terça-feira, 6 de março de 2012

Huellas



Terminarás odiándome, me dijo.
Yo miraba la ventana de la cocina, intentado mensurar los aportes de la lluvia al jardín. La tostada en mis manos ya estaba por crear tela cuando la decidí comer. Y comenté en voz alta, así casualmente, como se hablara a las migajas sordas sobre la mesa, a mi café ya frío, a hormigas invisibles: tu mermelada de fresa está riquísima.
Él tenía esa costumbre – coger frutillas silvestres para preparar mermeladas. Estaban ahí en la mesa, acompañando huevos revueltos o queso fresco. A veces las hacía de naranja con jengibre, en otros momentos de plátano, a menudo de fresas. Mi sueño, me comentó cierta vez, mi sueño es construir una casita en el pueblo de mis abuelos, meter ahí mis discos, mis libros, una mesita donde pueda escribir. Quizás tener un perrito juguetón, unas ventanas inmensas de donde se vea la montaña. Y por lo menos tres veces a la semana coger frutas para mermeladas. Yo, despistada, pronto imaginé una bodega rústica llena de potes coloridos de sabores diversos. Creo haber añadido la posibilidad de un huerto o de un jardincito con flores. Él no me miró; mantuvo sus ojos clavados en el horizonte. Había algo de dolor en aquel silencio.

Terminarás odiándome, me dijo.
Yo organizaba los libros en el estante, intentado cambiar la distribución de espacios y así darle a la pequeña biblioteca una cara nueva. El postal ya medio amarillo se quedaba ahí, sobre la alfombra verde, ignorando por completo mis movimientos mientras yo buscaba fuerzas para tirarlo a la basura. El atardecer en Tossa ya se vía descolorido, las letras ya habían perdido energía y el sentido: gracias por compartir tus nubes y tus brisas.
Él me comentaba de sus caminadas en la playa, temprano en la mañana, la parada para algunos ejercicios en las barras, los gatos que surgían de todas las partes cuando aquel señor viejito pasaba por allá con sus trozos de pan duro y seco. Tenía su escondrijo ahí, un banquito estratégicamente puesto atrás de unas piedras, ya sobre la arena, muy cerca del mar. Un día se inventó un barco imaginario que lo llevaría del Mediterráneo al Caribe, ultrapasando distancias y fronteras, reglas y prohibiciones. Yo, animada, pronto me apunté para hacerle compañía. Creo haber sugerido la posibilidad de bajarnos al Atlántico, viajar con los delfines y encontrar una isla desconocida disponible para nosotros. Él tampoco me miró, quizás ni haya escuchado; sus ojos, como siempre, los mantuvo clavados en el horizonte. Había algo de ruptura en aquel silencio.

Vine a comprender su enigmático aviso algunas semanas después, cuando partió sin avisar o despedirse. Cargó toda su ropa, todos los libros, algunos muebles y aderezos de la casa. Su mejor amigo me comentó que el plan era jamás volver. Capítulo cerrado es capítulo cerrado para él, dijo. Fue a vivir una historia de esas que decía odiar, con el clásico final: “y vivieron felices para siempre”. Pasé unos días confundida, sin comprender a veces por que llovía, ventaba o por que motivo las berenjenas se quedaban demasiado cocidas. Tampoco entendía por que la gente alrededor hacía tanto ruido, por que el reloj tardaba tanto a cambiar de horas o por que mi corazón súbitamente se callaba. Pero no terminé odiándole.

Aún hoy dibujo el personaje “él” que en mí se quedó en hojas ya amarillas del tiempo o en tostadas saladas, en ciudades sin mar. No terminé odiándole, al revés.
Había algo de ruptura en mi propio silencio.

Necesito decirte: adiós.

segunda-feira, 5 de março de 2012

alto


Y, porque quiso soñar, voló lo más alto que pudo. Y, porque voló alto, no pudo más volver. En aquella mañana, muy temprano, logró alcanzar la ventanilla más alta de la torre medieval; su naturaleza de pájaro ocultaba su esencia casi humana: sí – confiaba – había algo allá a su espera; sí – el pequeño corazoncito pulsaba – había algo allá que buscaba. No se sabe cuanto tiempo tardó hasta que se diera cuenta de la trampa: la ventanilla se estrechaba hacia adentro, impidiendo la salida. Tampoco se sabe si el hermoso pájaro se desesperó. Si cantó la música más dulce que conocía, si murió de sed, de hambre o de saudade. Si en algún momento tuvo la certeza de que por fin volaría hacia la eternidad. A veces, alguien visita la habitación secreta de la torre; observa el piano roto y cubierto por una capa de polvo, las dos o tres sillas cojas de una o dos piernas, trozos de un papel amarillo casi deshecho y ya pegado al suelo. Allá, al costado, dónde llegan los rayos del sol, están los restos del pájaro – pero él ya no está, seguramente no. Y, porque quiso soñar, voló lo más alto que pudo. Y, porque voló alto, no pudo más volver. Y, porque no pudo más volver, ha empezado a soñar.

