quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

fragmento

como me habías dicho tantas veces). Y tampoco me has dado la oportunidad de explicarme. Yo no me explicaría, ya sabías, pero que me escucharas. Que me escucharas. Lo que buscaba era que me escucharas. Rompías el silencio, el pesado silencio, el silencio más denso y lleno que ya probáramos para decirme que te cansaras, que tus sentimientos jamás cambiarían, que sería mejor que yo me disolviera en el agua caliente que caía de mis ojos y en la saliva ardiente que yo quisiera ofrecerte. Que ahora me tenías asco. Un asco afectivo, dijiste con letras mayúsculas y robustas. Tú, el mismo tú que me hicieras dos, tres, cuatro veces la misma pregunta en aquella parada del bus, ya mucho después de la medía noche: ¿estás feliz porque estoy aquí? El mismo tú que escuchó un sí, un silencio y una risa. Yo no sé más que tenerte asco, repetiste, como si quisieras borrar tu pregunta de la noche fría y sensible. ¿Cuándo fuiste sincero? ¿Cuándo empezaste a huir que no me di cuenta? Me dejaste la nevera vacía, puro hielo-hielo-hielo, sacaste los hilos que unían nuestros guantes, nuestras filosofías vanas y sencillas. Botaste el cubo mágico de nuestros trocitos compartidos y me expulsaste de tus pensamientos. Vate. Tú tienes algo de femenino, yo te lo dije con tanto cariño que te dañé. Pusiste fuego en mis ropas, me quemaste delante del espejo y dejaste todas las notas que venía regalándote con chocolatitos a cada darme cuenta. Sin embargo, aquel día, aquel día de plena fragilidad, cuando sentí coraje de darte mis palabras más tiernas, cuando quise abrazarte con la fuerza de mi lucidez sentimental (y mis disculpas, es cierto, aunque

agora que enquanto



Agora que você me fez parar.
Agora que você me tirou da pista de alta velocidade.
Agora que você me ensinou, a contragosto dos dois, a frear.
Agora.
Agora você é responsável.


Eu dirigia meu querer acima dos limites permitidos. Rápido, rápido, rápido. Curva. Curva. Curva. Retas longas e largas. Retas, retas tortas. Ultrapassava quem quisesse, disputava partidas, parava nos posto de gasolina e me abastecia de motores alheios, de estofados de bancos de carros que eu mal conhecia, de cafés aguados e tortas sem sabor. E corria, e corria, e corria.


E subitamente um quase acidente.
A ultrapassagem imperfeita, o desvio, minha distração. Batida. A raiva, o susto, o encanto, a vontade, a fuga, o medo, e todos os impropérios de que nenhum seguro, de nenhum dos dois, iria pagar os danos desse encontro imperfeito e borrado. Você ocultou as evidências do dano, virou a cara, empurrou-se para túneis insones e insossos. Desapareceu da pista. Desestacionou-se.


Agora que.
Agora que nem sei mais correr.
Agora que nem sei.


Não gostei propriamente da experiência. Não gosto propriamente de você e sei que você não gosta apropriadamente de mim. Não nos apropriamos – nem nos apropriaremos. Falei demais – sempre falo. Despejei meus combustíveis queimados em cima de seus pneus murchos e já sem ganas. Nos despistamos. Nos despeitamos. Perdemos o respeito sem perder a compostura, a postura altiva de dois maus condutores.


Cansado, o sol desapareceu antes da hora.
Quando veio a lua, com um certo atraso, envergonhada, as pistas de asfalto já haviam se transformado em rotas de areia à beira-mar.

Eu escutava as ondas.
Agora que eu escutava as ondas, e chorava estupefações, agora que eu tinha meus pés livres de quaisquer saltos, agora que, agora eu preferia andar, andar devagarzinho, escorregar-me. Engatinhar.


Pela madrugava, afogava-me.
Você não era responsável. Você tinha seus pés de galinha ao redor dos olhos, sua idade multiplicada por dez e as calças arregaçadas acima dos tornozelos. Você não havia deixado pegadas. Enquanto eu me afogava – um jeito inconsciente de flutuar, um jeito pesado de flutuar, enquanto não sabíamos.


Agora que.
Bem devagar.

(trilha sonora: "Sol de Primavera", de Beto Guedes)

domingo, 23 de janeiro de 2011

eles eles eles e ela?



