sábado, 29 de maio de 2010


Sempre haverá algo que não vejo,
que não verei,
mas que há.
(Foto: presente da Rô)

it's all about


No princípio, era o verbo.

(A protagonista de meu livro tem roubado meus posts. Mal terminei um, agorinha, e ela veio e o surrupiou. Aprendi a gostar dela apesar de sua insistência em existir. Teimosa, me soprava no ouvido suas frases, me pedia histórias, suplicava por parágrafos densos e copos de água. Suplica ainda por experiências diversas que começam a me atiçar. Ela me disse: use essa desculpa para sair do casulo. Enquanto isso, ela também sai -- de mim. Não fuja, me disse. Não fuja, lhe disse.)

E, ENTÃO,


NO TEMPO FABULOSO DOS INÍCIOS,
EU


FINALMENTE


PARI.



E assim começa a história de uma escritora e sua protagonista, suas duplicidades, seus desatinos, seus desacordos.

sábado, 15 de maio de 2010

(medo do goleiro diante do pênalti)

Mais uma xícara de café, entre cadernos de notas, canetas sem tampa, fios e cabos USB, livros abertos, brincos usados em dias anteriores, bilhetinhos diversos, aquelas incômodas cartas de banco. Mais uma xícara de café com o fundo borrado, ressecado, uma xícara a olhar a mulher descabelada, com roupa de casa, suspiros fundos e ideias confusas que brotavam aos borbotões, mas não saíam. Era uma prisão de ventre mental, ou o quê? Culpava a inspiração, culpava o cano de saída das ideias da cabeça, culpava seu desalento emocional, o barulho da rua, cidade ruidosa essa, descobria-se hiperativa, descobria-se com a síndrome da distração não sei o quê, talvez por não descobrir-se continuava coberta de medos e receios e nada acontecia na tela vazia do computador cansado. O computador estava cansado e seus teclados já se encontravam gastos. Estamos aqui, disponíveis, minha senhora. Mais uma xícara de café, o líquido borbulhante, o sabor único, encorpado, forte. A experiência única, encorpada, no corpo dela, forte, presente. Por que não começar daí? A literatura era a única salvação, era, não era? Tantas histórias impressas em seu corpo, em sua memória, em suas emoções. Era o casulo da escrita, era a escrita, a literatura, a salvação, a metamorfose! Rilke ensinava: “confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever? (...) Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade”. Viver para contar, como havia dito Gabriel Garcia Márquez. Não via outro sentido. Então, por quê? Por que o fluxo se encontrava emperrado em algum ponto? Por que condenava a si própria, em sua volúpia de escritora, por que vetava de antemão o que estava a ponto de explodir?


Silêncio.


Silêncio passivo. E escuta.
Silêncio ativo. E escuta.


Sozinha e desamparada.
A maior solidão da existência. A própria existência como solidão.


Tinha medo.
E assim começou, de forma inexorável e inevitável, sem volta ou sem perdão, seu romance.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

de novo!

Pela metade
O copo o corpo o como
Presente
No intenso imenso imerso
Universo
De fatos de falos de fêmeas

Ele ali,
Na frente dela.
Janela.

Inaudível
Seu pedido gemido doído
Na mesa
Vinhos desalinhos espinhos
Esperança
Em retomar em reatar em remar

Ambos amam o mar.
Um barco apenas.

Antenas
Entendimento sentimento momento
Princípio
De perdão de sensação de tesão
Por inteiro
Um carinho um caminho um casal.

Lenço, lençol, lançados.
Uhh, lúcidos.

domingo, 9 de maio de 2010

sexta-feira, 7 de maio de 2010

#meufilme

Queimo, queimo meu filme, sim, queimo meu filme ainda que meus vídeos sejam digitais e minha câmera registre tudo no HD. Queimo, queimo meu filme, sim, por você não suportar me ouvir falar de profundidades quando sua expectativa comigo era discutir política. A dos outros, não a nossa: fronteiras, muros, bombas, sanções, seu conselho de segurança nega a veracidade dos argumentos de meu sentimento-premiê...