domingo, 4 de março de 2012

di (gress-gest) ões


Viajo porque te amo, volto porque preciso. Não sei se te amo. Tu não estiveste sempre onde dizias estar. Mas viajei. Viajei e te encontrei, encontrei quem dizias que eras, mas não sei se de fato te reconhecias em quem ali estavas. Voltei por precisão. Não sei se precisava voltar. Me sentia frágil por ti. Te sentia frágil por mim. Nem sempre gosto do retorno: quando viajo, quando volto. Nem sempre gosto do amor: por ti ou por mim. Te amo porque viajo, preciso de ti porque volto. Quando estou fora, te vejo mais próximo. Quando chego de volta, te quero porque estás distante. Mas não sei quem és quando não estás em quem dizes ser. Tampouco reconheço o lugar ao qual retorno, sempre muda, tudo muda, especialmente eu. Mas tu também. Viajo porque preciso, volto porque te amo: que difícil confissão, mas confesso. Uso todas as letras, abuso das palavras, te digo a ti e te repito. Os porquês são complicados e confusos; não preciso, quero. Não sei se viajo, me movo. Te amo assim, mas talvez só pudesse gostar de ti. Preciso porque te amo, volto porque viajo. Deste modo é mais claro e mais fácil, só não sei se mais verdadeiro. Voltei a te amar, preciso viajar. Preciso te amar, voltei a viajar. Descompassos. Já sabes: existes tu, existo eu. Quem sabe, então. Até que enfim.

sábado, 3 de março de 2012

manual

Na página 145 do manual, canto inferior, havia a regra importante: não veja, não escute. Homem e mulher entraram no ringue. Esbofetearam-se. Ela sangrou no lábio, ele sofreu um golpe baixo, baixíssimo. Ela perdeu dois dentes, ele quebrou um dedo. Ela cometeu uma infração: gritou. Ele cometeu uma infração: arrancou-lhe um chumaço de cabelos. Soou a campainha. Ela teceu um monólogo. Ele teceu um monólogo. Novo round. Esbofetearam-se. Lembrem-se da regra da página 145 do manual, canto inferior: não veja, não escute. Ela ficou sufocada. Ele ficou indignado. Ela desequilibrou-se. Ele retraiu-se. Ela começou a chorar, ele descobriu-se sangrando também. Ela sentia dor, ele sentia desprezo. Regra do manual... Ele era mudo? Na página 145... Ela era invisível? No canto inferior...

Semanas depois, Joroastro Joroôntico escreveu um artigo obscuro e apagado para um desses jornais biodegradáveis afirmando que as expectativas são as maiores inimigas de um encontro. Ninguém leu. Meses depois, ouviu-se dizer numa rádio tímida de um interior quente e nada chuvoso que ele nunca soube quem de fato foi aquela mulher que ficou horas falando, um tanto bêbada, um tanto alegre e ingênua, e que logo se perdeu na poeira da noite fresca depois de ter suas duas pequenas asas translúcidas trucidadas por um descompasso de ritmos. E, anos depois, alguma revista ignóbil afirmou que o manual há tempos estava na lista dos mais vendidos, justamente por causa da regra da página 145, canto inferior: se você quer destruir qualquer possibilidade de um laço com o outro, não veja, não escute.

distopia

não acendeu a luz quando entrou na sala escura, não acendeu a veia quando passou o estilete frio, não acendeu o mundo quando tudo ruiu ao redor.

um tijolinho,
dois tijolinhos...

não acendeu a vela quando o barco virou no mar, não acendeu seu próprio corpo quando parecia murchar, não acendeu os sonhos quando o colar de contas espalhou-se pela ruela.

uma pérola,
duas pérolas...

não acendeu a voz quando foi calada, não acendeu os joelhos quando equilibrava fardos, não acendeu o amor quando lhe ofereceram rancor.

disque outra vez, esse número não existe, mas use os mesmos algarismos.

não se acendeu quando não foi olhada.
não se acendeu quando foi esquecida num banco de concreto numa cidade às moscas, trocada por uma imagem de álbum de figurinhas sob a turgidez de certezas inócuas.

cuidado: frágil.

não acendeu suspiros quando o ar se tornou espesso, não acendeu maçãs quando teve fome, não acendeu lágrimas quando pecou.

por volta das quatro da manhã, a chuva explodiu quente e ríspida sobre os incautos perdidos deslocados maravilhados estúpidos bêbados e românticos. pés afogados, amizades imberbes atropeladas na faixa de pedestres por uma humanidade muito machucada.

não acendeu a mulher. não acendeu o homem.
e aquele palco ficou em branco, passou em branco, sem cortinas e sem história.
ridiculamente aceso.

gap, slap.