Eles tinham o mesmo nome, ela os havia conhecido no mesmo lugar, eles eram algo como bons colegas, eles tinham gostos diferentes, a cor de seus olhos – dos três – era quase a mesma, eles até se pareciam fisicamente, um era mais alto, o outro era mais sorridente, ambos tinham fios prateados nas barbas e nos cabelos castanhos, um preferia a celebração, o outro a melancolia, os dois despertavam nela afetos diversos, fantasias alucinantes, medos-verrugas, suores contidos. Eles, aos poucos, cada um a seu modo, um mais elegante, o outro bem mais desajeitado, ambos um pouco tensos, aprendiam a cumprimentá-la com um abraço, um olhar e reticências em frases curtas, que aparentemente eram definitivas e derradeiras. Ela suspirava por ambos, às vezes mais por um, às vezes mais pelo outro, eles a confundiam, ela os confundia, os três não assimilavam nada mais além de rápidos e sinceros “não sei” ditos sem pensar. Ela e um deles eram improváveis juntos, ela e um deles eram mais que viáveis juntos, mas os três se assustavam com qualquer uma das possibilidades. Eles percorriam esquinas diferentes, mas escolhiam curvas parecidas, faziam passeios na mesma cidade impressionante que pertencia aos três e não havia parido nenhum deles. Ela vinha de longe, mas eles tinham a mesma nacionalidade, ela não sabia se também a mesma natureza, um deles havia confessado sua atração e sua inviabilidade, o outro tinha reafirmado sua rejeição e sua inviabilidade, ela já não sabia se os rejeitava, se os atraía, se os impossibilitava para si mesma, se eles se inventavam obstáculos. Melhor continuar sem saber de nada, melhor apagar esses nomes sinônimos, esses sentimentos por tanto tempo também sinônimos, melhor evitar esses caminhos que se cruzam, melhor pintar os olhos de azul, os sorrisos de cinza, os sentimentos de gelo. Melhor encher o copo de vinho e virar uma vez, ou duas, ou três, ou mais. Talvez, muitos horizontes depois, quando ela estiver num navio largado em algum dos oceanos do imenso planeta e se virar para trás, apenas para ajeitar os cabelos revirados pelo vento, cruze seu olhar com o olhar de um deles, com aquele seguiu as estrelas e deixou os cadarços para trás. Ou talvez o dono daquele olhar não seja nenhum deles, seja um outro, homônimo, com a mesma cor dos olhos, com um pouco de alegria, com um pouco de melancolia, menos tenso, menos precavido, menos impossível. Coincidência, destino, pouco importará. Ela com eles, ela sem eles, no fim das contas ela intuirá que estarão só ela e ele, aquele ele e aquela ela – os verdadeiros eles. E aquele nome tão repetido, tão repetitivo nem fará mais sentido.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

millennium mambo



Puc-puc-puc-puc-puc. Melancolia melódica. Puc-puc-puc-puc-puc. O homem de neve se dissolve com o sol. Puc-puc-puc-puc-puc. A última vez em que a gente fez amor foi triste. Já se passaram dez anos. Eu prometia a mim mesma que o deixaria quando gastasse os 5 mil que tinha no banco.

Nunca tive 5 mil na conta. Mas um dia apareceu o sol, assim casualmente, estava sozinha numa cidade desconhecida – sabia, contudo, que nos meses de inverno havia um festival de cinema, que nos meses de verão as pessoas iam à praia, que os outonos carregavam suspiros distantes, quase diminutos, e as primaveras povoavam as ruas de um certo tipo de sorriso.

Demorou muito para que eu saísse do túnel. Puc-puc-puc-puc-puc. Demorou muito para que eu abandonasse todas aquelas luzes néon, fizesse um chá, diminuísse o vinho, parasse com o cigarro, deixasse de usar secador para os cabelos, não comesse mais açúcar. Demorou muito para que eu deixasse aquele apartamento, que eu não me sentisse sem parte de mim quando estivesse longe dele, que eu aprendesse a abrir a janela e enxergasse outras paisagens. Demorou muito para que eu me desse conta que jamais alcançaria 5 mil na conta – e, por isso, não chegaria nunca a gastá-los.

Demorou muito para que eu usufruísse das batidas melancólicas da minha própria melodia sem recorrer ao ritmo dele. Puc-puc-puc-puc-puc. Tudo isso não inteiramente sozinha, havia sempre os amigos, mas por mim mesma precisava descobrir o trilho soterrado sob os escombros de uma vida que não queria mais.

Há dez anos a existência era urgente, intensa, imensa.
Agora ficou mais curta. Mas mais suave e leve também.
Puc-puc-puc-puc-puc.
Às vezes, a melodia que escuto por aí é melancólica. Até me lembro dele. Os dias de névoa combinam com a melancolia melódica que encontro aqui dentro, quando abro os braços e sinto o vento e deixo os cabelos soltos e solto a voz e saboreio cada minuto.

