quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

* cacto *

E, quando o efeito passou, não se sabe bem se pela manhã bem cedinho ou perto da hora do almoço, ouviu-se um ca-ta-bum tão discreto que nem parecia som. Um acorde perdido entre espanto e barulho de passos, canto de pássaros e fechaduras de passagens. Quando o efeito passou, ela virou mulher e ele voltou a ser menino. Ambos se olharam e, por fim, se viram. Enxergaram-se, ainda que previssem o susto. O desencanto. O deslocamento. O descompasso. O pequeno fio de abismo entre eles se transformou num penhasco de grandes proporções. Dez anos passaram num segundo – envelhecendo-a, rejuvenescendo-o, afastando-os.

Você dirá que, segundo a alma etc., segundo o coração etc., citará frases bonitas que justifiquem seu pensamento etc., mas você nem imagina. Você acha muitas coisas, porém, talvez, agora seja mais adequado manter o silêncio. Ou melhor: não intervenha nesse silêncio que se formou entre aqueles dois.

Não houve reencontro depois que o efeito passou. Ambos se desencontraram. De verdade. Desencontraram-se. Olhavam-se, mas não se viam mais. Ele via uma mulher mais velha. Ela via um garoto mais novo. Qualquer possibilidade entre eles parecia agora absurda, obscena, nada factível.

Ali, naquela praça, ela seguiu para a esquerda sem olhar para trás, apenas para dentro. Ele tomou a direita, também sem olhar para trás, somente para dentro. O choque, um ruído afetivo. Uma raiva miúda e repentina. Nó na garganta, um quase engasgo. Depois, a falta. A ausência, o vazio. Aquele pequeno vazio que sobrevive agudo como um pequeno cacto doméstico nos espaços interiores, mais íntimos, por anos a fio.

sábado, 11 de dezembro de 2010

meias

Se nós fôssemos palavras escritas com uma velha máquina de escrever, ele seria um borrão. Um “b” encharcado de tinta, as teclas “bo” batidas ao mesmo tempo, espatifadas na folha de papel, manchando o espaço entre as outras letras. Se nós fôssemos borboletas, ele seria uma mosca na parede – uma mosca displicentemente esmagada na parede. Se nós fôssemos dias, ele seria aquele mais nublado e cinzento, com chuvas encardidas e ventos gelados.

Em meio a tanta falta de cor, à insipidez de suas calças marrons e de seus suéteres pretos, à voz grave e indefinida, aos olhos caídos e desiludidos, lá estavam elas ousadas e pueris: suas meias coloridas. Cinza, marrom, negro, opaco, apagado, estático – todo um contraste com a alegria marota, com a bossa de suas meias. E ele fazia questão de misturar os pares, de ousar combinações. Por meio de suas meias, ele vivia a ousadia que lhe faltava no cotidiano, a coragem, a picardia, sua verdadeira revolução. Mas ainda que insistissem em carregá-lo para horizontes impensados, ele resistia. Ele resistia.

Se fôssemos, diante de seus olhos, homem e mulher, poderíamos viver o clichê de uma história de amor ou então partilharmos caminhos trôpegos traçados pela combinação entre pés viajantes e meias coloridas. Se fôssemos. Se um encontro fosse possível, ele não estaria tão cinzento, tão escuro, tão borrado. Ele seria uma mosca ressuscitada e tornada vagalume ou abelha. Mas ele preferia os desencontros, os lapsos, os abismos. E se escondia nas meias coloridas, quando sentia que correnteza da vida podia ser demasiado forte ou quando suas pernas teimavam em levá-lo de e para os mesmos lugares de sempre.

domingo, 24 de outubro de 2010

nuvem feito onda

No dia em que meu chão sumiu, uma nuvem gigante avançou feito onda céu adentro. Eu estava, em pé, no Largo da Carioca, sem saber para onde ir: se para outros braços, se para o mar de Ipanema, se a chorar aos pés de Santa Teresa, se jogar minha sorte nas ruazinhas da Urca. No dia em que meu chão sumiu, eu era simplesmente uma mulher sozinha tentando absorver o ir e vir de tanta gente. Uma paulistana em meio a arranha-céus cariocas, enxergando familiaridade nos desconhecidos, torcendo para que aquela nuvem engolisse minha tristeza. Afinal, ele acabara de telefonar: me desculpa, mas não quero mais te ver.

Tínhamos nos conhecido numa de suas breves passagens por São Paulo a trabalho. Foi numa livraria, durante o lançamento de um compêndio de filosofia. Entre taças de vinho, ignorando os escritores, engatamos uma conversa sobre nossas banalidades mais essenciais. Quando ele me levou para seu hotel, para ver da cobertura do edifício a cidade iluminada naquela madrugada fria e aí sim falarmos de nossas vãs filosofias, eu ainda não tinha decorado seu segundo nome nem ele o meu. Luís-alguma-coisa, carioca, conversa com Ana-tralalá, paulistana, sob um céu nublado universal. Houve um beijo, um daqueles beijos que valem por semanas de malabarismos de sedução, e nada mais. Nem precisava.