No words at all. Time is over, world is stuck. Silence is around, silence means everything. Everything is always too much. Can’t. Can’t stand all of that. Keep your garbage, I keep my luggage. Something is missed, something is always missed. Gap. Slap.

You, yes, you. You didn’t have the right to.

Gap, slap, my path has turned into black.
No words at all.
Shut up. Shut you out right now.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

joguinhos

Não, meu bem.
Não uso salto alto. Não tenho um gato com focinho cor de rosa. Não tenho paciência para colar masculinidades durante longas e frias madrugadas.
(Afasto uma mecha teimosa de cabelo, mordisco os lábios.)

Você me encara da janela de seu quinto andar enquanto passeio por sua calçada – ciente de que estou sendo observada, mas orgulhosa o suficiente para não tirar meus olhos das unhas que me escapam das sandálias (preciso cortá-las, preciso cortá-lo). Você mija no muro da esquina às 3 da manhã, depois de embebedar-se o bastante para perder a consciência de sua fragilidade. Porém, não deixa de estar sóbrio: daqui, querida, você não passa. Uns tipos o encaram, você dá de ombros (não quero saber de sua autossuficiência).

Meus pesadelos estão povoados daquelas fotos horrendas de gatos com focinhos cor de rosa que você colou na parede de sua sala. “Adote-me”, brincava. “Adote-me”, soluçava. “Adote-me”, implorava, joelhos no chão, meias e shorts, barba desfeita, cabelos sem sentido, olhos estupidamente vermelhos. “Ame-me”, eu lhe disse apenas uma vez: e sem voz. Meus sonhos estão povoados daquelas rosas com cujas pétalas você um dia perfumou minha pele nua sobre seu lençol branco. “Toque-me”, eu lhe tocava. “Toque-me”, e você me dedilhava. “Não”, nos dissemos, quase em uníssono. E você dissolvido, alquebrado, estendido no sofá com a janela aberta e um vento gelado.

Não, meu bem.
Não uso salto alto. Não tenho um gato com focinho cor de rosa. Não tenho paciência para colar masculinidades durante longas e frias madrugadas.
(Afasto uma lágrima teimosa, mordo os lábios furiosamente.)

O vento levou todas as folhas, todas as pétalas, todas as peças.
A noite guarda a ressaca daquele dia.
De outro, de outra.

Gaze




He laughed.
— Sorry. You’re saying…
Hands, arms, lips, eyes: her sources of continuous messages. Everything so intense, for sure. Everything so confused. She was that kind of superlative girl.
— Never mind.
She’d already drunk three or four glasses of wine. He kept strongly his receipt: one bottle of water for every dose of alcohol. This was his way to keep his sobriety. Oh, his sobriety… Who cares about being sober? His inner universe was already a constant post-tsunami world, full of hurricanes of sensations and very fast brainstormings. But he never got lost in himself: it was amazing how he was able to manage the clues from himself even without thinking so much about, just listening to that whispered music that came from his soul. By the way, he carried a certain old-fashioned purity conjugated with an accurate feeling for capturing others’ pieces of soul. Emotional intelligence, right?
— For God’s sake!
— What?
— You don’t pay attention to me, do you?
— Sorry. You’re saying…
Her lips were very red at that moment. They seemed to shine – and this, besides distracting him, started to disturb him. He couldn't understand properly what she was saying, the real subjects of that bizarre conversation. He was surrounded by noise while she was just gleaming: from her lips to her eyes. Even the (fifth?) glass on your hands shined.
— Never mind.
— Please, repeat…
She looked at him with tenderness, not sure if she should keep talking and talking, inventing keys to try to get into his world. More than catching his attention, she seemed to be interested in touching his heart somehow. A mere caprice? No, she didn’t feel like that, but recognized that could be almost impossible. An ocean. A decade. Bottles of water and wine. Words. Idioms. Phrasal verbs and jokes. A table. Friends, friends, many people. All of that had become into a huge wall between them. Actually she started to feel tired. Emotional tiredness?
— Sorry.
— ?
— It’s time for me to go.
— Because of something I said?
(He meant: “something I didn’t say”).
— Perhaps because of something I did.
(She meant: “something I didn’t do”).

It’ll take time for both to understand what was going on over there more than that simple wordplay. Maybe it’ll be late when they realize that, maybe it won’t. Anyway, both remember how they gazed at each other that night. And how it was magic.

domingo, 13 de novembro de 2011

continuous

Maybe I should have answered: “Yes”.
Maybe.