Puc-puc-puc-puc-puc.
Esses são meus passos, meus passos.
Livremente inspirado nas sensações despertadas por "Millennium Mambo", de Hou Hsiao Hsien).
Um espaço vazio
em meio a tantos
tantos tantos
e tantos cheios


Ausência tarântula:
agressiva, peluda
e feia.
Aquele espaço cercado
dos meus hojes e agoras
das minhas horas
das minhas demoras


Atrasos,
vácuos,
vazios


Um espaço-abismo
nos meus vãos
sempre tão-tãos

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ela ela ela e ele?


Andava, andava e encontrava, encontrava e perdia, se perdia, escorregava e caía, caía, sorvia o dia ensolarado, a luz quente, o vento trêmulo, o corpo ardente, andava, andava e via, via o mar, via as gentes, via seu reflexo nas botas, nos asfaltos, nas folhas úmidas e amassadas das calçadas anfitriãs, tão estrangeiras quanto essas fantasias vorazes que a consumiam. Consumia, consumia e cuspia, cuspia e desejava, desejava e negava, negava a negação alheia, as correias, as deles meias, as suas cheias, regurgitava faceira, disfarçava de todas as maneiras. Ao mesmo tempo, revelava-se, revelava-se e escava, escavava e descobria que quase sempre se sabotava, se sabotava e fugia, fugia e voava, voava e se decepcionava, porque se iludia, iludia e sofria, para depois frequentemente recomeçar. “A vida é assim, isso está passando comigo também, gosto de outro alguém, não gosto de você.” Tampouco gostava dele, só ansiava, ansiava e masturbava-se, no fundo se queria, a si própria completa, intensa, imensa, lançada no oceano de um outro, não aquele. Quase se equivocava de novo, rançoso e velho, velho e carcomido, fingido e substituto. Andava, andava e buscava, sorvia o dia ensolarado, a luz quente, o vento trêmulo, o corpo ardente, as construções imponentes, pequena diante, grande em frente, potente, nas largas avenidas tão cheias de histórias e de curvas e de esquinas e de gente e de reflexos e de convexos e de mundos minúsculos e complexos. Achava, achava-se, amava-se, ausente, presente, consciente, paciente. Seguia. Seguia e continuava, não desistia. Diferente. Ela. Ela. Ela.
E ele?



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

* cacto *

E, quando o efeito passou, não se sabe bem se pela manhã bem cedinho ou perto da hora do almoço, ouviu-se um ca-ta-bum tão discreto que nem parecia som. Um acorde perdido entre espanto e barulho de passos, canto de pássaros e fechaduras de passagens. Quando o efeito passou, ela virou mulher e ele voltou a ser menino. Ambos se olharam e, por fim, se viram. Enxergaram-se, ainda que previssem o susto. O desencanto. O deslocamento. O descompasso. O pequeno fio de abismo entre eles se transformou num penhasco de grandes proporções. Dez anos passaram num segundo – envelhecendo-a, rejuvenescendo-o, afastando-os.

Você dirá que, segundo a alma etc., segundo o coração etc., citará frases bonitas que justifiquem seu pensamento etc., mas você nem imagina. Você acha muitas coisas, porém, talvez, agora seja mais adequado manter o silêncio. Ou melhor: não intervenha nesse silêncio que se formou entre aqueles dois.

Não houve reencontro depois que o efeito passou. Ambos se desencontraram. De verdade. Desencontraram-se. Olhavam-se, mas não se viam mais. Ele via uma mulher mais velha. Ela via um garoto mais novo. Qualquer possibilidade entre eles parecia agora absurda, obscena, nada factível.

Ali, naquela praça, ela seguiu para a esquerda sem olhar para trás, apenas para dentro. Ele tomou a direita, também sem olhar para trás, somente para dentro. O choque, um ruído afetivo. Uma raiva miúda e repentina. Nó na garganta, um quase engasgo. Depois, a falta. A ausência, o vazio. Aquele pequeno vazio que sobrevive agudo como um pequeno cacto doméstico nos espaços interiores, mais íntimos, por anos a fio.

sábado, 11 de dezembro de 2010

meias

Se nós fôssemos palavras escritas com uma velha máquina de escrever, ele seria um borrão. Um “b” encharcado de tinta, as teclas “bo” batidas ao mesmo tempo, espatifadas na folha de papel, manchando o espaço entre as outras letras. Se nós fôssemos borboletas, ele seria uma mosca na parede – uma mosca displicentemente esmagada na parede. Se nós fôssemos dias, ele seria aquele mais nublado e cinzento, com chuvas encardidas e ventos gelados.

