sexta-feira, 30 de julho de 2010

...

Às vezes, quando caminhava pela Avenida Paulista, contava as graminhas teimosas que quase surgiam nas beirinhas das calçadas. As beirinhas. Quase. Graminhas teimosas. Na Avenida Paulista. Às vezes. Quando, quando. Caminhava e contava.

Os pensamentos diversos, universos, eram todos um incremento de seu momento de suspiros e voos. Voos voados, voos planejados, voos caminhados. Tanta gente gente gente, tantas fagulhas de histórias misturadas num instante preciso: dá-lhe, já! A noite de ontem, a conta de hoje, o almoço de amanhã, a escola dos filhos, a escolha dos pais, a escada dos avós, a escama dos peixes, a esquisitice dos chefes, a exuberância dos amantes, a gravata de presente, a gravação do parente, a cirurgia e o paciente, o passo, o piscar, o pisoteio singelo nas graminhas teimosas que quase surgiam nas beirinhas das calçadas.

Ah, gemia gostando, ela equilibrava-se nas beirinhas das calçadas da sistema-sufocado-sugador, na beirinha quase caindo, nas beiradas das convenções, na beirada do edifício do amor: pulo ou não pulo. De que amor estamos falando?

Ah, um pequeno vaziozinho ao notar que ele desistiu logo que constatou que ela contava graminhas, que ela acumulava graminhas, que ela andava pelas beirinhas, enxergando e ouvindo coisas que ninguém mais sabia. Porque ele não entendia. Ele desistiu porque não entendeu. Ao não entender, não quis saber. Não quis arriscar. Não quis acompanhar a mocinha risonha em suas caminhadas pela Avenida Paulista. Tinha mais o que fazer: outras garotas, outros advérbios, outras praticidades. Sem tempo para graminhas. Sem coragem para beiradinhas. Sem vontade para ela. Então, tá.

Às vezes, quando circulava por São Paulo, observava a mudança de estação pela janela do ônibus e contava os sorrisos teimosos que quase escapavam dos transeuntes distraídos. Distraída, transeunte. Sorria. Mudava, mudava. Às vezes. Estação circular. Paulo. Ônibus. São... teimosos? Escapava.

domingo, 27 de junho de 2010

coisas que esquecemos pelo caminho

Entre os sentimentos em desuso, amontoados num canto do coração, sentimentos esquecidos sob a luz escura dos fundos, alguns com certa poeira, outros com certo desdém, encontrei aquela ternura com caimento quase perfeito que descobri, em meio a poesias e exemplares da arquitetura franco-árabe, em 2006. Comíamos pistaches – não tão bons quanto os de Istambul – e falávamos de amor. Beijamo-nos em La Goulette, vendo o mar, o céu estrelado, promessas de um novo mundo. Perdida, entre quereres e decepções, entre ausências e silêncios alheios, estava a lembrança daqueles olhos azuis que me tiravam do anonimato e me nominavam: mulher. Talvez eu já tenha encontrado aquele cujo encaixe parecia exato, embora não fosse totalmente; mas, na imperfeição doce de nossas identidades, nos encontrávamos com nós mesmos e um com o outro. Ele, contudo, me enchia de porquês enquanto o que eu mais queria era desfrutar daquelas pequenas descobertas sensoriais que vinham à tona quando estava lá, a seu lado. Por fim, deu a lógica: eu aqui, ele... quem sabe. Sou eu quem guarda essa pequena trança colorida, iniciada em 2001, retomada em 2006 e ainda inacabada. No fundo do armário, quase mofada, sem utilidade definida.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

pequetita

(dos tempos de criança, mfv)