Maybe I should have tried once more.
Maybe.


Maybe tonight would be not so cold, no so tough.
Maybe.


Maybe I could have found a bottle with a message:
“Maybe.”


Then everything would have been simpler and clearer.
Then I would have felt sure and safe.
Then tonight would have been an evening of glasses of wine, smiles and bodies.


But all of that wouldn’t have been my life.
It would have been yours. Others’. Someone else’s.


Me, I am on the verge. About to.
No “more maybes” at all, sorry for that.
I keep going and going on: present continuous. Continuous.

sou

Sim, sou aquela com quem você passeou de mãos dadas na madrugada fresca e risonha de agosto. Aquela com quem você não. Aquela que você não. Aquela que não. Enquanto eu sim. Algo, de algum modo (e eu ainda suspiro), sim.

Sou aquela que lhe convidou para um café ou um vinho se você não estivesse tão entretido com cafés e vinhos. Aquela cujo apelido você nem lembra; apenas olha os nomes na agenda e escolhe o primeiro. Meu primeiro nome. O nome com o qual não me apresentei a você. Oh, não: sou aquela, mas não sou esta a quem você busca. Não esse primeiro nome. Um nome oco.

Fui quem lhe. Quem se. Fui quando e onde e continuo a ir porque. Se você me deixasse terminar as frases, sem me aprisionar em pontos suspensivos que jamais se retêm, até poderia tornar-me alguém que. Mas sem, como?

Sou aquela que você desejou enquanto via um filme do Lars Von Trier. Aquela que você desnudou enquanto escutava Leonard Cohen. A que penetrou enquanto lia Roberto Bolaño. Aquela que, enjoado e confuso, cuspiu fora numa tarde qualquer de uma data irrelevante sem nem prestar atenção se a janela estava aberta ou se a umidade relativa do ar era maior ou menor que sua covardia.

Sim, sou aquela que agora lhe observa em silêncio e com algo de pena. Aquela que lhe diria: há um resto de molho no canto de seu lábio, um resto de muco no canto de seu nariz, um resto de lágrima nos seus olhos já nada sublimes. Prefiro, no entanto, mordiscar umas bolachinhas enquanto quase rapto a paisagem que velozmente se dissolve.

Salto:


aquela, não, sou eu.

— feliz ano-novo.

domingo, 30 de outubro de 2011

~~ infinidade ~~~~

Hoje vou cantar as rimas mais pobres que conheço, vou limpar a sola dos sapatos mais puídos, vou colher meus fios de cabelo mais rebeldes que caem indóceis no meio do caminho. Hoje vou me dar conta das coisas minúsculas da rotina mais cotidiana, dos minutos mais sem nexo, dos raios de luz mais invisíveis – e que quase não me alcançam. Hoje celebro uma descoberta acima de quaisquer palavras, a essência daquela que sou, daquilo que sei e, especialmente, de todo esse mistério infinito que pouco explico, mas que acolhe minha existência mais túrgida. Hoje, e não amanhã. As rimas, os raios. A essência, o infinito. Onde quer que, como quer que, hoje.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

desiderio


Estou áspera e rude como as paredes que me encerram nesta cela de pudores. Contenho explosões poliglotas de desejos semiadormecidos, semidespertos, seminus de credenciais. Mas sou inteira, não metades afoitas tentando um aperitivo ou um vermute. Quero banquete, ainda que único, ainda que impreciso, quero o acordo tácito para devorar. Fome e sede, ganas e garras, estrógeno correndo por todos os vasos e vistos: enlouquecimento sano, suave e sintomático – se me salvo, é claro, da desesperação desde dentro desta cela infame. A salivação já começou há tempos, como sempre costuma acontecer: dentes pontiagudos, seios pontiagudos, poros permeáveis e faro aguçado. Passa, passa, e me enlaça, me abraça, me faça e refaça. E me deixe refazer-te, inverter-te, ah, deslizo e realizo, te invento e te comento. Desenovelamos, um suspiro, talvez dois, ah,

Mas sigo áspera e rude, como e onde, quando e que, nesta cela de pudores, a conveniência e seus horrores, a convergência e todos os possíveis e exaltados amores.