Queimo meu filme, falo de mim, me exponho cruamente no abracadabra de seus desejos ocultos, sou como um vírus de hardware, você me deleta de seus sentimentos e eu sigo avançando por seu corpo adentro até que, insolente, estupefato, suado e confuso, você chegue até minha porta e grite:

Queimo meu filme, queimo sim, falando daquele outro, dos outros, de todos os outros que amei e que hoje contam pedaços da minha história. Queimo meu filme assumindo que me apaixonei por outro enquanto você não me dava bola, que me apaixono por outro enquanto você não me dá bola, que seguirei me apaixonando por outro mesmo que sua condição sine qua non para me dar bola seja justamente minha ausência de gols. No outro. Nos adversários. Ora, não há adversários...

Queimo, queimo ardorosamente meu filme ao me rasgar virtualmente para você do modo mais singelo e honesto que um “@”, que um “.com.br”, que um tweet podem fazer. Mas você não me lê – ou finge, porque está todo dia ciscando no meu blog atrás de minhas pegadas, dos rastros que deixo, das migalhas de verdades ofuscadas por delírios infinitos e tão sinceros. Sei que você busca me entender.

Queimo meu filme me queimando por dentro querendo lhe dizer que é você você você você e nada mais. Mas queimo meu filme dizendo alto que eu quero um monte monte monte monte de coisas, que não você.

Queimo meu filme como se lhe dissesse: por favor, me esqueça, me deixe, me ignore, me desdenhe, me evite, me chame de “spam”. Queimo meu filme fingindo que não sei o que você espera de mim. Mas eu não sei mesmo.

No fundo, quem queima o filme é você.

Porque não quer que eu o decepcione.
Porque no fundo não quer que eu o decepcione.
Porque minhas profundidades são insuportáveis e eu não consigo simplesmente tomar sorvete e deixar por isso mesmo.

Porque eu não preciso da TV pública para gritar publicamente que faço de meu bem-querer bem público – para e por você.

Queimo meu filme porque 8mm são insuficientes para tudo o que eu poderia lhe fazer sentir. Hoje, baixam-se sentimentozinhos e vínculos em downloads insossos, isso pode lhe parecer mais prático e mais indolor... Você é um blockbuster nominado ao Oscar, enquanto eu sou uma proposta alternativa de cineclube vespertino numa sala abafada e escondida no centro da cidade.

Por isso, queimo meu filme. Só para lhe fazer fumaça.
Lóri Capitu, ela mesma, agora tuíta. Acompanhe: http://twitter.com/loricapitu. Uma mulher em sua inteireza, fêmea em ritual de amor, ensaiando suas compreensões do mundo. Ou dos mundos -- o dela e o ao redor...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sem açúcar

(MFV; serei uma dessas?)

— Sem açúcar.
— Perdão?
— Quero o café sem açúcar.
— Ah, sim.


23°
16h32


O que ele escreveu mesmo? Aliás, o que ele não escreveu? Buscava as entrelinhas. As entrelinhas do que ele disse. Buscava justamente o que ele não disse. Por que ele deixou de dizer? Não sei se ele sente, não sei se ele não sente. Ele não diz. Ele não disse. Bem, ele escreveu. Algumas vezes, sentimos saudade de coisas que, quando se apresentam, talvez não sejam totalmente como as planejamos. Será que devemos aceitá-las tais e quais aparecem?


23°
16h38


Suspiro longo e profundo. O suspiro mais longo do mundo. O mais profundo suspiro do mundo.


22°
16h45


Não sei o que pensar. Sinto: sinto um espinho delgado adentrando pele adentro, corpo adentro, esperança adentro. Eu tinha uma esperança. Ando ansiosa demais. Parecia a pessoa certa na hora certa, mas sem certezas, mas sem que eu estivesse certa disso. Ou ele. Ou seja, nada. Ou tudo. Não sei o que pensar. Sinto: não me deixe aqui sozinha, por favor. Choro. Choro morno e silencioso, choro público.


