quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Querência: Baklava


Lágrimas acumulam-se nos olhos fechados. As papilas gustativas em trabalho de parto geram sensações inesperadas. Istiklal Caddesi reaparece em minha memória: quase enxergo as vitrines das lojas de doces exibindo baklavas de vários tamanhos. Enquanto isso, as delicadas camadas de massa folhada recheadas com a mistura de nozes, amêndoas e pistache moídos, cobertas por uma calda de açúcar diluído, se desfazem na minha boca e tocam meu coração: eu me emociono com esse momento lindo, com o perdão do clichê. Imediatamente a turca que habita minha alma desfruta os gostos de Istambul, os bazares, os cheiros, o Bósforo, a ponte Gálata, as pequenas e grandes mesquitas, a cisterna, a mesinha no café perto da estação Çemberlitaş: eu adoro aquela cidade, adoro aquele país. O duro simbolismo da bandeira – lembrança do sangue derramado em nome de um território, de uma religião – não reflete a suave do sabor de minhas vivências, quiçá reflita a lua e a estrela, meu sol ou meu mar. Meu pé ainda pisa Pamukkale, ainda me lembro do baklava saboreado na única doceria de Göreme, na Capadócia, e os caminhos de Éfeso surgem tão vívidos quanto os rumos em Kars e seus arco-íris. Olhos já abertos, mais um baklava, outro delírio e as lágrimas já escorrem o açúcar dos meus suspiros. Quero sempre voltar para esse meu lugar...


P.S.: Dear Sercan, thank you for this tasty and beautiful moment…

Tem uma beleza imperfeita
Na desculpa desfeita
E na surpresa de reencontrar
Alguém já tão sabido
Mas completamente desconhecido
Em suas novidades de barquinho entregue ao mar.

Tem essa beleza, essa vida cor turquesa
No jeito quase escondido, sorrateiro
Em largar os sapatos no canto da sala
E esvaziar, sem pudor, sem temor, a mala
De diálogos já cansados, de adjetivos estragados.

Ah, é por isso que me faz tão bem
suas perguntas generosas sem vírgula ou porém
Essa bagunça curiosa no meu criado-mudo
E em meus alto-falantes às vezes carrancudos
Essa verdade nesse nosso caminhar despreparado
Em rumo não-planejado, hoje verde, amanhã desalinhado

Muito, muito bonito
Quase frescor de um novo rito:
Um beijo, uma novidade,
Pão-de-queijo, intensa, sempre intensa, brevidade.

domingo, 30 de agosto de 2009

Uma canção para D, a desconhecida, e para I, a russa

À querida e saudosa Paula,
que buscou o conforto desde a janela do 9° andar,
em 2003


As 17h e alguns minutos desse sábado 29 de agosto foram diferentes. A luz – havia algo com a luz do sol, incisiva diante da poluição e dos vidros espelhados. A luz estava mais densa e mais vermelha que a habitual. A luz sangrava? Da cobertura do edifício do Sesc Paulista, onde funciona um café, eu tentava desvendar os segredos daquela tarde, dessa cidade, de um fragmento de vida. No mesmo momento, bem próximo a mim, um outro fragmento de vida se dissipava. Havia um garotinho sozinho ao lado do binóculo. Por algum motivo sua avó correu para a esquerda, seu pai já tinha ido antes. Por que deixaram o menino sozinho?

Permaneci mais um instante – que pareceu longo e indefinido – absorta nas reflexões diante da megalópole austera e reluzente que eu via desde o balcão daquele café. Quem sou eu para ela? Que significados meus essa cidade guarda? Um dia decifrarei seus segredos incrustados em minha pessoa? Intrigada por algum sentimento alheio, porém, virei a cabeça para trás. Minha amiga Michelle me buscava com os olhos, tremendo de susto. Nos abraçamos.



Agora imagino D.
D. vestiu sua blusa listada e uma calça escura. Miúda, descendente de orientais, embora de meia idade, parecia mais jovem. Ajeitou os cabelos, que chegavam quase no ombro. Naquele sábado, D. saiu de casa com uma certeza. Essa certeza não lhe fazia nem mais nem menos feliz, apenas tranquila. Tornava o fardo mais suave. Talvez tenha até sentido um agradável bem-estar com a morna luz da tarde, enquanto caminhava rumo ao prédio do Sesc Paulista. Talvez tenha notado o casal de adolescentes que sorria numa cumplicidade marota. Talvez tenha notado a moça de bolsa imensa e salto agulha. Talvez tenha notado o homem acanhado de ar cansado. O rapaz com a camisa do São Paulo. As duas senhoras de xale. Talvez.

