quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Querência: Baklava


Lágrimas acumulam-se nos olhos fechados. As papilas gustativas em trabalho de parto geram sensações inesperadas. Istiklal Caddesi reaparece em minha memória: quase enxergo as vitrines das lojas de doces exibindo baklavas de vários tamanhos. Enquanto isso, as delicadas camadas de massa folhada recheadas com a mistura de nozes, amêndoas e pistache moídos, cobertas por uma calda de açúcar diluído, se desfazem na minha boca e tocam meu coração: eu me emociono com esse momento lindo, com o perdão do clichê. Imediatamente a turca que habita minha alma desfruta os gostos de Istambul, os bazares, os cheiros, o Bósforo, a ponte Gálata, as pequenas e grandes mesquitas, a cisterna, a mesinha no café perto da estação Çemberlitaş: eu adoro aquela cidade, adoro aquele país. O duro simbolismo da bandeira – lembrança do sangue derramado em nome de um território, de uma religião – não reflete a suave do sabor de minhas vivências, quiçá reflita a lua e a estrela, meu sol ou meu mar. Meu pé ainda pisa Pamukkale, ainda me lembro do baklava saboreado na única doceria de Göreme, na Capadócia, e os caminhos de Éfeso surgem tão vívidos quanto os rumos em Kars e seus arco-íris. Olhos já abertos, mais um baklava, outro delírio e as lágrimas já escorrem o açúcar dos meus suspiros. Quero sempre voltar para esse meu lugar...


P.S.: Dear Sercan, thank you for this tasty and beautiful moment…

Um comentário:

Débora Poulain disse...

Era uma vez duas amigas. Uma apaixonada pela Turquia. Outra, por Salvador. Uma dia, desfizeram-se de tudo: os bens materiais, o lugar onde viviam, o trabalho, tudo o que fosse reciclável em suas vidas. Desfizeram-se do sentir-se presas. Levaram consigo o amor das pessoas mais importantes de sua vida e a vontade de degustar o mundo como acreditavam que deveria ser degustado. Visitaram-se então, carregando na mochila as novidades picantes do lado de lá e de cá.