Era pequena, tinha bonecas, mas gostava mesmo de brincar com cotonetes. Ou o genérico bastonetes de algodão, tanto faz. O careca era o príncipe; a de cabelo comprido, a princesa. Às vezes, com o batom de mamãe, tornava a criada ruiva. Passava pasta no outro, fazia o irmão punk da alteza. Se esfregasse o algodãozinho no pó compacto, logo criava a moça má, que queria roubar o príncipe da princesa. O lago, formado por uma poça de água misturada a talco no tampo de vidro da mesinha da sala de estar, era turvo e tenebroso. Brincos e pulseiras faziam as plantas, as pedras, os pássaros. Já havia melancolia ali, naquela singela brincadeira de criança. Por mais felizes que as histórias terminassem, meus personagens nunca estavam 100% felizes. (Um moço me pergunta hoje: é possível ser 100% feliz? Uma moça me pergunta hoje: você consegue ser 100% alguma coisa?) Mas meus singelos bastonetes de algodão tampouco eram 100% infelizes. Eram melancólicos e solitários, ainda que a princesa ficasse com o príncipe no final, que a criada ruiva quebrasse padrões e se casasse com o punk, que a moça má virasse boa e criasse patinhos no lago turvo. Quando meus cotonetes se davam conta de que não passavam de bastonetes de algodão na mão de uma criança, bastonetes alijados de sua função primordial – limpar orelhas –, quando se viam sonhados, personificando personagens fictícios, davam-se conta de sua miséria coisífica, de sua pequenez no universo de existências tão imensas e importantes, de sua inutilidade, de seu carisma passageiro. Porque essas histórias sempre tinham um fim, o fim sempre estava próximo: é hora de ir à escola, (meu nome). (Meu apelido), jogue essas coisinhas no lixo, lave a mão e venha almoçar. E eu, naquela altura do campeonato soltando um suspiro longo, longo, fundo, fundo, mais melancólica e solitária que aqueles meros bastonetes sujos já sem condições de limpar a cera do ouvido, me dava conta – com as boas limitações de uma mente e um coraçãozinho infantis – de que eu era apenas uma criança que cresceria um dia, teria dúvidas filosóficas angustiantes, tais e quais às dos cotonetes, que ainda encontraria muitos laguinhos turvos pela frente e que talvez vivesse aquelas tais histórias de amor, sem a certeza de que terminariam bem.

sábado, 12 de junho de 2010

manjar branco

Diana apertou a mão de Clara, que retribuiu com um sorriso. Ambas imaginavam céus e sonhos no teto branco do quarto ainda mais branco em que Clara estava internada.
Te amo.
Nem os tubos, nem as cicatrizes, nem as manchas de relações passadas e ignóbeis causavam algum tipo de repulsa em Diana.
Te amo.
Os olhos oblíquos e aguados, agora opacos, outrora vívidos, de Clara retribuíram docemente os choros e a entrega de Diana. Não precisa dizer nada. Sinta, sinta, sinta que eu sinto, sinto, sinto também.
Impossível precisar quandos, comos e porquês. Uma tinha marido; a outra, uma agitada lista de parceiros casuais. Uma vivia entre violetas e begônias, distâncias e ausências; a outra lutava contra a escuridão torpe que, de vez em muito sempre, invadia armários, gavetas, malquereres e não-fazeres. No tempo elástico dos inícios, quando o amor ocupa pequenas brechas e deixa os minúsculos indícios, já instalado em ambos os lados, Clara se aconchegou no ombro dolorido de Diana e chorou suas feridas. As visíveis e as invisíveis. Ocorreu à Diana acariciar as mãos da amiga, tocar seu rosto, sorrir triste e cúmplice. Clara suspirou profundo, aproximou seus lábios daqueles outros lábios, e em segundos ambas se olharam extremas. Corajosas, mas reticentes, carentes e decididas, lançaram-se. Lançaram-se sem pensar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. E não tinha mais como deixar de ali estar, naquele aconchego maduro e pleno de afeto, um mundo de janelas, jardins e ar fresco, de dois seres que se compreendiam muito bem. Extremamente bem.
Diana apertou ainda mais a mão de Clara, com uma delicadeza imensa, com uma presença intensa, mas apenas fiapos de uma existência agora fugidia conseguiram captar aquele gesto desesperado e dolorido de uma mulher em plena explosão de amor. Clara já se despedia daquele quarto branco, daquele teto branco, do sabor do manjar branco que Diana preparava quando queria fazê-la sorrir.
Com calda de ameixas...
Diana encostou seu rosto no de Clara para não perder um murmúrio que fosse. Já não havia mais quase cor no rosto de traços firmes, sobrancelhas grossas, longos cílios. Com calda de ameixas – desenhou Clara no ar, com dificuldade, com sonoridade, com a discrição das formigas miúdas. Diana chorava com ternura e dor, captando qualquer movimento daqueles lábios queridos, e concordando: é claro, um manjar com calda de ameixas. Para nós duas. Inevitavelmente, uma parte dela, Diana, ficou ali, naquela tarde, naquele quarto, naquele branco todo insosso, impávido talvez, muito distante dos dias felizes. Com calda de ameixa, Clara, com muita calda de ameixa.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

entre ela e o além-ela

(Pintura de artista de St.Brieuc, França)


