
Ela era a mulher da saia rodada e florida, do sorriso no rosto, do belo buquê de gérberas cor de rosa nas mãos em pleno lusco-fusco. Era ela.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Eu, menina de lá, de cá
Menina pequena, ela tinha seus companheiros imaginários. E criava histórias sem-fim, onde as fronteiras não existiam e todos os mundos do mundo faziam parte de uma mesma trajetória, a dela. Pensava em passarinhos verdes e borboletas grandes e azuis e, embora não desejasse arco-íris, sabia fazer chover às vezes. Subia em jabuticabeiras, pés de pitanga e criava experimentos com formigas no quintal da avó. Criança criação criatura... No playground paulistano, inventava brincadeiras que recebiam logo adesões. Caça ao tesouro, show de calouros, nave espacial e, no comando de uma bicicleta, imaginava travessias e longas jornadas: carregava leites de caixinha e frutas para sobreviver fantasiosos longos períodos, caminhando num esmo de rumo certo.
Menina grande, ela lia e escrevia, escrevia e lia, observava a chuva da janela com aperto no coração e sonhava beijos em rapazes quase sempre impossíveis. Sonhava asas também, caminhava sozinha por suas florestas escuras de castelos embolorados. Aprendeu as rotas quase todas e desse convívio consigo mesma surgiu uma amizade duradoura e dourada. O inóspito do externo não atemorizava tanto, só a sofria muito, mas suas invenções continuavam a inspirá-la: suspirava nos infinitos de seus cheios e acampava em seus vazios, quando a lua chegava cheia e o sol se despedia gentil.
Mulher, ela redescobriu as veredas e os buritis que intuía, porém não apalpava. A travessia virou verdade e ela mudou seu compasso na hora de atravessar o tempo. Já sem agitos ou delitos contra si mesma, já bem mais favorável às temperaturas de si e do vento, do mar e do momento, das miudezas todas. Grande, grande, enorme, se tornou mais pouso para passarinhos verdes e passou a enxergar mais borboletas, de todas as cores, especialmente as azuis.
Enamorou-se dos primeiros cílios longos em Belém, compreendeu o desapego no Nada Yoga Ashram, chorou o chão de El Mosote, fez um trajeto noturno e mítico na Sierra Nevada. E, à beira do Córrego do Onça, reconheceu sua versão para “A Terceira Margem do Rio”. Chegou à outra margem, tendo passado pelo período de ‘dúvida pedrina’, quando andar sobre as águas exige uma coragem daquelas (como a dos castelos bolorentos e profundos), sob tormentas e escuridões, e pisou chão firme no desconhecido. Madrugada, quase manhã. E agora?
“Tant sols cal que entenguis realment el significat d'aquests versos grecs... No es fàcil... Jo encara ho intento... Quan ho entenguis, estaras més tranquila ja que sense saber on, sabrás perqué hi vas”, ele surpreendeu-me.
Sense saber on, sabrás perqué hi vas.
Está quase.
(A menina já do lado de cá)
Se tenho um destino?
Ouço de novo para não esquecer.
domingo, 10 de maio de 2009
sonhação sonhalinda sonhaminha
Às epifanias de Cordisburgo, ecoantes
Tem um silêncio antigo,
Antigo,
Guardado no meio do mato
Na vereda escondida, escondida,
Sob a boiada que atravessa o sertão.
Pare, escute,
Ai, Zé, opa! -- disse o Guimarães.
A poesia
-- uma moda de viola na barbearia
Uma prosa saborosa na nova loja do Brasinha
Um caldinho de sonhação.
Trem bão, trem bão...
Um grande sertão...
De veredas cristalinas
E um monte, monte, monte de histórias não-ditas
Como aquela do Preditão.
Tem luz que a gente não sabe origem
Que desconhece quem acende ou quem apaga
Um brilho que acompanha o rumar na floresta escura,
Ué, ué, ué?
Querer? A gente paaaaaaaaaassssssaaaaaaaaa
Pelo tempo, parado esse tempo,
Que nem boi no pasto. Laaaaargo...
Queira, não, viiiiivaaaaa...