Rumei para casa, ainda em transe pela noite tão especial, retomando frases dele ditas com charme e sotaque como se tivesse na mente um gravador quebrado. Na manhã seguinte, ele voltou ao seu “pequeno paraíso de dois quartos em Copacabana, a três quadras da praia”, com a promessa de não desaparecer. Nas semanas seguintes, vieram telefonemas, e-mails, torpedos via celular, muitos suspiros, risadas e um CD, que chegou para mim na véspera de uma viagem dele para o exterior. Assim você não me esquece, ele disse. Era uma coletânea de choros, chamada “Noites Cariocas”. Junto, veio um bilhete: em cada faixa, imagina que eu te conduza por meus recantos preferidos no Rio.

Naquele mês sem qualquer notícia dele, ao som de chorinhos diversos, recriei uma Cidade Maravilhosa dentro de mim, só minha e dele, emprestando da memória fragmentos já opacos de uma viagem feita há tempos e recusando qualquer notícia vinda da realidade (blitz, mortes, morros, violência, arrastões). Comíamos bolinho de bacalhau nos botecos pés-sujos nas tardes de sábado, passeávamos de mãos dadas por Ipanema nas manhãs de domingo e assistíamos juntos a shows diversos nas casas noturnas da Lapa. Sempre que eu me perdia pelas vielas de Santa Teresa, ele me encontrava com um sorriso e me presenteava com beijos como aquele da primeira vez. No fim de tarde, tomávamos suco num quiosque da Lagoa Rodrigo de Freitas. Depois, seguíamos com nossas vãs filosofias e banalidades essenciais, entre um chope e outro na Cinelândia. O que seria de nós, Luís e Ana? E, na Toca do Vinícius, nos deliciávamos com os segredos desvendados pelos chorinhos todos. Eu quase me esquecia que vivia em São Paulo; pensava que ao virar a esquina da Paulista com a Consolação, fosse encontrar o Real Gabinete Português de Leitura. Que ao caminhar no centro, logo veria a igreja de São Francisco da Penitência. E que, ao sair do trabalho com o dia ainda claro, pudesse caminhar um pouquinho à beira-mar.

Já havia se passado mais de cinco semanas, quando me dei conta de que não tinha ideia se Luís já voltara do exterior. Os passeios imaginários pelo Rio de Janeiro, acompanhados pelas faixas do CD, haviam amortizado aquela saudade doída e permeada por um desejo crescente e sôfrego de tê-lo nos meus braços. Telefonei, deixei recados. Escrevi e-mails, mandei torpedos. Um silêncio do outro lado. Dúvidas: será que ele está bem? Ansiedade: será que ele conheceu alguém?

Alguns dias depois, recebi algumas linhas dele. Pedia desculpas pela demora em responder, dizia que mal voltara de férias e já lhe tinham entupido de trabalho. Talvez viesse a São Paulo em algumas semanas. Ah, o CD? Havia gostado? Que bom. E, nada mais, um beijo, boa sorte. O que me chamou atenção, aliás, como se fosse um berro no meio do metrô, foi o fato de ele ter começado o e-mail com “Querida Paula”. Eu, que era a “DoidivANA”, a “ANAlógica”, a “Mariú-ANA” e outras Anas loucas, me transformara na séria e compenetrada Paula, a srta. segundo nome, segundo escalão, mera desconhecida. O que teria acontecido ao Luís, o obscuro Alberto?

Comprei uma passagem para o Rio no ímpeto. Fiz as malas, entre afobada e desaforada, enquanto ouvia o CD horas a fio. A libido, que não dava trégua, misturava-se à indignação. Telefonei, deixei recados, escrevi e-mails, mandei torpedos avisando que eu estaria lá, diante dele, totalmente Ana. Ele não se manifestou. Viajei mesmo assim. E, no dia em que meu chão sumiu, saí do Metrô Carioca e ouvi-o falar, no celular: me desculpa, mas não quero mais te ver. Uma nuvem gigante avançou feito onda céu adentro. E me levou de volta a São Paulo, horas depois, sem sequer ter confirmado se aquele Rio de Janeiro, o das fantasias, existia mesmo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

~~ oceânica ~~

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.
Eu não: quero uma verdade inventada"
(Clarice Lispector)



Pois hoje, embora o sol não tenha se dado ao luxo de acordar cedo, consigo ver a linha do mar. Consigo ver o mar. Consigo me imaginar, oceânica e ondular, alcançando costas e continentes nunca antes tocados ou desbravados.

Pois já fui uma pessoa não-pessoa para um certo alguém-ninguém.
Pois já fui alma penalizada despenada, dispensada pelo simples fato de encantar alguém-ninguém desencantado.

Sonho baías, sonho encostar minha cabeça numa falésia aconchegante, sonho abraçar uma ilha-mundo. Oceânica, pois sim.

Pois me tornei um vento úmido e frio que ele espanta com álcool, flanela e fósforos.
Pois o que nunca soube me falar agora solta feito mariposinha de verão: e que mulher você é, que mulher.