Entre ela e o portão, muitas, muitas ratoeiras, armadilhas, arapucas, várias arapucas, plantas carnívoras, objetos pontiagudos, facas, pregos, areias movediças, fossos profundos, tubarões famintos, pedras incandescentes. Entre ela e o portão. Ou poderia ser entre ela e o portal, a janela, a linha, a fronteira, a muretinha, não importa. Entre ela e o limite dela, uma série de obstáculos perigosos e daninhos, pegajosos e desestimulantes, totalmente irritantes. Entre ela e o além-ela, um muro maior que o de Israel na Cisjordânia. Maior que a pedra no meio do caminho de Drummond. Maior até que o dilúvio na época de Noé.

A tralha, o monte de lixo, restos de restos, sobras de sobras, tudo isso foi se juntando ao longo do tempo, entre os ensaios de sair ou não sair, deixar entrar ou não deixar entrar. E o limite dela foi alargando, alargando, embora ela se enroscasse num casulo cada vez menor. Apertadinho. E, então, para atravessar todos esses desafios farsescos, saltar a Muralha da China, o arame farpado e a cerca elétrica da prisão de segurança máxima (de sua prisão privada de segurança máxima), precisava mais que uma corda, um bote, um jato, uma vara, asas de Ícaro, fios de Ariadne: precisava de um homem que lhe desse um voto de confiança. E a quem ela também lhe pudesse dar o seu. Con-fi-an-ça. Entre ela e o homem, o portão. E toda, toda, toda aquela montanha de nãos.

palavras sem cabimento

Dias e mais dias escrevendo a fio. Escrevendo tudo, de tudo, sobre tudo. Escrevendo receitas médicas, listas de supermercado, diários meus e de outros, cartas de amor e de desamor, textos acadêmicos e jornalísticos, histórias, fábulas, recadinhos para mim mesma, devaneios, desabafos, nomes de ruas, números de telefones, títulos de livros para não esquecer. Escrevendo e escrevendo dias e dias a torto e a direito, no avesso da carta, no vão da porta, na parede, na meia-calça, no papel higiênico.
Anos.
Me dei conta nesses dias e dias de escrita infinita que há anos escrevo uma história cujo fim não vou terminar de compor. Palavras, pequenos excrementos de meu ser marginal.

Mas a vida não cabe inteira nas palavras, sabe.
As palavras são imberbes diante do mundo, diante de mim. São inexatas. São indecorosas, são audaciosas, mas não carregam a vida inteira nelas, não.

Me perco de propósito das palavras quando acho que elas querem dizer mais do que realmente eu sei. Do que sinto. Do que salto. As palavras jamais subiriam um pico nebuloso e e se jogariam lá do alto. Fariam rima, é certo, riso talvez, mas não dariam conta de toda a imensidão desse universo compactado dentro de mim. As palavras se perdem cá dentro quando minhas sensações tocam o chão e o céu, quando me encego, me ensurdo, me emudo, emismemada – inventando neologismos e emprestando os que não são meus.

Meu Deus.
Por que então tanta escritura?
Deus tampouco cabe nas palavras que Ele mesmo ditou. Nas maiúsculas, nas minúsculas. Toda palavra é imperfeita. E eu fico aqui escrevendo, escrevendo, escrevendo, como se esse inconcebível quebra-cabeças fosse solucionar todos os meus problemas de coração. Mas vai, sim: escrever é minha humilde e datilografada salvação.

Tudo se escreve e me descreve: ela desfia, tece, costura, cozinha, pinta, borda, lambe, cospe, enrola, amassa, assa, passa, lima, pica, corta, estica, exala... tantas palavras quantas forem necessárias para se viver. Ela sou eu. Agarrei-me aos verbos, seduzida pelos adjetivos.