23°
16h57

― Moça, por favor, acabou o guardanapo.
— Já lhe trago. Algo mais?
—...


23°
17h01


Merda.
Não tinha grandes expectativas. Só queria que fosse ele. Que ele fosse “ele”. Não planejei relação nenhuma, não sonhei com nenhum encontro excepcional, não consegui nem nos imaginar fazendo amor. Só queria que fosse ele. Porque ele não nasceu de nenhum empurrãozinho de minha razão. Porque, inclusive, minha razão ficava fazendo joguinhos de autossabotagem para mim e para ele. Porque ele simplesmente me atraiu. Porque meu corpo, meu coração, minha inquietude o pediam, todo o tempo. Porque fui surpreendida por meus próprios sentimentos. Porque saí de meu script. Porque... não sei de nada.


21°
17h14


Sinto frio. Sinto dor. Sinto solidão.


23°
17h35


Não fui arrebatada. Ele não me arrebatou. Nem eu o arrebatei. Talvez eu persiga justamente isso: um homem que me arrebate. Um cavaleiro que me pegue pela cintura, não me deixe pensar, e me leve para dentro de seu castelo-coração. Um homem que, ao olhar para mim, sorria ao sentir-se tão prometido. Que me faça sorrir, prometida. Persigo um homem que me arrebate e que seja arrebatado por mim. Será esse meu erro, “perseguir”?
Sou uma romântica de merda.


23°
17h59


“Travessia”, de Milton Nascimento, ecoando entranhas adentro. “Vou querer amar de novo/ e, se não der, não vou sofrer./ Já não sonho/ hoje faço com meu braço o meu viver.”


21°
18h04


Mais um daqueles suspiros imensos. Meu mundo, neste momento, cabe nesse suspiro. Mas eu fiquei maior que meu mundo. E afundamos, eu e meu mundo, em meu coração. Que também cabe nesse suspiro. Sim, de fato é imenso. Um suspiro imenso.
— Um chá quente, por favor. E broas. Broas de fubá.


22°
18h25


Eu me lembrei do cheiro de sua barba. Achei estranho aquele cheiro. Não me senti nele, sabe. Era um cheiro que não me incluía. O cheiro de sua barba não me incluía. Porque você não me inclui. Você me beijou como retribuição dos meus sentimentos por você, não foi? Sua barba o denunciou. E eu compreendo você, sabe. Fomos ambos surpreendidos. Eu, por esses sentimentos malucos todos. Você, por minha verborragia corada e sôfrega. Até me lembro de que lhe falei: “não estou loucamente apaixonada, não é isso”.


23°
18h26

Não estou loucamente apaixonada, não é isso.


24°
18h28

Não entendo mais nada. De mim mesma, de você, do mundo, de alguém.


22°
18h30

— Por favor, um outro café.
— Sem açúcar?
— Sem.


23°
18h43

Tampouco quero voltar para esse mundo aí. Estou cheia. Cansada de Obama, Netanyahu, Ahmadinejad, Sarkozy, Chávez. Cansada da revista Veja. Cansada das merdas ditas e feitas pela bancada ruralista no congresso nacional. Cansada da impunidade – dos corruptos e dos milicos ex-torturadores da ditadura brasileira.

Peço dispensa de minha humanidade hoje nesse mundo de merda. Mas estou trancada. Só poderia fugir para seus braços, se você quisesse me receber. Mas você aparentemente não quer.

Como você escreveu? Não gosto de “não sei”, mas agora é o que me vem à mente. Como levar adiante isso?

Quero ser dispensada de ser humana por hoje, pelamordeDeus!


23°
18h58


Sou uma romântica de merda.


