Ela era a mulher da saia rodada e florida, do sorriso no rosto, do belo buquê de gérberas cor de rosa nas mãos em pleno lusco-fusco. Era ela.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
admirável mundo novo
sábado, 10 de março de 2012
solidão de menino

Pedrinho brincava com conchinhas, enquanto Ana mascava raivosamente um chiclete. O mar era ora suave e gentil (para ele), ora bruto e ruidoso (para ela).
Por que a mamãe não vai voltar?, muco e areia se misturavam no rostinho rosado, olhos grandes e escuros, o cabelo curto em desalinho, os chinelinhos molhados esquecidos lá atrás.
Porque ele não quer.
Que ele, o papai?
O papai também não vai voltar.
Mordeu a língua e sangrou. Cuspiu a goma manchada e respingou lágrimas na camiseta amarela de menina grande, com corpo em mutação. A existência queria fazê-la crescer à força, ela resistia, furiosa e indócil.
O castelinho de conchinhas subia, subia. Fazia fresco naquele meio de tarde, meio de semana, meio de vida, meio do nada: interrupção, elo perdido, página em branco no meio das folhas de um livro de letras miúdas, incompreensíveis. Dois perdidos numa tarde suja.
A mamãe foi para o mesmo lugar onde está o papai?
Não.
Ninguém escolhe a hora de crescer: a gente simplesmente cresce. Chega o dia em que, subitamente, a inocência se esvai. Assim, sem mais. Ontem, o mar era infinito e a areia, macia. Os minutos passavam indiferentes, e os problemas se resumiam ao gosto da sopa ou a hora de dormir. Hoje, o mar termina ali, a areia incomoda os pés e os olhos, tudo urge e os ombros doem de tanta responsabilidade.
Mas onde está a mamãe?
Com Deus.
Agora havia um segundo castelinho de conchinhas e uma frágil ponte de palitos de sorvete unindo os dois edifícios. O mar parecia avançar, a tarde parecia avançar, o tempo parecia ter abocanhado um bocado de vida. Da vida de ambos.
Quem é Deus?
Deus é o criador do universo, o senhor de todas as coisas, o chefe dos seres vivos e não vivos, quem apaga e acende a luz do mundo.
Ele é mau?
Sei lá, Pedrinho.
Acho que ele é mau, porque não deixa a mamãe voltar.
O garotinho, naquele instante, envelheceu um milênio. Olhou absorto para os desenhos que as ondas formaram na beirada da areia. Apertou os olhos para definir melhor os contornos das águas.
É. Ela não vai voltar.
Outro chiclete na boca, os dentes quase trincando de desespero, lágrimas inundando a camiseta amarela de menina grande, consciente de que já é grande. Era imensa. Maior que aquele oceano ali na frente. Pedrinho destruiu o segundo castelo de conchinhas. Quebrou os palitos de sorvete ao meio. Franzia a testa.
O papai está onde?
Papai. Palavra brega para ouvidos adolescentes. O cheiro de gelatina que vinha da cozinha. E agora, Aninha? De que sabor é? Aninha, que cabia no abraço daquele homem sorridente e descabelado, com camisas quadriculadas e bermudas de listas. Morango? Ai, papai, não sei. Acho que é de gelatina amarela. Qual fruta, Aninha? Maracujá! Um abraço. Pipoca com pimenta. Chega de pimenta, Aninha. Mas o papai pôs pimenta também, eu quero igual! Canta de novo, papai, canta de novo! Paquepaquepaquetá, pucopucopucolá!
Na puta que o pariu.
Que é puta?
Para de fazer pergunta.
Ela cuspiu o chiclete, ele chutou o castelo de conchinhas remanescente. Um silêncio solene de mais de um minuto. Nem piu, nem paz. E, então, o mar estalou: chuá. E ambos choraram alto. Ela furiosamente, ele convulsivamente. Tarde vermelha, estômago revirado, lembranças aos borbotões. Ah, solidão. A solidão experimentada às seis da tarde, aos cinco anos de idade, aos treze anos de idade, à beira-mar. Na ponta do precipício: isso, para vocês, é viver.