O quem das coisas, é o que é,
E não as coisas de quem:
São falas de todos os jeitos
Contações contadas sonhadas carameladas
De todas as gentes, mesmo dos mais miúdos,
Pessoações.
E o silêncio antigo, dos mais antigos,
Do tempo de quando o sol apagou e foi noite todo o dia, todo dia,
esse silêncio
Acompanha a vida, os grilos, o ziguezague do ribeirão,
Corda, corda, mais corda,
Avance os trilhos!, eia, coração.
Era uma vez um burgo
em que se contavam histórias
e nesse burgo havia eu.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
cicatrizações
Havia ainda algum machucadinho quase necrosado aqui dentro. Precisei, com todo carinho e delicadeza possíveis, pôr para fora. Porque parecia espinho, apertando de vez em quando o coração e querendo ajuntar minúsculos sentimentos de desgosto a seu redor. Não, machucadinho, você já teve seu tempo e sua contribuição. Agora é hora de outras sensações...
A choradeira de ontem só refletiu a sensação de cócegas e desamparo dos primeiros voos. As asinhas começaram a bater há alguns meses, mas a sensação de pertença ao casulo perdurou mais que o casulo em si. Nem eu me dei conta tão cedo, quanto mais os demais! E, entre outras borboletas, mariposas, libélulas e vagalumes, na Colômbia, acreditei no poder das asas. E no desafio da novidade: e de ganhar outra dimensão, com outras entregas, outras improbabilidades e sempre novos imprevistos.
E foi assim, então.
Continuo crescendo. Meu coração não cabe mais nem em mim! ;-)
Já não preciso mais falar a respeito. Isso já faz parte do caminho que ficou agorinha há pouco para trás.
terça-feira, 28 de abril de 2009
segunda-feira, 27 de abril de 2009
navegante
os passos, a princípio temerosos, aos poucos ganham ritmo conforme os olhos se adaptam ao não-enxergar visível. no breu, todo o resto enxerga. só é preciso tempo. aguardar, com alguma paciência, que os sentidos outros se revelem ao cérebro e ao coração. e aí se logra ver. ver outras coisas, de outro jeito, com outros sentidos. no escuro, o claro fica evidente, o céu se estrela e as estrelas se encielam. e não existe nem certo nem errado, nem espaços taxativos, porque tudo pode ser e não pode.
os passos ritmados pisam charco, pisam troncos, pisam grama, espantam sapos, fazem cantar as corujas. o rio passa também, ao lado, no abismo ou na beira, quem sabe? saber racionalmente pouco importa, pois tudo está ali, tão vivido, vívido e tão presente, que basta.
ah, navegante...
domingo, 26 de abril de 2009
Crónica Colombiana
A los amigos colombianos y latinoamericanos, de Servas o (aún) no, con mucho cariño
Cerca de la débil luz amarilla de la esquina, estaba él. Un cuentero. Edad indefinida, rostro indefinido, manos agitadas, voz suave. Su vieja silla lo acompañaba, silenciosa y atenta a los ejercicios de respiración a los cuales se dedicaba el hombre. Poco a poquito, unos jóvenes se juntaban alrededor del personaje. Él cerró los ojos, estiró los brazos y, bajo el cielo lleno de estrellas y luna en sonrisa, dijo que iba a volar. Y empezó su cuento.
Era una mujer de mejillas rosadas, cabello frágil y manos de soñadora. Se decía brasileña, pero podía ser cualquiera. Ya había estado en Perú y en la Palestina, en Canadá y en Kosovo. A veces, hablaba con un acentito catalán. En otros momentos, cuando se encontraba distraída, nombrando montañas y sentimientos, dejaba irse por el portuñol. Le gustaban los poetas y los chiflados, los viajes y los encuentros, los claros y los oscuros. Pertenecía a esta nuestra dimensión, pero también a la otra, alguna otra, que todavía los ingenieros y los matemáticos no comprendían. En unas cuantas noches, tenía sueños sabor nevado de café. En las más calientes, solía soñar sabor vino con carne masculina – pero no es sobre esto que se trata nuestro cuento.