22°
19h09


— A conta.
Venta, isso, venta, venta, venta noite fresca de outono. Me venta inteira, me reinventa, me arrebenta. O escuro não me deixa ver as pegadas, mas eu sei que elas estão aqui. O escuro não me deixa ver as feridas, mas eu sei que elas estão aqui. Enquanto isso, enfrento esse mundo imundo e sem fundo. Enfrento a solidão do abrir-se. A solidão do doar-se. A solidão do ‘não’. O dãodãodão da solidão. A imensidão da solidão.

Nessa cidade de 19 milhões de habitantes, estou sozinha com essa tal imensidão da solidão. Que cabe no meu suspiro. Então, esse suspiro realmente é grande.

E eu sou uma romântica de merda.
Sem açúcar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

INCONTRO (versione in italiano)

Era una piccola scoperta, che ho fatto in segreto anche da me stessa, forse per paura, forse per alcune stupida resistenza ancora viva dentro me.

Lui.

Quando pensavo a lui, il mio spirito tremava. Ma era una sensazione nuova, strana. Il mio spirito tremava come un morbido terremoto che vineva del cuore fino la bocca: un sorriso inaspettato, pieno di desideri insensati.

Lui.

Quando ci siamo incontrati di nuovo, quella volta era il corpo che tremava. No, non sò cosa succede, che cosa è questa sensazione di nuovo?

Io.

Sorpresa, sedotta. Distratta però così attenta, emozionata. Panico. Tra le sue braccia. Panico. Nel suo abbraccio. Panico. Sono una donna presa al panico, cerco di scappare quando ho voglia di essere là?

Io.

Quando arriva il momento, ando via.
Anch’io!
Ma io semplicemente ando via.
Io, almeno, dico addio.
Non lo faccio.

Noi.

— Ho chiamato per dirti “arrivederci”.

Chi sà quando ci incontreremo di nuovo, chi sarà ...
Coltiviamo il silenzio, perché camminiamo – i due – per il deserto, il grande deserto della vita, sognando sotto le stelle, ascoltando il saggio che a volte attraversano le nostre strade (non importa dove ci troviamo), ci lanciando nella profondità.

Tempo.

Nel frattempo, tratto dei sentimenti diversi. Affetto, mancanza, gelosia. Anche gelosia.
Nel frattempo, cerco di capire il mio panico. Il mio desiderio. La mia femminilità.
Nel frattempo, genero una vita dentro di me; non è ancora un bambino (mío, nostro?), ma sono io stessa, senza pelle: sorpresa, sedotta. Distratta però così attenta. Nuda, per andare anche più lontano.

Deserto.

Hey, tutto ciò che ti chiedo è questo: non ti perda da te.
Che non ti perda da me.

ENCUENTRO (o: dos viajantes en un día de primavera...)

a tí, S.



Era una pequeñita descubierta, sobre la cual hice secreto hasta para mí misma, tal vez por miedo, tal vez por resistencias tontas que aún cargaba acá dentro.

Él.

Cuando pensaba en él, mi espíritu estremecía. Pero era un sentimiento nuevo, raro. Mi espíritu temblaba, como un terremoto suave del corazón a la boca: una sonrisa inesperada, llena de deseos insensatos.

Él.

Cuando nos vimos de nuevo, fue la vez del cuerpo estremecer. No, no sé lo que pasa, qué es esa nueva sensación?

Yo.

Sorprendida, atraída, distraída más tan atenta, emocionada.
Pánico. En sus brazos. Pánico. En su abrazo. Pánico.
Soy una mujer en pánico, por que quiero escapar cuando tengo ganas de quedar?

Yo.

Cuando llega la hora, yo parto.
Yo también parto.
Pero yo simplemente me voy.
Yo, al menos, me despido.
Yo no.

Nosotros.

― Te llamé para decirte ‘hasta luego’.

Quien sabe cuando nos volveremos a ver, quien sabe...
Cultivamos el silencio porque caminamos – los dos – por el desierto, el gran desierto de la existencia, soñando bajo las estrellas, escuchando los sabios que por veces cruzan nuestros caminos (no importa donde estemos), lanzándonos a la profundidad.

