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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Comecim

(iniciozim de 2010)


Sabor mineiro, sabor inteiro, sabor da infância, sabor de muitos-quandos:
Sempre, antes, hoje, mulher-menina dos tempos mais malandros,
Sou quem, quem sou, como quem, como o que sou o que como
Sem-cerimônias (peito de pé sujinho de barro da chuvinha de ontem)
Tem pamonha? Tem sim, senhor!
Tem cafezim? Mas que pergunta, seu moço!
Ué, e tem queijim também, oiaí sô!

E nessas veiazinhas verdadeiras, hereditárias e inteiras, que me fazem ainda mais pessoa-posseira-de-mim vou navegando distraidamente.
Com delícias.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Parola

(almoço em Montemurro, 2009)


Continuo passeando por esse idioma recém-aprendido, estalando de fresco nas estradas apenas construídas dentro do meu cérebro e, principalmente, de meu coração. Volta, volta, minha impressão é que estou escorregando do mundo de fantasia para o mundo de concreto esquecendo miudinho a miudinho todo aquele novo mundo que me acolheu de braços e sorrisos abertos. Volta, volta. Não quero me esquecer do condicional, do subjuntivo, mas principalmente do presente, do presente que essa língua me concedeu. Piano-piano, reformando rotas e pequenas choupanas no meu pensamento, abrindo janelas em paredes vazias. Sentimentos aos borbotões, reconhecimentos. Pertencimento, pertença. Penso num caldo, num brodo, num creme de pana, denso, no qual nado, nado, passeio, flutuo, me afogo e logo me redescubro. Canto as palavras, saltito nas cadências – um trajeto que fiz só meu além-gramáticas, além-sintaxe, além-grafias.


Hoje choro, choro dolorido e alegre, choro branco, choro azul, choro o cintilante dos lungomares visitados e tão experimentados cá dentro. Nesses pedaços de léxicos estão pedaços grandes e generosos de mim. Grandes. E de mim. Non ti dimenticarò, italiano, sei proprio mio.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Identità


Carrego quatro nomes e quatro histórias que, embaralhadas, me pertencem, me fazem. Me escolheram numa multidão de recém-nascidos e me batizaram, os nomes de forma dócil, as histórias de forma impiedosa, e agora sou eu e mais um monte de fagulhas de universo. Tenho de tecer, enquanto vivo, as colchas de significados perdidos, esquecidos ou celebrados. O nome. A identidade. A personalidade. O composto de células e neurônios, de seres e sentimentos. Sou feita de muitos, por isso minha sina é a inquietude. Os hebreus-palestinos fugidos. Os italianos medievais. A mítica Maryam. Os reis europeus Fernandos e Ferdinandos. Relatos de deslocamentos infinitos e inomináveis. Minha alma vaga, alma marcada de relatos mil mas leve de plumas aprendidas, vaga pelos ângulos de um mundo que se diz redondo – não há fronteiras, apenas esquinas. Meu pensamento às vezes voa para tempos imemoriais, sonhados ou antecipados, passados ou recorrentes. Não, não me pertenço. Porque não sei quem sou além desses quatro nomes e dessas quatro histórias, que carregam outras quatro, oito, dezesseis – e umas quantas vidas.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Nascita

(imediações de Belém, 2008)


Nasci em Belém, a cidade palestina das natividades, parida sob uma oliveira, num campo de refugiados, num campo de esperançados. Esperançados. Cresci entre as paisagens de Minas Gerais, rolei as pastagens, bebi chuva, quantas chuvas, e piquei formigas. Menina de lá! Virei adolescente sobre o mar, sobre o mar escorri meu sangue surpreso, sobre o mar descobri o amor. Amei o mar. O mar, o amor, amora, amargo, ramo, rosa. Vivi uma juventude povoada de esquinas, de ruas sujas, de cortiços perfumados de mofo e povoados de gente. Paulistanices. Ruas do Bexiga, ruas de bexigas, ruas bexiguentas, ruas túrgidas e tabus, concretos, gentes, calçadas, gentes, muros, ônibus e sinais. Um diploma, um trabalho, um avião. Cresci, cresci, cresci e me fiz alada, atravessei desertos, seduzi oceanos: porteña nordestina, italiana mexicana, paratiense esquisita de coração turco, muito turca, sertaneja cubana, sou palestina salvadoreña – de que Salvador? –, brasileira, paulistana tão mineira, meu Deus, crescendo, crescendo, brasileirando-me ainda mais, lato sensu, latina, latim, sou mundana, imunda, o mundo, sou. Sou muito, muitas, muitana.

Sou a pessoa mais eu mesma com a qual me deparo quando acordo. E isso me confere uma aura de solidão que dói às vezes, mas que gozo sem parar. E que desfruto sem temor, com os suspiros dos peregrinos errantes da linhagem mais obscura de Abraão, aquele, o nosso.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Querência: Baklava


Lágrimas acumulam-se nos olhos fechados. As papilas gustativas em trabalho de parto geram sensações inesperadas. Istiklal Caddesi reaparece em minha memória: quase enxergo as vitrines das lojas de doces exibindo baklavas de vários tamanhos. Enquanto isso, as delicadas camadas de massa folhada recheadas com a mistura de nozes, amêndoas e pistache moídos, cobertas por uma calda de açúcar diluído, se desfazem na minha boca e tocam meu coração: eu me emociono com esse momento lindo, com o perdão do clichê. Imediatamente a turca que habita minha alma desfruta os gostos de Istambul, os bazares, os cheiros, o Bósforo, a ponte Gálata, as pequenas e grandes mesquitas, a cisterna, a mesinha no café perto da estação Çemberlitaş: eu adoro aquela cidade, adoro aquele país. O duro simbolismo da bandeira – lembrança do sangue derramado em nome de um território, de uma religião – não reflete a suave do sabor de minhas vivências, quiçá reflita a lua e a estrela, meu sol ou meu mar. Meu pé ainda pisa Pamukkale, ainda me lembro do baklava saboreado na única doceria de Göreme, na Capadócia, e os caminhos de Éfeso surgem tão vívidos quanto os rumos em Kars e seus arco-íris. Olhos já abertos, mais um baklava, outro delírio e as lágrimas já escorrem o açúcar dos meus suspiros. Quero sempre voltar para esse meu lugar...


P.S.: Dear Sercan, thank you for this tasty and beautiful moment…