Un día le tocó a esa muchacha de alma peregrina un paseo mágico por tierras colombianas. El mundo se había vuelto oscuro y nada se podía ver con ojos de la razón. Había un viaje a hacer, por entre cerros y valles, charcos y ríos, sapos y pájaros nocturnos, emociones y sensaciones. Y ella sabía que no habría más regreso. Que la ruta de los senderos desconocidos es la ruta de los soñadores, de aquellos cuyas manos se asemejaban a las suyas. Y un soñador va y viene, pero ya siempre otro.
Alimentada por arepas, ajiacos, tintos e aguas de panela, ella caminó guiada por las enseñanzas de Seykwa, un ser mítico de las forestas, y con pequeña ayuda de su linterna del corazón. Cuando los ojos de la razón no ven, todo el cuerpo y toda el alma reciben con gentilezas el mundo alrededor. Y eso le pasaba a ella.
Y ella, entonces, recorrió Bogotá, entre carreras y calles, árboles y transmilenios, cafés Juan Valdez y Monteserrat. Se perdió del tiempo en la Candelaria hasta encontrarse de nuevo en Villa de Leyva, dónde la música barroca se despegaba de la Iglesia de San Agustín y rellenaba los oídos de las casitas blancas de portales y ventanas verdes. Voló a Cartagena, dónde un carruaje la llevó a recorrer el bello centro adentro de las murallas y probar patacones y jugos de zapote. Vio también las afueras hambrientas, agitadas y nada turísticas de aquella famosa ciudad. Danzó en la Playa Blanca, encantada con las aguas caribeñas. Estuvo en Turbaco de paso, siguió para Valledupar y subió la Sierra Nevada, hasta Nabusimake. Allá casi se despegó de la dimensión cotidiana, flotando por entre misterios y novedades. Volvió a la realidad en Santa Marta, que le pedió más tiempo y le regaló limonada de coco. Pero ella tenía de continuar adelante, entre la humanidad y las fronteras, volando.
Pero lo más lindo de su travesía mágica fueron los encuentros. Gente de ahí y de allá, gentes de todos los tipos y gustos, gentes de acentos distintos y corazones grandotes. Gentes que la rellenaron de esperanza y amor. Amigos, amigos que se le tocaron el alma y la vida misma. Amigos que la hicieron grande, grande, grandísima. Casi no cupo más en si misma de tanta dignidad compartida.
En ese momento, el cuentero lloró. Y aún con los brazos abiertos, delante de una muchedumbre sorpresa y emocionada, él empezó a volar. Y su rostro de hombre gañó rasgos femeninos, mejillas rosadas y boca delicada. Su cabello se volvió delgado, sus manos ya eran manos de soñadora y en su pecho crecieron senos, sus caderas se alargaron.
Más allá de las estrellas y de la noche, cuando el sol se estira perezoso, es posible ver el personaje-vuelto cuentero-vuelto personaje, una mujer-mariposa-azul, volando cerquita de la nube de tonos dorados. Cuando la gente dona o gaña un abrazo, ella sonreí. Y el mundo se queda mucho más cálido y lleno de amistad.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
resolução de (meu) ano-novo -- 2
domingo, 29 de março de 2009
Quem saberá?
Há uma beleza na incerteza que é toda ela.
Como uma espécie de miragem que é concreta,
Ou uma existência palpável instantaneamente absorvida pelo ar.
Nem diluída, nem apagada: absorvida.
Por isso, a incerteza se sente e é sentida e tem sentido.
Além de ser bonita, bonita,
Daquela beleza que se apreende, mas não se vê.
quarta-feira, 25 de março de 2009
surpresa andradiana
Suspirei a respiração por um segundo, num gesto de respeito e admiração.
Roni é um brasileiro que nem eu.
segunda-feira, 23 de março de 2009
chanson de tristesse
Quando meus pés ficaram gelados, no meio da noite, e tive sede, me senti triste. Triste porque aceito seu “egoísmo da novidade”, que suponho passageiro e compreensível, e sua necessidade de se aproximar dos discursos parecidos, dos momentos parecidos. Mas lamento que seus ouvidos tenham estado fechados para as minhas histórias. E para as histórias que recolhi quando estive lá e não cá. Que eu, pouco a pouco, venha me tornando desinteressante porque não estava nem estou na sua novidade. Porque me encontro em minha própria novidade, diferente e tão cativante quanto a sua, porém da qual você nem se esforça em participar.