Tiempo.

Mientras tanto, manejo sentimientos diversos. Cariño, añoranza, celos. Hasta celos.
Mientras tanto, manejo mi pánico. Mis ganas. Mi feminidad.
Mientras tanto, genero una vida dentro de mí: aún no es un hijo (mío? nuestro?), pero soy yo misma, sin cáscaras: sorprendida, atraída, distraída más atenta. Desnuda, a fin de llegar aún más lejos.

Desierto.

Hey, sólo te pido esto: que no te pierdas de ti.
Que no te pierdas de mí.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

DEADLINE


Tlim, tlom.
Tic-tic-tic-tic-tic.


O nó na garganta não subia nem descia. Estava entalado, apertava o coração lá embaixo, agitava os pés descalços, que roçavam displicentes o tapete estampado. Os olhos embaçados de choros que não vinham porque não estavam prontos. Os joelhos, curiosos, espiando pela bainha da saia sua dona aflita.

Ele escreveu (e não foi para ela): a gente não pode ter tudo o que quer.
Citou Rolling Stones: You can’t get always what you want.

As horas passavam.

Ele lhe deu um beijo de despedida, ele perguntou no dia seguinte, quando ela telefonou do aeroporto: por que você não me avisou que só voava à tarde? Ele disse que queria vê-la antes da partida. Agora não quer mais?

O tempo passava.
Seu corpo, seu corpo parecia sempre o mesmo, porém mais flácido. Menos dela, mais coletivo.

Tic-tic-tic-tic.
O cansaço gradativo e miudinho das células é implacável.
Tic-tum. Morria uma. Tic-tam. Esmorecia outra.

Ele pediu “ele e ela”, ela provou os dois, mas ficou só com ele. Ele optou por elas. Ela e ela. E era da outra que falava: a gente não pode ter tudo o que quer. Ah, aquele abraço era de nada no fim das contas. Ou tinha sido aquele abraço bom naquele dia, naquele momento e ponto.

Tlim, tlom.
Ele furava poços mundo afora. Mundo conflituoso afora. Eles se encontraram, algo brilhou, mas nevava muito. Escorregadio. Havia outra, sabe. Estou tentando construir um relacionamento, ele disse. Entendo, suspirou ela.

O corpo. O abdômen. Gordura adiposa pura, nada de mais.
O corpo. As trompas, os ovários, o útero – todos contando os dias para a aposentadoria.
Ei, ele! E ele?

Os joelhos continuavam a observar sua dona, impassível em sua dignidade de mulher-fêmea-flor. Flor. Cheia de pólen, cheia de amor, cheia de medo, cheia disso, mas vazia daquilo. Ah.

O tempo, o calendário, a idade, a veracidade, a durabilidade, os genes, os óvulos.
Almoçaram. Ele disse: quando é hora de partir, eu me vou. Ele, um peregrino. Ele, um homem do mundo, dos tempos, dos ventos, das areias e dos desertos. Ele, tão parecido com ela. Mas ele não se despede, ele simplesmente vai. E foi.
Tsi-tsi-tsi

Ela?
Ela olha pela janela, ignora os pequenos alarmes, ela sonha com aquele abdômen repleto do amor de um encontro profundo e intenso. Ela sonha com. Ela ainda sonha com. Ela, um explosivo sem hora certa para se espalhar, semear.
Ela cheia de sementes. Com aquela flor no cabelo. Com aquele nó entalado não se sabe onde. Ela e seu sorriso escondido para ele, um ele, um deles.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

peyote

Ya no sabía adonde iba ni sabía porque me quedaba, pero era lo que me suenaba cierto. Flotaba. Flotaba y hablaba aún más alto cómo si intentara desafiar mi voz, provocando mis oídos. A todo escuchaba – de los ruidos de los espinos hasta las risas del viento. Jamás el desierto me pareció tan verde. Flores en las palmas, flores en los cactus, y los ojos desde la tierra a mirarme. Ya. No me importaba si eso era factible o no, sino apenas que fuera lo que me tocara vivir. Quienes y cuando, eso tampoco me preocupaba. Había llegado al centro y probado la sencillez de caminos sin fronteras o límites de preconceptos, prejuicios, texturas o materiales. Un cielo mezclado al mar, un águila en forma de mujer.