Insisto? Espero?
Por agora, um sanduíche.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sapatinhos



One day, by chance, blue shoes came across the rose ones. Astonishment. Hiccups. Delirium. Hola, perdón, ¿puedo estar aquí un rato? Rose shoes couldn’t understand those words, but caught the meaning: Tu es le bienvenu! Timid smiles, fleeting glimpses, almost invisible movements. Que mona eres. Tu es quelqu’un de vraimant charmant, toi. Drops of melancholy from each side: time is extremely cruel as we are within this boderland – nowhere, elsewhere – where reality fits expectations perfectly and that weird feeling of belonging does make sense. Quisiera poder quedar. Je voudrais que tu n'allasses pas. But conjugating verbs like « to leave », « to go », « to move » and so on was a kind of expertise from both Rose and Blue shoes. No es un consuelo. Il n’y a pas d’espoir? Espera: ¿qué más nos resta? Rester. Atentos. Attente. Attraction, sharing. Shapes, smells, sighs. And so, and then, and thus, seconds started to flow again. Hasta la vista, au revoir. And that’s it: thatness.
Thatness, for sure.



domingo, 16 de outubro de 2011

luz del estío

Siento un gusto de frontera disuelta en esa tarde melancólica. Demasiado espacio. Vacíos casi insoportables. Ausencia. Y todo me sobra: la luz, la calidez del verano, la casa inmensa, el corazón abierto de par en par.

Los rincones gritan: saudade.
Más que nostalgia, decías, más que añoranza, silenciabas.

Éramos un reino – y todo alrededor era resto de geografías ajenas.
Te fuiste con las alas, me quedé con la inmensidad de belleza triste y ojos húmedos. Ahora casi quiero rechazar ese mapa que me pone como un gran continente, solitario y olvidado.

*~* primavero, primaveras.

Hay todavía el olor de sus manos

De sus manos que deslizan que se disuelven

Por mi piel por mis pies por mis piernas

Por el rosa de mis mejillas

Por las mejillas de las rosas


Esas rosas que me envuelven como recuerdo del efímero

Ese efímero tan eterno de nosotros

Que somos, ya fuímos y pronto dejamos de ser

Siendo siempre y aún, y aún, y aún.


Sus manos tienen todavía el olor

De las rosas que pueblan

Esa piel eses pies esas piernas

Esas mejillas que tocaste, menino.

Y que – já sei, já sei – volverás a desbravar.


(Soy una constante primavera)

domingo, 14 de agosto de 2011

Plástico vermelho



Era um dia daqueles. Pesado, modorrento, cheio de poeiras do passado teimando em grudar no suor do presente. Daqueles dias em que não há poesia possível no enfado de uma vida inteira. Daqueles dias em que o tempo se recusa a cumprir a programação habitual de 60 segundos formarem um minuto e assim por diante. Um minuto estava durando quase meia hora. Dia daqueles.

Acomodada no banco do fundo do vagão, fiquei ao lado da janela, mas longe da porta. Tudo bem, tudo bem, ia descer no fim do mundo, havia muito trilho ainda e o enfado do tamanho do mundo. Esse caminho longuíssimo para quê? Para chegar em casa e tudo continuar igual? Os outros passageiros pareciam padecer do mesmo aborrecimento. Caras fechadas, caras distraídas, olhares mortos ou cinzentos, todos querendo ir logo, porém ir para lugar nenhum. Estar no metrô, estar no trabalho, estar em casa, tudo dava na mesma. Estar já era um fardo; ser, então, nem se fale. E a porcaria da porta não fechava, quem o motorista estava esperando para dar a partida naquele trem?

Uma moça sorria no meio das manchas amorfas chamadas de gente por pura educação naquele fim de tarde, naquele fim de linha, naquele último vagão. A moça estava bem de frente, naqueles bancos que vão de costas. Que enjoo ir de costas, mas muitos não se importam. Para eles, o tempo passa ainda mais devagar porque se despedem com mais docilidade dos instantes. Talvez seja isso que cause enjoo em alguns, nos mais ansiosos. Ou nos mais defendidos. Mas a moça sorria, caramba. Como conseguia? Tinha um livro nas mãos. Claro, a moça sorria porque tinha um livro. Essa bolsa que carrego não me faz sorrir. O rapaz de gravata verde segurava uma pasta de couro e não sorria. A senhora ao lado mantinha apertada uma sacola de plástico e tampouco sorria. Só a moça com o livro. E já sorria antes mesmo de a porta fechar. Ufa, finalmente.

O livro estava coberto com uma capa de plástico vermelho. Ninguém mais encapa livro com esse tipo de plástico, meu Deus. Essa moça veio do túnel do tempo? Não parecia. Blusinha bacana a dela, não dava para ver os sapatos, mas ela tinha frescor. Esquisita essa capa. E, droga, não dava para ver o título do livro. Sobre o que seria? Uma história de amor? Não. Todas as histórias de amor são iguais. Começamos virgens e terminamos mais virgens ainda, só que no fim somos acidamente virgens e rancorosos. Como poderia haver espaço para um sorriso? Talvez ela esteja no começo do livro, então pode ser uma história de amor, ora. História de amor açucarada? Não, não. A moça tinha jeito de exigente. O modo de ler com avidez, os olhos dela não desgrudavam das páginas, os dedos firmes na capa de plástico. Talvez fosse um romance policial. Avidez com sorriso... Sorriso ao ler sobre um assassinato? A ficção nos permite extravasar agressividades-tabu: talvez seja o que nos mantenha ainda relativamente afáveis uns com os outros.