Pois nunca fui uma “que mulher”. Fui uma pessoa despessoalizada, despersonalizada por um sentimento peçonhento de alguém-ninguém medroso e vaporoso.
Pois nunca estive ali, naquele recanto quente com os olhos cinzentos voltados para mim. Pois sempre estive cinza, ainda que colorida e quente, diante daqueles olhos que não enxergavam futuro em mim.

Hoje, entre identidades, identificações, passaportes e tarjeta de extranjera, tento recuperar o prejuízo que aquele alguém-ninguém provocou em minha alma tão humana e tão feminina. Por isso, quero entregar-me à pessoalidade – de mim, de si, do mar.
Por isso, não mais alguéns e sim homens.

Para um homem, uma mulher.
Para um alguém-ninguém, nada. E não no meu mar.

sábado, 18 de setembro de 2010

expurgo

"E eu vim-me embora, meu Deus, eu vim-me embora."
Lixo e Purpurina, Caio Fernando Abreu




Hoje não tem beijo. Nunca mais vai ter. Não olho para trás, mas minha nuca o observa sorrateiramente. Ele ainda está lá, em pé, olhos baixos, ombros caídos. Sua prepotência contrasta com aqueles malditos ombros caídos. Agora constato: ele parece um armário mal-acabado. Um armário de cores pálidas, bloco compacto sobre duas palafitas. Ele fica lá, em pé. Ele espera a outra. Ele nem se importa mais em disfarçar. Não, me disse, devorando um bolo de chocolate – porque ele adora doce, porque ele se empanturra de doce para não se empanturrar de sentimentos, porque ele é feito de pedra e de pavor – não, não quero pertencer a ninguém. Então, antes de você, depois de você, antes das 20h, durante as 20h, depois das 20h, sempre haverá alguém. Uma outra, qualquer outra. Assim como você é uma-qualquer-você. Uma pessoa, diz ele ao telefone à outra, estou com uma pessoa. Naquele momento, diante daquele homem com uma horripilante e minúscula baba de desprezo escorrendo do lábio fino e encardido, naquele exato momento, não sou nada além de uma pessoa. Uma pessoa desprovida de pessoalidade, sem cheiro, sem sexo, sem suco, sem sangue. Uma pessoa-rubrica, um nada-pessoa.


Hoje não teve beijo nem nunca mais haverá. Não olho para trás, mas sei que ele permanece em pé, derrubando ainda mais os ombros, como se não suportasse a própria prepotência. Em dois, três segundos, tudo estará acabado, quando eu cruzar aquela porta, quando a outra chegar, talvez antes até, quando ele se sentar, tudo estará acabado. Definitivamente. Não, eu não olho para trás, mas minha nuca revela que ele procura migalhas sobre a mesa, que ele sente um certo desconforto, que o relógio marca um atraso que não deveria acontecer: o ponteiro já deveria ter avançado à hora seguinte, mas teima em girar em torno do traço anterior. Um traço-pessoa, um apêndice de qualquer coisa que deveria ter ficado dentro do armário.


Não guardo mais beijos, todos ressecaram, todos estragaram, cheios de carunchos, cheios de vazios, cheios de cansaço. Lavo desesperadamente meus lábios que quase tocaram aquela baba repugnante que pingava daqueles lábios finos e cínicos. Lavo desesperadamente as mãos que quiseram investigar as ranhuras daquele armário blindado. Lavo meu corpo, esfrego até sangrar todas as partes que roçaram o não-corpo daquele não-homem. Sangro, sangro doidamente, doídamente, sangro infelicidades dormentes, mas sangro humanamente até me expurgar.


Se eu pudesse, quebrava aqueles malditos ombros caídos para eles nunca mais derrubarem alguém. Se eu pudesse, arranhava aquelas infames palafitas que sustentam inverdades e sarcasmo. Se eu pudesse, ah, se eu pudesse, eu empurrava de volta toda a crueldade vomitada por aqueles odiosos e repugnantes lábios finos.



Tenho muito nojo.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ah, esse som esse suor esse sumo que escorre de você direto direito diametralmente perfeito Ah, esse sim esse sei esse a gente o tudo o nada agora e depois Ah, quanto quando quase creme acinzentados doces esses olhos sua minha sim minha boca rósea rósea e túrgida Ah, as costas as pernas as coisas apenas porém tão e tão Ah, as mãos a respiração sua versão minha tentação nossa vamos voz vez de novo Ah,

Ah

Ah

Ah

domingo, 12 de setembro de 2010

rascunho

tinha algo fora de lugar naquele quadro de cores fortes e uso tão adequado de luz, com dois personagens bonitos, embora imperfeitos em seus traços, diferentes mais aparentemente condizentes, tudo em perfeita harmonia: eles, o ambiente, as cores, a luz, o então, o desejo, os olhares, os sorrisos, o antes, o durante, o tempero, até as entrelinhas. mas tinha algo que faltava, tinha sim. àquele quadro tão interessante, do qual se podia dizer um quase-começo de uma quase-história de um quase-amor, faltava profundidade.