segunda-feira, 29 de março de 2010

paredão, paredona


Há anos tenho me apaixonado por paredes. Paredes altas, paredes magras, paredes em geral morenas, umas mais simpáticas, outras meio carrancudas, parede disfarçada de muretinha, uns muros nada-a-ver, paredes duras, paredes de várias texturas e profundidades. Sempre paredes machas ou masculinas, minha grande maldição.

Me apaixono, me encanto, me desfaço – e as paredes lá, impassíveis, impossíveis, inevitáveis em sua condição de paredes. Mudas. Surdas. Insensatas e frias. Insolúveis.

Anos e anos de tentativas inúteis de conquistar uma parede me fizeram verborrágica (detesto os contos de fada em que o sapo vira príncipe, porque uma parede jamais vira príncipe ou rei, paredes são sempre carrascos. Carrascos surdos). Verborrágica, prolixa, quase histérica, falando, falando muito, falando demais, falando o que não devia, declarando-me declaradamente declarada não-calada. Por quase todos os meios possíveis – escritos, principalmente. Com quase todo o vocabulário afetivo que me permito usar. Em quase todos os tons especiais que conheço. Reconhecendo-me fêmea, feminina, feliz, felina, fera, ferida, fetiche, fechadura, ainda que as unhas às vezes estejam manchadas de esmalte velho ou o cabelo, arrepiado de indecisão. Parede, adorei te conhecer. Parede, eu te quero bem. Parede, você é uma pequena epifania. Parede, quer tomar um café comigo? Parede, gosto de sua poesia. Parede, queria te ver de novo. Parede, eu tenho tanto pra lhe falar... Parede, . Parede, ? Pa? Re? De?

Paredão. Paredões.

Anos e anos de tentativas inúteis diante das paredes de todo o mundo – não podem me acusar de não haver tentado até paredes internacionais! – me transformaram numa... parede. Paredona. Parede refratária, um tanto desiludida, meio descuidada, agora habituada a despejar logo de cara tudo quanto é verborragia possível para ficar cansada rapidinho e demolir o paredão da vez do meu coração. Parede cada vez mais intransponível. Parede invisível. Parede com sonhos de virar montanha e se jogar no mar. Parede com vontade de renascer borboleta, minhoca, leoa, begônia, nuvem, qualquer ser que interaja com o universo. E com vontade de encontrar uma borboleta-macho, uma minhoca-macho, um leão, uma begônia-macho, uma nuvem-macho com quem possa interagir.
Falar, mas ouvir. Ouvir mais que falar.
(Parece inacreditável esse sonho).

Hoje mesmo comecei a demolir um paredão, que era até gentil. Porém, como de hábito, um paredão de outros mapas, geografias, censos e populações, que tinha janelas e jardins. Mas, claro, não para mim.

Continuarei parada.
Tal e qual parede embalsamada...

domingo, 28 de março de 2010

* foule sentimentale *

Louca sentimental
Meticulosamente fenomenal
Perdida
Jogada
Entupida nessa grande maluquice de amar total
Sem qualquer mesura
Pura, depurada
Desesperadamente
Encantada
– esgotada e suja de pudor
Pede-me, a mim, não me impede
De apaixonar-me apaixonar-te
Fazer nossa essa tal arte
De tear
Ter ar, ter mar, ter nós, ter-nos a nós
Endoida-te de cansaço meu
De meu vício de Senhorita Prometeu

Fogo, fogo, fígado, fisgada
Não, não fujas, não sumas, não
Não me digas não

Eternamente presa, acorrentada
A esse humano e feminino desejar
– desejo-te, desejo-lhe, desejo-me –
(Uma mulher que preenche um homem)


À espera de Hércules
De uma águia
Ou de ti.