E continuo em minha febre de escrever tanto tudo todos em qualquer lugar tentativas, perseguindo a fragrância inexata que “certa palavra deixou no espaço que ocupou em determinado instante” como um profeta, um detetive, um legista, um geólogo, um obstetra, um atleta, um presidente, um crente, eu mesma silenciosa e aturdida.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

fabulinha fabulosa

A porta estava muito bem trancada. As janelas, implacavelmente fechadas. Nem fechaduras havia para não dar margem à invasão. Como é que o Ar novo entrava, então? Pelas frestinhas do tapete, do colete, das torneiras e dos ralos. Ar novo é sujeito teimoso, petulante, adora fazer cosquinhas nos calos. E Medrosinha, dia desses, estava lá, bem menos encapsulada, mas ainda tão escondida, garota bonita largada, displicente até com os próprios dentes. E, incerto mas esperto, Ar novo mal entrou e logo começou com as cosquinhas. Ai, meu Deus, tremia Medrosinha! O que vem por aí, o que será? Às vezes, Ar novo trazia vírus; em outras, notícias de Shangri-lá. Carregava esperanças, fragrâncias, mosquitos e sentimentos esquisitos. E foi assim que o “Invasor” chegou, de carona com um sabor, que o Ar novo espertamente para dentro empurrou. Veio bem devagarzinho e se chamava – olha que fofo – Amorzinho. Discreto e quieto, Amorzinho andava com as pontas dos pés. Queria surpreender Medrosinha, mas sem recorrer aos fáceis cafunés. Só que havia um porém: Amorzinho era invisível, parecia com ninguém. Mas também era surdo às desculpas que Medrosinha sabia usar tão bem.

Vou lhe contar que no início, ai que difícil, foi um jogo de esconde-esconde. Cheio de trombadas de bonde, ou película de espionagem: com direito a autossabotagem (de Medrosinha) e tentativa de ultrapassar a linha (Amorzinho). No entanto, aos pouquinhos, parece que o espanto virou encanto: deixemos de ser crianças, vamos nos dar um voto de confiança! Tudo podia soar perigoso, Medrosinha em pânico se via; mas Amorzinho era jeitoso e de conquistas ele bem sabia. A entrega foi poética e lenta, e esta que lhe conta tampouco é isenta. Foi lindo, muito lindo, ver esse encontro acontecer. Como sair de uma rota escura para, enfim, provar uma relação madura. Medrosinha de nome mudou; sabe-se Mulher em plenitude. Dentro dela, Amorzinho se instalou: no corpo, na alma, na atitude. Sempre é hora do Ar novo na vida circular; esta que lhe escreve ainda vai experimentar. Um suspiro, dois suspiros, tento a porta destrancar: oi, oi, você está me ouvindo, sr. Ar?

sábado, 5 de junho de 2010

* baú *

— Você ainda se comporta como adolescente.
Susto.


Falávamos sobre o amor.
Nem fazia uma semana que eu havia me deparado com um pequeno grupo de fios brancos, escondidos na parte posterior da cabeça, acima da nuca.


— Adolescente?
Olhos fixos e perdidos nas pernas estendidas sobre o banquinho. Pernas tortas de menina com o peso dos anos de uma mulher.


Falávamos sobre o amor. E eu sabia que ela tinha razão.
Que, ao andar sozinha, opção inconsciente mas tão confortável, eu avançara até subterrâneos e horizontes impensados de mim mesma, do universo a meu redor. Porém, nesse contato estreito com o homem, genérico do gênero masculino, talvez houvesse mesmo parado no passo seguinte à descoberta da alteridade. Susto. Uma mínima, quase imperceptível entrega, e logo o recolhimento. Não me movo de mim. Passo películas na qual sou a protagonista, acho que me apaixono, acho que sofro, acho que partilho, que interajo, que me transformo, tudo tão intenso. Nada, contudo, se passa. Não me movo de mim. Os tumultos e as ondas se limitam à superfície, enquanto vejo tudo lá do fundo, no silêncio absoluto, na solidão impassível.


Falávamos sobre o amor.
E eu contava e recontava mentalmente aqueles fios brancos, encontrados ao acaso, tão bem instalados acima da nuca. Achava aquela minha indiferença petulante tão madura, mas ela repetia: adolescente.


Enquanto ela falava, eu recontava meus anos.
Naquele instante, lembrei-me dele. Pareceu obsceno demais para minha ingenuidade amorosa. Pareceu um velho baú enterrado no fundo do mar, bem ao lado de onde eu estava, soltando pequeninas bolhas de ar entre os cardumes enquanto esperava o barco lá de cima se afastar. O baú de tesouros atiçava a curiosidade da garota, mas a mulher de cabelos brancos já não tinha mais forças para abri-lo. Ele sempre ao meu lado, discreto, quieto. Amigo.


Talvez eu tenha nascido amorosamente velha, já cansada dos mergulhos. Fui logo para o fundo e lá me conformei.
— Uma velha com comportamento adolescente?