fugidios

Haveria de encontrar uma epifania escondida naquele estar-ali. Estar-ali com ele. O sol continuava em seu lugar, as ruas reluziam de alegria simples de existir. No ar, misturavam-se cheiros: cigarro, fuligem, perfume, fritura, doce, poluição, suores e hálitos. Muitos hálitos. A vida seguia normalmente, às vezes esperando o sinal verde para atravessar a faixa de pedestres. Ou freando no vermelho, se estava muito acelerada.
A epifania. Onde estaria?
Houve um relampejo de algo precioso. Um relampejo apenas, em meio à floresta onde o caçador gaguejava para si mesmo a vitória de ter laçado sua mais almejada presa. A presa não se sentia presa, sentia-se livre, selvagem, dona de si. Num pequeno momento, caçador e presa foram apenas dois seres humanos unidos por um desejo de lançar-se juntos a algum voo especial. Um desejo que não se consumou.
Estar-ali.
Talvez a epifania se encontrasse justamente encravada no estar-ali, naquele momento, naquela partilha diáfana e fugidia, naquela partilha que queria a todo momento escapar daqueles dois, um tão preocupado (com a caça), outra tão despreocupada (com ser presa). O ter-estado-ali, na intensidade de todos aqueles segundos, foi o que de mais belo poderia ter acontecido àqueles dois. Sim, ela concordaria, aí residiria a epifania.
Encontrara-a, por fim!
Ele voltaria à floresta, ao caçar. Satisfeita com aquela miúda descoberta, ela velejaria além-mar.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

La ra la da

Lara, doce Lara, andava no meio-fio, cantava a meia-voz, dormia no meio da cama e sempre estava onde dizia estar. Lara ralava cenouras enquanto meditava sobre ramos, amoras, amores, aromas, marolas – sua vida, enfim. Lara refletia sobre o nada – sabia que “nada” em bósnio (ou croata, ou sérvio) significa “esperança”? Em bósnio, nada é tudo. E tudo era justamente o nada (em bósnio) que Lara desejava. Ali estava Lara, à beira mar, na beirada das rotas e dos rumos alheios, sempre buscando uma trilha selvagem-miragem. Ah, Lara, suspirava ela para si mesma e para as joaninhas dos matos adentro, das flores afora. Ah, Lara clara, Lara escura, Lara amendoada, Lara escondida, Lara cindida. Coragem, Lara, caramelo chinelo chave chuva luva lava Lara. Laura laureada no aprender.


Dia desses, Lara assim, Lara assado, Lara saiu para passear e não voltou mais cedo, mas mais tarde. Descobrira, por fim, que era a autora e a personagem de sua própria história. Porém, não a revisora. E isso era muito, muito bom. Sus sur rou La ra la da.

sábado, 31 de julho de 2010

gota

Insondável e indomável, inventava dócil e vagarosa o momento em que ele se lançaria decidido na imensidão que ela julgava oferecer. Sem volta.

Snezana e o Homem de Pedra

Ela se chamava Snezana, “Branca de Neve” em sérvio. Mas ela poderia se chamar também Meryem, “Maria” em turco, ou Francesca, “Francisca” em italiano. Seja o que for, Snezana era Snezana. E ela é a personagem dessa historieta.

Snezana era intensa e densa, era rosada e quente, bem diferente de seu nome pueril e um tanto frio. Ela saltava para dentro ou para fora com um impulso digno de uma atleta; mas em vez de preferir as pistas de areia, ela praticava seu esporte nos relacionamentos, especialmente os amorosos. Snezana se entregava com o mesmo ímpeto com que desistia; vivia narrativas inteiras, com começo, meio e fim, independentemente de seu parceiro em questão. Ele podia ser omisso, insensível, apaixonado ou o último dos românticos desesperados, mas Snezana trilhava dócil seu caminho singular: um salto para entrar, outro salto para sair. Não havia nunca volta: tudo era tão intenso e tão denso, tudo acontecia tanto naquele curto espaço de tempo em que o corpo ficava no ar e a alma alcançava uma trajetória curvilínea tão próxima e tão distante do infinito, que nenhum homem tentava retomar o relacionamento desde o início. Porque já havia provado um fim. Ou porque Snezana já o havia enterrado há muito tempo. Ou porque as cartas haviam envelhecido sobre a mesa, tesas, sóbrias, insolúveis. Xeque-mate. Na rainha ou no rei?

O último desses saltos de Snezana aconteceu faz pouco. Ela achara que havia encontrado alguém com a leveza adequada para seu momento esvoaçante, embora sempre denso e solene e veemente. Mas, na verdade, se deparou com o Homem de Pedra. Ele era leve, sim, apesar do peso do nome, e também objetivo e direto. Mas era duro, duro, duro. Era seco. Não tinha coração. Não era mau ou cruel, mas tampouco era sensível ou gentil. Não era. Enxergava Snezana como uma fêmea desprovida de singularidades: se a prova de toque confirmasse “mulher”, estava tudo bem para ele. Ele não queria conversas; aborreceu-se ao terceiro encontro, de novo conversa furada?, nem se importou com os beijos trocados. Como um super-herói dos tempos contemporâneos, ele dominava todos os sistemas de siglas secretas e anglicismos com maestria, não sofria com as mazelas cotidianas, tinha força de sobra e não queria nada mais elaborado do que sexo. Com as necessidades básicas satisfeitas, poderia salvar o mundo. Não o mundo de Snezana, nem o mundo de sudaneses, palestinos ou afegãos. Um certo mundo, válido provavelmente, mas com outras perspectivas.

