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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Era uma vez

ao Bico


Criancei-me novamente antes de me jogar no Bocó. As águas esverdeadas não se embarreavam nem com a chuvarada que caía sem parar – porque os rios da infância nunca mudam de cor. Via jacaré no tronco lascado, via cobra na folha enrolada, via eu mesmo de sorriso no rosto, marca de pernilongo na perna e muco no nariz que bem sabia respirar. Cada salto era uma grande novidade, a aventura de abraçar as águas que queriam me ninar. Tinha perigo de sanguessuga, a garotada falava em cobra, tia Senhorinha dizia: menino, acabou de comer mingau de banana com farinha... Mas eu estava lá, bocoiando no Bocó, bocoiando-me eu também, pois na aparente bobagem de criança a gente sempre é mais que sábio. Daí todo mundo ia se secar lá na praça, o pé grosso de barro, a camisa pingando de alegria, vontade de comer jaca e jogar futebol no time do Paulão. Sabia que no outro dia de sol o ribeirão estaria lá.

Mas podia ser que não.
Porque era uma vez um projeto de barragem, dessas de gerar energia para os monstros-indústrias, que queria inundar tudo, mandar a gente embora e acabar com o Bocó. Pra sempre.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Não deixe o rio morrer!




Um misto de homenagem e apelo pela vida eterna do Rio São Francisco, o Chico dos meus amores mais ternos, 100% brasileiro.

sábado, 14 de março de 2009

bem-me-quer, mal-me-quer

(2009)

Deitado eternamente em seu berço esplêndido, vendo ser dilapidadas suas riquezas naturais e massacrados seus recursos humanos, o país que me pariu dá de ombros à minha grandeza e aponta o sol da liberdade: "se quer ir, vai. somos 190 milhões, quem fará falta?"

Não fujo à luta, pátria, respondo, rebelde e indignada, mortificada pelo desdém, e por isso vou embora. Para lutar diferente, para buscar um futuro em que o colosso de minha dignidade possa se espelhar. E partilhar tal conquista com os demais.

O pais que me pariu, rodeado de cupinchas, uns velhos, outros plastificados, um com siglas de duas maiúsculas, outros com partidos de nomes pomposos, o país que me pariu, aconselhado por gente rica de toga e arrogância e preguiça e egoísmo, o país que me pariu segue com seus discursos antiquados e obsoletos: "Nossos bosques têm mais vida! Vamos exauri-los, então!" "Nossos rios têm mais força! Acabemos com eles, instalemos inúmeras usinas insensatas!" "Nossos campos têm mais flores! Esmaguemo-las e plantemos soja, e coloquemos gado, e exploremos inconseqüentemente os minérios abaixo do solo!" "Nossa vida, no meu seio, tem mais amores! Então, esqueçamos essa gente nojenta... esses ribeirinhos, esses indígenas, esses cidadãos honestos, os pobres, os miseráveis, os favelados, a classe média, os trabalhadores, os aposentados, as crianças, os jovens! Que vão viver seus amores à base da droga que alimenta o tráfico, que vivam inseguros, que não tenham perspectivas, que se danem!"

Não, isso não é ser uma mãe gentil.
O país que me pariu já nem me ouve, fascinado com a própria foto na coluna das estrelas em ascensão: "Sou o florão da América!"

Até o Cruzeiro do Sul balança a cauda, envergonhado, o Ipiranga não existe faz tempo.
E eu, dona de um sonho intenso e de raios vívidos, ainda arrisco uma nova oportunidade. Mas... mal-me-quer. Então, vou a quem me queira. E que me respeite de verdade, como ser humana.

terça-feira, 10 de março de 2009

domingo, 1 de julho de 2007

MUNDO DAS SOMBRAS. MUNDO DAS TREVAS

O jornal me faz mal. Muito mal.
(Mas a culpa não é do jornal. É das trevas que assolam o mundo. Que amolam o mundo. Que imundam o mundo. Não as trevas da noite, do breu, do big bang. As trevas da junção de bestas com bestas. As mulas sem-cabeça. Cains e cains pelos confins. Cains de classe média, cains de turbante, cains traficantes, cains crianças miúdas com arma na mão, cains políticos, cains calheiros, cains colloridos, cains donos-de-bomba, cains de gordas contas bancárias, cains em caimã, cains em busha, cains que desfilam moda empinando o peito e encurtando a coluna, ou seja, deixando de ser sapiens, cada vez menos sapiens, cainscaindocains...).

