Estive catatônica um dia inteiro, um mês inteiro, todo um ano, quase uma década. Não sei quanto. Não me movia em direção a nenhum vento, a nenhum momento que explodisse diante de mim. Quem é você, me perguntava, cabeça no travesseiro, pés para fora do colchão, lágrimas cuidadosamente guardadas no peito apertado, trançado, traiçoeiro. Choviam dúvidas naquela época. Choviam preguiças: disto, daquilo, desta pessoa, daquela. Havia uns certos olhos verdes persecutórios na memória, a inflexão adolescente na voz que tentava ser adulta, a rudeza melancólica dos incautos, mas essas lembranças, antes de serem rimas, eram sentenças de agonia. Havia também outras recordações, de outra matriz, pernas longas e musculosamente finas, e aquela cicatriz ali. As entradas na cabeça, baías nos cabelos, outra voz com inflexão adolescente, voz que saía do nariz. Eram o quê esses?
Catatônica.
Catastrófica.
Catártica.
Tônica, strófica, ártica. Seria tudo mais simples se simplesmente fechasse a porta e arrancasse a campainha. Placa: cachorro morde tudo, especialmente vozes adultas com inflexão adolescente. Tônica. Placa: não reciclamos masculinidades rotas. Strófica. Placa: dispensamos sentimentos ressecados. Ártica. Por favor, meu bem,
Estive catatônica por toda uma temporada de caça aos bravos, aos fortes, aos viris e aos superlativos. Aos vencedores, as batatas, às perdedoras, pecados não consumados. Não me movia em direção a nenhuma onda sonora, nem abraço ao redor da cintura com direito a beijo no canto da boca. Bah. Beija. Bah. Beija. Brejo.
Vamos todos parar no brejo.
Aquela frase terminou no meio, sim.
Cata. Pega. Chama. Acorda. Tônica. Tranquei-me quando alguém foi buscar um dicionário, uma enciclopédia, uma entrada de verbetes, de desculpas, de explicações, de pontos sem “is” e sumiu. Vou ali comprar cigarros, pegar o dicionário de você. Hã-hã. Fiquei-me complicada, meu bem? Too much information for a desperate soul, darling? Oh, cariño!
Cata. Chama. Cata. Tônica. Despertei-me assim: uma voz adulta com vocabulário adulto e inflexão adulta, fazendo-me perguntas adultas e sem mencionar propostas. As mãos já estavam lá, o que dizer de...
Tônica.
Tônica: deste modo tenho estado, então. E já há algum tempo. (Atônita!)
Ela era a mulher da saia rodada e florida, do sorriso no rosto, do belo buquê de gérberas cor de rosa nas mãos em pleno lusco-fusco. Era ela.
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quarta-feira, 21 de março de 2012
terça-feira, 13 de outubro de 2009
A doença da unanimidade (ou I'm too sexy for myself)

Tinha pouco mais de 40 anos, garota de Ipanema, cheia de bossa e risada. Inventava uma tirada nova a cada dia, provava uma caipirinha diferente diariamente, tinha a palavra certa para cada saia-justa. E tudo ia muito bem, obrigada. Vez ou outra, ela se ressentia desses homens mal-humorados, bofes em geral com bafo, batia lá no fundo do peito uma vontade inconfessa e indigesta de um amor verdadeiro. Enquanto ele não vinha, ela estudava, fazia pós, mergulhava em Nietzsche e em Spinoza, ouvia Bethânia e um pouco de Nara Leão, curtia o Grupo Tapa pelo nome e o Galpão pela técnica, inventava dinâmicas e dinamizava os encontros dos quais participava. Era a perfeita gente fina, gente boa, que todo mundo queria na feijoada de sábado na terra da garoa, nos botecos de Santa Teresa ou, quem sabe, num restaurante do Savassi, de Beagá. Prezava suas amizades, ah, que calorosa, embora detestasse praia e embora fosse, no fundo, intransigente com os membros de seu séquito que se afastavam sem permissão. Ou pior: que passavam a integrar outro séquito.
Pois tinha uma característica quase incontrolável essa mulher que hablaba español com a desenvoltura de quem cantava Roberto Carlos desde criancinha, que falava inglês como se tivesse feito aula de dança com Sinatra (ele dava aula?), essa mulher que lia Clarice e Brecht, que falava de paz e de Iemanjá, que tinha um sotaque que nem era assim tão forte. Essa mulher sofria da doença da unanimidade, de uma necessidade urgente de adoração, precisava dos louros e dos estouros, os olhos todos vidrados em sua pessoa, devia ser sempre ela, ela, ela. Tinha esse sonho louco de ser ininterruptamente o centro das atenções. Uma superstar em senso genuíno, aquela pessoa que não precisa de passaporte em nenhum controle de imigração do mundo, porque todos – fascinados com sua garbosidade – sempre dirão: allez, allez, allez! Porque ela era, incontestavelmente, a mais legal.