Snezana saltou quando o Homem de Pedra já se preparava para sair. Aliás, ele saiu sem dizer “tchau”, deu de ombros e não respondeu ao último alô de Snezana. O fim da história para nossa personagem precisou ser acelerado, já que ela até que estava acreditando que um dia o Homem de Pedra viraria gente de novo. Fim, enfim. De novo.

E Snezana segue muito mais esperta e menos iludida que sua homônima dos contos infantis. Come maçãs sem nenhum problema e desconfia dos anões sentimentais que cruzam seu caminho. Tem pedido para os aspirantes a príncipe ou a super-herói deixarem currículo com carta de motivação, mas nem os lê. Passa os dias colhendo fagulhas de sol e exercitando seus saltos. Mas um dia, ela sabe, precisará se aposentar e escolher um canto para não mais abandonar.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

...

Às vezes, quando caminhava pela Avenida Paulista, contava as graminhas teimosas que quase surgiam nas beirinhas das calçadas. As beirinhas. Quase. Graminhas teimosas. Na Avenida Paulista. Às vezes. Quando, quando. Caminhava e contava.

Os pensamentos diversos, universos, eram todos um incremento de seu momento de suspiros e voos. Voos voados, voos planejados, voos caminhados. Tanta gente gente gente, tantas fagulhas de histórias misturadas num instante preciso: dá-lhe, já! A noite de ontem, a conta de hoje, o almoço de amanhã, a escola dos filhos, a escolha dos pais, a escada dos avós, a escama dos peixes, a esquisitice dos chefes, a exuberância dos amantes, a gravata de presente, a gravação do parente, a cirurgia e o paciente, o passo, o piscar, o pisoteio singelo nas graminhas teimosas que quase surgiam nas beirinhas das calçadas.

Ah, gemia gostando, ela equilibrava-se nas beirinhas das calçadas da sistema-sufocado-sugador, na beirinha quase caindo, nas beiradas das convenções, na beirada do edifício do amor: pulo ou não pulo. De que amor estamos falando?

Ah, um pequeno vaziozinho ao notar que ele desistiu logo que constatou que ela contava graminhas, que ela acumulava graminhas, que ela andava pelas beirinhas, enxergando e ouvindo coisas que ninguém mais sabia. Porque ele não entendia. Ele desistiu porque não entendeu. Ao não entender, não quis saber. Não quis arriscar. Não quis acompanhar a mocinha risonha em suas caminhadas pela Avenida Paulista. Tinha mais o que fazer: outras garotas, outros advérbios, outras praticidades. Sem tempo para graminhas. Sem coragem para beiradinhas. Sem vontade para ela. Então, tá.

Às vezes, quando circulava por São Paulo, observava a mudança de estação pela janela do ônibus e contava os sorrisos teimosos que quase escapavam dos transeuntes distraídos. Distraída, transeunte. Sorria. Mudava, mudava. Às vezes. Estação circular. Paulo. Ônibus. São... teimosos? Escapava.

domingo, 27 de junho de 2010

coisas que esquecemos pelo caminho

Entre os sentimentos em desuso, amontoados num canto do coração, sentimentos esquecidos sob a luz escura dos fundos, alguns com certa poeira, outros com certo desdém, encontrei aquela ternura com caimento quase perfeito que descobri, em meio a poesias e exemplares da arquitetura franco-árabe, em 2006. Comíamos pistaches – não tão bons quanto os de Istambul – e falávamos de amor. Beijamo-nos em La Goulette, vendo o mar, o céu estrelado, promessas de um novo mundo. Perdida, entre quereres e decepções, entre ausências e silêncios alheios, estava a lembrança daqueles olhos azuis que me tiravam do anonimato e me nominavam: mulher. Talvez eu já tenha encontrado aquele cujo encaixe parecia exato, embora não fosse totalmente; mas, na imperfeição doce de nossas identidades, nos encontrávamos com nós mesmos e um com o outro. Ele, contudo, me enchia de porquês enquanto o que eu mais queria era desfrutar daquelas pequenas descobertas sensoriais que vinham à tona quando estava lá, a seu lado. Por fim, deu a lógica: eu aqui, ele... quem sabe. Sou eu quem guarda essa pequena trança colorida, iniciada em 2001, retomada em 2006 e ainda inacabada. No fundo do armário, quase mofada, sem utilidade definida.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

pequetita

(dos tempos de criança, mfv)