Agora ela apertou os lábios, que cara safada é essa? Em pleno século da solidão e do enfado, no dia em que a humanidade dentro daquele trem empurrava o tempo com desesperança e agonia, aquela mulher ousava existir. E resistir à modorrência cotidiana. Rosto nem bonito nem feio, ar simpático. Deve ser daquelas que, depois de umas taças de vinho, seguramente – e de modo sábio – aperta os lábios (como agora), fecha os olhos, dança leve, livre e solta no meio da pista, braços-pássaros, pés ágeis, quadris mais ágeis ainda. Uma alegria, uma energia, uma sensualidade. Os olhos pasmacentos dos machos presentes, antes ocupados com os alvos óbvios, a seguem vidrados.

Uma noite de sexo. Pela avidez com que a moça lê esse bendito livro com capa de plástico vermelho, deve ser uma descrição daquelas, que chegam até a palpitação dos músculos vaginais – das personagens, é lógico. Bem, há leitoras que, por tabela, também os sentem. Confessemos, por que hipocrisia numa hora dessas? A população imóvel do trem móvel, naquele tempo ausente, não parece a ponto de deixar sua apatia. Tampouco há sinais de outro espectador para a moça – e para mim. Então, confesso: já tinha sentido, sim, excitação ao ler certas passagens de livros, inclusive desses livros-cabeça que apenas eu, uma amiga e mais dois ou três críticos literários lemos. Meu Deus, a moça está gemendo baixinho, feliz. O homem mordiscando seus mamilos, passando a mão pelo interior de suas coxas, agora beijando o pescoço, tocando seu clitóris e... O que foi aquela encoxada, perto da escada? Quanto tempo fazia? Três semanas? Quase um mês. Ele a pegou de jeito. Foi tão rápido e tão bom. Talvez ela tenha suspirado agora. Chegou ao orgasmo? A personagem, quero dizer. Como o metrô é quente.

Essa franzida de testa. Pode ser que seja um livro de crônicas, e agora ela esteja lendo sobre a morte de uma galinha. Não era sobre isso aquele conto da Clarice? Divertido esse conto. Ela riu no começo, ficou meio triste em seguida, mas não mordeu safadamente os lábios depois. Nem franziu a testa. Era a hora da briga do casal? Rusga rimava com ruga e fazia sentido. A gente franze a testa quando não entende certas atitudes. Por exemplo: prometer ligar durante a semana. E sumir. E não dar notícias. E, depois de uns tantos recados no celular, torpedos e e-mails, uma resposta de uma linha só. Estou confuso, precisando de um tempo sozinho, foi bom estar com você, mas agora não rola. A moça ficou triste de repente. O que foi? Desculpa esfarrapada? Sim. O rapaz, no mesmo bar, com outra moça. Confuso, mas divertindo-se. O mesmo braço ao redor da cintura. A mesma piada da chamada para Tóquio. Os mesmos petiscos, o mesmo chope. Os olhos continuavam ávidos, mas ela realmente estava triste. Porque dói. Entre o despeito e o desrespeito, esse ponto é o que dói. Depois, um recado, um torpedo e um e-mail com a mesma mensagem irônica e afiada. Tirando satisfações, que decadência. A noite da encoxada foi tão boa que valia essa humilhação? Porque não foi só uma encoxada nem só encoxadas. Mas que história idiota é essa? Banal, tão óbvia, não, não e não. Quem leria tamanha bobagem? O livro de capa de plástico vermelho certamente é uma alegoria da sociedade contemporânea, de trens lentos e opressivos, de corpos e mais corpos se tocando sem qualquer pudor, mas sem qualquer amor, de braços estendidos para ninguém. Um livro sobre pessoas que não querem mais estar. Nem ali nem lá.

Por que a moça não havia escolhido ler algo original? Que merda de dia. As horas não passam. O telefone não toca. O trem não sai do lugar. É essa moça quem passa, quem toca, quem se movimenta. É essa moça com o livro de capa de plástico vermelho que, naquele segundo, faz a vida – qualquer que seja a definição para “vida” – acontecer. Por que nada muda? Queria fechar o livro, mas o livro não me pertence. Viro a página, então. O reflexo na janela me olhava triste. Não quero pena nem comiseração. Quero apenas... – ainda? – um romance em lugar de contos curtos e sempre finitos, muitas vezes ruins, ou então repetitivos. Um romance. Cenários diferentes, uma história que avança, personagens que não somem no meio da trama, estilo apurado, narrativa original. Capa de plástico vermelho: transparência e paixão. Sou de uma obsolescência medonha.