E por conta desse descompasso temporal que provocava um vácuo justamente no presente, pensei em subir devagarzinho à superfície, soltando o ar e as desilusões devagarzinho, a fim de evitar uma embolia no corpo e na alma. Eu sabia que o baú também se moveria, em seu ritmo, no momento em que tinha de ser. E partilharia seus tesouros.


Porque ser madura significa igualmente aprender a navegar: também posso me mover de mim, sem me perder.


adieu, les enfants!

Garota moça mulher feminina fêmea, sim.
Mas, por opção, desilusão ou decepção, assexuada.
O fato é: o gênero oposto já não me interessa em nada.

Foi assim:
Um dia, bom dia, acordei e senti: não há mais espaço para um homem aqui.
Na cama no caminho no carinho no corpinho na chama na vida. Em mim.
Era assim um desgostar tranquilo, um sem-gostar. Um deixa-estar-para-lá.

Bem longe. Fiquemos todos bem longe.

Não tinha nada de rebeldia revolução mudança lesbianismo ou santificação. Não.
Era, simplesmente, um desgostar e um desligar normais. Hoje-constatei-sem-surpresa-que-de-homens-não-gosto-mais. E ponto. Sem reticências nem anuências.

Nada ia mesmo acontecer – agora é que não acontece mesmo.
E, com uma a menos para farejar os parcos espécimes disponíveis, a mulherada até que ficou contente. Desvarios compreensíveis...


p.s.: e eu tô falando sério.

sábado, 29 de maio de 2010


Sempre haverá algo que não vejo,
que não verei,
mas que há.
(Foto: presente da Rô)

it's all about


No princípio, era o verbo.

(A protagonista de meu livro tem roubado meus posts. Mal terminei um, agorinha, e ela veio e o surrupiou. Aprendi a gostar dela apesar de sua insistência em existir. Teimosa, me soprava no ouvido suas frases, me pedia histórias, suplicava por parágrafos densos e copos de água. Suplica ainda por experiências diversas que começam a me atiçar. Ela me disse: use essa desculpa para sair do casulo. Enquanto isso, ela também sai -- de mim. Não fuja, me disse. Não fuja, lhe disse.)

E, ENTÃO,


NO TEMPO FABULOSO DOS INÍCIOS,
EU


FINALMENTE


PARI.



E assim começa a história de uma escritora e sua protagonista, suas duplicidades, seus desatinos, seus desacordos.

sábado, 15 de maio de 2010

(medo do goleiro diante do pênalti)

Mais uma xícara de café, entre cadernos de notas, canetas sem tampa, fios e cabos USB, livros abertos, brincos usados em dias anteriores, bilhetinhos diversos, aquelas incômodas cartas de banco. Mais uma xícara de café com o fundo borrado, ressecado, uma xícara a olhar a mulher descabelada, com roupa de casa, suspiros fundos e ideias confusas que brotavam aos borbotões, mas não saíam. Era uma prisão de ventre mental, ou o quê? Culpava a inspiração, culpava o cano de saída das ideias da cabeça, culpava seu desalento emocional, o barulho da rua, cidade ruidosa essa, descobria-se hiperativa, descobria-se com a síndrome da distração não sei o quê, talvez por não descobrir-se continuava coberta de medos e receios e nada acontecia na tela vazia do computador cansado. O computador estava cansado e seus teclados já se encontravam gastos. Estamos aqui, disponíveis, minha senhora. Mais uma xícara de café, o líquido borbulhante, o sabor único, encorpado, forte. A experiência única, encorpada, no corpo dela, forte, presente. Por que não começar daí? A literatura era a única salvação, era, não era? Tantas histórias impressas em seu corpo, em sua memória, em suas emoções. Era o casulo da escrita, era a escrita, a literatura, a salvação, a metamorfose! Rilke ensinava: “confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever? (...) Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade”. Viver para contar, como havia dito Gabriel Garcia Márquez. Não via outro sentido. Então, por quê? Por que o fluxo se encontrava emperrado em algum ponto? Por que condenava a si própria, em sua volúpia de escritora, por que vetava de antemão o que estava a ponto de explodir?


Silêncio.


Silêncio passivo. E escuta.
Silêncio ativo. E escuta.


Sozinha e desamparada.
A maior solidão da existência. A própria existência como solidão.


Tinha medo.
E assim começou, de forma inexorável e inevitável, sem volta ou sem perdão, seu romance.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

de novo!

Pela metade
O copo o corpo o como
Presente
No intenso imenso imerso
Universo
De fatos de falos de fêmeas

Ele ali,
Na frente dela.
Janela.