Era pequena, tinha bonecas, mas gostava mesmo de brincar com cotonetes. Ou o genérico bastonetes de algodão, tanto faz. O careca era o príncipe; a de cabelo comprido, a princesa. Às vezes, com o batom de mamãe, tornava a criada ruiva. Passava pasta no outro, fazia o irmão punk da alteza. Se esfregasse o algodãozinho no pó compacto, logo criava a moça má, que queria roubar o príncipe da princesa. O lago, formado por uma poça de água misturada a talco no tampo de vidro da mesinha da sala de estar, era turvo e tenebroso. Brincos e pulseiras faziam as plantas, as pedras, os pássaros. Já havia melancolia ali, naquela singela brincadeira de criança. Por mais felizes que as histórias terminassem, meus personagens nunca estavam 100% felizes. (Um moço me pergunta hoje: é possível ser 100% feliz? Uma moça me pergunta hoje: você consegue ser 100% alguma coisa?) Mas meus singelos bastonetes de algodão tampouco eram 100% infelizes. Eram melancólicos e solitários, ainda que a princesa ficasse com o príncipe no final, que a criada ruiva quebrasse padrões e se casasse com o punk, que a moça má virasse boa e criasse patinhos no lago turvo. Quando meus cotonetes se davam conta de que não passavam de bastonetes de algodão na mão de uma criança, bastonetes alijados de sua função primordial – limpar orelhas –, quando se viam sonhados, personificando personagens fictícios, davam-se conta de sua miséria coisífica, de sua pequenez no universo de existências tão imensas e importantes, de sua inutilidade, de seu carisma passageiro. Porque essas histórias sempre tinham um fim, o fim sempre estava próximo: é hora de ir à escola, (meu nome). (Meu apelido), jogue essas coisinhas no lixo, lave a mão e venha almoçar. E eu, naquela altura do campeonato soltando um suspiro longo, longo, fundo, fundo, mais melancólica e solitária que aqueles meros bastonetes sujos já sem condições de limpar a cera do ouvido, me dava conta – com as boas limitações de uma mente e um coraçãozinho infantis – de que eu era apenas uma criança que cresceria um dia, teria dúvidas filosóficas angustiantes, tais e quais às dos cotonetes, que ainda encontraria muitos laguinhos turvos pela frente e que talvez vivesse aquelas tais histórias de amor, sem a certeza de que terminariam bem.

sábado, 12 de junho de 2010

manjar branco

Diana apertou a mão de Clara, que retribuiu com um sorriso. Ambas imaginavam céus e sonhos no teto branco do quarto ainda mais branco em que Clara estava internada.
Te amo.
Nem os tubos, nem as cicatrizes, nem as manchas de relações passadas e ignóbeis causavam algum tipo de repulsa em Diana.
Te amo.
Os olhos oblíquos e aguados, agora opacos, outrora vívidos, de Clara retribuíram docemente os choros e a entrega de Diana. Não precisa dizer nada. Sinta, sinta, sinta que eu sinto, sinto, sinto também.
Impossível precisar quandos, comos e porquês. Uma tinha marido; a outra, uma agitada lista de parceiros casuais. Uma vivia entre violetas e begônias, distâncias e ausências; a outra lutava contra a escuridão torpe que, de vez em muito sempre, invadia armários, gavetas, malquereres e não-fazeres. No tempo elástico dos inícios, quando o amor ocupa pequenas brechas e deixa os minúsculos indícios, já instalado em ambos os lados, Clara se aconchegou no ombro dolorido de Diana e chorou suas feridas. As visíveis e as invisíveis. Ocorreu à Diana acariciar as mãos da amiga, tocar seu rosto, sorrir triste e cúmplice. Clara suspirou profundo, aproximou seus lábios daqueles outros lábios, e em segundos ambas se olharam extremas. Corajosas, mas reticentes, carentes e decididas, lançaram-se. Lançaram-se sem pensar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. E não tinha mais como deixar de ali estar, naquele aconchego maduro e pleno de afeto, um mundo de janelas, jardins e ar fresco, de dois seres que se compreendiam muito bem. Extremamente bem.
Diana apertou ainda mais a mão de Clara, com uma delicadeza imensa, com uma presença intensa, mas apenas fiapos de uma existência agora fugidia conseguiram captar aquele gesto desesperado e dolorido de uma mulher em plena explosão de amor. Clara já se despedia daquele quarto branco, daquele teto branco, do sabor do manjar branco que Diana preparava quando queria fazê-la sorrir.
Com calda de ameixas...
Diana encostou seu rosto no de Clara para não perder um murmúrio que fosse. Já não havia mais quase cor no rosto de traços firmes, sobrancelhas grossas, longos cílios. Com calda de ameixas – desenhou Clara no ar, com dificuldade, com sonoridade, com a discrição das formigas miúdas. Diana chorava com ternura e dor, captando qualquer movimento daqueles lábios queridos, e concordando: é claro, um manjar com calda de ameixas. Para nós duas. Inevitavelmente, uma parte dela, Diana, ficou ali, naquela tarde, naquele quarto, naquele branco todo insosso, impávido talvez, muito distante dos dias felizes. Com calda de ameixa, Clara, com muita calda de ameixa.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

entre ela e o além-ela

(Pintura de artista de St.Brieuc, França)


Entre ela e o portão, muitas, muitas ratoeiras, armadilhas, arapucas, várias arapucas, plantas carnívoras, objetos pontiagudos, facas, pregos, areias movediças, fossos profundos, tubarões famintos, pedras incandescentes. Entre ela e o portão. Ou poderia ser entre ela e o portal, a janela, a linha, a fronteira, a muretinha, não importa. Entre ela e o limite dela, uma série de obstáculos perigosos e daninhos, pegajosos e desestimulantes, totalmente irritantes. Entre ela e o além-ela, um muro maior que o de Israel na Cisjordânia. Maior que a pedra no meio do caminho de Drummond. Maior até que o dilúvio na época de Noé.