Talvez, pela primeira vez em muito tempo, D. tenha conseguido enxergar a vida que se passava a seu redor. E tenha sentido esperança. Acolhimento. Pertença. Talvez D. tenha ficado na dúvida quando subiu ao 14° andar do Sesc Paulista. Quando cruzou com a moça de óculos de hastes vermelhas, absorta diante do fragmento de horizonte. Quando pediu seu café para a simpática garota do atendimento. Quando viu aquele jovem pai com seu garotinho, paparicados os dois pela avó. Mas D. tinha sua certeza e, naquele sábado de luz avermelhada, sua certeza lhe fazia bem. Que sentimento gentil, meu Deus, depois de angústias intermináveis. A certeza era maior que a dúvida.

D. subiu calmamente na mureta. O rapaz achou esquisito. A calma dela era tanta que ele pensou se tratar de uma funcionária. D. encontrou um apoio para os pés na parte externa, equilibrou-se. O rapaz se aproximou:
-- Você precisa de ajuda?
D. não respondeu. O rapaz se deu conta, num átimo, e tentou segurá-la pelos pulsos. Sua mãe correu para lá.
Michelle, que estava no mezanino, viu o corpo cair. Ouviu o barulho.
A luz sangrava, sangrava muito, sangrava ardorosamente a vida de D.
Eram 17h e alguns minutos, mas eu não consegui mais olhar nos olhos da megalópole, porque ela fingiu não me ver. Havia tanta gente na rua essa hora... Mas a luz... a luz estava vermelha demais.



D., se eu não estivesse tão absorta, talvez tivéssemos nos cruzado no café. Talvez eu tivesse notado você, sua calma tão diferente de outras calmas que eu já conhecesse. Talvez, D., eu tivesse puxado papo com você e comentado um sentimento meu desta manhã.

I. é considerada uma estrela. Quanto se espera de I! Recordes, vitórias surpreendentes, exibições perfeitas. Há dez dias ela chegou ao Mundial de Berlim como bicampeã olímpica. Classificou-se com facilidade para a final do salto com vara. Mas, conforme admitiu depois, o excesso de autoconfiança tirou sua concentração. Excitada com a possibilidade de bater mais recordes, perdeu o foco quanto ao mais básico: saltar. Queimou suas três tentativas. A decepção foi geral – falou-se muito em fracasso, falha, vexame. “Eu precisava perder em Berlim”, ela disse. “Tinha de ver o esporte de outra maneira, por outro ângulo, não só do topo.” E, nesta sexta-feira, na Golden League em Zurique, I. não só conquistou uma fácil vitória (contra as mesmas adversárias de Berlim), como estabeleceu novo recorde para o salto com vara: 5,06m. I. aprendeu a vencer quando foi derrotada. E não deixou que seus demônios interiores a subjugassem.

Eu teria gostado muito de ter partilhado essa notícia com você, D. Teria ficado feliz em lhe dizer como a história de I. me emocionou. I. deve bater novos recordes. Eu talvez mude de São Paulo e sinta saudade da luz avermelhada. E você, D., esteja com Deus.

terça-feira, 25 de agosto de 2009


Dobra as dóceis pernas quando caminha, fera felina e humana,
Aninha mansidões em trechos extensos de bem-querer
E profundas indignações em cantos obtusos de seu peito circular
E caminha e caminha e caminha
Já que nunca chega e não chega nunca e nunca não chegará

Solidões são sólidos limões que correm escorrem morrem no Solimões?
Estalactites ecoam dúvidas deprimentemente individuais
– seiva: fissuras são normais

A frieza das indiferenças das incompreensões dos descompassos e dos marcapassos
socioeducativoculturais – puros sais de banho
O apelo ardente do frio lá fora clamando por coragens interditas e paciências infinitas
Na era do gelo – mero cobertor para a incessante dor
Desdobram contrastantes interações com esse tal de “mundo lá fora”
(não use aspas)

Agora: -pare com isso de ferimentos experimentos excrementos e jumentos
De quem quer que seja, sejam meus, seus, nossos, ou dele!
Cuide do bolo empantumado no forno de suas – não minhas – excomunhões
Pare, pare, pare de falar de cumprir de exibir de esculpir obrigações,
Por que não me rasuro de suas contas caras do passado?