Em meio a tanta falta de cor, à insipidez de suas calças marrons e de seus suéteres pretos, à voz grave e indefinida, aos olhos caídos e desiludidos, lá estavam elas ousadas e pueris: suas meias coloridas. Cinza, marrom, negro, opaco, apagado, estático – todo um contraste com a alegria marota, com a bossa de suas meias. E ele fazia questão de misturar os pares, de ousar combinações. Por meio de suas meias, ele vivia a ousadia que lhe faltava no cotidiano, a coragem, a picardia, sua verdadeira revolução. Mas ainda que insistissem em carregá-lo para horizontes impensados, ele resistia. Ele resistia.

Se fôssemos, diante de seus olhos, homem e mulher, poderíamos viver o clichê de uma história de amor ou então partilharmos caminhos trôpegos traçados pela combinação entre pés viajantes e meias coloridas. Se fôssemos. Se um encontro fosse possível, ele não estaria tão cinzento, tão escuro, tão borrado. Ele seria uma mosca ressuscitada e tornada vagalume ou abelha. Mas ele preferia os desencontros, os lapsos, os abismos. E se escondia nas meias coloridas, quando sentia que correnteza da vida podia ser demasiado forte ou quando suas pernas teimavam em levá-lo de e para os mesmos lugares de sempre.

domingo, 24 de outubro de 2010

nuvem feito onda

No dia em que meu chão sumiu, uma nuvem gigante avançou feito onda céu adentro. Eu estava, em pé, no Largo da Carioca, sem saber para onde ir: se para outros braços, se para o mar de Ipanema, se a chorar aos pés de Santa Teresa, se jogar minha sorte nas ruazinhas da Urca. No dia em que meu chão sumiu, eu era simplesmente uma mulher sozinha tentando absorver o ir e vir de tanta gente. Uma paulistana em meio a arranha-céus cariocas, enxergando familiaridade nos desconhecidos, torcendo para que aquela nuvem engolisse minha tristeza. Afinal, ele acabara de telefonar: me desculpa, mas não quero mais te ver.

Tínhamos nos conhecido numa de suas breves passagens por São Paulo a trabalho. Foi numa livraria, durante o lançamento de um compêndio de filosofia. Entre taças de vinho, ignorando os escritores, engatamos uma conversa sobre nossas banalidades mais essenciais. Quando ele me levou para seu hotel, para ver da cobertura do edifício a cidade iluminada naquela madrugada fria e aí sim falarmos de nossas vãs filosofias, eu ainda não tinha decorado seu segundo nome nem ele o meu. Luís-alguma-coisa, carioca, conversa com Ana-tralalá, paulistana, sob um céu nublado universal. Houve um beijo, um daqueles beijos que valem por semanas de malabarismos de sedução, e nada mais. Nem precisava.

Rumei para casa, ainda em transe pela noite tão especial, retomando frases dele ditas com charme e sotaque como se tivesse na mente um gravador quebrado. Na manhã seguinte, ele voltou ao seu “pequeno paraíso de dois quartos em Copacabana, a três quadras da praia”, com a promessa de não desaparecer. Nas semanas seguintes, vieram telefonemas, e-mails, torpedos via celular, muitos suspiros, risadas e um CD, que chegou para mim na véspera de uma viagem dele para o exterior. Assim você não me esquece, ele disse. Era uma coletânea de choros, chamada “Noites Cariocas”. Junto, veio um bilhete: em cada faixa, imagina que eu te conduza por meus recantos preferidos no Rio.

Naquele mês sem qualquer notícia dele, ao som de chorinhos diversos, recriei uma Cidade Maravilhosa dentro de mim, só minha e dele, emprestando da memória fragmentos já opacos de uma viagem feita há tempos e recusando qualquer notícia vinda da realidade (blitz, mortes, morros, violência, arrastões). Comíamos bolinho de bacalhau nos botecos pés-sujos nas tardes de sábado, passeávamos de mãos dadas por Ipanema nas manhãs de domingo e assistíamos juntos a shows diversos nas casas noturnas da Lapa. Sempre que eu me perdia pelas vielas de Santa Teresa, ele me encontrava com um sorriso e me presenteava com beijos como aquele da primeira vez. No fim de tarde, tomávamos suco num quiosque da Lagoa Rodrigo de Freitas. Depois, seguíamos com nossas vãs filosofias e banalidades essenciais, entre um chope e outro na Cinelândia. O que seria de nós, Luís e Ana? E, na Toca do Vinícius, nos deliciávamos com os segredos desvendados pelos chorinhos todos. Eu quase me esquecia que vivia em São Paulo; pensava que ao virar a esquina da Paulista com a Consolação, fosse encontrar o Real Gabinete Português de Leitura. Que ao caminhar no centro, logo veria a igreja de São Francisco da Penitência. E que, ao sair do trabalho com o dia ainda claro, pudesse caminhar um pouquinho à beira-mar.