A tristeza entrou no sonho. Nele, você não estava. Você havia tirado sua fotografia da cortiça na parede e vaticinado que eu só dou para os livros e não para os palcos. Por isso, você não estaria onde eu estivesse. No sono, no sono pesado e macilento, contudo, você apareceu. Estava tentando conversar comigo usando o diálogo de antes, de muitos meses atrás, como se só você estivesse experimentando as mudanças e as descobertas e eu continuasse igualzinha e idêntica àquela do passado. Acordei com um sabor azedo na boca. Você sabia que eu não era aquela de antes. Você notou, constatou. Por que então me forçava a caber naquele espaço obsoleto dentro de sua vida? Teve medo, desconfiança?
Você não quis saber. Satisfeita, talvez, com as mensagens esporádicas enviadas de lá, me deu a impressão de me punir, no cá, com um leve descaso ou com uma inexorável sentença de tempo: já passou. Seu tempo é gerundiano, está passando. Mas você me prendeu ao passado: ao meu, ao seu e ao nosso. Comecei a acinzentar-me, você ficou aliviada. Enquanto estou na toca, não lhe proponho novos desafios. Melhor assim.
Quando a cortina bateu forte contra a parede, por conta do vento ou de um despreparo mútuo de nossa parte, pensei de novo no “egoísmo da novidade”. Por si só, não é nada de mal ou de mais. Mas, quando ele delimita o espaço do outro em sua vida, oferecendo-lhe uniformes e um regulamento básico, faz chorar. Talvez ninguém esteja a princípio acostumado às mudanças, muito menos nós. Talvez porque tais mudanças sejam tão maiúsculas, respectivamente, que nos surpreendemos. Eu parei de boca aberta, coração acelerado, sinapses desconexas. Você até tentou me carregar para dentro das suas, mas dado meu ritmo outro, franziu a testa cansada e me restringiu a uma atuação inócua. Ah, sim, eu não dou para os palcos... nem para a música.
Ontem mesmo sentia o sabor de pêra com nozes. Falávamos sobre pôr-do-sol, epifanias e comunhões.
Quem é você agora?
Você também não quis saber...
domingo, 22 de março de 2009
Você tinha um lado da barba mais denso que o outro, o que me encantava. Às vezes, os cílios longos desviavam minha atenção de seus olhos cor de mel que se enchiam de lágrimas em momentos surpreendentes. Eu pensava que ia sair por aquela porta na segunda vez em que você fosse rude comigo, mas estou aqui até hoje. Porque sua rudeza é igual à birra tardia, tardia, de um menino que aprendeu a doer e a sofrer muito cedo. E sei que você ficava com muito medo de soltar o fio que me prendia à gravidade terrestre, por isso me chacoalhava de tempos em tempos, em alguns momentos com força demais. Eu tinha medo de te quebrar em pedaços assimétricos com meu abraço, porque você sempre me pareceu demasiado frágil. E achava estranho dormir abraçada com você, ainda mais porque eu é que devia te abraçar e não você a mim. Assim mesmo, com tudo esquisito, continuei aqui. Eu nunca tive a menor idéia do que você pensava a meu respeito, se gostava de mim ou não, porém todos os outros ouviam você falar a meu respeito. E falava bem, embora às vezes usasse adjetivos agressivos quando estava bravo (não comigo, ou não só comigo, mas com a vida). Para você, eu não era nada de mais em partes, mas meu todo se tornava imprescindível. Com você, eu não tinha certeza de nada, nem de quem eu podia virar no minuto seguinte ou se ia ter fome na hora de jantar. Sem você, eu poderia voltar à rotina de sempre e diminuir até caber na roupa de novo.