No amontoado de gente, não distingui mais a moça do livro. Onde se escondeu? Ela escapou da sonolência existencial da população do trem? A história acaba assim, então? Sem necessariamente ter um fecho? Saudade das narrativas da infância em que sempre existia um fim, ao menos uma linha, dando assim uma satisfação ao leitor. Acabou, sabe como é. Minha viagem também chegava ao fim. Bufei, desapontada.

Já na rua, noite anti-social, ser anti-social – dependo sem qualquer vontade da humanidade inteira –, ansiosa em pular para o dia seguinte, me senti cansada. Como se tivesse lido todos os ranços de uma história muito minha num livro. Naquela merda de livro de capa de plástico vermelho, mantido altivo e desafiante pela moça que sorria. No meio da massa aturdida pela realidade implacável, aquela mulher roubava os últimos golfos de energia emocional dos infames do mundo. Bem, talvez estivesse devolvendo-os.

Convenci o dono da papelaria a buscar, em sua sala de sobras, um pedaço de plástico vermelho desses de encapar. Sorte a minha que queria vermelho, me disse, pois era o único. Manchado de pó, resto de vendas antigas. Ninguém mais compra isso, afirmou o homem. Já em casa, encapei o molesquine novo e aspirei, com alguma excitação, o frescor de suas páginas em branco. Na primeira, com letras garrafais, escrevi: “Pois essa história termina aqui. Finalmente abro espaço para um recomeço”. Sorri, apertando os lábios, quase ofegante de tanto tesão.



sábado, 6 de agosto de 2011

corpaço, compasso

Certo dia, não sei quando, meu corpo proclamou independência: quero vida própria. Desvinculou-se da senhora excelentíssima razão e pediu permissão à alma para percorrer aprendizagens particulares e solitárias.

Agora, existe à revelia do que penso, do que quero, até do que sinto. Autônomo, reage inclemente às vibrações alheias. Intumesce, reverbera. Reconhece umidades, cheiros e vontades segundas – equivocando-se às vezes, gozando outras tantas. Meu corpo não partilha todos os seus amigos comigo; há momentos em que me assusto quando me dou conta de que há alguém a meu lado, me olhando simplesmente, numa tentativa quase sempre infrutífera de apreender minha alma por meio de meus poros. Porque nem sempre estamos de acordo, eu e meu corpo, sobre quem realmente temos de deixar entrar.

Meu corpo começa a aprender quando diminuir o compasso e aumentar a escuta. Nessas horas, a alma se aninha, a razão se aproxima, e me sinto inteira e presente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Paredes verdes

E, logo cedo, num instante máximo de rebeldia, lancei-me com fúria contra as paredes verdes do meu quarto com umas quantas pinceladas de uma pachorrenta e meditativa tinta branca que encontrei ao acaso, num dia de prantos.

Manchava conscientemente aquelas paredes verdes com o ardor de uma fanática buscando o instante máximo, o orgasmo anímico, a resposta para as inquietudes filosóficas que vieram à tona com a rosa dos ventos, dos tempos, dos inventos.

Quantas, quantas, quanto, quanto, só de exclamar eu já me cansava afetivamente.

Pausa: ele me liga, histérico, descrevendo a atormentada noite de ontem, os vizinhos bêbados, a ex-mulher rançosa, o torpor familiar, a desalinhada entrevista de emprego. Histérico justifica-se pela negativa que não chega a me dar. Porque eu não digo nada, apenas comento: as paredes já não estão verdes. E ele: falo com você depois.

Havia fome, havia desejo, havia raiva, havia ainda os ecos daquela ausência inclementemente vivida em todos os recôncavos desse corpo que não para de me pertencer mais, mais, mais e mais. Havia haver, havia minha existência explodindo ansiosa e febril por meio das pinceladas sujas e puras daquele grito silencioso e inconcluso nas paredes verdes.

Para que, para que, para quando, para quando, só de exclamar eu já me respondia.

Pausa: um tomate rola abrupto de uma prateleira da geladeira e, fascinado com a gravidade, lança-se ao chão. Por um momento, esqueço as paredes, as sedes, as redes de salvação, e admiro aquele vermelho insólito e intacto me olhando, espantado, desde os baixos do móvel da cozinha. Se esse vermelho me amasse, minhas feridas não necessitariam desinfetante.