Já havia se passado mais de cinco semanas, quando me dei conta de que não tinha ideia se Luís já voltara do exterior. Os passeios imaginários pelo Rio de Janeiro, acompanhados pelas faixas do CD, haviam amortizado aquela saudade doída e permeada por um desejo crescente e sôfrego de tê-lo nos meus braços. Telefonei, deixei recados. Escrevi e-mails, mandei torpedos. Um silêncio do outro lado. Dúvidas: será que ele está bem? Ansiedade: será que ele conheceu alguém?

Alguns dias depois, recebi algumas linhas dele. Pedia desculpas pela demora em responder, dizia que mal voltara de férias e já lhe tinham entupido de trabalho. Talvez viesse a São Paulo em algumas semanas. Ah, o CD? Havia gostado? Que bom. E, nada mais, um beijo, boa sorte. O que me chamou atenção, aliás, como se fosse um berro no meio do metrô, foi o fato de ele ter começado o e-mail com “Querida Paula”. Eu, que era a “DoidivANA”, a “ANAlógica”, a “Mariú-ANA” e outras Anas loucas, me transformara na séria e compenetrada Paula, a srta. segundo nome, segundo escalão, mera desconhecida. O que teria acontecido ao Luís, o obscuro Alberto?

Comprei uma passagem para o Rio no ímpeto. Fiz as malas, entre afobada e desaforada, enquanto ouvia o CD horas a fio. A libido, que não dava trégua, misturava-se à indignação. Telefonei, deixei recados, escrevi e-mails, mandei torpedos avisando que eu estaria lá, diante dele, totalmente Ana. Ele não se manifestou. Viajei mesmo assim. E, no dia em que meu chão sumiu, saí do Metrô Carioca e ouvi-o falar, no celular: me desculpa, mas não quero mais te ver. Uma nuvem gigante avançou feito onda céu adentro. E me levou de volta a São Paulo, horas depois, sem sequer ter confirmado se aquele Rio de Janeiro, o das fantasias, existia mesmo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

~~ oceânica ~~

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.
Eu não: quero uma verdade inventada"
(Clarice Lispector)



Pois hoje, embora o sol não tenha se dado ao luxo de acordar cedo, consigo ver a linha do mar. Consigo ver o mar. Consigo me imaginar, oceânica e ondular, alcançando costas e continentes nunca antes tocados ou desbravados.

Pois já fui uma pessoa não-pessoa para um certo alguém-ninguém.
Pois já fui alma penalizada despenada, dispensada pelo simples fato de encantar alguém-ninguém desencantado.

Sonho baías, sonho encostar minha cabeça numa falésia aconchegante, sonho abraçar uma ilha-mundo. Oceânica, pois sim.

Pois me tornei um vento úmido e frio que ele espanta com álcool, flanela e fósforos.
Pois o que nunca soube me falar agora solta feito mariposinha de verão: e que mulher você é, que mulher.

Pois nunca fui uma “que mulher”. Fui uma pessoa despessoalizada, despersonalizada por um sentimento peçonhento de alguém-ninguém medroso e vaporoso.
Pois nunca estive ali, naquele recanto quente com os olhos cinzentos voltados para mim. Pois sempre estive cinza, ainda que colorida e quente, diante daqueles olhos que não enxergavam futuro em mim.

Hoje, entre identidades, identificações, passaportes e tarjeta de extranjera, tento recuperar o prejuízo que aquele alguém-ninguém provocou em minha alma tão humana e tão feminina. Por isso, quero entregar-me à pessoalidade – de mim, de si, do mar.
Por isso, não mais alguéns e sim homens.