A tralha, o monte de lixo, restos de restos, sobras de sobras, tudo isso foi se juntando ao longo do tempo, entre os ensaios de sair ou não sair, deixar entrar ou não deixar entrar. E o limite dela foi alargando, alargando, embora ela se enroscasse num casulo cada vez menor. Apertadinho. E, então, para atravessar todos esses desafios farsescos, saltar a Muralha da China, o arame farpado e a cerca elétrica da prisão de segurança máxima (de sua prisão privada de segurança máxima), precisava mais que uma corda, um bote, um jato, uma vara, asas de Ícaro, fios de Ariadne: precisava de um homem que lhe desse um voto de confiança. E a quem ela também lhe pudesse dar o seu. Con-fi-an-ça. Entre ela e o homem, o portão. E toda, toda, toda aquela montanha de nãos.

palavras sem cabimento

Dias e mais dias escrevendo a fio. Escrevendo tudo, de tudo, sobre tudo. Escrevendo receitas médicas, listas de supermercado, diários meus e de outros, cartas de amor e de desamor, textos acadêmicos e jornalísticos, histórias, fábulas, recadinhos para mim mesma, devaneios, desabafos, nomes de ruas, números de telefones, títulos de livros para não esquecer. Escrevendo e escrevendo dias e dias a torto e a direito, no avesso da carta, no vão da porta, na parede, na meia-calça, no papel higiênico.
Anos.
Me dei conta nesses dias e dias de escrita infinita que há anos escrevo uma história cujo fim não vou terminar de compor. Palavras, pequenos excrementos de meu ser marginal.

Mas a vida não cabe inteira nas palavras, sabe.
As palavras são imberbes diante do mundo, diante de mim. São inexatas. São indecorosas, são audaciosas, mas não carregam a vida inteira nelas, não.

Me perco de propósito das palavras quando acho que elas querem dizer mais do que realmente eu sei. Do que sinto. Do que salto. As palavras jamais subiriam um pico nebuloso e e se jogariam lá do alto. Fariam rima, é certo, riso talvez, mas não dariam conta de toda a imensidão desse universo compactado dentro de mim. As palavras se perdem cá dentro quando minhas sensações tocam o chão e o céu, quando me encego, me ensurdo, me emudo, emismemada – inventando neologismos e emprestando os que não são meus.

Meu Deus.
Por que então tanta escritura?
Deus tampouco cabe nas palavras que Ele mesmo ditou. Nas maiúsculas, nas minúsculas. Toda palavra é imperfeita. E eu fico aqui escrevendo, escrevendo, escrevendo, como se esse inconcebível quebra-cabeças fosse solucionar todos os meus problemas de coração. Mas vai, sim: escrever é minha humilde e datilografada salvação.

Tudo se escreve e me descreve: ela desfia, tece, costura, cozinha, pinta, borda, lambe, cospe, enrola, amassa, assa, passa, lima, pica, corta, estica, exala... tantas palavras quantas forem necessárias para se viver. Ela sou eu. Agarrei-me aos verbos, seduzida pelos adjetivos.

E continuo em minha febre de escrever tanto tudo todos em qualquer lugar tentativas, perseguindo a fragrância inexata que “certa palavra deixou no espaço que ocupou em determinado instante” como um profeta, um detetive, um legista, um geólogo, um obstetra, um atleta, um presidente, um crente, eu mesma silenciosa e aturdida.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

fabulinha fabulosa

A porta estava muito bem trancada. As janelas, implacavelmente fechadas. Nem fechaduras havia para não dar margem à invasão. Como é que o Ar novo entrava, então? Pelas frestinhas do tapete, do colete, das torneiras e dos ralos. Ar novo é sujeito teimoso, petulante, adora fazer cosquinhas nos calos. E Medrosinha, dia desses, estava lá, bem menos encapsulada, mas ainda tão escondida, garota bonita largada, displicente até com os próprios dentes. E, incerto mas esperto, Ar novo mal entrou e logo começou com as cosquinhas. Ai, meu Deus, tremia Medrosinha! O que vem por aí, o que será? Às vezes, Ar novo trazia vírus; em outras, notícias de Shangri-lá. Carregava esperanças, fragrâncias, mosquitos e sentimentos esquisitos. E foi assim que o “Invasor” chegou, de carona com um sabor, que o Ar novo espertamente para dentro empurrou. Veio bem devagarzinho e se chamava – olha que fofo – Amorzinho. Discreto e quieto, Amorzinho andava com as pontas dos pés. Queria surpreender Medrosinha, mas sem recorrer aos fáceis cafunés. Só que havia um porém: Amorzinho era invisível, parecia com ninguém. Mas também era surdo às desculpas que Medrosinha sabia usar tão bem.