Paz, pelamor, paz
Silêncio, sêclemente, ouvidos

Fera felina caminha e caminha, caminha as dóceis pernas que se dobram
Na dor no salto no bote no desapego na oração e na morte
São vastas vastas vastas essas trajetórias inconclusas e difusas
São vastos vastos vastos esses ires e voltares em tons estelares
Novos grandes largos frescos ares
Ah, humana felina santa cruel princesa enternecida,
Dama e bruxa no beabá.

Quase, quase, quase e lá
Um horizonte ofuscado pelo tempo kairós de uvas sem caroço e de mulheres sem moços
Um heróico esforço de delicadamente mastigar
O fulgor o estupor o pavor o temor de ultrapassar
A fronteira entre o existir e um inevitável eternizar-se.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Não deixe o rio morrer!




Um misto de homenagem e apelo pela vida eterna do Rio São Francisco, o Chico dos meus amores mais ternos, 100% brasileiro.

domingo, 23 de agosto de 2009

minha vida não cabe num coque

pura irresponsabilidade é deixar que um desconhecido decida sobre uma mudança em vida alheia. ainda mais se ele é um cabeleireiro que nunca a viu antes. você o provoca, de um jeito maroto, e diz: quero ficar diferente. aí ele manda bala.

agora, estou de quarentena do cabelo solto. e não reconheço a cara esquisita que aparece no espelho.

incompletude (ou: um girassol no gelo)


Uma lágrima, um impulso.
Um quase-susto.
O espelho já não se detinha
À face, muito menos ao disfarce:
Estava ali, alma desnuda,
Em processo de muda,
De desprendimento.
Fluxo contínuo, a grande jornada,
Uma presença intensa,
Manifestada.
Um entendimento verdadeiro.
Era quem era – e isso se lhe revelava ofuscante.
Um universo inteiro,
com mais existência adiante.
Palavra como força que move:
Faça-se!
Do significado ao significante,
Um átimo, um instante.
E lá se materializava o ritual.

Revolutionary Road


Assistiu a “Foi apenas um Sonho” e acabou dormindo com sede, sem sonhar. Abriu o jornal, leu sobre Sarney, Taleban, aumento da criminalidade, compra de terras férteis na África por grandes investidores, mandos, desmandos, um tal de cinema crítico, nota sobre socialite inventando moda, uma bermuda que acaba com gordura localizada, uma crônica banal de algum escritor pseudo. Vomitou. Venceu a preguiça e o frio de 12 graus, passou o batom que quase não usava, pôs óculos escuros e partiu. Alguém até lembrou de registrar no obituário, mas ela já estava, enfim, livre, leve, longe e em outra dimensão.



"And if you walk along and if you lose your way,/
Don't forget the one who gave you this today/
Follow True Love"
Cat Stevens

sábado, 22 de agosto de 2009

"Estúpido, ridículo e frágil é meu coração"


Não seria jamais chamada para um comercial de xampu, não receberia bônus de cinco dígitos no final do ano nem estrelaria uma campanha pela especulação imobiliária. Anônima e invisível, circula pelas esquinas e avenidas tentando escapar do aspirador de diferenças, que mantém a pobreza mas apaga a heterogeneidade.

Está à deriva; é uma náufraga em sua própria sociedade.



"Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas."
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Pequenina eternidade


Ainda de pijamas, ela abriu a porta, com os cabelos desgrenhados e os olhos inchados de tanto doer os pequenos vazios de sua existência. Aquele dia estava cinza, não havia apetite nem calor, mas ele a abraçou assim que entrou, num silêncio carinhoso e aconchegante. Nesse instante, ela constatou, surpresa, que seria para sempre.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

metamorfose


Foi quando Maria das Dores descobriu, por fim, que podia ser feliz: ao raspar o fundo da panela de doce com os dedos. Naquele instante, não houve marido inconstante, filhos desbocados ou patroa a ralhar. Existiam ela e os prazeres ínfimos do viver.


germes germânicos

Quando ele beijou lambeu arranhou o fundo do poço e, no meio de todos os clichês possíveis, constatou que já não haveria mais salvação para sua lavoura de tomates esborrachados em plurais sem “s” e abobrinhas feito praga, brotando aos montes por todos os poros, ele enfim olhou. E, ainda sob os bugalhos de seus chavões imprestáveis para abrir portas mas úteis em todas as outras aplicações, fez desse olhar – do primeiro ao segundo e depois o terceiro – sua tábua de salvação. Ao olhar, salvo ao menos um fragmento, disse a si mesmo entre arrotos e escarros, antes de tombar alucinado e inconsciente, sujo de pó e poeira. Ainda assim, inconscientemente, escavou uma fresta para a expressão mais pura que carregava em si. Porém, medroso e arrogante, não abriu mão de todo o resto: mero fim de feira. Pobres dos pulsos marcados de fugas.