Por que ele foi embora?
Porque ele é um idiota.
Mas ele está com Deus também?
Não. Ele está na merda.
Fala a verdade! Onde está o papai?
Ele foi embora, Pedrinho. Ele não quis saber da gente. Nem de mim, de você, nem da mamãe. Esquece ele, caramba.
Os bracinhos ao longo do corpo, os pezinhos descalços e úmidos, o peito úmido, os olhos grandes e escuros e vermelhos e transbordantes, o desespero nuns quantos metros de altura, desolação, a boquinha aberta cheia de gritos doídos. As pernas ainda indecisas se de criança ou de adulta, a camiseta amarela de menina grande que não conseguia esconder os seios nascentes, o short molhado de mar e de sangue, um sangue intrometido que não tinha que estar ali naquele momento, naquele dia, naquela pessoa, naquele pedaço de universo.
Você está machucada.
Anos-luz. Algum professor tinha falado em anos-luz. A sabedoria em anos-luz.
Pois é. Estou machucada, sim.
Pedrinho foi até Ana e lhe estendeu os bracinhos. A irmã o acolheu num abraço terno e soluçante. Assim ficaram, até despontar a primeira estrela no céu.
Seu machucado dói?
Um pouquinho.
Tá ficando escuro.
A gente ficou sozinho, então?
Ficamos. Mas eu estarei sempre com você e você estará sempre comigo.
Eu sei, mas Deus não vai deixar a mamãe voltar.
Não.
Como é o nome disso?
Disso o quê?
Que a gente sente.
Agora, se fosse possível, queria aumentar o barulho do mar. Escuridão, abismo, sótão, nadez? As conchinhas dos castelos destruídos fazem crec, crec. Anoitece.
Solidão, Pedrinho. Isso se chama solidão.
segunda-feira, 5 de março de 2012
alto
Y, porque quiso soñar, voló lo más alto que pudo. Y, porque voló alto, no pudo más volver. En aquella mañana, muy temprano, logró alcanzar la ventanilla más alta de la torre medieval; su naturaleza de pájaro ocultaba su esencia casi humana: sí – confiaba – había algo allá a su espera; sí – el pequeño corazoncito pulsaba – había algo allá que buscaba. No se sabe cuanto tiempo tardó hasta que se diera cuenta de la trampa: la ventanilla se estrechaba hacia adentro, impidiendo la salida. Tampoco se sabe si el hermoso pájaro se desesperó. Si cantó la música más dulce que conocía, si murió de sed, de hambre o de saudade. Si en algún momento tuvo la certeza de que por fin volaría hacia la eternidad. A veces, alguien visita la habitación secreta de la torre; observa el piano roto y cubierto por una capa de polvo, las dos o tres sillas cojas de una o dos piernas, trozos de un papel amarillo casi deshecho y ya pegado al suelo. Allá, al costado, dónde llegan los rayos del sol, están los restos del pájaro – pero él ya no está, seguramente no. Y, porque quiso soñar, voló lo más alto que pudo. Y, porque voló alto, no pudo más volver. Y, porque no pudo más volver, ha empezado a soñar.