Para um homem, uma mulher.
Para um alguém-ninguém, nada. E não no meu mar.

sábado, 18 de setembro de 2010

expurgo

"E eu vim-me embora, meu Deus, eu vim-me embora."
Lixo e Purpurina, Caio Fernando Abreu




Hoje não tem beijo. Nunca mais vai ter. Não olho para trás, mas minha nuca o observa sorrateiramente. Ele ainda está lá, em pé, olhos baixos, ombros caídos. Sua prepotência contrasta com aqueles malditos ombros caídos. Agora constato: ele parece um armário mal-acabado. Um armário de cores pálidas, bloco compacto sobre duas palafitas. Ele fica lá, em pé. Ele espera a outra. Ele nem se importa mais em disfarçar. Não, me disse, devorando um bolo de chocolate – porque ele adora doce, porque ele se empanturra de doce para não se empanturrar de sentimentos, porque ele é feito de pedra e de pavor – não, não quero pertencer a ninguém. Então, antes de você, depois de você, antes das 20h, durante as 20h, depois das 20h, sempre haverá alguém. Uma outra, qualquer outra. Assim como você é uma-qualquer-você. Uma pessoa, diz ele ao telefone à outra, estou com uma pessoa. Naquele momento, diante daquele homem com uma horripilante e minúscula baba de desprezo escorrendo do lábio fino e encardido, naquele exato momento, não sou nada além de uma pessoa. Uma pessoa desprovida de pessoalidade, sem cheiro, sem sexo, sem suco, sem sangue. Uma pessoa-rubrica, um nada-pessoa.


Hoje não teve beijo nem nunca mais haverá. Não olho para trás, mas sei que ele permanece em pé, derrubando ainda mais os ombros, como se não suportasse a própria prepotência. Em dois, três segundos, tudo estará acabado, quando eu cruzar aquela porta, quando a outra chegar, talvez antes até, quando ele se sentar, tudo estará acabado. Definitivamente. Não, eu não olho para trás, mas minha nuca revela que ele procura migalhas sobre a mesa, que ele sente um certo desconforto, que o relógio marca um atraso que não deveria acontecer: o ponteiro já deveria ter avançado à hora seguinte, mas teima em girar em torno do traço anterior. Um traço-pessoa, um apêndice de qualquer coisa que deveria ter ficado dentro do armário.


Não guardo mais beijos, todos ressecaram, todos estragaram, cheios de carunchos, cheios de vazios, cheios de cansaço. Lavo desesperadamente meus lábios que quase tocaram aquela baba repugnante que pingava daqueles lábios finos e cínicos. Lavo desesperadamente as mãos que quiseram investigar as ranhuras daquele armário blindado. Lavo meu corpo, esfrego até sangrar todas as partes que roçaram o não-corpo daquele não-homem. Sangro, sangro doidamente, doídamente, sangro infelicidades dormentes, mas sangro humanamente até me expurgar.


Se eu pudesse, quebrava aqueles malditos ombros caídos para eles nunca mais derrubarem alguém. Se eu pudesse, arranhava aquelas infames palafitas que sustentam inverdades e sarcasmo. Se eu pudesse, ah, se eu pudesse, eu empurrava de volta toda a crueldade vomitada por aqueles odiosos e repugnantes lábios finos.



Tenho muito nojo.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ah, esse som esse suor esse sumo que escorre de você direto direito diametralmente perfeito Ah, esse sim esse sei esse a gente o tudo o nada agora e depois Ah, quanto quando quase creme acinzentados doces esses olhos sua minha sim minha boca rósea rósea e túrgida Ah, as costas as pernas as coisas apenas porém tão e tão Ah, as mãos a respiração sua versão minha tentação nossa vamos voz vez de novo Ah,

Ah

Ah

Ah

domingo, 12 de setembro de 2010

rascunho

tinha algo fora de lugar naquele quadro de cores fortes e uso tão adequado de luz, com dois personagens bonitos, embora imperfeitos em seus traços, diferentes mais aparentemente condizentes, tudo em perfeita harmonia: eles, o ambiente, as cores, a luz, o então, o desejo, os olhares, os sorrisos, o antes, o durante, o tempero, até as entrelinhas. mas tinha algo que faltava, tinha sim. àquele quadro tão interessante, do qual se podia dizer um quase-começo de uma quase-história de um quase-amor, faltava profundidade.