A doença da unanimidade começou miúda na adolescência, passou batida na juventude, mas se espalhava, maligna e cruel, na fase adulta. Se aparecesse outra pessoa que ofuscasse seu brilho, ela logo se ouriçava e sentia a mais aguda das dores de cotovelo. Tornava-se irracional, nem refletia. Tinha de ser sempre ela, ela, ela, e só ela, ela, ela. Por isso, a fim de destruir a reputação dos demais, usava palavras pesadas e referências amargas, inventadas ou aumentadas até a deformidade. Não tinha pudores quanto à fofoca: nenhuma mulher era, no conjunto da obra, mais atraente que ela, a superstar!
Displicente quanto à doença, fingindo que era fruto de macumba ou de inveja alheia (certamente, ela se acreditava muito invejada), não se deu conta de quando apareceu numa festa, aos berros, desancando a aniversariante, essa idiota que concentrava as atenções. Ofendeu uma antiga amiga, porque se julgou ignorada numa simples mensagem de boas festas. Passou a humilhar publicamente os rapazes que não a cortejavam, os caixas de bancos e de supermercados porque não lhe faziam as justas mesuras e os motoristas que tinham carros aparentemente mais chamativos que o seu. Estava fora do controle – e só reconheceu a doença quando acordou afundada em seu próprio e imenso umbigo, suando horrores, acreditando ter sido engolida pelo centro do universo. Socorro!
Hoje ela participa de terapias em grupo e reconhece que a companheira mais magra é tão simpática quanto ela. Que a senhora de cabelo curto pode ser também tão divertida. Que há outros mais bonitos, mais viajados, mais populares, mais afinados – e que isso não tira seu charme nem diminui seu carisma. Hoje ela até vai à praia, para molhar os tornozelos e deixar-se misturar com a imensidão. Sabe que tem um espaço só seu e nem se comove mais quando vê os holofotes, as faixas de miss simpatia e as listas masculinas de as mais gostosas. Ou quando ouve “Garota de Ipanema”, que acreditava ter sido composta para ela. Passou a freqüentar o UAU!, grupo dos Uns Anônimos Unânimes!, no qual às vezes é solenemente ignorada, mas em outras é tida como a mais legal. É, suspira enquanto se olha no espelho, tem mesmo um monte de gente bacana no mundo!
Pois tinha uma característica quase incontrolável essa mulher que hablaba español com a desenvoltura de quem cantava Roberto Carlos desde criancinha, que falava inglês como se tivesse feito aula de dança com Sinatra (ele dava aula?), essa mulher que lia Clarice e Brecht, que falava de paz e de Iemanjá, que tinha um sotaque que nem era assim tão forte. Essa mulher sofria da doença da unanimidade, de uma necessidade urgente de adoração, precisava dos louros e dos estouros, os olhos todos vidrados em sua pessoa, devia ser sempre ela, ela, ela. Tinha esse sonho louco de ser ininterruptamente o centro das atenções. Uma superstar em senso genuíno, aquela pessoa que não precisa de passaporte em nenhum controle de imigração do mundo, porque todos – fascinados com sua garbosidade – sempre dirão: allez, allez, allez! Porque ela era, incontestavelmente, a mais legal.
A doença da unanimidade começou miúda na adolescência, passou batida na juventude, mas se espalhava, maligna e cruel, na fase adulta. Se aparecesse outra pessoa que ofuscasse seu brilho, ela logo se ouriçava e sentia a mais aguda das dores de cotovelo. Tornava-se irracional, nem refletia. Tinha de ser sempre ela, ela, ela, e só ela, ela, ela. Por isso, a fim de destruir a reputação dos demais, usava palavras pesadas e referências amargas, inventadas ou aumentadas até a deformidade. Não tinha pudores quanto à fofoca: nenhuma mulher era, no conjunto da obra, mais atraente que ela, a superstar!
Displicente quanto à doença, fingindo que era fruto de macumba ou de inveja alheia (certamente, ela se acreditava muito invejada), não se deu conta de quando apareceu numa festa, aos berros, desancando a aniversariante, essa idiota que concentrava as atenções. Ofendeu uma antiga amiga, porque se julgou ignorada numa simples mensagem de boas festas. Passou a humilhar publicamente os rapazes que não a cortejavam, os caixas de bancos e de supermercados porque não lhe faziam as justas mesuras e os motoristas que tinham carros aparentemente mais chamativos que o seu. Estava fora do controle – e só reconheceu a doença quando acordou afundada em seu próprio e imenso umbigo, suando horrores, acreditando ter sido engolida pelo centro do universo. Socorro!