A gente mal sabia um do outro e já conhecia tanto, tanto. Não sei que final tem essa história, se já o teve, nem por que a conto, porém acho que desenvolvi um tipo de gostar que desapega até do momento da própria história. Se foi, se vai ser, se é... Continuo aqui, nesse gostar. E ouço sua voz, mesmo quando você nada diz. E se não dirá.
sábado, 21 de março de 2009
segunda-feira, 16 de março de 2009
peraltice
era segunda-feira, ela não tinha expectativas expandidas além do dormir, comer, trabalhar, ler, sono, sede, fome, vontade, banho, suspiro, respiro, outro respiro, desta vez mais fundo. senta, levanta, reinventa. ah. reinventa! podia ter sido qualquer outro dia, de mais inspiração e menos mesmice, mas foi justamente aquele. naquela segunda.
fez um caminho conhecido: corredor, cozinha. abre a geladeira e lá estava ela, rosada e perfeita em suas curvas imperfeitas. clic. a gente ama o parecido, sempre, mesmo com a desculpa de buscar o diferente, o oposto, o avesso. a gente não assume, às vezes nem tem consciência. apenas segue, seguindo mesmo, o fluxo da vida, das interjeições e dos encanamentos existenciais. clic. assim foi com ela, ou com elas: encanto em primeira pessoa. um reconhecimento, uma identificação, um parecer-se. aquele róseo, meu deus. as mãos tremiam quando a lavava. um sentimento de quase pecado, de transgressão. era como se tocasse, tocando outra. outra! gênero: feminino. espécie: fruta. condição: sedutora. especificidade: madura, suculenta. oferta: comestível. opção: uma única vez. e com ela.
consumou-se demorada e languidamente a relação sensorial e cheia de frescor entre uma mulher de pele rósea e curvas imperfeitas e uma pêra de pele rósea e curvas imperfeitas. ambas brancas e lúcidas, entregando-se em mordidas ou bocados. uma boca e uma polpa. encontradas e realizadas. entregues ao desenrolar da cauda do tempo e das temperaturas. de uma delícia só. de um desbunde impressionante. pacientemente, respeitando cada instante, cada espacinho de ar entre uma mordida dada e um bocadinho cedido. ambas suas. elas. das duas.
ela, espécie mulher, sabia da opção. era uma única vez: um fazer-se eva em momento de lilith lá nos idos de sua entrega à maçã. uma mulher, depois de entregar-se a uma fruta, jamais seria a mesma mulher ou apenas uma mulher ou mais uma mulher. ainda mais com uma pêra. era ‘aquela que’, e sendo, preenchia o universo ao seu redor com sua peraltice de fêmea. um perigo.
não conseguia ir à feira ou ao mercado. nas bancas, as frutas todas a apontariam como adúltera se ela decidisse comprar meia dúzia de bananas, ou um cacho de uvas, duas laranjas, ou outras pêras. não conseguia mais encarar os sucos de caixinha, em especial os que estampavam pêras desbotadas e assexuadas, um acinte à magnitude das fêmeas. as sobremesas não lhe atraíam mais a atenção e, durante muito tempo, ela visitou hortas e pomares para entender a origem de todas as origens. chegou a dormir, cochilar, meditar, estender-se aos pés de pereiras, aprendendo vagarosamente a linguagem única das frutas-fêmeas. nem todas tinham pele rosada e aquelas curvas imperfeitas de tamanha perfeição quanto a sua. pêra havia sido única.
passaram-se nove meses, e ela descobriu-se prestes a dar à luz. tinha engolido as sementes, no afã da experiência, numa tentativa de ficar junto só mais um pouquinho. pariu uma flor que chamou de peralta e que plantou lá no jardim. peralta só abre de segunda-feira e parece que um dia pode virar árvore. ou fruta. ou mulher.
domingo, 15 de março de 2009
ao acaso, por acaso
1.
Eles se encontraram literalmente no meio da rua, num desses horários improváveis, meio de tarde no meio da semana, quando as pessoas em geral seguem trabalhando em seus escritórios ou correm para pegar o banco aberto. Fazia muito tempo que não se viam e até tinham se esquecido um da existência do outro. Afinal, nunca foram mais que colegas de trabalho. Jamais houve um almoço de mera conversa, uma coincidência de tomar café na mesma hora, uma carona casual – uma informalidade qualquer dessas que aproximam duas pessoas estranhas. Conheceram-se e, durante um período, conviveram, mas continuavam indiferentes um ao outro.
