Ela era a mulher da saia rodada e florida, do sorriso no rosto, do belo buquê de gérberas cor de rosa nas mãos em pleno lusco-fusco. Era ela.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Comecim
Sabor mineiro, sabor inteiro, sabor da infância, sabor de muitos-quandos:
Sempre, antes, hoje, mulher-menina dos tempos mais malandros,
Sou quem, quem sou, como quem, como o que sou o que como
Sem-cerimônias (peito de pé sujinho de barro da chuvinha de ontem)
Tem pamonha? Tem sim, senhor!
Tem cafezim? Mas que pergunta, seu moço!
Ué, e tem queijim também, oiaí sô!
E nessas veiazinhas verdadeiras, hereditárias e inteiras, que me fazem ainda mais pessoa-posseira-de-mim vou navegando distraidamente.
Com delícias.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Parola
Continuo passeando por esse idioma recém-aprendido, estalando de fresco nas estradas apenas construídas dentro do meu cérebro e, principalmente, de meu coração. Volta, volta, minha impressão é que estou escorregando do mundo de fantasia para o mundo de concreto esquecendo miudinho a miudinho todo aquele novo mundo que me acolheu de braços e sorrisos abertos. Volta, volta. Não quero me esquecer do condicional, do subjuntivo, mas principalmente do presente, do presente que essa língua me concedeu. Piano-piano, reformando rotas e pequenas choupanas no meu pensamento, abrindo janelas em paredes vazias. Sentimentos aos borbotões, reconhecimentos. Pertencimento, pertença. Penso num caldo, num brodo, num creme de pana, denso, no qual nado, nado, passeio, flutuo, me afogo e logo me redescubro. Canto as palavras, saltito nas cadências – um trajeto que fiz só meu além-gramáticas, além-sintaxe, além-grafias.
Hoje choro, choro dolorido e alegre, choro branco, choro azul, choro o cintilante dos lungomares visitados e tão experimentados cá dentro. Nesses pedaços de léxicos estão pedaços grandes e generosos de mim. Grandes. E de mim. Non ti dimenticarò, italiano, sei proprio mio.
sábado, 26 de dezembro de 2009
Identità

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Nascita
Nasci em Belém, a cidade palestina das natividades, parida sob uma oliveira, num campo de refugiados, num campo de esperançados. Esperançados. Cresci entre as paisagens de Minas Gerais, rolei as pastagens, bebi chuva, quantas chuvas, e piquei formigas. Menina de lá! Virei adolescente sobre o mar, sobre o mar escorri meu sangue surpreso, sobre o mar descobri o amor. Amei o mar. O mar, o amor, amora, amargo, ramo, rosa. Vivi uma juventude povoada de esquinas, de ruas sujas, de cortiços perfumados de mofo e povoados de gente. Paulistanices. Ruas do Bexiga, ruas de bexigas, ruas bexiguentas, ruas túrgidas e tabus, concretos, gentes, calçadas, gentes, muros, ônibus e sinais. Um diploma, um trabalho, um avião. Cresci, cresci, cresci e me fiz alada, atravessei desertos, seduzi oceanos: porteña nordestina, italiana mexicana, paratiense esquisita de coração turco, muito turca, sertaneja cubana, sou palestina salvadoreña – de que Salvador? –, brasileira, paulistana tão mineira, meu Deus, crescendo, crescendo, brasileirando-me ainda mais, lato sensu, latina, latim, sou mundana, imunda, o mundo, sou. Sou muito, muitas, muitana.
Sou a pessoa mais eu mesma com a qual me deparo quando acordo. E isso me confere uma aura de solidão que dói às vezes, mas que gozo sem parar. E que desfruto sem temor, com os suspiros dos peregrinos errantes da linhagem mais obscura de Abraão, aquele, o nosso.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Querência: Baklava

Lágrimas acumulam-se nos olhos fechados. As papilas gustativas em trabalho de parto geram sensações inesperadas. Istiklal Caddesi reaparece em minha memória: quase enxergo as vitrines das lojas de doces exibindo baklavas de vários tamanhos. Enquanto isso, as delicadas camadas de massa folhada recheadas com a mistura de nozes, amêndoas e pistache moídos, cobertas por uma calda de açúcar diluído, se desfazem na minha boca e tocam meu coração: eu me emociono com esse momento lindo, com o perdão do clichê. Imediatamente a turca que habita minha alma desfruta os gostos de Istambul, os bazares, os cheiros, o Bósforo, a ponte Gálata, as pequenas e grandes mesquitas, a cisterna, a mesinha no café perto da estação Çemberlitaş: eu adoro aquela cidade, adoro aquele país. O duro simbolismo da bandeira – lembrança do sangue derramado em nome de um território, de uma religião – não reflete a suave do sabor de minhas vivências, quiçá reflita a lua e a estrela, meu sol ou meu mar. Meu pé ainda pisa Pamukkale, ainda me lembro do baklava saboreado na única doceria de Göreme, na Capadócia, e os caminhos de Éfeso surgem tão vívidos quanto os rumos em Kars e seus arco-íris. Olhos já abertos, mais um baklava, outro delírio e as lágrimas já escorrem o açúcar dos meus suspiros. Quero sempre voltar para esse meu lugar...