fugidios

Haveria de encontrar uma epifania escondida naquele estar-ali. Estar-ali com ele. O sol continuava em seu lugar, as ruas reluziam de alegria simples de existir. No ar, misturavam-se cheiros: cigarro, fuligem, perfume, fritura, doce, poluição, suores e hálitos. Muitos hálitos. A vida seguia normalmente, às vezes esperando o sinal verde para atravessar a faixa de pedestres. Ou freando no vermelho, se estava muito acelerada.
A epifania. Onde estaria?
Houve um relampejo de algo precioso. Um relampejo apenas, em meio à floresta onde o caçador gaguejava para si mesmo a vitória de ter laçado sua mais almejada presa. A presa não se sentia presa, sentia-se livre, selvagem, dona de si. Num pequeno momento, caçador e presa foram apenas dois seres humanos unidos por um desejo de lançar-se juntos a algum voo especial. Um desejo que não se consumou.
Estar-ali.
Talvez a epifania se encontrasse justamente encravada no estar-ali, naquele momento, naquela partilha diáfana e fugidia, naquela partilha que queria a todo momento escapar daqueles dois, um tão preocupado (com a caça), outra tão despreocupada (com ser presa). O ter-estado-ali, na intensidade de todos aqueles segundos, foi o que de mais belo poderia ter acontecido àqueles dois. Sim, ela concordaria, aí residiria a epifania.
Encontrara-a, por fim!
Ele voltaria à floresta, ao caçar. Satisfeita com aquela miúda descoberta, ela velejaria além-mar.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

La ra la da

Lara, doce Lara, andava no meio-fio, cantava a meia-voz, dormia no meio da cama e sempre estava onde dizia estar. Lara ralava cenouras enquanto meditava sobre ramos, amoras, amores, aromas, marolas – sua vida, enfim. Lara refletia sobre o nada – sabia que “nada” em bósnio (ou croata, ou sérvio) significa “esperança”? Em bósnio, nada é tudo. E tudo era justamente o nada (em bósnio) que Lara desejava. Ali estava Lara, à beira mar, na beirada das rotas e dos rumos alheios, sempre buscando uma trilha selvagem-miragem. Ah, Lara, suspirava ela para si mesma e para as joaninhas dos matos adentro, das flores afora. Ah, Lara clara, Lara escura, Lara amendoada, Lara escondida, Lara cindida. Coragem, Lara, caramelo chinelo chave chuva luva lava Lara. Laura laureada no aprender.


Dia desses, Lara assim, Lara assado, Lara saiu para passear e não voltou mais cedo, mas mais tarde. Descobrira, por fim, que era a autora e a personagem de sua própria história. Porém, não a revisora. E isso era muito, muito bom. Sus sur rou La ra la da.

sábado, 31 de julho de 2010

gota

Insondável e indomável, inventava dócil e vagarosa o momento em que ele se lançaria decidido na imensidão que ela julgava oferecer. Sem volta.

Snezana e o Homem de Pedra

Ela se chamava Snezana, “Branca de Neve” em sérvio. Mas ela poderia se chamar também Meryem, “Maria” em turco, ou Francesca, “Francisca” em italiano. Seja o que for, Snezana era Snezana. E ela é a personagem dessa historieta.

Snezana era intensa e densa, era rosada e quente, bem diferente de seu nome pueril e um tanto frio. Ela saltava para dentro ou para fora com um impulso digno de uma atleta; mas em vez de preferir as pistas de areia, ela praticava seu esporte nos relacionamentos, especialmente os amorosos. Snezana se entregava com o mesmo ímpeto com que desistia; vivia narrativas inteiras, com começo, meio e fim, independentemente de seu parceiro em questão. Ele podia ser omisso, insensível, apaixonado ou o último dos românticos desesperados, mas Snezana trilhava dócil seu caminho singular: um salto para entrar, outro salto para sair. Não havia nunca volta: tudo era tão intenso e tão denso, tudo acontecia tanto naquele curto espaço de tempo em que o corpo ficava no ar e a alma alcançava uma trajetória curvilínea tão próxima e tão distante do infinito, que nenhum homem tentava retomar o relacionamento desde o início. Porque já havia provado um fim. Ou porque Snezana já o havia enterrado há muito tempo. Ou porque as cartas haviam envelhecido sobre a mesa, tesas, sóbrias, insolúveis. Xeque-mate. Na rainha ou no rei?

O último desses saltos de Snezana aconteceu faz pouco. Ela achara que havia encontrado alguém com a leveza adequada para seu momento esvoaçante, embora sempre denso e solene e veemente. Mas, na verdade, se deparou com o Homem de Pedra. Ele era leve, sim, apesar do peso do nome, e também objetivo e direto. Mas era duro, duro, duro. Era seco. Não tinha coração. Não era mau ou cruel, mas tampouco era sensível ou gentil. Não era. Enxergava Snezana como uma fêmea desprovida de singularidades: se a prova de toque confirmasse “mulher”, estava tudo bem para ele. Ele não queria conversas; aborreceu-se ao terceiro encontro, de novo conversa furada?, nem se importou com os beijos trocados. Como um super-herói dos tempos contemporâneos, ele dominava todos os sistemas de siglas secretas e anglicismos com maestria, não sofria com as mazelas cotidianas, tinha força de sobra e não queria nada mais elaborado do que sexo. Com as necessidades básicas satisfeitas, poderia salvar o mundo. Não o mundo de Snezana, nem o mundo de sudaneses, palestinos ou afegãos. Um certo mundo, válido provavelmente, mas com outras perspectivas.