#Florescência 2

Vem me dar um cheiro, vem, minha pequena – ele, o pernambucano, recém-acordado e já totalmente atiçado, suspirou no ouvido dela, apertando sua coxa com uma delicadeza matadora. Hmmm, hmmm, hmmm. Sua nudez obscena e tão atrativa a deixou quase desmaiada. Eram raios tímidos de sol ou estrelas no teto alto, alto, tão alto... daquela casa baiana... naqueles lençóis de antigamente... sei lá, de linho ou de percal?... Estrelas, ora direis? Hmmm, hmmm... O corpo se desfazia na mesma proporção em que se aquecia: havia se transformado em água em ebulição evaporando-se? I-s-s-o-s-ó-p-o-d-e-s-e-r-u-m-s-o-n-h-o-b-o-m. Abriu os olhos abruptamente, pensou inutilmente: cadê minha camisola surrada, e se lembrou do mineiro, ali do ladinho, em seu pijama de listras grossas, roncando em dó maior, com a calcinha dela no pescoço. Oh, hmmm, oh. Aquela aliança no dedo, as galinhas no quintal, cocorococó, quáquáquá, ela nua naquele casarão, aquele pernambucano maravilhoso nela, as estrelas no teto, os lírios de plástico (da cozinha) voando docemente pelo amplo quarto... ela... ah?... eu... ai... uuuuhhh...

!!!

Condensou-se, virou chuva e desabou corpo suado, boca aberta, olho estatelado, na cama. Meu Deus. O pernambucano, aquele homenzarrão de cachinhos no cabelo, levantou-se, sempre agressivo em sua nudez asfixiante, espreguiçou-se gostosamente, recolheu umas roupas no chão e disse, com um sorrisinho maroto: Eu volto à noite, pequena.
Ela nem conseguia organizar as ideias. O que significava tudo aquilo, quem era ela, quem era ele, o que faziam naquela cama. Suspiros, longos suspiros. As estrelas, aos poucos, voltavam a ser raios de sol no teto. Não existem lírios voadores. A respiração encontrara o ritmo normal. Mas ela ainda estava atordoada. Ops. Sentiu um toque em seu seio esquerdo. Era o mineiro, acordando...


(continua em algum momento)

sábado, 27 de março de 2010

Dos trópicos e do amor


(ao som de ‘Amor de Índio’, de Milton Nascimento)
Ao C., sempre querido


Ele era um índio.
Ela era uma branca.
Mas, ao contrário dos anais da história da América Latina ou dos fundos de armário de Hollywood, ela não era européia importada. E nem ele era índio incivilizado.
Ambos eram filhos do mesmo continente, do mesmo hemisfério, mas não das mesmas fronteiras ou do mesmo mar.
Ele era pacífico.
Ela era atlântica.
Falava-se espanhol dali, português daqui. Sorrisos, mãos, humor.


Foi ele, o índio, quem pediu um filho a ela, a branca. Ela apenas riu.
Os dois reconheciam o sagrado que exala da concepção – e não tinham pressa.
O tempo das coisas, as estações, as monções, o dia e a noite.
Foi ela, a branca, quem disse sim a ele, o índio, pelo filho que ele lhe queria dar. Ele apenas olhou com candura.


As mãos tostadas agarraram-se às brancas.
As bochechas rosadas engordaram-se em mais um sorriso junto à tez morena.
Houve um beijo, houve chuva, houve caravelas, velas, arco-íris e vulcões. Um fluxo de cores, de etnias, de relatos humanos entrelaçados naquele ato.
Houve toda uma história continental, a história de conquistas, conquistados e conquistadores, reescrita e recontada, de outro jeito, sem sangue ou espadas, sem navios abarrotados de esperança e pobreza, apenas repleta de amor e de curiosidade.