Inaudível
Seu pedido gemido doído
Na mesa
Vinhos desalinhos espinhos
Esperança
Em retomar em reatar em remar

Ambos amam o mar.
Um barco apenas.

Antenas
Entendimento sentimento momento
Princípio
De perdão de sensação de tesão
Por inteiro
Um carinho um caminho um casal.

Lenço, lençol, lançados.
Uhh, lúcidos.

domingo, 9 de maio de 2010

sexta-feira, 7 de maio de 2010

#meufilme

Queimo, queimo meu filme, sim, queimo meu filme ainda que meus vídeos sejam digitais e minha câmera registre tudo no HD. Queimo, queimo meu filme, sim, por você não suportar me ouvir falar de profundidades quando sua expectativa comigo era discutir política. A dos outros, não a nossa: fronteiras, muros, bombas, sanções, seu conselho de segurança nega a veracidade dos argumentos de meu sentimento-premiê...

Queimo meu filme, falo de mim, me exponho cruamente no abracadabra de seus desejos ocultos, sou como um vírus de hardware, você me deleta de seus sentimentos e eu sigo avançando por seu corpo adentro até que, insolente, estupefato, suado e confuso, você chegue até minha porta e grite:

Queimo meu filme, queimo sim, falando daquele outro, dos outros, de todos os outros que amei e que hoje contam pedaços da minha história. Queimo meu filme assumindo que me apaixonei por outro enquanto você não me dava bola, que me apaixono por outro enquanto você não me dá bola, que seguirei me apaixonando por outro mesmo que sua condição sine qua non para me dar bola seja justamente minha ausência de gols. No outro. Nos adversários. Ora, não há adversários...

Queimo, queimo ardorosamente meu filme ao me rasgar virtualmente para você do modo mais singelo e honesto que um “@”, que um “.com.br”, que um tweet podem fazer. Mas você não me lê – ou finge, porque está todo dia ciscando no meu blog atrás de minhas pegadas, dos rastros que deixo, das migalhas de verdades ofuscadas por delírios infinitos e tão sinceros. Sei que você busca me entender.

Queimo meu filme me queimando por dentro querendo lhe dizer que é você você você você e nada mais. Mas queimo meu filme dizendo alto que eu quero um monte monte monte monte de coisas, que não você.

Queimo meu filme como se lhe dissesse: por favor, me esqueça, me deixe, me ignore, me desdenhe, me evite, me chame de “spam”. Queimo meu filme fingindo que não sei o que você espera de mim. Mas eu não sei mesmo.

No fundo, quem queima o filme é você.

Porque não quer que eu o decepcione.
Porque no fundo não quer que eu o decepcione.
Porque minhas profundidades são insuportáveis e eu não consigo simplesmente tomar sorvete e deixar por isso mesmo.

Porque eu não preciso da TV pública para gritar publicamente que faço de meu bem-querer bem público – para e por você.

Queimo meu filme porque 8mm são insuficientes para tudo o que eu poderia lhe fazer sentir. Hoje, baixam-se sentimentozinhos e vínculos em downloads insossos, isso pode lhe parecer mais prático e mais indolor... Você é um blockbuster nominado ao Oscar, enquanto eu sou uma proposta alternativa de cineclube vespertino numa sala abafada e escondida no centro da cidade.

Por isso, queimo meu filme. Só para lhe fazer fumaça.
Lóri Capitu, ela mesma, agora tuíta. Acompanhe: http://twitter.com/loricapitu. Uma mulher em sua inteireza, fêmea em ritual de amor, ensaiando suas compreensões do mundo. Ou dos mundos -- o dela e o ao redor...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sem açúcar

(MFV; serei uma dessas?)

— Sem açúcar.
— Perdão?
— Quero o café sem açúcar.
— Ah, sim.


23°
16h32


O que ele escreveu mesmo? Aliás, o que ele não escreveu? Buscava as entrelinhas. As entrelinhas do que ele disse. Buscava justamente o que ele não disse. Por que ele deixou de dizer? Não sei se ele sente, não sei se ele não sente. Ele não diz. Ele não disse. Bem, ele escreveu. Algumas vezes, sentimos saudade de coisas que, quando se apresentam, talvez não sejam totalmente como as planejamos. Será que devemos aceitá-las tais e quais aparecem?


23°
16h38


Suspiro longo e profundo. O suspiro mais longo do mundo. O mais profundo suspiro do mundo.