domingo, 4 de março de 2012
di (gress-gest) ões

Viajo porque te amo, volto porque preciso. Não sei se te amo. Tu não estiveste sempre onde dizias estar. Mas viajei. Viajei e te encontrei, encontrei quem dizias que eras, mas não sei se de fato te reconhecias em quem ali estavas. Voltei por precisão. Não sei se precisava voltar. Me sentia frágil por ti. Te sentia frágil por mim. Nem sempre gosto do retorno: quando viajo, quando volto. Nem sempre gosto do amor: por ti ou por mim. Te amo porque viajo, preciso de ti porque volto. Quando estou fora, te vejo mais próximo. Quando chego de volta, te quero porque estás distante. Mas não sei quem és quando não estás em quem dizes ser. Tampouco reconheço o lugar ao qual retorno, sempre muda, tudo muda, especialmente eu. Mas tu também. Viajo porque preciso, volto porque te amo: que difícil confissão, mas confesso. Uso todas as letras, abuso das palavras, te digo a ti e te repito. Os porquês são complicados e confusos; não preciso, quero. Não sei se viajo, me movo. Te amo assim, mas talvez só pudesse gostar de ti. Preciso porque te amo, volto porque viajo. Deste modo é mais claro e mais fácil, só não sei se mais verdadeiro. Voltei a te amar, preciso viajar. Preciso te amar, voltei a viajar. Descompassos. Já sabes: existes tu, existo eu. Quem sabe, então. Até que enfim.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Paredes verdes
Manchava conscientemente aquelas paredes verdes com o ardor de uma fanática buscando o instante máximo, o orgasmo anímico, a resposta para as inquietudes filosóficas que vieram à tona com a rosa dos ventos, dos tempos, dos inventos.
Quantas, quantas, quanto, quanto, só de exclamar eu já me cansava afetivamente.
Pausa: ele me liga, histérico, descrevendo a atormentada noite de ontem, os vizinhos bêbados, a ex-mulher rançosa, o torpor familiar, a desalinhada entrevista de emprego. Histérico justifica-se pela negativa que não chega a me dar. Porque eu não digo nada, apenas comento: as paredes já não estão verdes. E ele: falo com você depois.
Havia fome, havia desejo, havia raiva, havia ainda os ecos daquela ausência inclementemente vivida em todos os recôncavos desse corpo que não para de me pertencer mais, mais, mais e mais. Havia haver, havia minha existência explodindo ansiosa e febril por meio das pinceladas sujas e puras daquele grito silencioso e inconcluso nas paredes verdes.
Para que, para que, para quando, para quando, só de exclamar eu já me respondia.
Pausa: um tomate rola abrupto de uma prateleira da geladeira e, fascinado com a gravidade, lança-se ao chão. Por um momento, esqueço as paredes, as sedes, as redes de salvação, e admiro aquele vermelho insólito e intacto me olhando, espantado, desde os baixos do móvel da cozinha. Se esse vermelho me amasse, minhas feridas não necessitariam desinfetante.
Ainda sinto a presença de todos os fantasmas nas esquinas e nos bancos dessa cidade, prestes a saírem por alguma porta e pedirem uma cerveja justamente naquele bar a que vou. Ainda sinto a presença de minha morte doída e oculta, pública e íntima na mesma medida, uma espécie de expiação e crucificação. Ainda dilacero o esquecimento ligeiro deles, seu desdém, sua leveza superficial e banal, e os lanço com saliva e tinta nas paredes verdes, pincelando, pincelando, pincelando até que os poros de concreto sangrem. Sangrem lembranças, sangrem perdões, sangrem ranhuras.
Pausa: o cheiro me enlouquece, eu cheiro tudo, a tinta, meu ranço, minha saudade, minhas esperanças, as parcas explicações que passaram por baixo da porta, o cheiro do almoço do vizinho, o cheiro da roupa lavada da vizinha, o cheiro da histeria telefônica dele, o cheiro do egoísmo torpe do outro ele, o cheiro da merda alheia, o cheiro do perfume alheio. Eu cheiro minha fé, minha tão pequena e grande fé, cheiro minha humanidade, cheiro o sangue que escorre de minhas gengivas e também o que limpa meu útero, cheiro o clamor que brota de minhas entranhas e de minhas intimidades, cheiro meu medo e minha coragem.
Cheiro o verde dessas paredes, cheiro o branco que as invade, sinto enjoo, sinto vontade de chorar todas as chuvas dessa parte do mundo, sinto amor, muito amor.