Daí eu digito a data certinha de um dia minúsculo, assim ó:
>> domingo, 1 de julho de 2007

e recolho as facadas:

“No curto período de uma semana, o País viu um garçom ser assassinado em São Paulo por um grupo de oito amigos dispostos a brigar por qualquer motivo, uma empregada doméstica ser atacada no Rio por cinco jovens que imaginavam bater em uma prostituta, uma professora de Suzano apanhar de um estudante que se sentiu rejeitado, um aposentado morrer na Bahia após ser espancado por um homem que furou a fila de um banco. Quatro crimes, uma pergunta: por quê?”
*
“Atiradores matam seis jovens em São Paulo. Só uma das vítimas tinha antecedentes criminais; moradores estranham rapidez da remoção de corpos.”
*
“Nossa sociedade está doente”, diz a professora Nancy Cardia, coordenadora-adjunta do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo.
(...)
Jornal: O exemplo de cima influencia?
Nancy: A maior parte dos grupos que deveriam estar dando exemplo de comportamento às crianças e aos jovens apresentam sinais no mínimo ambivalentes do que é aceitável ou inaceitável em nossa sociedade. Quando se liga a TV e se assiste a um noticiário local e nacional, o que é que a gente vê? A expressão dos responsáveis por serem a voz e o rosto do telejornal é de desânimo. Os relatos são de transgressão em cima de transgressão. Estamos já num estágio em que, quando um dirigente nosso se comporta de maneira digna, a gente fica surpreso. Deveria até virar manchete.
*
“Deputados são alvo até de processos por homicídio. Dos 513 deputados, 268 são alvo de processos no STF, quatro deles em ações de homicídio. Nenhum caso, porém, é tão grave quanto um que está em fase inicial de investigação pela polícia: Mário de Oliveira (PSC-MG) é suspeito de encomendar a morte de outro deputado, Carlos William (PTC-MG).” >>> PSC é sigla para Partido Social Cristão? Ah. E tem mais: esse tal de Mário de Oliveira está no sexto mandato (!!!!) e é presidente da Igreja do Evangelho Quadrangular. Ah. Isso tudo está no jornal.
*
“Intolerância destrói estátuas de deuses afro. Em Brasília, vândalos depredam 16 esculturas de orixás instaladas em praça à beira do Lago Paranoá; artista baiano terá obras recuperadas.”
*
“Hezbollah tenta dividir o Líbano. A geografia humana do Líbano está em transformação. Xiitas compram regiões inteiras. Em caso de guerra de secessão, o Hezbollah assumiria o controle sobre parte do país.”
*
Náusea de novo. Hoje brotou cogumelo. Meio cogumelo, deformado e opaco, limítrofe. Um cogumelo brotou de minha náusea.
Mesmo que eu não leia jornal, as trevas continuarão persistindo.
Os cains têm se procriado com mais facilidade que os abéis, mas os abéis são só bonzinhos. Precisamos de um novo Jesus Cristo, de uma nova crucificação? Precisamos de um novo dilúvio?
Um novo dilúvio, talvez.
(Não adianta eu tomar banho para me livrar da nojeira do mundo. Ainda mais com esse ralo do box entupido. A água que me limpou se mistura à água limpa e ser humano hoje em dia nos dias de hoje nesse mundo de dia e à noite hoje é isso: andar num espaço tomado por água parada de banhos de gente boa e de gente ruim. Perfume e fedor, espuma e estrume, estrume das bestas-cains.)
Ei, Drummond, me ajuda aqui com um definição?
Taí, então, aprendiz-de-Noé:
"No céu também há uma hora melancólica/
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas/
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta/
e se responde: Não sei." (Tristeza no Céu)

Melhor eu ficar com minha tristeza porque a de Deus deve ser imensa, imensurável.