Hoje ela participa de terapias em grupo e reconhece que a companheira mais magra é tão simpática quanto ela. Que a senhora de cabelo curto pode ser também tão divertida. Que há outros mais bonitos, mais viajados, mais populares, mais afinados – e que isso não tira seu charme nem diminui seu carisma. Hoje ela até vai à praia, para molhar os tornozelos e deixar-se misturar com a imensidão. Sabe que tem um espaço só seu e nem se comove mais quando vê os holofotes, as faixas de miss simpatia e as listas masculinas de as mais gostosas. Ou quando ouve “Garota de Ipanema”, que acreditava ter sido composta para ela. Passou a freqüentar o UAU!, grupo dos Uns Anônimos Unânimes!, no qual às vezes é solenemente ignorada, mas em outras é tida como a mais legal. É, suspira enquanto se olha no espelho, tem mesmo um monte de gente bacana no mundo!
domingo, 11 de outubro de 2009
generosidade dos nossos tempos
Beto não se importava em pagar uma rodada de cerveja aos colegas de trabalho, não rachar o estacionamento quando dava carona ou subtrair algumas dezenas de reais dos gastos de combustível da conta dos amigos que vez ou outra acompanhavam-no na ida à praia. Beto era tido como um cara generoso – e, de fato, entre os seus, não hesitava em pagar sanduíche alheio quando fazia questão de determinada companhia. Raramente deixava as namoradas abrirem as bolsas no jantar à luz de velas; claro, respeitava aquelas que faziam questão de dividir, mas delicadamente compensava com flores durante a semana. Beto também acudia os parentes, mesmo antes de lhe pedirem algo. A generosidade, mais que um gesto espontâneo, um traço de sua personalidade, era uma obrigação prazerosa para Beto. Tinha que, tinha de. Precisava, por alguma razão obscura de seu passado difícil e pontuado por privações, evitar que a gente querida se sentisse impedida de fazer algo por causa de dinheiro.
Mas, para Beto, gradativamente todas as outras relações – humanas, financeiras e até políticas – passaram a ser mediadas por dinheiro. Seria seu trabalho, dez ou mais horas diárias rodeado por cifrões e discussões sobre reais, dólares, euros, libras? Considerava injusto pagar tal quantia por um grelhado no almoço; se fosse um ensopado, ficava menos aborrecido. Os preços das coisas subiam, o combustível, o teatro, a soja, até o barbeiro, Beto chiava, mas pagava. Jamais fraudou o Imposto de Renda. Jamais desonrou seus compromissos. Dizia que o governo era refém das atrocidades especulativas, mas repetia detestar política. Tudo para Beto era pagável. Se caísse na rua, como ocorreu uma vez, sentia-se no dever de pagar ao samaritano que o acudisse, como fez ao homem que o ajudou a levantar e gentilmente recolheu os papéis de sua pasta. Quando a mãe lhe levava uma torta ou o arrozinho-da-infância, sentia o impulso de pagar-lhe. Mas, filho, faço isso por amor! Uma amiga deu-lhe umas fotos do fim de semana na praia e ele, impulsivamente, lhe pagou por isso. Certo dia, tão habituado, depois do sexo foi logo abrindo a carteira para agradecer à nova namorada por prazer tão especial. Pediu desculpas quando ela lhe bateu a porta na cara, mas não pestanejou ao pagar o porteiro que a ajudou a encontrar um táxi naquela hora.
Beto acreditava na generosidade – na dele, mas não na dos outros. Criticava essa gente interesseira que só pensava em dinheiro e não sabia mais o que era partilha. Deu quantia vultosa ao moleque, um turista também, que o acompanhou naquela bela trilha da praia carioca, durante o feriado de Corpus Christi. Não entendeu a indignação do amigo do amigo que, em pleno domingo à noite, passou em sua casa para entregar-lhe o pen drive esquecido. Será que ele achou pouco 50 reais?, perguntou-se. Um dia, uma senhora puxou papo com ele na livraria que adorava frequentar. Contou-lhe histórias de infância, motivada talvez pelo título de uma obra. Comovido, Beto quis lhe pagar; não tinha dinheiro, indagou se ela aceitava cheque ou cartão de débito. Ninguém tem obrigação de nada nessa vida, afirmava Beto, por isso cada gesto tem seu preço. Suspirava: culpa desse capitalismo selvagem que nos ronda...