E foi então que, ao olhar e com o olhar, se libertava de si mesmo e de todas todas todas as carcaças apodrecidas e largadas no restante de seu ser, o ser para o mundo, aquele mais visível e aparente. Seu mau hálito carregava frases feitas pedindo para serem dissolvidas imediatamente – e, entre alguma risada e boas parcerias, sempre recorria à cachaça para aplacar seu nervosismo por existir. Existir e, assim, ser descoberto em todas as suas farsas. Ao menos, era humano e assumia – havia gente que gostava dele por esse pedacinho.

E foi então que ele viu aquelas pernas, antes de tudo e de todos, aquelas pernas que ainda estavam a buscar e, decepcionadas, queriam esconder-se embaixo de uma calça ou de uma mesa. Ele não queria o todo – e a dona das pernas, embora quisesse um “ser inteiro”, sentia-se cansada demais das inconstâncias do gênero oposto para carregar um homem de verdade naquele momento. Ela insistia em falar no leve, na leveza, na necessidade do discurso não-assertivo. Ela era bem assertiva quando falava alto e longamente sobre a leveza. E, quando sorria inventando uma placidez para a irritação dormente lá lá lá no fundo, pedia clemência ao mundo que a deixava solitária. Assumamos: naquele instante, ela não queria dar satisfação a ninguém. Um fragmento verdadeiro era suficiente para seu deleite de mulher-fêmea.

Até que ele quis domar as pernas com suas velhas e manjadas piadas. Desfazer os laços longos dos sapatos de bailarina no caminho dos tornozelos aos joelhos aplicando os truques tirados frescos de sua lavoura de banalidades insossas. Mas foi pelo fragmento do olhar dela que o olhar dele recebeu acolhimento. Um flerte pelo retrovisor dos encontros, aquele pedaço de mundo, um espelhinho de reconhecimento. Duas carências unidas pela pureza mais sincera que o momento poderia propiciar. O fedor se unia ao perfume e tudo cheirava ao humano em estado primitivo. E, então, que se danasse o mundo, os demais, os amigos e os inimigos, as verdades recém-proferidas em tom de prosódia ou de discurso psicologuês. Fragmentários e fragmentados, assumidíssimos, eles se uniram. Pernas, mãos, é esse pedacinho, sabe, é esse pedacinho que me encanta, a justificativa ecoava entre os dentes, onde nem fio dental passa. Deram-se aos germes, os mais rígidos, os germes germânicos.

Eles se lançaram, juntos, juntinhos, grudados pelas extremidades mais óbvias, à droga mais pura e mais poderosa. E já que me mandaram à merda, cada qual a seu modo, pouco me importo com o final dessa história, da qual só sei um fragmento. E isso me basta, é claro.

terça-feira, 28 de julho de 2009


Voltar para onde tudo começou: Deus.

Essa existência é um longo preparativo... Ufa, às vezes me canso e me sinto pronta, mas sei que não estou.

Entre a eternidade e a imortalidade, sou muito mais a primeira. Não tenho nenhuma pretensão de estender a distância de minhas origens, pelo contrário; quero largar-me nelas e aí estar estar estar no ser, no Ser. Mergulhar definitivamente no Amor.

arroubos

(mfv, 2009)


-- Mas por quê?

-- Não vou repetir de novo. Já quebrei o disco arranhado há tempos. Você não quer me escutar de verdade. Se quisesse... -- bufou.
E então o inóspito: a maçaneta ficou na mão dele, impedindo-o de ir embora.