22°
16h45


Não sei o que pensar. Sinto: sinto um espinho delgado adentrando pele adentro, corpo adentro, esperança adentro. Eu tinha uma esperança. Ando ansiosa demais. Parecia a pessoa certa na hora certa, mas sem certezas, mas sem que eu estivesse certa disso. Ou ele. Ou seja, nada. Ou tudo. Não sei o que pensar. Sinto: não me deixe aqui sozinha, por favor. Choro. Choro morno e silencioso, choro público.


23°
16h57

― Moça, por favor, acabou o guardanapo.
— Já lhe trago. Algo mais?
—...


23°
17h01


Merda.
Não tinha grandes expectativas. Só queria que fosse ele. Que ele fosse “ele”. Não planejei relação nenhuma, não sonhei com nenhum encontro excepcional, não consegui nem nos imaginar fazendo amor. Só queria que fosse ele. Porque ele não nasceu de nenhum empurrãozinho de minha razão. Porque, inclusive, minha razão ficava fazendo joguinhos de autossabotagem para mim e para ele. Porque ele simplesmente me atraiu. Porque meu corpo, meu coração, minha inquietude o pediam, todo o tempo. Porque fui surpreendida por meus próprios sentimentos. Porque saí de meu script. Porque... não sei de nada.


21°
17h14


Sinto frio. Sinto dor. Sinto solidão.


23°
17h35


Não fui arrebatada. Ele não me arrebatou. Nem eu o arrebatei. Talvez eu persiga justamente isso: um homem que me arrebate. Um cavaleiro que me pegue pela cintura, não me deixe pensar, e me leve para dentro de seu castelo-coração. Um homem que, ao olhar para mim, sorria ao sentir-se tão prometido. Que me faça sorrir, prometida. Persigo um homem que me arrebate e que seja arrebatado por mim. Será esse meu erro, “perseguir”?
Sou uma romântica de merda.


23°
17h59


“Travessia”, de Milton Nascimento, ecoando entranhas adentro. “Vou querer amar de novo/ e, se não der, não vou sofrer./ Já não sonho/ hoje faço com meu braço o meu viver.”


21°
18h04


Mais um daqueles suspiros imensos. Meu mundo, neste momento, cabe nesse suspiro. Mas eu fiquei maior que meu mundo. E afundamos, eu e meu mundo, em meu coração. Que também cabe nesse suspiro. Sim, de fato é imenso. Um suspiro imenso.
— Um chá quente, por favor. E broas. Broas de fubá.


22°
18h25


Eu me lembrei do cheiro de sua barba. Achei estranho aquele cheiro. Não me senti nele, sabe. Era um cheiro que não me incluía. O cheiro de sua barba não me incluía. Porque você não me inclui. Você me beijou como retribuição dos meus sentimentos por você, não foi? Sua barba o denunciou. E eu compreendo você, sabe. Fomos ambos surpreendidos. Eu, por esses sentimentos malucos todos. Você, por minha verborragia corada e sôfrega. Até me lembro de que lhe falei: “não estou loucamente apaixonada, não é isso”.


23°
18h26

Não estou loucamente apaixonada, não é isso.


24°
18h28

Não entendo mais nada. De mim mesma, de você, do mundo, de alguém.


22°
18h30

— Por favor, um outro café.
— Sem açúcar?
— Sem.


23°
18h43

Tampouco quero voltar para esse mundo aí. Estou cheia. Cansada de Obama, Netanyahu, Ahmadinejad, Sarkozy, Chávez. Cansada da revista Veja. Cansada das merdas ditas e feitas pela bancada ruralista no congresso nacional. Cansada da impunidade – dos corruptos e dos milicos ex-torturadores da ditadura brasileira.

Peço dispensa de minha humanidade hoje nesse mundo de merda. Mas estou trancada. Só poderia fugir para seus braços, se você quisesse me receber. Mas você aparentemente não quer.

Como você escreveu? Não gosto de “não sei”, mas agora é o que me vem à mente. Como levar adiante isso?

Quero ser dispensada de ser humana por hoje, pelamordeDeus!


23°
18h58


Sou uma romântica de merda.