Com a bênção dos trópicos, com a bênção.
Um índio.
Uma branca.
E um mestiço, filho legítimo da porção sul continental do lado ocidental do planeta, filho da terra, artista da Amazônia e da Patagônia, com mãe e pai e os genes todos do mundo: um latino-americano.

terça-feira, 2 de março de 2010

encontro, despedida

Capiberibe
-- Capibaribe


Hoje deixei ele e a cidade dele, com seus mangues e arrecifes, com seus cachos e doidices. Acho que ele não sabe de nada e nada naquilo que eu não acho – mas isso soa muito bom. Assim, não me preocupo, não me culpo nem esculpo expectativas e narrativas que não rodam mais de uma volta no chão.

Hoje deixei ele e a cidade dele, deixei a mim e um pedaço de mim, minha nova cidade e meu fragmento de universalidade, com rotas recém-descobertas e minha coradice de ouvinte esperta. Voltarei num dia de segunda, de chinelos e mamulengos, para retomar conversa fecunda (assim espero) numa vontade de me enrolar em todos os bolos de rolos, de miolos engoiabados de seu, dele, meu bem-querer.


Ao I.,
desculpe-me por ter fugido mais cedo de seu abraço
(mas acho que você nem percebeu)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

fitinhas

Tinha um restinho de paixão entre os dentes
O corpo, o cotovelo, o calcanhar ainda indolentes

Tinha um pouco de chita ainda na saia de seda
Um pouco de sede, de medo, o escuro da queda

Tinha esse jeito solar tão lunar tão cheio de intensos
Viciada em suores, em toques, em cheiros de incensos

Amava sotaques, sonhadores, sem disfarces
Esparramava-se marota entre os Zeus e os Martes

Tinha, tinha, tinha um desejo grande de enrolar-se
Enrolar-se na rede, nos braços, nos amassos, nos cachos

-- regozijar-se

Havia um tanto de felicidade no canto dos olhos
Um encanto no encontro, um espiar entre os ferrolhos

Havia um mar, um mapa, um céu e uma descoberta.
Entre ela, ele, o coração e aquilo tudo: pré-amor, na certa.

Tinha, tato, fitinha, fato: olha, olha, aqui, vem,
tem, sente, sabe, achado, achegue-se. Laço, gata, gato.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

#Florescência

Acordou um dia e levou um susto. Estava num desses casarões antigos, de janelas imensas e assoalho de madeira, teto descascado, armários imponentes e penteadeiras de espelhos avultados. Havia até banheira, daquelas quase-piscinas, no banheiro comprido, de azulejos brancos e piso de lajotinhas vermelhas. Mas o verdadeiro susto veio antes do reconhecimento da casa: acordou e se viu numa cama de casal. E com dois homens. Dois! Ela continuava ela mesma – a camisolinha surrada, o cabelo fino arrepiado, as pintas na face corada, o calinho no quarto dedo do pé esquerdo. Mas havia dois homens na cama, um de cada lado. Dois roncos diferentes. Um de pijama e um nu. Um de cachinhos e outro de cavanhaque. Um pernambucano e outro mineiro. Estava estupefata. Não era o som das buzinas e das construções paulistanas que ecoava lá fora. O canto da Bahia entrava pelas frestas das portas coloridas e altas, pelo quintal com as galinhas, pela cozinha onde o cheiro de café perfumava a mesa azul, coberta pela toalha de renda e um vaso de lírios de plástico. Dois homens! Tinha perfume de loção pós-barba no travesseiro. Sondou o próprio corpo e encontrou os ares típicos de uma noite de sexo. Com quem?, agoniou-se na sensualidade típica de mulher satisfeita, ai. Viu na mão esquerda uma aliança. Oh, meu Deus! Virei dona Flor!, gritou para si mesma, em silêncio. E logo sentiu um calafrio daqueles dos bons, que atiçam o corpo e endoidam a cabeça. Eram os dedos marotos do pernambucano deslizando por sua coxa. Ui!


(continua)