Ele tinha salário de cinco dígitos, poupança e fundos de seis dígitos e nutria um certo medo das oscilações econômicas desse governo de merda. Não sei se o dinheiro vai dar, não sei... Porém, não divulgava tais preocupações íntimas, não queria apavorar os amigos, a família. Tampouco ajudava os pedintes na rua: não posso lhes dar o peixe, afirmava. Alguém precisa ensinar-lhes a pescar.
Beto era honesto, nada arrogante, não ostentava seus cifrões, rapaz simples, e, vez ou outra, quando tinha de pegar metrô, pois o carro ia para a oficina, achava injusto o preço da passagem. Solidarizava-se com os anônimos, trabalhadores como ele. Beto era querido, pois não deixava de ajudar um amigo. Beto era cidadão, pois pagava seus impostos e contas corretamente. Na somatória de tudo, diríamos, Beto é um homem dos nossos tempos. Beto tem a generosidade dos nossos tempos. Beto estranhou, dia desses, quando quis pagar a si mesmo pela bondade que o reflexo no espelho teve ao lhe sorrir, assim tão enternecido, tão espontaneamente. Só podia ser sinal dos tempos. Desses nossos tempos.
Mas, para Beto, gradativamente todas as outras relações – humanas, financeiras e até políticas – passaram a ser mediadas por dinheiro. Seria seu trabalho, dez ou mais horas diárias rodeado por cifrões e discussões sobre reais, dólares, euros, libras? Considerava injusto pagar tal quantia por um grelhado no almoço; se fosse um ensopado, ficava menos aborrecido. Os preços das coisas subiam, o combustível, o teatro, a soja, até o barbeiro, Beto chiava, mas pagava. Jamais fraudou o Imposto de Renda. Jamais desonrou seus compromissos. Dizia que o governo era refém das atrocidades especulativas, mas repetia detestar política. Tudo para Beto era pagável. Se caísse na rua, como ocorreu uma vez, sentia-se no dever de pagar ao samaritano que o acudisse, como fez ao homem que o ajudou a levantar e gentilmente recolheu os papéis de sua pasta. Quando a mãe lhe levava uma torta ou o arrozinho-da-infância, sentia o impulso de pagar-lhe. Mas, filho, faço isso por amor! Uma amiga deu-lhe umas fotos do fim de semana na praia e ele, impulsivamente, lhe pagou por isso. Certo dia, tão habituado, depois do sexo foi logo abrindo a carteira para agradecer à nova namorada por prazer tão especial. Pediu desculpas quando ela lhe bateu a porta na cara, mas não pestanejou ao pagar o porteiro que a ajudou a encontrar um táxi naquela hora.
Beto acreditava na generosidade – na dele, mas não na dos outros. Criticava essa gente interesseira que só pensava em dinheiro e não sabia mais o que era partilha. Deu quantia vultosa ao moleque, um turista também, que o acompanhou naquela bela trilha da praia carioca, durante o feriado de Corpus Christi. Não entendeu a indignação do amigo do amigo que, em pleno domingo à noite, passou em sua casa para entregar-lhe o pen drive esquecido. Será que ele achou pouco 50 reais?, perguntou-se. Um dia, uma senhora puxou papo com ele na livraria que adorava frequentar. Contou-lhe histórias de infância, motivada talvez pelo título de uma obra. Comovido, Beto quis lhe pagar; não tinha dinheiro, indagou se ela aceitava cheque ou cartão de débito. Ninguém tem obrigação de nada nessa vida, afirmava Beto, por isso cada gesto tem seu preço. Suspirava: culpa desse capitalismo selvagem que nos ronda...
Ele tinha salário de cinco dígitos, poupança e fundos de seis dígitos e nutria um certo medo das oscilações econômicas desse governo de merda. Não sei se o dinheiro vai dar, não sei... Porém, não divulgava tais preocupações íntimas, não queria apavorar os amigos, a família. Tampouco ajudava os pedintes na rua: não posso lhes dar o peixe, afirmava. Alguém precisa ensinar-lhes a pescar.
Beto era honesto, nada arrogante, não ostentava seus cifrões, rapaz simples, e, vez ou outra, quando tinha de pegar metrô, pois o carro ia para a oficina, achava injusto o preço da passagem. Solidarizava-se com os anônimos, trabalhadores como ele. Beto era querido, pois não deixava de ajudar um amigo. Beto era cidadão, pois pagava seus impostos e contas corretamente. Na somatória de tudo, diríamos, Beto é um homem dos nossos tempos. Beto tem a generosidade dos nossos tempos. Beto estranhou, dia desses, quando quis pagar a si mesmo pela bondade que o reflexo no espelho teve ao lhe sorrir, assim tão enternecido, tão espontaneamente. Só podia ser sinal dos tempos. Desses nossos tempos.
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