Ela, na camada pré-sal de seus pensamentos, ouviu seu nome quando atravessava a rua, bem na faixa que separa a pista que desce daquela que sobe. Cumprimentaram-se, ainda com os pés no asfalto, distraídos, até que ela sugeriu sobriamente que optassem por uma das calçadas. Foi seu único momento de sobriedade. Ele estava curioso. Apressado, mas curioso. Os cabelos dela tão finos e tão despenteados. Ela ficou envergonhada: era um homem, e não um menino, diante dela. As poeiras do ar daquele instante não sabiam dar mais detalhe algum: se ele estava casado novamente, se ela continuava solteira, se ele estava mais bonito, se ela se encontrava mais gordinha, se ele era realmente um cara legal, se ela surpreendentemente parecia uma mulher atraente. Ninguém, nem os dois nem as poeiras, muito menos as pessoas atarefadas e urgentes de desnecessidades, parecia preocupado com tais informações.
2.
Ela estava nos profundos do fundo de seu oceano particular quando foi chamada à tona. Teve medo da embolia, por conta da subida rápida. Por isso, não mudou sua técnica: foi soltando o ar aos pouquinhos, vagarosamente, enquanto avançava camadas aquáticas rumo à superfície. Os peixinhos lhe faziam cócegas. Ela ria.
3.
Ele seguia anestesiado sob os efeitos da palestra da qual acabara de participar. Consciência, sagrado, existência, pessoalidade, vida em plenitude. Tudo reverberante, como sinos de um mosteiro em compasso com o silêncio do ser. Não, a transição ao barulho cotidiano não podia ser veloz. Ele ouvia atento.
4.
No diálogo real, falaram de aqui e agora, da ruptura com o que foi, das mudanças e de “não sei”. Descobriram-se similares na disposição ao novo e à honestidade com as pessoas que eram.
Mas poderia ter sido assim a conversa, um monte de não-ditos:
— Tanto tempo lado a lado e jamais imaginaríamos que.
— No fundo, parecidos...
— Pois é, eu te achava legal. Um cara simpático.
— Você também parecia legal, mas distante. Reclusa em você mesma, espinhosa.
— Você era casado na época.
— Isso não mudaria as coisas. Mas prestava muita atenção em superficialidades, confesso.
— O importante é que não tenha ficado nisso.
— Não. Quero mais para mim. E poder me dedicar ao que realmente gosto.
— Do que você realmente gosta?
— Pois então, não sei. Ainda não sei.
— (Risos) Nem eu!
— Então, você foi à Palestina e ao Kosovo...
— E você, certa vez, cruzou o Vietnã e o Camboja de bicicleta, né?
— Respeito as fronteiras, mas não as vejo como imperativos.
— Viva a travessia!
— De Guimarães Rosa.
— E de Pessoa.
Viria então um silêncio e os olhos travariam um diálogo. Ele ficaria túrgido e ela, eriçada. Ela o convidaria para um mergulho em seu oceano, ele a levaria para passear em seu mosteiro de campinas, delicadezas reverberantes e sinos. Seria tudo muito, muito gentil. Às vezes, faria cócegas, em outras quanta intensidade. E teria as risadas e as satisfações de um “não sei”, sem antes ou depois. Seriam apenas eles dois. Assim, ao acaso.
5.
Dois universos momentaneamente tão parecidos cruzados por puro mistério. Quantos não se cruzam diariamente? Porém, como não conhecemos nem um 1% da população mundial, não nos damos conta. Porque se disséssemos ‘alô’ a todos que passam por nosso caminho todos os dias ficaríamos espantados com as coincidências de humanos. E com as desnecessidades e os desperdícios também. Mas só alguns, reconheço, misturam diálogo de alma e empatia e carinho. Só alguns.
6.