22°
19h09


— A conta.
Venta, isso, venta, venta, venta noite fresca de outono. Me venta inteira, me reinventa, me arrebenta. O escuro não me deixa ver as pegadas, mas eu sei que elas estão aqui. O escuro não me deixa ver as feridas, mas eu sei que elas estão aqui. Enquanto isso, enfrento esse mundo imundo e sem fundo. Enfrento a solidão do abrir-se. A solidão do doar-se. A solidão do ‘não’. O dãodãodão da solidão. A imensidão da solidão.

Nessa cidade de 19 milhões de habitantes, estou sozinha com essa tal imensidão da solidão. Que cabe no meu suspiro. Então, esse suspiro realmente é grande.

E eu sou uma romântica de merda.
Sem açúcar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

INCONTRO (versione in italiano)

Era una piccola scoperta, che ho fatto in segreto anche da me stessa, forse per paura, forse per alcune stupida resistenza ancora viva dentro me.

Lui.

Quando pensavo a lui, il mio spirito tremava. Ma era una sensazione nuova, strana. Il mio spirito tremava come un morbido terremoto che vineva del cuore fino la bocca: un sorriso inaspettato, pieno di desideri insensati.

Lui.

Quando ci siamo incontrati di nuovo, quella volta era il corpo che tremava. No, non sò cosa succede, che cosa è questa sensazione di nuovo?

Io.

Sorpresa, sedotta. Distratta però così attenta, emozionata. Panico. Tra le sue braccia. Panico. Nel suo abbraccio. Panico. Sono una donna presa al panico, cerco di scappare quando ho voglia di essere là?

Io.

Quando arriva il momento, ando via.
Anch’io!
Ma io semplicemente ando via.
Io, almeno, dico addio.
Non lo faccio.

Noi.

— Ho chiamato per dirti “arrivederci”.

Chi sà quando ci incontreremo di nuovo, chi sarà ...
Coltiviamo il silenzio, perché camminiamo – i due – per il deserto, il grande deserto della vita, sognando sotto le stelle, ascoltando il saggio che a volte attraversano le nostre strade (non importa dove ci troviamo), ci lanciando nella profondità.

Tempo.

Nel frattempo, tratto dei sentimenti diversi. Affetto, mancanza, gelosia. Anche gelosia.
Nel frattempo, cerco di capire il mio panico. Il mio desiderio. La mia femminilità.
Nel frattempo, genero una vita dentro di me; non è ancora un bambino (mío, nostro?), ma sono io stessa, senza pelle: sorpresa, sedotta. Distratta però così attenta. Nuda, per andare anche più lontano.

Deserto.

Hey, tutto ciò che ti chiedo è questo: non ti perda da te.
Che non ti perda da me.

ENCUENTRO (o: dos viajantes en un día de primavera...)

a tí, S.



Era una pequeñita descubierta, sobre la cual hice secreto hasta para mí misma, tal vez por miedo, tal vez por resistencias tontas que aún cargaba acá dentro.

Él.

Cuando pensaba en él, mi espíritu estremecía. Pero era un sentimiento nuevo, raro. Mi espíritu temblaba, como un terremoto suave del corazón a la boca: una sonrisa inesperada, llena de deseos insensatos.

Él.

Cuando nos vimos de nuevo, fue la vez del cuerpo estremecer. No, no sé lo que pasa, qué es esa nueva sensación?

Yo.

Sorprendida, atraída, distraída más tan atenta, emocionada.
Pánico. En sus brazos. Pánico. En su abrazo. Pánico.
Soy una mujer en pánico, por que quiero escapar cuando tengo ganas de quedar?

Yo.

Cuando llega la hora, yo parto.
Yo también parto.
Pero yo simplemente me voy.
Yo, al menos, me despido.
Yo no.

Nosotros.

― Te llamé para decirte ‘hasta luego’.

Quien sabe cuando nos volveremos a ver, quien sabe...
Cultivamos el silencio porque caminamos – los dos – por el desierto, el gran desierto de la existencia, soñando bajo las estrellas, escuchando los sabios que por veces cruzan nuestros caminos (no importa donde estemos), lanzándonos a la profundidad.

Tiempo.

Mientras tanto, manejo sentimientos diversos. Cariño, añoranza, celos. Hasta celos.
Mientras tanto, manejo mi pánico. Mis ganas. Mi feminidad.
Mientras tanto, genero una vida dentro de mí: aún no es un hijo (mío? nuestro?), pero soy yo misma, sin cáscaras: sorprendida, atraída, distraída más atenta. Desnuda, a fin de llegar aún más lejos.

Desierto.

Hey, sólo te pido esto: que no te pierdas de ti.
Que no te pierdas de mí.