Ele chutou a mala, ela largou a almofada no chão. Silêncio. Silêncio. Bufo, suspiro. Silêncio carregado de tensão. Aquele olhar, ai, meu Deus. Eles se agarraram, se amaram, gargalharam, choraram, se desculparam, abriram uma garrafa de vinho reserva de 2004, juntaram as roupas dela em outra mala, arrombaram a porta e, em plena segunda-feira, às 16h14, pegaram o carro rumo às serras fluminenses ou à costa baiana ou aos interiores de algum lugar lindo e só deles. E falaram muito, muito, diálogos que há tempos não tinham, inclusive sem palavras.


quinta-feira, 23 de julho de 2009

Parada naquela estação

(MT, 2009)


Era um dia incrivelmente bonito: ensolarado, com algumas poucas nuvens inventando sombras e frescores e uma mescla de perfumes difusos anunciando tarde cheia de promessas. Um dia que se revelava enternecido. Um dia para uma reconciliação, um sorriso, um laço – e não para uma partida.

Mas foi quando você decidiu ir. Respirou fundo ao se espreguiçar. Na verdade, você não tinha dormido. Virara tanto na cama quanto suspirara embaixo dos lençóis, tentando dialogar com os espaços de tempo entre os segundos, para que o relógio não avançasse, e com os espaços entre nós, na tentativa de corrigir abismos. Também eu não dormira. Me forçara a sonhar acordada, imaginando uma compilação de novos verbetes que nos ajudasse a lidar com os diálogos já sem rumo. Respirou fundo. Entendi. Voltou seus olhos úmidos para os meus, já secos e inchados, tocou meu rosto. Não nos doíamos pela possibilidade de um de nós amar um outro, uma outra. Doíamos porque já não nos amávamos, porque sabíamos disso e porque, embora parecesse certo tentar remontar o quebra-cabeça de nossas emoções e querências, não tentávamos. Sua mão tocou meu rosto, meu colo, meus seios, minhas pernas, minhas costas, meus cabelos, seus lábios roçavam os meus, gozamos juntos com os olhos fixos nos olhos do outro. Impávidos. Você, então, se levantou. Vestiu-se. Lentamente juntou seus ternos, suas camisas, suas calças. Dobrava com cuidado, como nunca fizera. Eu soluçava – você buscou um copo d’água, sentou ao meu lado, segurou minha mão. Chorou. Recorríamos os mesmos recantos do quarto com nossas lembranças: a escrivaninha, a poltrona, o armário, o quadro, a luminária, nossos chinelos. Recolhi suas meias na gaveta, suas cuecas e, com delicadeza, coloquei na mala. Respirou fundo de novo. Respirei fundo em dueto. Não dissemos nada. O silêncio carregava tantas juras quanto cobranças e ambos estávamos cansados. Quando você saiu do quarto, do apartamento, fechei as janelas novamente. Puxei as cobertas, me escondi nos espaços já preenchidos no lençol, nas dobras que guardavam seu cheiro. Fechei os olhos com força, voltei a soluçar, rebobinei a manhã, a madrugada, a noite, a vida inteira. Ouvi o apito do trem, corri para a estação. Balançando os pezinhos no ar, me mantive aguardando a chegada do trem – e do outro, e do seguinte, e do que vinha depois, e do que vinha no outro dia, na outra semana, no outro mês. Você nunca veio com o trem. Você nunca voltou com o trem.

Fecho os olhos com força todas as vezes que a janela denuncia um dia ensolarado, com algumas poucas nuvens, tardes que querem trazer promessas. Sempre prolongo o sonho, inventando todas as vezes a mesma partida. Você respirou fundo. Eu pus suas meias na mala. Nos olhávamos fixamente enquanto gozávamos. Porque você nunca partiu – você desapareceu. E isso abriu um buraco tão imenso em meu gostar que sucumbi à queda. Eu preciso desta estação porque você nunca foi embora. Você, simplesmente, dissolveu-se numa tarde morna qualquer, como se jamais houvesse existido. Como se eu o tivesse inventado. Como se não tivesse havido um casal eu e você, você e eu – prolixo, imperfeito, sanguíneo.