Ainda sinto a presença de todos os fantasmas nas esquinas e nos bancos dessa cidade, prestes a saírem por alguma porta e pedirem uma cerveja justamente naquele bar a que vou. Ainda sinto a presença de minha morte doída e oculta, pública e íntima na mesma medida, uma espécie de expiação e crucificação. Ainda dilacero o esquecimento ligeiro deles, seu desdém, sua leveza superficial e banal, e os lanço com saliva e tinta nas paredes verdes, pincelando, pincelando, pincelando até que os poros de concreto sangrem. Sangrem lembranças, sangrem perdões, sangrem ranhuras.

Pausa: o cheiro me enlouquece, eu cheiro tudo, a tinta, meu ranço, minha saudade, minhas esperanças, as parcas explicações que passaram por baixo da porta, o cheiro do almoço do vizinho, o cheiro da roupa lavada da vizinha, o cheiro da histeria telefônica dele, o cheiro do egoísmo torpe do outro ele, o cheiro da merda alheia, o cheiro do perfume alheio. Eu cheiro minha fé, minha tão pequena e grande fé, cheiro minha humanidade, cheiro o sangue que escorre de minhas gengivas e também o que limpa meu útero, cheiro o clamor que brota de minhas entranhas e de minhas intimidades, cheiro meu medo e minha coragem.

Cheiro o verde dessas paredes, cheiro o branco que as invade, sinto enjoo, sinto vontade de chorar todas as chuvas dessa parte do mundo, sinto amor, muito amor.

Que aqui se registre que meus sentidos estão em pleno funcionamento.
E que esse verde agora sujo das paredes, esse verde imperfeito, arranhado de branco e de dúvidas, esse verde feito humano, mulher e brasileiro, esse verde agora deixa essas paredes e vem habitar o vácuo, preenchendo a solidão que habita meu ser e faz brotar cravos onde deviam nascer sorrisos.
Que aqui se registre esse dia de verão em que o verde corrompido daquelas paredes verdes se transformou em mim mesma. No dia em que.

Era já noite e liguei o ventilador para me perdoar de meus pecados e secar meus molhados, encharcados, entupidos à luz das estrelas e da paz.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

é assim que a gente existe

Ela achava muita coisa. Estava sempre achando – e isso a cansava. Queria concentração para meditar e parar um pouco de achar, mas onde fora parar a bendita concentração?

Uma lembrança empoeirada: aquele senhor que vendia camisetas na frente da Plaza de Toros, em Madri. Segundo ele, antigamente os homens, marinheiros, tinham uma mulher em cada porto. Hoje a situação se inverteu; são as mulheres, voadoras, que têm um homem em cada aeroporto. Que oráculo esse senhor da Plaza de Toros! E ela nem lhe comprou uma camiseta. Ela não havia entendido o prenúncio. Ou se tratava de um anúncio?

Aumentou o volume do aparelho de som, que tocava o CD mais romântico que ela tinha por ali. A ansiedade havia diminuído. Solução mágica essa – escrever. Escrever para ninguém ler, nem ela mesma naquele momento. O personagem Forrest Gump havia conquistado um Oscar por correr, correr e correr. Atravessar os Estados Unidos correndo. Ela escrevia, escrevia e escrevia para se percorrer. Ganharia, talvez, o capuccino gelado pelo qual salivava. Isso, menina bonita, bom trabalho. Sobreviveu a mais uma prova da existência. Ultrapassou os limites da realidade nua e crua para o sonho nu e cru. Que é quase uma realidade agora. O volume quase chegava ao máximo. O vento sumira. O tempo passava, incoerente. Como o tempo passa se eu não me movo? Quando se deu conta disso, há anos, de que o tempo passava independentemente de qualquer imobilidade, de que o tempo era o único a ter o privilégio de jamais ser imobilizado, desiludiu-se. Quer dizer que a sociedade capitalista disse, ao menos, uma verdade para a gente? Que tempo vale ouro, que tempo é dinheiro, que a gente precisa produzir senão perde tempo, que perda de tempo é suspirar ou não trabalhar, que inútil é quem não aproveita o tempo, que o tempo voa. Bem, as mulheres também voam, falou o senhorzinho da Plaza de Toros.

E ela embarcou no vento, sem achar nada.

terça-feira, 12 de julho de 2011

micro trend: maybe this is 'something'




llama, contesto, invita, voy, habla, escucho, comparto, acoge, me toca, le toco, me abraza, me aprieta, le abrazo, le beso, me besa, juntos llegamos a las sábanas, al amor huidizo que dura mientras dure, aunque dure. Enseguida, coge su ropa, cojo la mía, dice cualquier cosa, escucho, yo en silencio, él también, un vaso de agua, el tiempo urge, hay que–, la despedida a la carrera, vete, vate, un abrazo por formalidad, a veces no hay beso en la mejilla, la calle, mi sudor, su olor, nuestras sensaciones. Me callo, se calla, me enredo, desaparece, vida/ vida/ vida/ vida/, escribe, escribo,

llama