Na despedida, ele – mais alto, olhando-a de cima para baixo – segurou a mão dela – mais baixa, olhando-o de baixo para cima. Atitude espontânea. Afeto (sinos! sinos!)? Ela corou e acelerou seus batimentos cardíacos (embolia! embolia!). Ele deu um beijo em sua (dela) bochecha quente, despedindo-se. Ela, embriagada, atônita e ainda dentro d´água, disse qualquer coisa sem nexo. Convidaram-se a um café, mutuamente, ele perguntou o e-mail dela, ambos sabendo que ele ia esquecê-lo em seguida. E pouco importava. Então, ele deu mais um beijo na mesma bochecha quente dela. Sem largar a mão.
7.
Num desses filmes açucarados, a mocinha fica com a jaqueta do mocinho, depois do primeiro beijo de ambos, na seqüência de um encontro ao acaso. E ela diz para ele não a seguir ou procurar, por favor. Se ambos se encontrarem novamente, sentencia ela, é porque sim. E então. Aí ele terá sua jaqueta de volta. O filme pertence a Hollywood, mas isso acontece às vezes na vida real.
8.
Foi um encontro ao acaso. Simples e singelo.
Se eu fosse escrever um conto curto a respeito, diria que ela sonhou três vezes com ele: de quarta para quinta, de quinta para sexta e de sábado para domingo. Na primeira vez, ambos estavam sozinhos no sítio dele no interior. Ela precisava voltar à capital por um motivo qualquer. Ele a acompanhou até a estação rodoviária. Ambos sabiam que ela retornaria ao sítio. Na segunda vez, os dois acompanhavam um grupo de indianos em visita a algum lugar que era lugar nenhum específico. Um misto de deserto com praia e museu de antropologia. Estavam juntos, e era suave. Na terceira vez, o contexto sumiu e só o que se lembra é que, finalmente, ambos fizeram amor.
Sinos e mergulhos.
Por acaso.
sábado, 14 de março de 2009
bem-me-quer, mal-me-quer
Deitado eternamente em seu berço esplêndido, vendo ser dilapidadas suas riquezas naturais e massacrados seus recursos humanos, o país que me pariu dá de ombros à minha grandeza e aponta o sol da liberdade: "se quer ir, vai. somos 190 milhões, quem fará falta?"
Não fujo à luta, pátria, respondo, rebelde e indignada, mortificada pelo desdém, e por isso vou embora. Para lutar diferente, para buscar um futuro em que o colosso de minha dignidade possa se espelhar. E partilhar tal conquista com os demais.
O pais que me pariu, rodeado de cupinchas, uns velhos, outros plastificados, um com siglas de duas maiúsculas, outros com partidos de nomes pomposos, o país que me pariu, aconselhado por gente rica de toga e arrogância e preguiça e egoísmo, o país que me pariu segue com seus discursos antiquados e obsoletos: "Nossos bosques têm mais vida! Vamos exauri-los, então!" "Nossos rios têm mais força! Acabemos com eles, instalemos inúmeras usinas insensatas!" "Nossos campos têm mais flores! Esmaguemo-las e plantemos soja, e coloquemos gado, e exploremos inconseqüentemente os minérios abaixo do solo!" "Nossa vida, no meu seio, tem mais amores! Então, esqueçamos essa gente nojenta... esses ribeirinhos, esses indígenas, esses cidadãos honestos, os pobres, os miseráveis, os favelados, a classe média, os trabalhadores, os aposentados, as crianças, os jovens! Que vão viver seus amores à base da droga que alimenta o tráfico, que vivam inseguros, que não tenham perspectivas, que se danem!"
Não, isso não é ser uma mãe gentil.
O país que me pariu já nem me ouve, fascinado com a própria foto na coluna das estrelas em ascensão: "Sou o florão da América!"
Até o Cruzeiro do Sul balança a cauda, envergonhado, o Ipiranga não existe faz tempo.
E eu, dona de um sonho intenso e de raios vívidos, ainda arrisco uma nova oportunidade. Mas... mal-me-quer. Então, vou a quem me queira. E que me respeite de verdade, como ser humana.