Até hoje fico parada naquela estação, imaginando trens. Um trem que traga você – para que, finalmente, possa partir.

domingo, 19 de julho de 2009

Dora

(mfv,2009)


O dito se referia ao espelho, mas Dora suspirou ao recolher os cacos do cristal estatelado, estatelado como suas últimas esperanças. Sete anos de alguma coisa – azar, sorte, felicidade, tristeza, angústia, stress – era muito tempo. Preferia pensar em sete minutos, tempo não tão rápido como os segundos nem tão longo como as décadas. Os cacos, o cristal, o chão, a janela, o telefone, o lixo, a privada, o armário, a escrivaninha, os cacos de novo. Era quase manhã, mas ainda estava escuro dentro de Dora. A Dora, a Dora de agora, a Dora que adora hora, a Dora que demora, a Dora que ignora, a Dora que chora, chora muito a Dora, a Dora senhora de seus cravos – as flores – e de suas sardas – discretas –, a Dora que levou um fora. E a taça, presente inclemente, estraçalhada como suas últimas esperanças, pois sim. O dito se refere ao espelho, Dora. E ele, neste momento, te olha. Sim. A palavra é esta: embora.


sábado, 18 de julho de 2009

Esse é meu mundo ou é o mundo de então?

Respiro longo e empurro para fora
Pequenas melancolias, grandes delicadezas
Em prolongadas aspirações
Labirínticas inquietudes sabor jornal
Enquanto tudo roda roda roda
Passa passa passa
Corre corre corre
Diante de mim mesma estupefata:

! ! !

Queria um único dia
Único
Fingir que sou vegetal invertebrada dessapientizada
À mercê da fotossíntese e dos ciclos de auroras
Quase imóvel
( )
Apenas sorvendo as sombras, os reflexos e os pigmentos
Das cenas vivas
>>>

Es pa s mo s
“ ”
Eis-me

.

Esse é meu mundo. É o mundo de então.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

romantílica que só

(MFV, 2009)


Eu não acredito mais em histórias de amor, disse ela, bêbada, ainda que continue a escrevê-las sempre, com batom quando for preciso, com saliva se for dispensável. Fragmentos de sua pessoa caíam aos borbotões pela rua ainda úmida de ilusões e adeus. Alguns restos de lixo perturbavam as esquinas nem tão escuras quanto muitos gostariam. Botas de cano longo e salto fino misturavam-se a gatunos à espreita. Eram infelizes, todos, menos ela, ela bêbada, ela lúcida, ela desamada desanimada inanimada unânime na decisão de desacreditar das histórias de amor, especialmente as românticas.

Como se histórias de amor pudessem ser algo além de românticas, interrompeu ela, discordando inocentemente, incoerentemente, porque também acreditava que as histórias de amor pudessem ser qualquer coisa, pudessem ser histórias de amor heróicas, infames, de terror, dramáticas.

Tá. Odeio especialmente as românticas.

A noite não se calava, o silêncio era abrupto e o vento, rancoroso. Os olhos borrados, os lábios ainda tão bem pintados, os cabelos se lançavam ao balançar de seus passos incertos, incorretos. Havia um vácuo de fêmea, uma incrível crise de sentimentalidades, pulsava, é certo, pulsava vaginalmente, seu coração estalava, e ela ainda se fazia crer que tremia de frio.

Qual o quê!
Qual o quê, ela depois diria, tomando um chocolate quente meio amargo, meio dolorido, deveras penoso para a mulher que era. Digna, digna, muito digna, bonita a seu modo, indiferente sem querer, estampada nos postes, nas paredes, nos letreiros, nas cartas já desfeitas, nas linhas tortas. Amava tanto, mas o problema é que ainda acreditava que qualquer dia desses ainda toparia com um cara que iria amá-la também, e mais: que iria querer passar mais de um dia, uma semana, um mês, um ano a seu lado.

Decididamente, engasgou ela, com a língua queimada pelo chocolate, não existe amor romântico. E cuspiu um restinho de fantasia, teimosa, entre os dentes.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

e(u)fe(me)rida(s)des

(MFV, 2009)


Já nem éramos mais
E restávamos, ainda inteiros,
Das intempéries ora íntimas, ora forasteiras
De toda uma avalanche de objeções e securas
Muitas cultivadas feito larva, feito lava, feito lavra
Por nós mesmos

Havia uma esperança
De reconstrução de espaços, de ventilação dos silêncios
Ausências pesadas, incongruências fluorescentes
Trôpegos, tropeçantes
Havia
Sempre ia, vai, iria, haveria,
Enquanto que

Mas danamos as conjunções e as conjugações todas

Se tristeza, se vazio gatuno, se vaza
As fantasias todas presas com colchetes coloridos
Imagens projetadas, sombras na parede, sombras claras, mas oras!
Sombras!
Não, não, nada disso, não, o que queríamos mesmo
Era voar livres.

E vivos.