Snezana saltou quando o Homem de Pedra já se preparava para sair. Aliás, ele saiu sem dizer “tchau”, deu de ombros e não respondeu ao último alô de Snezana. O fim da história para nossa personagem precisou ser acelerado, já que ela até que estava acreditando que um dia o Homem de Pedra viraria gente de novo. Fim, enfim. De novo.

E Snezana segue muito mais esperta e menos iludida que sua homônima dos contos infantis. Come maçãs sem nenhum problema e desconfia dos anões sentimentais que cruzam seu caminho. Tem pedido para os aspirantes a príncipe ou a super-herói deixarem currículo com carta de motivação, mas nem os lê. Passa os dias colhendo fagulhas de sol e exercitando seus saltos. Mas um dia, ela sabe, precisará se aposentar e escolher um canto para não mais abandonar.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

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Às vezes, quando caminhava pela Avenida Paulista, contava as graminhas teimosas que quase surgiam nas beirinhas das calçadas. As beirinhas. Quase. Graminhas teimosas. Na Avenida Paulista. Às vezes. Quando, quando. Caminhava e contava.

Os pensamentos diversos, universos, eram todos um incremento de seu momento de suspiros e voos. Voos voados, voos planejados, voos caminhados. Tanta gente gente gente, tantas fagulhas de histórias misturadas num instante preciso: dá-lhe, já! A noite de ontem, a conta de hoje, o almoço de amanhã, a escola dos filhos, a escolha dos pais, a escada dos avós, a escama dos peixes, a esquisitice dos chefes, a exuberância dos amantes, a gravata de presente, a gravação do parente, a cirurgia e o paciente, o passo, o piscar, o pisoteio singelo nas graminhas teimosas que quase surgiam nas beirinhas das calçadas.

Ah, gemia gostando, ela equilibrava-se nas beirinhas das calçadas da sistema-sufocado-sugador, na beirinha quase caindo, nas beiradas das convenções, na beirada do edifício do amor: pulo ou não pulo. De que amor estamos falando?

Ah, um pequeno vaziozinho ao notar que ele desistiu logo que constatou que ela contava graminhas, que ela acumulava graminhas, que ela andava pelas beirinhas, enxergando e ouvindo coisas que ninguém mais sabia. Porque ele não entendia. Ele desistiu porque não entendeu. Ao não entender, não quis saber. Não quis arriscar. Não quis acompanhar a mocinha risonha em suas caminhadas pela Avenida Paulista. Tinha mais o que fazer: outras garotas, outros advérbios, outras praticidades. Sem tempo para graminhas. Sem coragem para beiradinhas. Sem vontade para ela. Então, tá.

Às vezes, quando circulava por São Paulo, observava a mudança de estação pela janela do ônibus e contava os sorrisos teimosos que quase escapavam dos transeuntes distraídos. Distraída, transeunte. Sorria. Mudava, mudava. Às vezes. Estação circular. Paulo. Ônibus. São... teimosos? Escapava.

domingo, 27 de junho de 2010

coisas que esquecemos pelo caminho

Entre os sentimentos em desuso, amontoados num canto do coração, sentimentos esquecidos sob a luz escura dos fundos, alguns com certa poeira, outros com certo desdém, encontrei aquela ternura com caimento quase perfeito que descobri, em meio a poesias e exemplares da arquitetura franco-árabe, em 2006. Comíamos pistaches – não tão bons quanto os de Istambul – e falávamos de amor. Beijamo-nos em La Goulette, vendo o mar, o céu estrelado, promessas de um novo mundo. Perdida, entre quereres e decepções, entre ausências e silêncios alheios, estava a lembrança daqueles olhos azuis que me tiravam do anonimato e me nominavam: mulher. Talvez eu já tenha encontrado aquele cujo encaixe parecia exato, embora não fosse totalmente; mas, na imperfeição doce de nossas identidades, nos encontrávamos com nós mesmos e um com o outro. Ele, contudo, me enchia de porquês enquanto o que eu mais queria era desfrutar daquelas pequenas descobertas sensoriais que vinham à tona quando estava lá, a seu lado. Por fim, deu a lógica: eu aqui, ele... quem sabe. Sou eu quem guarda essa pequena trança colorida, iniciada em 2001, retomada em 2006 e ainda inacabada. No fundo do armário, quase mofada, sem utilidade definida.