagar! E jamais se deve adiantar o pagamento. Tudo em seu tempo certo. Isso é muito sábio!
― A senhorita quer seu troco em cédulas de um real?
― Ele parece sempre tão afável comigo, sabe, que tenho dúvidas se faz isso por pura amizade ou porque quer inutilmente me conquistar. Digo inutilmente porque já fui conquistada, claro.
― Senhorita...
― No início, eu não o achava muito bonito, não, sua barbicha me incomodava, seu jeito de arrumar a gravata também, porém algo aconteceu. Algo sempre acontece.
― Tem um papel aqui que não é uma conta, é uma mensagem formal, timbrada e assinada por...
― Meirelles! Luís Gustavo de Meirelles!
― Perdão, tome, senhorita. Desculpe-me.
― Foi o bilhete que ele me deu. Anteontem. Pensei que o tivesse perdido, ufa. Eu guardo todos, sabe. Para um dia contar a história de nossa relação.
― Por acaso ele é seu chefe ou coisa assim?
― Eu lhe dei cem reais e setenta centavos, para ajudar no troco.
― Perdão?
― Falta um real. E lhe dou os trinta centavos de volta.
― Mil desculpas, senhorita. Eu me distraí.
― Vai ver você também está apaixonada. E não é correspondida.
― Não, perdão, é que...
― Ele não é meu chefe. É meu advogado.
― Ah...
― Que culpa tenho eu de me apaixonar por meu advogado? Por que todos ficam me julgando?
― Senhorita, perdão, não estou julgando nada e...
― Não fui casada, não estou me separando. Ele não é meu advogado para assuntos familiares. Nada a ver. As pessoas são muito chatas em seus comentários.
― ...
― Se você tivesse observado bem o bilhete, veria que ele usa o termo “estimada”. “Estimada” é quase querida. Li a carta de outros advogados e eles só usam “senhora isso” e “senhora aquilo”. Pode ser um sinal de afeição especial, não pode?
― Os advogados daqui do banco usam “estimada” sempre que escrevem aos clientes. O tom, inclusive, é parecido ao desse bilhete. Perdão, li sem querer.
― Decididamente, você é contra o amor. Vou pagar a fatura agora.
― Não!
― Tenho o direito! Vou chamar seu gerente!
― Perdão, senhorita, pague a fatura quando quiser. Não sou contra o amor, foi isso que quis dizer.
― No cartão de débito.
― A seu dispor.
― ...
― ...
― ...
― Acho que a senhorita deve fazer o que tiver vontade. Não há regra.
― ...
― Passei anos escondendo meu amor por meu colega do caixa número três.
― E?
― E nada. Um dia ele mudou de banco. Meses depois, mandou convite de casamento. Eu chorei e chorei e chorei. Daí passou.
― Que triste.
― Um dia, um cliente desabafou comigo como a senhorita está fazendo.
― Ele também era apaixonado por um advogado? Ou uma advogada?
― Não.
― E então?
― Era apaixonado por mim.
― ...
― Seu cartão.
― Oh!
― Nos casamos, nos separamos.
― Simples assim?
― Pronto, tudo pago, minha senhora. Nosso banco agradece sua preferência.
― E...?
― E nada. Chorei, chorei e chorei. Daí passou.
― Lamento. Lamento tudo: minha paixão, sua paixão, seu cliente, sua preferência.
― Tenho de atender o próximo cliente, senhora. Senhorita.
― Você acha, então, que devo me declarar?
― Suas finanças estão em ordem, senhorita. Talvez o advogado não a importune mais.
― Que frieza. Que pessimismo!
― ...
― Mas você tem razão. Cada um para seu lado. Sempre que venho ao banco, o advogado some. Não devo mais pagar as faturas. Mas ele sempre me escreve para me lembrar de pagá-las, e eu me comovo. Daí sonho sempre o mesmo sonho antes do dia 15...
― ...
― Mas seu ex-marido...?
― Boa tarde. O próximo.

...

― Pois não.
― Preciso pagar uma fatura. Ei, você não é a moça da praia? Olha, desculpa se eu...
― O próximo!

2 comentários:

Débora Poulain disse...

Gostei do lado cômico. Doce, suave. Risonho.

Anônimo disse...

Vontade de exercitar esse texto com você. bjbenta