Que aqui se registre que meus sentidos estão em pleno funcionamento.
E que esse verde agora sujo das paredes, esse verde imperfeito, arranhado de branco e de dúvidas, esse verde feito humano, mulher e brasileiro, esse verde agora deixa essas paredes e vem habitar o vácuo, preenchendo a solidão que habita meu ser e faz brotar cravos onde deviam nascer sorrisos.
Que aqui se registre esse dia de verão em que o verde corrompido daquelas paredes verdes se transformou em mim mesma. No dia em que.
Era já noite e liguei o ventilador para me perdoar de meus pecados e secar meus molhados, encharcados, entupidos à luz das estrelas e da paz.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
intermitente
La pequeña grande destrucción de que he participado quizás no haya durado más que una hora. Ataques vehementes de un lado hacia otro, disparos agudos y precisos. Una bomba cargada de distopia. El anuncio de la guerra ya había sido dado días antes; los dos lados sabían que todo iba terminar en sangre, pero era difícil creer cuando el cielo estaba todavía azul, sin nubes, y el aire dispersaba cariño. Habían sido semanas de una delicada tesitura de compañerismo y confianza. Pero el mensaje vino de nuevo, corto y mordaz. Me parecía todo en tono de broma, intenté un desastroso acuerdo de paz, no puse mucha confianza de que el fin estaba al costado y expuse mi corazón. Empezaba a aprender, por fin, a deletrear: a-m... Me equivoqué; soy una pésima estratega de guerra. Pésima.
Todavía me encuentro aturdida. Miro alrededor y solo veo huecos, pensamientos quemados, fragmentos sucios de abrazos partidos, huellas inconclusas. Ole feo, siento sed, escucho la tierra ardiendo por dentro, con un dolor por ahora insoportable. Tal vez no sea posible plantar en los próximos tiempos, tampoco se pondrá una carpa, una hamaca, un huerto.
Tiempos antes, uno de eses viejos combatientes de otras épocas había pasado por aquí hablando de la necesidad de una ‘voluntad de hierro’: en contra la desolación, mi reina, que no te pierdas a tú misma. ¡Ánimos!
Soy una víctima-villana de guerra: una herida inmensa, manos sin uñas, pies despellejados, sentimientos destrozados, cara desfigurada. Busco ahora justamente esa chispa que me hará ver que la vida es seguramente más testaruda que nuestros miedos y vanidades.
Voluntad de hierro, mi reina. De hierro!
domingo, 6 de setembro de 2009
(time after time 2)
A que quando pertencia?, era a pergunta que mais lhe fazia companhia quando abria os olhos de manhã, ainda atordoada pelo último sonho, nem sempre estacionado na última estação. Quando exatamente vivia? Porque, vez ou outra, tinha a impressão de que não existia, embora estivesse viva, corada e suada. Seu agora era povoado de novidades e antiguidades, emoções diversas, sensações e indagações. Mas provava em lampejos o sempre e, como que descompassada, se perdia em lapsos e labirintos invisíveis, pequeninos, indimensionáveis (se é que a palavra se pode). Por isso, sentia-se perdida. Mas também bem encontrada.
"Só há texto e só há existência no 'agora'. O 'antes' e o 'depois' inexistem para o 'agora'. (...) Só no sempre todos os 'antes' e todos os 'depois' são alcançáveis, porque não há 'agora'. O sonho de retornar ao passado ou ao futuro só seria possível abrindo mão do 'agora', ou seja, deixando de existir."
Nilton Bonder, Sobre Deus e o Sempre
terça-feira, 28 de julho de 2009
Essa existência é um longo preparativo... Ufa, às vezes me canso e me sinto pronta, mas sei que não estou.
Entre a eternidade e a imortalidade, sou muito mais a primeira. Não tenho nenhuma pretensão de estender a distância de minhas origens, pelo contrário; quero largar-me nelas e aí estar estar estar no ser, no Ser. Mergulhar definitivamente no Amor.