Vou lhe contar que no início, ai que difícil, foi um jogo de esconde-esconde. Cheio de trombadas de bonde, ou película de espionagem: com direito a autossabotagem (de Medrosinha) e tentativa de ultrapassar a linha (Amorzinho). No entanto, aos pouquinhos, parece que o espanto virou encanto: deixemos de ser crianças, vamos nos dar um voto de confiança! Tudo podia soar perigoso, Medrosinha em pânico se via; mas Amorzinho era jeitoso e de conquistas ele bem sabia. A entrega foi poética e lenta, e esta que lhe conta tampouco é isenta. Foi lindo, muito lindo, ver esse encontro acontecer. Como sair de uma rota escura para, enfim, provar uma relação madura. Medrosinha de nome mudou; sabe-se Mulher em plenitude. Dentro dela, Amorzinho se instalou: no corpo, na alma, na atitude. Sempre é hora do Ar novo na vida circular; esta que lhe escreve ainda vai experimentar. Um suspiro, dois suspiros, tento a porta destrancar: oi, oi, você está me ouvindo, sr. Ar?

sábado, 5 de junho de 2010

* baú *

— Você ainda se comporta como adolescente.
Susto.


Falávamos sobre o amor.
Nem fazia uma semana que eu havia me deparado com um pequeno grupo de fios brancos, escondidos na parte posterior da cabeça, acima da nuca.


— Adolescente?
Olhos fixos e perdidos nas pernas estendidas sobre o banquinho. Pernas tortas de menina com o peso dos anos de uma mulher.


Falávamos sobre o amor. E eu sabia que ela tinha razão.
Que, ao andar sozinha, opção inconsciente mas tão confortável, eu avançara até subterrâneos e horizontes impensados de mim mesma, do universo a meu redor. Porém, nesse contato estreito com o homem, genérico do gênero masculino, talvez houvesse mesmo parado no passo seguinte à descoberta da alteridade. Susto. Uma mínima, quase imperceptível entrega, e logo o recolhimento. Não me movo de mim. Passo películas na qual sou a protagonista, acho que me apaixono, acho que sofro, acho que partilho, que interajo, que me transformo, tudo tão intenso. Nada, contudo, se passa. Não me movo de mim. Os tumultos e as ondas se limitam à superfície, enquanto vejo tudo lá do fundo, no silêncio absoluto, na solidão impassível.


Falávamos sobre o amor.
E eu contava e recontava mentalmente aqueles fios brancos, encontrados ao acaso, tão bem instalados acima da nuca. Achava aquela minha indiferença petulante tão madura, mas ela repetia: adolescente.


Enquanto ela falava, eu recontava meus anos.
Naquele instante, lembrei-me dele. Pareceu obsceno demais para minha ingenuidade amorosa. Pareceu um velho baú enterrado no fundo do mar, bem ao lado de onde eu estava, soltando pequeninas bolhas de ar entre os cardumes enquanto esperava o barco lá de cima se afastar. O baú de tesouros atiçava a curiosidade da garota, mas a mulher de cabelos brancos já não tinha mais forças para abri-lo. Ele sempre ao meu lado, discreto, quieto. Amigo.


Talvez eu tenha nascido amorosamente velha, já cansada dos mergulhos. Fui logo para o fundo e lá me conformei.
— Uma velha com comportamento adolescente?


E por conta desse descompasso temporal que provocava um vácuo justamente no presente, pensei em subir devagarzinho à superfície, soltando o ar e as desilusões devagarzinho, a fim de evitar uma embolia no corpo e na alma. Eu sabia que o baú também se moveria, em seu ritmo, no momento em que tinha de ser. E partilharia seus tesouros.


Porque ser madura significa igualmente aprender a navegar: também posso me mover de mim, sem me perder.


adieu, les enfants!

Garota moça mulher feminina fêmea, sim.
Mas, por opção, desilusão ou decepção, assexuada.
O fato é: o gênero oposto já não me interessa em nada.

Foi assim:
Um dia, bom dia, acordei e senti: não há mais espaço para um homem aqui.
Na cama no caminho no carinho no corpinho na chama na vida. Em mim.
Era assim um desgostar tranquilo, um sem-gostar. Um deixa-estar-para-lá.

Bem longe. Fiquemos todos bem longe.

Não tinha nada de rebeldia revolução mudança lesbianismo ou santificação. Não.
Era, simplesmente, um desgostar e um desligar normais. Hoje-constatei-sem-surpresa-que-de-homens-não-gosto-mais. E ponto. Sem reticências nem anuências.

Nada ia mesmo acontecer – agora é que não acontece mesmo.
E, com uma a menos para farejar os parcos espécimes disponíveis, a mulherada até que ficou contente. Desvarios compreensíveis...


p.s.: e eu tô falando sério.